Samantha Sweet, Executiva do Lar
Dezoito
Não há motivo para essa advogada reconhecer minha cara. Mas, só para garantir, opto por um disfarce simples. Depois de preparar o quarto de hóspedes na tarde seguinte, corro ao meu e prendo o cabelo no topo da cabeça com fiapos artísticos caindo e escondendo o rosto. Depois acrescento uns velhos óculos de sol que achei na gaveta da penteadeira. São dos anos oitenta e têm uma grande armação verde que esconde totalmente meu rosto. Também fazem com que me pareça com Elton John, mas vou viver com isso. O
importante é que não me pareço com meu eu antigo.
Quando desço, Nathaniel está saindo da cozinha, parecendo chateado. Ele me olha e pára, surpreso.
- Samantha... o que você fez?
- Ah, o cabelo? - Toco-o casualmente. - Só queria um estilo diferente.
- Esses óculos escuros são seus? - Ele me olha, incrédulo.
- Estou com um pouco de dor de cabeça. E então, como vão as coisas? -acrescento mudando rapidamente de assunto.
- Trish. - Ele faz um muxoxo. - Esteve me dando sermão sobre barulho. Não posso cortar a grama das dez e às duas horas. Não posso usar o podador sem avisar antes. Perguntou se eu poderia andar na ponta dos pés no cascalho. Na ponta dos pés.
- Por quê?
- Por causa da porcaria dessa visita. Todos temos de ficar dançando em volta dela. Uma droga de uma advogada. - Ele balança a cabeça incrédulo. -O trabalho dela é importante. Ora, o meu trabalho é importante!
- Ela está vindo! - A voz de Trish estrila subitamente na cozinha e ela sai correndo. - Estamos todos prontos? - Ela abre a porta da frente e ouço o som de uma porta de carro se abrindo.
Meu coração começa a bater no peito. É isso. Puxo mais uns fios de cabelo sobre o rosto e aperto os punhos ao lado do corpo. Se reconhecer esta mulher vou simplesmente ficar de olhos baixos, murmurar as palavras e fazer meu papel. Sou empregada doméstica Nunca fui nada além de empregada doméstica.
- Bom, você vai ter muita paz por aqui, Melissa – ouço Trish dizendo. – Instruí os empregados a tratarem você com cuidado extra especial...
Troco olhares com Nathaniel, que revira os olhos.
- Aqui estamos! Deixe-me manter a porta aberta...
Prendo o fôlego. Um instante depois Trish entra na casa seguida por uma garota de jeans e blusa branca justa, arrastando uma mala.
Esta é a advogada poderosa?
Olho-a depressa. Tem cabelos escuros compridos e rosto esperto, bonito, e não pode ter muito mais de vinte anos.
- Melissa, esta é nossa maravilhosa empregada, Samantha... – Trish pára, surpresa. – Samantha, o que, diabos, você está usando? Está parecendo Elton John.
Fantástico. Só fiz atrair a atenção.
- Olá – digo sem jeito, tirando os óculos escuros mas mantendo a cabeça baixa. – Muito prazer em conhecê-la.
- É fabuloso estar aqui. – Melissa tem um sotaque de colégio interno e um jeito de jogar os cabelos que combina. – Londres estava, tipo... me deixando tããão baixo astral!
- A Sra. Geiger disse que a senhorita é advogada num... lugar importante em Londres?
- É. – Ela me dá um sorriso presunçoso. – Sou da Escola de Direito de Chelsea.
O quê?
Ela nem é advogada qualificada. É estudante de direito.. É um bebê. Levanto a cabeça cautelosamente e a encaro - mas não há sequer uma piscadela de reconhecimento. Ah, pelo amor de Deus. Não tenho nada que me preocupar com essa garota. Quase sinto vontade de rir.
- E quem é este? - Melissa bate os cílios com rímel, sedutoramente, para Nathaniel, cuja careta de desagrado aumenta.
- É Nathaniel, nosso jardineiro – diz Trish. – Mas não se preocupe, ele tem instruções rígidas para não perturbar você. Eu disse que ele precisa fazer silêncio absoluto enquanto trabalha.
- Tenho um monte de revisões a fazer – Melissa dá um suspiro cansado do mundo e passa a mão pelo cabelo. – Você não acreditaria no tamanho da carga de trabalho, tia Trish. Estou tããão estressada!
- Não sei como você consegue! - Trish passa o braço em volta dos ombros dela e aperta com força. –Bom, o que gostaria de fazer primeiro? Estamos todos à sua disposição.
- Você poderia desfazer minhas malas? - Melissa se vira para mim. – Deve estar tudo amarrotado, portanto vai precisar ser passado.
Sinto um ligeiro tremor. Ela não vai desfazer a própria mala? Virei a camareira pessoal dessa garota?
- Talvez eu leve meus livros ao jardim – acrescenta lépida. – Talvez o jardineiro possa armar uma mesa para mim à sombra, não é?
Trish está olhando em admiração total enquanto Melissa remexe numa mochila cheia de livros.
- Olha só todos esses livros, Samantha! - exclama ela quando Melissa pega um Guia de litígio para iniciantes. – Olha só esse monte de palavras compridas!
- É ...uau – digo educadamente.
- Por que não faz um pouco de café para a gente, primeiro? - Trish se vira para mim. – Vamos tomar no terraço. Traga uns biscoitos também.
- Claro, Sra. Geiger – digo fazendo uma reverência automática.
- Poderia fazer o meu com metade cafeína metade descafeinado? -acrescenta Melissa por cima do ombro. – Eu ... tipo... não quero ficar ligada demais.
Não, não poderia, sua vaquinha pretensiosa.
- Claro – sorrio entre os dentes trincados. – O prazer será meu.
Alguma coisa me diz que essa grota e eu não vamos nos dar bem.
Quando levo o café para o terraço, cinco minutos depois, Trish e Melissa estão acomodadas em cadeiras sob um guarda-sol, junto com Eddie.
- Você conheceu Melissa, não foi? – pergunta ele quando acomodo a bandeja sobre uma mesa de ferro fundido. – Nossa pequena estrela? Nossa águia jurídica?
- Sim, conheci. Seu café – acrescento, entregando a xícara a Melissa. Como pediu.
- Melissa está sob grande pressão – observa Eddie. – É nosso dever facilitar as coisas para ela.
- Vocês não podem imaginar o tamanho do esforço – diz Melissa, séria. – Estive estudando até de noite e coisa e tal. Minha vida social, tipo... voou pela janela. – Ela toma um gole de café e depois se vira para mim. – Por sinal, eu ia perguntar... – Ela franze a testa. – Como é seu nome, mesmo?
- Samantha.
- É, Samantha. Tenha muito cuidado com minha blusa vermelha com contas, certo? – Ela joga o cabelo para trás e toma outro gole de café.
- Vou me esforçar ao máximo – respondo educada. – Só isso, Sra. Geiger?
- Espere! - Eddie pousa sua xícara. – Tenho uma coisa para você. Não esqueci nossa conversa no outro dia! – Ele enfia a mão sob a cadeira e pega um saco de papel pardo. Vejo dois livros brilhantes se projetando pela abertura. – Bom, você não vai tentar se livrar disso, Samanhta. Pode ser nosso pequeno projeto!
Sinto um súbito jorro de premonição. Ah, por favor, não deixe que seja o que estou pensando.
- Sr. Geiger – começo rapidamente. – É muita gentileza sua, mas...
- Não quero ouvir mais nenhuma palavra! - interrompe ele com a mão erguida. – Um dia você vai me agradecer!
- O que vocês estão falando? - Melissa franze o narizinho, curiosa.
- Samantha vai receber algumas qualificações! – Com um floreio Eddie pega dois livros no saco. Ambos são muito coloridos, com grandes letras engraçadas e ilustrações. Posso ver as palavras “Matemática”, “Inglês” e “Ensino para adultos”.
Ele abre um e mostra uma vaca de desenho animado. Um balão saindo da boca do animal pergunta: - O que é um pronome?
Olho aquilo, totalmente sem fala.
-Está vendo? – diz Eddie com orgulho. – Você pode se divertir com isso! Há estrelas douradas adesivas para marcar o progresso!
- Tenho certeza que Melissa vai adorar ajudar com alguma coisa complicada – chilreia Trish. – Não é, amor?
- Claro – diz Melissa com um sorriso paternalista. – Muito bem, Samantha! Nunca é tarde. – Ela empurra a xícara cheia de café para mim. – Faça outro café, está bem? Este está fraco demais.
Volto para dentro da casa e jogo os livros didáticos na mesa da cozinha. Encho de novo a chaleira e depois bato com o bule de café na pia, fazendo barulho.
- Tudo certo? – Nathaniel está olhando com ar divertido, da porta da cozinha. – Que tal a garota?
- Medonha! – Não consigo evitar uma explosão. – Não tem modos. Está me tratando como um capacho.
Preciso desfazer as malas dela... e preparar essa mistura idiota de café descafeinado...
- Quanto a isso, só uma coisa – diz Nathaniel. – Cuspa no café dela.
- Aargh! – Faço uma careta. – Não vou fazer isso. – Ponho uma colher de café comum no bule e depois mais uma de colher de descafeinado. Não acredito que estou cumprindo os caprichos idiotas dela.
- Não a deixe incomodá-la. – Nathaniel se aproxima, me abraça e me dá um beijo. – Ela não vale a pena.
- Eu sei. – Pouso o café e me aninho nos braços dele comum sorrisinho, sentindo-me relaxar. – Mmm, Senti sua falta.
Ele passa as mãos pelas minhas costas e sinto um arrepio de deleite. Ontem passe a noite com Nathaniel no pub e me esgueirei de volta à casa dos Geigers às seis da manhã. Algo me diz que isso pode virar um padrão regular.
- Senti sua falta. – Ele toca meu nariz, com um ar interrogativo. – E, por sinal, Samantha, não pense que não sei.
Fico rígida nos seus braços.
- Sabe o quê? – pergunto causalmente.
- Sei que você tem seus segredinhos. – Ele examina meu rosto. – Mas um escapou. E não há nada que você possa fazer a respeito.
Um escapou? O que, afinal, ele está falando?
- Nathaniel, o que você quer dizer? – Tento parecer relaxada mas sinto todos os meus sistemas de alarme em alerta máximo.
- Ora. – Ele parece achar divertido. – Você deve saber do que estou falando, Samantha, pode bancar a ignorante, mas a coisa escapou. Nós sabemos.
- Sabem o quê? – pergunto atônita.
Nathaniel balança a cabeça como se quisesse rir.
- Vou lhe dar uma pista. Amanhã. – Ele me beija de novo e depois vai para a porta.
Não faço idéia do que ele está falando. Amanhã? O que isso tem a ver?
No meio do dia seguinte ainda não desisti. Isso pode ser porque não tive um único momento para me sentar e pensar. E isso pode ser porque estive correndo atrás de Melissa o tempo inteiro.
Fiz uma cinqüenta xícaras de café para a garota, metade das quais ela não se incomodou em tomar. Levei água gelada. Preparei sanduíches. Lavei toda a roupa suja que estava em sua mala. Passei uma blusa branca para usar à noite. Toda vez que tento começar um dos meus trabalhos regulares ouço a voz aguda de Melissa me chamando.
Enquanto isso, Trish anda na ponta dos pés como se tivéssemos o próprio T. S. Eliot no jardim, escrevendo sua última obra épica. Enquanto espano a sala de estar, ela olha para o local onde Melissa está sentada, junto a uma mesa armada no gramado.
- Ela trabalha tanto! – Trish traga profundamente o cigarro. – Que garota inteligente, a Melissa.
- Hum – resmungo sem me comprometer.
- Sabe, não é fácil cursar direito, Samantha. Em especial a melhor escola! – Ela me dá um olhar significativo. – Melissa teve de vencer centenas de pessoas só para conseguir a vaga.
- Fantástico. – Passo meu pano rapidamente sobre a TV. – Isso é ótimo.
Melissa não está na melhor escola de direito. Só para constar.
- Quanto tempo ela vai ficar aqui? – Tento fazer a pergunta em tom casual.
- Depende. – Trish sopra uma nuvem de fumaça. – As provas são daqui a algumas semanas, e eu disse que ela pode ficar quanto quiser!
Algumas semanas? – Só faz um dia, e ela já está me deixando louca.
Passo a tarde na cozinha, fingindo que tenho surdez seletiva. Sempre que Melissa me chama, ligo o liquidificador ou o rádio, ou faço barulho com as assadeiras. Se quiser falar comigo, pode me achar sozinha.
Por fim ela aparece à porta com as bochechas vermelhas de irritação.
- Samantha! Estive chamando você!
- Verdade? – Ergo os olhos inocentes da manteiga que estou cortando para fazer massa. – Não ouvi.
- Precisamos de um sistema de campainha, ou algo assim. – Ela sopra o ar, impaciente. – Isso é ridículo, eu ter de parar o que estou fazendo.
- O que a senhorita desejava?
- Minha jarra d’água está vazia. E preciso de um lanchinho. Para manter os níveis de energia elevados.
- A senhorita poderia ter trazido a jarra para a cozinha – sugiro humildemente. – Ou preparado um lanchinho.
- Olha, não tenho tempo de preparar nenhum lanchinho, certo? – reage Melissa com rispidez. – Estou sob grande pressão de tempo neste momento. Tenho pilhas de trabalho, tenho prazos para as provas... você não faz idéia de como é minha vida.
Olho-a de volta em silêncio, respirando com força, tentando manter o ressentimento sob controle.
- Vou levar um sanduíche para você – digo finalmente.
- Obrigada – responde ela com sarcasmo, depois fica parada com os braços cruzados, como se esperasse alguma coisa.
- O que é? – pergunto.
- Ande. – Ela sinaliza com a cabeça. – Faça uma reverência.
O quê? Ela não pode estar falando sério.
- Não vou fazer reverência para você! – digo quase rindo.
- Você faz reverência para minha tia. E meu tio.
- Eles são meus patrões – retruco tensa. – É diferente.
E acredite, se eu pudesse recuar o relógio, as reverências não fariam parte de nossa vida.
- Eu estou morando nesta casa. – Ela joga o cabelo para trás. – Portanto também sou sua patroa. Você deveria demonstrar o mesmo respeito.
Quero dar um tapa nessa garota. Se fosse minha subordinada na Carter Spink eu iria... aniquilá-la.
- Certo. – Pouso a faca. – Vou perguntar à Sra. Geiger, certo? – Antes que ela possa responder saio da cozinha. Não posso tolerar isso. Se Trish ficar do lado dela, chega. Vou embora.
Não vejo Trish em lugar nenhum, então subo para o andar de cima com o coração disparado. Chego à porta de seu quarto e bato.
- Sra. Geiger? Gostaria de trocar uma palavrinha.
Alguns instantes depois Trish abre uma fresta na porta e põe a cabeça para fora, parecendo meio desgrenhada.
- Samantha! O que você quer?
- Não estou feliz com a situação atual – digo tentando uma voz calma e civilizada. – Gostaria de falar sobre ela, por favor.
- Que situação? – Ela franze a testa.
- Com Melissa. E suas... necessidades constantes. Estou sendo retirada de meus serviços regulares. A manutenção da casa vai sofrer se eu tiver de ficar atendendo-a.
Trish parece não ter ouvido uma palavra.
- Ah, Samantha... agora não. – Ela balança já mão distraída, dispensando-me. – Falamos disso depois.
Ouço Eddie murmurar alguma coisa dentro do quarto. Fantástico. Provavelmente estavam fazendo sexo.
Ela provavelmente quer voltar ao Estilo Turco.
- Certo. – Tento controlar a frustração. – Portanto vou simplesmente... continuar, certo?
- Espere. – Subitamente Trish parece me focalizar. – Samantha, nós vamos tomar champanha no terraço em meia hora com alguns... é ... amigos. Gostaria que você usasse algo que não fosse uniforme. – Seus olhos passam pelo uniforme com ligeira aversão. – Não é a roupa mais lisonjeira que você tem.
Você é que escolheu, porcaria!, quero gritar para ela. Mas em vez disso faço uma reverência, viro-me e vou para meu quarto, fumegando.
Porcaria de Trish. Porcaria de Melissa. Se está esperando um sanduíche, pode continuar esperando.
Fecho a porta, deixo-me cair na cama e olho para as mãos, vermelhas de lavar as roupas delicadas de Melissa.
O que estou fazendo aqui?
Sinto desapontamento e desilusão se espalhando por mim. Talvez eu estivesse sendo ingênua – mas honestamente achava que Trish e Eddie tinham passado a me respeitar. Não somente como empregada doméstica, mas como pessoa. Mas o modo como Trish se comportou agora mesmo... é óbvio que para ela não passo de uma “serviçal”. Como algum tipo de objeto útil, um ponto acima do aspirador de pó. Quase sinto vontade de fazer as malas e ir embora.
Tenho uma visão súbita de mim mesma descendo lepidamente a escada, abrindo a porta e gritando por cima dos ombros para Melissa.
- E, por sinal, também tenho diploma de advogada, e o meu é melhor do que o seu.
Mas isso seria petulante. Não, pior. Seria patético.
Massageio as têmporas, sentindo o ritmo cardíaco diminuir, gradualmente colocando as coisas em perspectiva.
E optei por isso. Ninguém me obrigou. E talvez não tenha sido o passo mais racional do mundo, e talvez eu não fique aqui para sempre. Mas é meu dever aproveitar ao máximo enquanto estou aqui. É meu dever ser profissional.
Ou pelo menos... o mais profissional que eu puder, tendo em mente que ainda não faço idéia do que é uma forma savarin.
Finalmente junto alguma energia e me levanto da cama. Troco o uniforme por um vestido e escovo o cabelo. Até coloco um pouco de batom, para completar. Então pego o celular e mando um texto para Nathaniel.
oi! kd vc? sam
Espero a resposta, que não vem. Nathaniel não esteve por perto a tarde inteira, percebo subitamente. E
ainda não faço idéia do que ele estava falando ontem. Um dos meus segredos “escapou”? Que segredo?
Quando encontro meus olhos no espelho sinto minúsculas bolhas de inquietação. Ele não pode ter...
Quero dizer, não poderia...
Não. Como poderia? É impossível. Deve haver alguma explicação. Sempre há.
Quando desço a escada até o saguão, a casa está calma e silenciosa. Não sei a que horas os amigos de Trish chegam, mas ainda não há sinal deles. Talvez eu tenha tempo de terminar a massa rapidamente. Talvez consiga até descascar os legumes.
Estou indo rapidamente para a cozinha quando Nathaniel aparece.
- Aí está você. – Ele me abraça e me beija, puxando-me para baixo da escada, que, como descobrimos, é um esconderijo bem conveniente. – Hum. Senti sua falta.
- Nathaniel... – protesto, mas seu aperto só fica mais forte. Depois de alguns instantes consigo me soltar.
- Nathaniel, preciso fazer massa de pastel. Já estou atrasada e parece que tenho de servir bebidas para umas pessoas...
- Espere. – Nathaniel me puxa de volta, olhando o relógio. – Só mais um minuto. Depois podemos ir.
Olho-o insegura, sentindo uma leve premonição.
- Nathaniel... do quê você está falando?
- Ainda bancando a boba. – Ele balança a cabeça, divertido. – Realmente acha que poderia enganar todos nós? Querida, não somos idiotas! Eu disse, nós sabemos.
Sinto um pavor imenso. Eles sabem. O que sabem? Que diabo eles descobriram?
Engulo com a boca subitamente seca.
- O que, exatamente...
- Não, não, não. – Nathaniel põe o dedo em meus lábios. – Tarde demais. Você vai ter sua surpresa, quer goste ou não.
- Surpresa? – hesito.
- Agora saia. Estão esperando você. Feche os olhos... – Ele passa o braço pela minha cintura e põe a outra mão sobre meus olhos. – Venha por aqui... eu guio você...
Enquanto ando na escuridão, guiada apenas pelo braço de Nathaniel, fico quase doente de medo. Minha mente gira como louca, tentando deduzir o que pode ter acontecido pelas minhas costas. Quem está me esperando lá fora?
Por favor, não diga que eles tentaram resolver minha vida. Por favor não diga que arranjaram algum tipo de reunião. Tenho uma imagem súbita de Ketterman de pé no gramado, com os óculos de aço brilhando ao sol. Ou Arnold. Ou minha mãe.
- Aqui está ela! – Nathaniel me guia pelas portas duplas e descemos a escada até o jardim. Sinto o sol no rosto e ouço um som de tecido estalando e... música? – Certo! Abra os olhos!
Não posso abrir os olhos. O que quer que seja, não quero saber.
- Tudo bem! – Nathaniel está rindo. – Ninguém vai comer você! Abra!
Com o coração martelando, abro os olhos. Pisco várias vezes imaginando se estou num sonho.
O que... o que está acontecendo?
Uma enorme faixa com “Feliz Aniversário, Samantha!”, está amarrada entre duas árvores. Isso é que fazia o som de tecido estalando. A mesa do jardim está arrumada com uma toalha branca, um buquê de flores e várias garrafas de champanha. Um monte de balões de hélio com “Samantha” escrito, está amarrado a uma cadeira. Um aparelho de som toca jazz. Eddie e Trish estão de pé no gramado, junto com Iris, Eamonn e Melissa – e todos riem para mim, menos Melissa, que faz biquinho.
Sinto como se tivesse sido lançada num universo paralelo.
- Surpresa! – gritam todos em uníssono. – Feliz aniversário!
Abro a boca, mas não sai nenhum som. Estou aparvalhada demais para falar. Por que os Geigers acham que é meu aniversário?
- Olhem para ela – diz Trish. – Está bestificada! Não está, Samantha?
- Ah... estou – gaguejo.
- Ela não fazia idéia – confirma Nathaniel, rindo.
- Feliz aniversário, querida. – Iris se aproxima, me aperta com força e me dá um beijo.
- Eddie, abra o champanha! – ouço Trish exclamando impaciente atrás de mim. – Anda!
Estou totalmente atordoada. O que faço? O que digo? Como a gente diz às pessoas que organizaram sua festa de aniversário surpresa que na verdade... não é seu aniversário?
Por que acham que é meu aniversário? Eu dei alguma data de nascimento inventada durante a entrevista? Mas não me lembro de ter feito isso...
- Champanha para a aniversariante! – Eddie abre uma garrafa e o champanha borbulha numa taça.
- Muitos anos de vida! – Eamonn está vindo na minha direção rindo de orelha a orelha. – E você deveria ter visto sua cara agora mesmo!
- Não tem preço! Concorda Trish. – Agora vamos brindar!
Não posso deixar que isso vá mais longe.
-Ah... Sr. e Sra. Geiger... todo mundo... isso é lindo, e estou realmente tocada. – Engulo em seco, forçando-me a dizer. – Mas... não é meu aniversário.
Para minha surpresa, todo mundo explodiu em gargalhadas.- Eu falei que isso ia acontecer! – diz Trish deliciada. – Ela disse que você ia negar!
- Não é tão mau assim ficar um ano mais velha – diz Nathaniel com um sorriso provocador. – Agora, encare o fato: nós sabemos. Tome seu champanha e se divirta.
Estou totalmente confusa.
- Quem disse que eu ia negar?
- Lady Edgerly, claro! – Trish ri de orelha a orelha. – Foi ela quem revelou seu segredinho!
Freya? Freya está por trás disso?
- O que... o que, exatamente, Lady Edgerly disse? – Tento parecer casual.
- Que o seu aniversário estava chegando – responde Trish, parecendo satisfeita. – E alertou que você tentaria manter em segredo. Menina travessa!
Não dá para acreditar na Freya. Não dá.
- Ela também contou... – Trish baixa a voz com simpatia – que seu último aniversário foi bem frustrante.
Disse que simplesmente precisávamos compensar para você. De fato foi ela que sugeriu que fizéssemos uma grande surpresa! – Trish levanta a taça. – Então, a Samantha! Feliz aniversário!
- Feliz aniversário! – Ecoam os outros, levantando as taças.
Não sei se quero rir ou chorar. Ou as duas coisas. Olho a faixa e os balões prateados balançando a brisa; as garrafas de champanha; o rosto sorridente de todo mundo. Não há nada que eu possa dizer. Preciso ir em frente com isso.
- Bem... obrigada. Fico realmente feliz.
- Desculpe se fui um pouquinho rude com você esta tarde – diz Trish animada, tomando outro gole. –Nós estávamos lutando com os balões de hélio. Já tínhamos perdido um bocado, esta tarde. – Ela atira um olhar maligno para Eddie.
- Já tentou colocar balões de hélio num porta-malas de carro? – retruca Eddie acalorado. – Gostaria de ver você fazer isso! Não tenho três mãos, você sabe.
Surge uma imagem de Eddie lutando com um monte de balões prateados, tentando enfiá-los no Porshe, e mordo o lábio com força.
- Não pusemos sua idade nos balões, Samantha – acrescenta Trish num tom ofegante. – De mulher par mulher, achei que você apreciaria o gesto. – Ela ergue a taça e me dá uma levíssima piscadela.
Olho de seu rosto vívido, exageradamente maquiado, para o rosado de Eddie, e de repente fico tão comovida que não sei o que dizer. O tempo todo eles estavam planejando isso. Fazendo uma faixa.
Estavam encomendando balões.
- Sr. Geiger, Sra. Geiger, estou... estou tão desconcertada...
- Ainda não acabou! – diz Trish assentindo por cima do meu ombro.
- Parabéns pra você... – Uma voz atrás de mim está cantando e depois de um momento se juntam. Viro chocada e vejo Iris vindo pelo gramado, segurando o mais enorme bolo de aniversário, de duas camadas. A cobertura é de um rosa claríssimo, com rosas de açúcar e framboesas, uma elegante vela branca e, em letras prateadas, Feliz Aniversário, Querida Samantha, de Todos Nós.
É a coisa mais linda que já vi. Olho para aquilo, com a garganta apertada, incapaz de falar. Ninguém jamais fez um bolo de aniversário para mim.
- Sopre sua vela! – grita Eamonn quando a cantoria acaba.
De algum modo, sopro a chama debilmente e todo mundo aplaude.- Gostou? – sorri Iris.
- É maravilhoso – engulo em seco. – Nunca vi nada igual.
- Feliz aniversário, querida. – Ela me dá um tapinha na mão. - Você merece, mais do que ninguém.
Quando Iris coloca o bolo na mesa e começa a cortar, Eddie bate na taça com a ponta de uma caneta.
- Se eu puder ter a atenção de vocês... – Ele sobre um degrau e pigarreia. – Samantha, todos nos sentimos muito felizes por você ter entrado na nossa família. Você está fazendo um trabalho maravilhoso e todos agradecemos. – Eddie ergue a taça para mim. – É... muito bem!
- Obrigada, Sr. Geiger. – Hesito. Olho ao redor, todos aqueles rostos amigáveis, emoldurados pelo céu azul e as flores de cerejeira. – Estou ... muito feliz por ter vindo para cá, também. Todos foram muito receptivos e gentis comigo. – Ah, meu Deus, daqui a pouco abro o berreiro. – Eu não poderia desejar patrões melhores...
- Ah, pára! – Trish balança as mãos e enxuga o olho com um guardanapo.
- Samantha é boa companheira – começa Eddie, rouco. – Samantha é boa companheira...
- Eddie! Samantha não quer ouvir sua cantilena idiota! – interrompe Trish esganiçada, ainda enxugando os olhos. – Abra mais champanha, pelo amor de Deus!
É uma das noites mais quentes do ano. Enquanto o sol baixa lentamente no céu, todos ficamos no gramado, tomando champanha e conversando. Eamonn me conta sobre sua namorada, Anna, que trabalha num hotel em Gloucester. Iris aparece com minúsculas tortas leves como pluma, cheias de frango e ervas. Nathaniel pendura luzes mudas numa árvore. Melissa anuncia alto, várias vezes, que não pode ficar ali, que precisa voltar ao trabalho – e depois aceita mais uma taça de champanha.
O céu é interminável, azul-noite, e há o cheiro de madressilvas no ar. A música borbulha suavemente ao fundo e a mão de Nathaniel pousa casualmente na minha coxa. Nunca me senti tão contente na vida.
- Presentes! – diz Trish de súbito. – Não demos os presentes!
Tenho certeza que ela bebeu mais champanha do que todo mundo. Vai cambaleando até a mesa, procura na bolsa e pega um envelope.
- Isso é um pequeno bônus, Samantha – diz ela, entregando-me. – Para gastar numa coisinha para você.
- Obrigada – digo sem jeito. – É uma gentileza incrível de sua parte!
- Não estamos aumentando seu pagamento – acrescenta ela, olhando-me com desconfiança. – Você entende que isso não é um aumento nem nada. É só uma vez.
- Entendo – digo tentando não sorrir. – É muita generosidade sua, Sra. Geiger.
- Também tenho uma coisa. – Iris enfia a mão em seu cesto e pega um embrulho em papel pardo. Dentro encontro quatro formas de pão novas e um avental estampado com rosas pregueado. Olho para Iris e não evito um riso alto.
- Obrigada – digo. – Vou usar isso muito bem.
Trish está espiando as formas de pão, numa insatisfação divertida.
- Mas... sem dúvida Samantha já tem montes de formas de pão, não é? – diz ela pegando uma com sua mão manicurada. – E aventais.
- Eu me arrisquei – diz Iris, os olhos brilhando para mim.- Aqui, Samantha. – Melissa me entrega um xampu da Body Shop que, eu sei, estava no armário do banheiro de Trish desde que cheguei aqui.
- Obrigada – digo com educação. – Não precisava.
- E, Melissa – entoa Trish, abruptamente abandonando o interesse pela forma de pão -, pare de dar trabalho extra para Samantha! Ela não pode passar o tempo todo correndo atrás de você! Não podemos nos dar ao luxo de perdê-la, você sabe.
Posso ver o choque no rosto de Melissa. Ela parece tão ultrajada quanto se Trish tivesse lhe dado um tapa.
- E esse é o meu presente – diz Nathaniel aparecendo depressa. Ele me entrega um embrulho minúsculo, em papel de seda branco, e todo mundo se vira para ver o que é.
Abro o embrulhinho e uma bela pulseira de prata cai na minha mão. Há apenas um pingente nela: uma minúscula colher de pau. Rio de novo. Um avental pregueado e agora uma colher de pau.
- Isso me lembrou o dia em que nós nos conhecemos – diz Nathaniel, a boca se curvando num sorriso.
-É... fantástico – abraço-o e beijo-o. – Muito obrigada – murmuro em seu ouvido.
Trish está olhando com interesse ávido quando nos separamos.
- Bem, é óbvio o que atraiu você a Samantha – diz ela a Nathaniel. – Foi a comida que ela faz não é?
- Foram os grãos-de-bico que ela faz – concorda Nathaniel, sério.
Eamonn subiu à varanda. Agora desce a escada e me entrega uma garrafa de vinho.
- Este é o meu – diz. – Não é muito, mas...
-Ah, que lindo! – respondo emocionada. – Obrigada, Eamonn.
- E eu ia dizer: você não estaria interessada em fazer um trabalho como garçonete?
- No pub? – pergunto surpresa, mas ele balança a cabeça.
- Funções particulares. Temos uma pequena sociedade no povoado. Não é realmente um negócio, é mais para passar trabalho para amigos. Ganhar um dinheirinho extra, esse tipo de coisa.
Passar trabalho para os amigos. Subitamente sinto um calorzinho por dentro.
- Eu adoraria. – Sorrio para ele. – Obrigada por pensar em mim.
Eamonn ri de volta.
- E há um drinque ou dois para você atrás do balcão, se você quiser vir.
- Bem... é... – olho para Trish. – Talvez mais tarde...
- Vá! – diz Trish, balançando a mão. – Aproveitem! Não pense no trabalho! Nós colocamos as taças sujas na cozinha e você pode cuidar delas amanhã.
- Obrigada, Sra. Geiger. – Obrigo-me a ficar com o rosto impávido. – É muita bondade sua.
- Eu também preciso ir – diz Iris levantando-se. – Boa noite e obrigada.
- Não podemos instigar você a ir ao pub, Iris? – Pergunta Eamonn.
- Esta noite, não. – Ela sorri, o rosto iluminado pelas luzinhas piscantes. – Boa noite, Samantha. Boa noite, Nathaniel.
- Boa noite, mamãe.
- Boa noite, Eamonn.
- Boa noite, Iris.
- Boa noite, vovô – digo.
Saiu antes que eu pudesse impedir. Levanto-me, imobilizada, quente de embaraço, esperando que ninguém tenha percebido. Mas Nathaniel está girando lentamente para mim, o rosto franzido de diversão.
Ele certamente escutou.
- Boa noite, Mary Ellen. – Ele ergue as sobrancelhas.
- Boa noite, Jim Bob – retruco em tom casual.
- Eu me vejo mais como um John Boy.
- Hummm. – Olho-o de cima a baixo. – Certo, você pode ser John Boy.
Eu tinha uma paixonite total por John Boy quando era garota. Não que vá mencionar esse fato a Nathaniel.
- Venha – Nathaniel estende a mão. – Vamos à Taverna do Ike.
- Ike era dono do armazém – reviro os olhos. – Você não sabe de nada?
Enquanto vamos até a casa passamos por Melissa e Eddie na varanda, sentados à mesa de jardim coberta de papéis e brochuras.
- É tãããão difícil! – está dizendo Melissa. – Quero dizer, esta é uma decisão que vai afetar toda a minha vida. É... tipo... como é que a gente vai saber?
- Sr. Geiger? – interrompo sem jeito. – Só queria agradecer muito por esta noite. Foi absolutamente incrível.
- Foi divertida! – diz Eddie.
- Boa noite – diz Melissa, dando um suspiro enorme. – Ainda tenho trabalho a fazer.
- Vai valer a pena, querida. – Eddie lhe dá um tapinha na mão, tranqüilizando-a. – Quando você estiver na... – Ele pega uma brochura na mesa e olha como se estivesse usando óculos de leitura. – Carter Spink.
Por alguns instantes não posso me mover.
Melissa vai trabalhar na Carter Spink?
- Esse... – Tento falar normalmente. – Esse é o nome da firma de advocacia para o qual você está se candidatando?
- Ah, não sei – responde Melissa, parecendo carrancuda. – É a principal. Mas incrivelmente competitiva.
Praticamente ninguém consegue entrar.
- Parece bem chique! – diz Eddie, virando as folhas brilhantes, cada uma ilustrada com uma foto. – Olhe esses escritórios!
Enquanto ele folheia, fico hipnotizada. Há uma foto do saguão. Uma do andar onde eu trabalhava. Não consigo afastar os olhos – mas ao mesmo tempo não quero olhar. É a minha vida antiga. Não tem a ver com este lugar. E de repente, quando Eddie vira outra página, sinto um choque de descrença.
É uma foto minha. Minha.
Com meu terninho preto, o cabelo preso, sentada a uma mesa de reuniões com Ketterman, David Elldridge e um cara que veio dos Estados Unidos. Agora lembro quando essa foto foi tirada. Ketterman ficou absolutamente lívido por ser perturbado.
Estou tão pálida. Estou tão séria!
- E o negócio é... será que eu quero dar todo o meu tempo? – Melissa está batendo na página. – Essas pessoas trabalham toda noite! E a vida social?
Meu rosto está bem ali, à vista de todos. Só espero alguém franzir a testa, reconhecendo, dizendo: “Espere aí...”
Mas ninguém reconhece. Melissa continua arengando, gesticulando para a brochura. Eddie está assentindo. Nathaniel olha para cima, obviamente entediado.
- Se bem que, sabe, o dinheiro é realmente bom... – suspira Melissa, e vira a página.
A foto se foi. Eu me fui.
- Vamos? – A mão quente de Nathaniel puxa a minha e eu a aperto de volta, com força.
- Sim. – Sorrio para ele. – Vamos.