Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 3 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Dois

Quando chego ao escritório, Ketterman está parado junto à minha mesa, olhando com uma expressão de nojo a confusão de papéis e pastas espalhados em toda parte.

Sinceramente, não tenho a mesa mais arrumada do mundo. Na verdade... é meio bagunçada. Mas pretendo totalmente organizá-la e separar todas as pilhas de contratos antigos no chão. Assim que tiver algum tempo.

- Reunião em dez minutos – diz ele olhando o relógio. – Quero o esboço de documentação financeira pronto.

- Sem dúvida – respondo tentando ficar calma. Mas a simples presença dele me deixa nervosa.

Ketterman é irritante, na melhor das hipóteses. Emana um poder apavorante, cerebral, como outros homens emanam loção após-barba. Mas hoje é um milhão de vezes pior, porque Ketterman está no grupo de decisão. Amanhã ele e os outros treze sócios farão uma grande reunião para decidir quem será o novo sócio.

Amanhã descobrirei se consegui ou se minha vida foi um enorme fracasso inútil. Sem pressão, nem nada.

- O esboço de documentação está aqui mesmo... – Enfio a mão numa pilha de pasta de papel e pego o que parece uma caixa, com um floreio eficiente.

É uma velha caixa de rosquinhas Krispy Kreme.

Jogo-a rapidamente no lixo.

- Definitivamente está aqui, em algum lugar... – Remexo freneticamente e localizo a pasta correta.

Graças a Deus. – Aqui!

- Não sei como você consegue trabalhar nessa bagunça, Samantha. – A voz de Ketterman é aguda e sarcástica, e seus olhos totalmente desprovidos de humor.

- Pelo menos tudo está à mão! – Tento dar um risinho, mas Ketterman parece feito de pedra. Sem graça, puxo a cadeira e uma pilha de cartas que eu tinha esquecido cai como uma chuva no chão.

- Sabe, a regra antiga era que as mesas deviam ser completamente limpas todas às seis horas. – A voz de Ketterman e de aço. – Talvez devamos introduzi-la.

- Talvez! – Tento sorrir, mas Ketterman está me deixando cada vez mais nervosa.

- Samantha! – Uma voz agradável nos interrompe e olho em volta, aliviada ao ver Arnold Saville se aproximando pelo corredor.

Arnold é meu preferido entre os sócios principais. Tem cabelos grisalhos como se feitos de lã que parecem um pouco extravagantes para um advogado, e um gosto espalhafatoso em gravatas. Hoje está usando uma com estampa escocesa em vermelho vivo, com lenço combinando no bolso do casaco.

Cumprimenta-me com sorriso largo e sorrio de volta, sentindo-me relaxar.

Tenho certeza de que Arnold é que está fazendo a campanha para que eu seja sócia. Assim como estou igualmente certa de que Ketterman estará se opondo a isso. Arnold é o independente da firma; o que rompe com as regras; que não se importa com coisas irrelevantes como mesas bagunçadas.

- Carta de avaliação sobre você, Samantha. – Arnold sorri e estende uma folha. – Nada menos que presidente da Gleiman Brothers.

Pego o papel, surpresa, e olho o bilhete escrito à mão.

“... grande estima... seus serviços são sempre profissionais...”

- Pelo que percebi, você economizou alguns milhões de libras que ele não estava esperando. – Arnold pisca. – Ele está adorando.

- Ah, sim – fico ligeiramente ruborizada. – Bem, não foi nada. Só notei uma anomalia no modo como eles estavam estruturando as finanças.- Você obviamente causou uma grande impressão no sujeito. – Arnold levanta as sobrancelhas fartas. –Ele quer que de agora em diante você trabalhe em todos os contratos da empresa dele. Excelente, Samantha! Muito bem.

- É... obrigada. – Olho para Ketterman, só para ver se, por alguma chance remota ele pode parecer impressionado. Mas continua impaciente e com a testa franzida.

- Também quero que você cuide disto. – Ketterman joga uma pasta na minha mesa. – Preciso de uma revisão completa em 48 horas.

Ah, inferno. Meu coração se aperta enquanto olho a pasta pesada. Vai demorar horas para fazer isso.

Ketterman sempre me dá tarefas extras e sem graça que ele não se dá ao trabalho de fazer. Na verdade todos os sócios fazem isso. Até Arnold. Metade do tempo nem dizem nada, só jogam a pasta na minha mesa com algum memorando ilegível e esperam que eu resolva tudo.

- Algum problema? – Seus olhos estão se estreitando.

- Claro que não – digo numa voz lépida, eficiente, de sócia potencial. – Vejo você na reunião.

Enquanto ele sai batendo os pés olho o relógio. Dez e vinte e dois. Tenho exatamente oito minutos para garantir que o esboço de documentação para o acordo da Fallons esteja em ordem. Abro a pasta e examino as páginas rapidamente, verificando se já erros, procurando furos. Aprendi a ler muito mais rápido desde que entrei para a Carter Spink.

Na verdade, faço tudo mais rápido. Ando mais rápido, falo mais rápido, como mais rápido... faço sexo mais rápido...

Não que eu tenha muito disso ultimamente. Mas há uns dois anos namorei um sócio da Berry Forbes.

Chamava-se Jacob, trabalhava com gigantescos acordos internacionais e tinha ainda menos tempo do que eu. No fim havíamos acomodado nossa rotina a uns seis minutos, o que seria bem adequado se estivéssemos cobrando um do outro. (Mas obviamente não estávamos.) Ele me fazia gozar – e eu o fazia gozar. Depois verificávamos nossos e-mails.

O que praticamente significa orgasmos simultâneos. Portanto ninguém pode dizer que não é sexo bom.

Eu lia a Cosmopolitan, sei dessas coisas.

De qualquer modo, Jacob recebeu uma oferta fantástica e se mudou para Boston, e foi o fim. Não me importei muito.

Para ser totalmente honesta, não gostava realmente dele.

- Samantha? – Uma voz interrompe meus pensamentos. É minha secretária, Maggie. Ela só começou há algumas semanas e ainda não a conheço muito bem. – Chegou um recado enquanto você estava fora. De Joanne?

- Joanne da Clifford Chance? – Levanto a cabeça, com a atenção fisgada. – Certo. Diga que recebi o e-mail sobre a cláusula quatro e que vou ligar depois do almoço...

- Não é essa Joanne – interrompe Maggie. – Joanne, sua nova faxineira. Quer saber onde você guarda os sacos do aspirador de pó.

Olho-a inexpressiva.

- Guardo o quê?

- Os sacos do aspirador de pó – repete Maggie com paciência. – Ela não está encontrando.

- Por que o aspirador de pó tem de ficar num saco? – pergunto perplexa. – Ela vai levá-lo a algum lugar?

Maggie me olha como se não soubesse se eu estou brincando.- Os sacos que ficam dentro do aspirador – diz cautelosamente. - Para recolher o pó. Você tem algum?

- Ah! – digo rapidamente. – Ah, esses sacos. É...

Franzo a testa, pensando, como se a solução estivesse na ponta da língua. A verdade é que nem consigo visualizar meu aspirador de pó. Alguma vez já o vi? Sei que foi entregue quando comprei, porque o porteiro assinou o recibo.

- Talvez seja um Dyson – sugere Maggie. – Eles não usam sacos. É de cilindro ou preso no cabo? – Ela me olha cheia de expectativa.

Não faço idéia do que Maggie está falando. Não que eu vá admitir isso.

- Dou um jeito. – digo em tom profissional e começo a juntar os papéis. – Obrigada Maggie.

- Ela fez outra pergunta. – Maggie consulta seu papel. – Como você liga seu forno?

Por um momento continuo pegando os papéis, como se não tivesse escutado direito. Obviamente sei ligar meu próprio forno.

- Bem. Você gira o... é... o botão – digo finalmente, tentando parecer casual.

- Ela disse que tem uma trava de tempo esquisita. – Maggie franze a testa, pensativa. – É a gás ou elétrico?

Certo. Acho que devo acabar com esta conversa agora mesmo.

- Maggie, realmente preciso dar um telefonema – digo em tom de desculpas, apontando para o telefone.

- Então o que devo dizer à faxineira? – insiste Maggie. – Ela está esperando que eu ligue de volta.

- Diga para... deixar para outro dia. Eu dou um jeito.

Enquanto Maggie sai da sala, pego uma caneta e um bloco de anotações.

 

1. Como ligar forno?

2. Sacos de aspirador – comprar.

 

Pouso a caneta e massageio a testa. Realmente não tenho tempo para isso. Quero dizer, sacos de aspirador. Nem sei como esse negócio é, pelo amor de Deus, quanto mais onde comprar...

Um pensamento súbito me acerta. Vou encomendar um aspirador novo. Certamente já virá com um saco instalado.

- Samantha.

- O quê? O que é? – Levo um susto e abro os olhos. Guy Ashby está parado junto à porta.

Guy é meu melhor amigo na firma. Tem 1,90m, pele morena e olhos escuros, e normalmente é o próprio advogado bem arrumado, polido. Mas hoje seu cabelo escuro está degrenhado e há sombras sob os olhos.

- Relaxa. – Ele dá um sorriso. – Sou só eu. Vem à reunião?

Guy tem o sorriso mais devastador que eu já vi. Não sou só eu, todo mundo notou no minuto em que ele chegou à firma.

- Ah. É... sim, vou. – Pego os papéis e depois acrescento descuidadamente: – Você está bem, Guy?

Parece meio cansado.

Ele rompeu com a namorada. Os dois têm brigas feias que duram a noite toda e ela foi embora de vez...

Não, emigrou para a Nova Zelândia.

- Virei a noite – responde ele encolhendo-se. – O diabo do Ketterman. Ele é desumano. – Guy dá um bocejo enorme, mostrando os dentes perfeitos e brancos que consertou quando estava na faculdade de direito de Harvard.

Diz que não foi escolha sua. Parece que não deixam ninguém se formar enquanto não tiver o OK do ortodontista.

- Saco. – Rio com simpatia e depois empurro a cadeira para trás. – Vamos lá.

Conheço o Guy há um ano, desde que entrou como sócio para o departamento corporativo. É inteligente e divertido; e trabalha como eu, e de algum modo nós simplesmente... clic.

E sim. É possível que algum tipo de romance tivesse acontecido entre nós se as coisas fossem diferentes.

Mas houve um equívoco idiota e...

Pois é. Não aconteceu. Os detalhes não são importantes. Não é uma coisa em que eu fico pensando.

Somos amigos; e para mim está ótimo.

 

Certo, aconteceu exatamente o seguinte:

Parece que o Guy me notou praticamente no primeiro dia na firma, como eu o notei. E ficou interessado.

Perguntou se eu era solteira. E eu era.

Essa era a parte crucial: eu era solteira. Tinha acabado de romper com o Jacob. Teria sido perfeito.

Tento não pensar muito em como teria sido perfeito.

Mas Nigel MacDermot, que é um idiota, idiota, que não pensa, um imbecil sem tamanho, disse ao Guy que eu namorava um sócio importante da Berry Forbes.

Mesmo eu estando sozinha.

Se você me perguntar, o sistema tem uma falha enorme. Deveria ser mais claro. As pessoas deveriam ter placas de compromisso, como as placas dos toaletes. Comprometida. Não comprometida. Não deveria haver ambigüidade com essas coisas.

De qualquer modo eu não tinha uma placa. Ou, se tivesse, era a placa errada. Houve algumas semanas ligeiramente embaraçosas em que eu sorria um bocado para o Guy – e ele ficava sem jeito e começou a me evitar, porque não queria a) acabar com um relacionamento ou b) montar um triângulo comigo e Jacob.

Eu não entendia o que estava acontecendo, por isso recuei. Depois ouvi boatos de que ele estava começando a sair com uma garota chamada Charlotte, que tinha conhecido numa festa de fim de semana.

Um ou dois meses depois nós trabalhamos juntos num contrato e ficamos amigos – e esta é praticamente toda a história.

Quero dizer, tudo bem. Verdade. É como as coisas são. Algumas acontecem – e algumas não. Esta obviamente não era para ser.

Só que bem no fundo, bem lá dentro... ainda acredito que era.

 

- E então – diz Guy, enquanto seguimos pelo corredor até a sala de reuniões. – Sócia. – Ele ergue uma sobrancelha.

- Não diga isso! – sibilo horrorizada. Ele vai estragar tudo.

- Qual é! Você sabe que chegou lá.

- Não sei de nada.

- Samantha, você é a advogada mais brilhante do seu ano. E a que trabalha mais duro. Qual é o seu QI, afinal, 600?

- Cala a boca. – Olho o carpete azul-claro e Guy solta uma gargalhada.

- Quanto é 124 vezes 75?

- Nove mil e trezentos – digo de má vontade.

Esta é a única coisa que me irrita no Guy. Desde que tinha uns dez anos sou capaz de fazer contas grandes de cabeça. Deus sabe por quê, simplesmente consigo. E todo mundo fica dizendo: “ah, maneiro”, e depois esquece.

Mas Guy continua falando, jogando contas para cima de mim como se eu fosse uma artista de circo. Sei que ele acha engraçado, mas na verdade fica meio irritante.

Uma vez eu respondi o número errado, de propósito. Mas então fiquei sabendo que ele precisava mesmo da resposta, e colocou num contrato, e em resultado o negócio quase se ferrou. De modo que não fiz isso de novo.

- Você não treinou no espelho para a foto do site da firma? – Guy adota uma pose com o dedo encostado pensativamente no queixo. – Srta. Samantha Sweet, Sócia.

- Nem pensei nisso – digo revirando os olhos com desdém.

É uma mentirinha. Já planejei como fazer o cabelo para a foto. E qual tailleur preto usar. E desta vez vou sorrir. Nas fotos da minha página no site da Carter Spink estou séria demais.

- Ouvi falar que sua apresentação pirou os caras de vez – diz Guy, mais sério.

Meu desdém desaparece num segundo.

- Verdade? – Tento não parecer ansiosa demais. – Você ouviu?- E você corrigiu William Griffiths num artigo de lei diante de todo mundo? – Guy cruza os braços e me olha cheio de humor. – Alguma vez você comete erros, Samantha Sweet?

- Ah, eu cometo um monte de erros – respondo em tom leve. – Acredite.

Tipo não agarrar você e dizer que eu estava solteira, no dia em que nos conhecemos.

- Um erro não é um erro – Guy faz uma pausa -, a não ser que não possa ser consertado. – Enquanto diz as palavras, seus olhos parecem se cravar mais profundamente nos meus.

Ou então só estão embriagados depois de uma noite sem dormir. Nunca fui boa em ler os sinais.

Deveria ter tirado diploma nisso, em vez de em direito. Seria muito mais útil. Bacharel (com Honras) em Saber Quando os Homens Estão a Fim da Gente e Quando Só Estão Sendo Amigáveis.

- Prontos? – A voz de chicote de Ketterman atrás de nós nos faz dar um pulo e eu me viro, vendo toda uma falange de homens com ternos sóbrios acompanhados por duas mulheres com roupas ainda mais sóbrias.

- Sem dúvida – Guy assente para Ketterman, depois se vira e pisca para mim.

Ou talvez eu devesse fazer um curso de telepatia.