Samantha Sweet, Executiva do Lar
Seis
Não faço idéia do que essa mulher está falando. Minha cabeça dói demais. Mal posso olhá-la, quanto mais absorver o que ela está dizendo.
- Você está bem? - Ela me olha. – Que aparência terrível!
- Estou com uma tremenda dor de cabeça – consigo dizer. - Será que eu poderia tomar um copo d’água?
- Claro! Entre! – Ela balança o cigarro na minha cara e me chama para um saguão enorme, impressionante com teto em cúpula. – Você vai querer ver a casa, de qualquer modo. Eddie? – sua voz aumenta até um grito agudo. – Eddie. Tem outra aqui! Sou Trish Geiger. – acrescenta para mim. – Pode me chamar de Sra. Geiger. Venha por aqui...
Ela me leva para uma luxuosa cozinha com madeiras de bordo e experimenta algumas gavetas, aparentemente por acaso, antes de gritar: “Ahá!” e pegar uma caixa de plástico. Abre e revela uns cinqüenta frascos e maços de cartelas de comprimidos, e começa a procurar com as unhas pintadas.
- Tenho aspirina... paracetamol... ibuprofeno... valium muito fraco... – A mulher estende uma lívida pílula vermelha. – Esta é dos EUA – diz animada. – É ilegal neste país.
- Ah... ótimo. A senhora tem... um monte de analgésicos.
-Ah, nesta casa adoramos comprimidos – diz ela me dando um olhar bastante intenso. – Adoramos.
Eddie! – Em seguida me entrega três tabletes verdes e, depois de algumas tentativas, localiza um armário cheio de copos. – Cá estamos. Vão acabar com qualquer dor de cabeça. – Em seguida pega água gelada na geladeira. – Beba isto.
- Obrigada. – respondo, engolindo os comprimidos sem esforço. – Minha cabeça está doendo demais.
Mal consigo pensar direito.
- Seu inglês é muito bom. – Ela me dá um olhar de perto, avaliando. – Muito bom mesmo.
- Ah – respondo sem jeito. – Certo. Bem, eu sou inglesa. Esse... a senhora sabe, é provavelmente o motivo...
-Você é inglesa? – Trish Geiger parece galvanizada com a notícia. – Bom! Venha sentar-se. Eles vão fazer efeito num minuto. Se não fizerem eu lhe dou mais.
Ela me tira da cozinha e voltamos pelo corredor.
- Esta é a sala de estar – diz parando junto a uma porta. Sinaliza para uma sala enorme, grandiosa, largando cinzas no tapete. - Corno você verá, há muito que passar aspirador... espanar... polir a prataria –Ela me olha cheia de expectativa.
- Certo. – Confirmo com a cabeça. Não faço idéia do motivo pelo qual essa mulher está me falando de seu trabalho doméstico, mas ela parece esperar uma resposta.
- Esta mesa é linda – digo finalmente, indicando um brilhante aparador de mogno.
- Precisa ser polida. – Seus olhos se estreitam. – Regularmente. Eu noto essas coisas.
- Claro – assinto de novo, bestificada.
-Venha aqui – diz ela, guiando-me através de outra sala enorme e grandiosa, e entrando numa estufa arejada, cercada de vidro, mobiliada com opulentas espreguiçadeiras de teca, plantas frondosas e uma bandeja de bebidas bem abastecida.
- Eddie! Venha cá! – Ela bate no vidro e eu ergo os olhos, vendo um homem com calças de golfe caminhando pelo gramado impecável. É bronzeado e tem aparência abastada, provavelmente com pouco menos de 50 anos.
Trish provavelmente também está a beira dos 50, acho vislumbrando seus pés-de-galinha quando ela se vira de costas para a janela. Mas algo me diz que ela afirmaria ter 39 e nem um dia mais.
- Lindo jardim - digo.
- Ah. - Seus olhos passam sobre passam sobre o jardineiro, sem muito interesse. – É, nosso jardineiro é muito bom. Tem todo tipo de idéias. Agora sente-se! – Ela balança as mãos, e sentindo-me um pouco sem jeito, sento-me num sofá. Trish se deixa afundar numa poltrona do outro lado, e termina de beber seu coquetel.
- Você sabe fazer um bloody mary? – pergunta abruptamente.
Encaro-a, perplexa.
- Não faz mal. – Ela dá uma tragada no cigarro. – Posso ensinar.
Pode o quê?
- Como está sua cabeça? – pergunta ela e vai em frente antes que eu possa responder. – Melhor? Ah, ai está o Eddie!
- Olá! – A porta se abre e o Sr. Geiger entra na estufa. Não parece tão impressionante de perto quanto caminhando pelo gramado. Os olhos estão meio injetados e ele tem o início de uma barriga de cerveja.
- Eddie Geiger – diz ele estendendo a mão jovialmente. – Dono da casa.
- Eddie, esta é... – Trish me olha, surpresa. – Qual é o seu nome?
- Samantha – explico. - Desculpe incomodar vocês, mas eu estava com uma dor de cabeça terrível...
- Dei a Samantha um daqueles analgésicos de venda controlada – interrompe Trish.
- Boa escolha. – Eddie abre uma garrafa de uísque e se serve. – Você deveria experimentar os comprimidos vermelhos. São letais!- Ah... certo.
- Não literalmente, é claro! - Ele dá uma gargalha súbita, curta. Não estamos tentando envenená-la!
- Eddie! –Trish lhe dá um tapa com chacoalhar de pulseiras. - Não assuste a garota!
Os dois se viram para me examinar. De algum modo sinto que esperam uma resposta.
- Muito obrigada, realmente. – Consigo dar um meio sorriso. -Vocês foram muito gentis, deixando que eu invadisse seu fim de tarde.
- O inglês dela é bom, não é? – Eddie levanta as sobrancelhas para Trish.
- Ela é inglesa! - diz Trish em triunfo, como se tivesse tirado um coelho de uma cartola. – Compreende tudo que eu digo!
Realmente não estou entendendo alguma coisa. Será que eu pareço estrangeira?
- Vamos fazer o circuito pela casa? – Eddie se vira para Trish.
Meu coração afunda. As pessoas que fazem circuitos da casa com visitas deveriam ser abolidas. A idéia de me arrastar atrás deles tentando encontrar coisas diferentes para dizer sobre cada cômodo é insuportável.
Só quero ficar aqui sentada esperando os comprimidos fazerem efeito.
- Realmente não é necessário! – começo. – Tenho certeza de que é absolutamente linda...
- Claro que é necessário! – Trish apaga o cigarro. – Venha.
Enquanto me levanto minha cabeça parece nadar, e preciso me agarrar à iúca para ficar firme. A dor de cabeça está começando a diminuir, mas me sinto tonta e meio estranhamente distanciada da realidade.
Tudo isso parece um sonho.
Certo. Essa mulher não pode ter vida. Só parece interessada no trabalho doméstico. Enquanto seguimos por um cômodo esplêndido depois do outro fica apontando coisas que precisam ser espanadas de modo especial e mostrando onde o aspirador é guardado. Agora está falando da máquina de lavar, imagine só.
- Parece... muito... eficiente – digo, já que ela parece esperar um elogio.
- Nós gostamos de roupas de cama trocadas toda semana. Bem passadas a ferro, claro. – Ela me lança um olhar incisivo.
- Claro. – assinto tentando esconder a perplexidade. – Boa idéia.
- Agora lá em cima! – Ela sai da cozinha.
Ah meu Deus. Tem mais?
-Você é de Londres, Samantha? – pergunta Eddie Geiger enquanto subimos a escada.
- Isso mesmo.
- E tem um trabalho em tempo integral lá?
Ele esta perguntando para ser educado. - mas por alguns instantes não consigo responder. Eu tenho um trabalho?
- Tinha – digo finalmente. – Para ser honesta... não sei qual é a minha situação no momento.
- Quantas horas você trabalhava? – Trish gira como se estivesse subitamente interessada na conversa.
- Todas – dou de ombros. – Estou acostumada a trabalhar o dia inteiro e entrar pela noite. Virar a noite algumas vezes.
Os Geiger parecem absolutamente pasmo com essa revelação. As pessoas não fazem idéia de como é a vida de um advogado.
- Você costumava virar a noite? – Trish parece estupefata. – Sozinha?
- Eu e o resto da equipe. Quem fosse necessário.
- Então você vem de... um local grande?
- Um dos maiores de Londres – confirmo com a cabeça.
Trish e Eddie estão lançando olhares um para o outro. Realmente são estranhíssimos.
- Bem, acho que você vai gostar de saber que somos muito mais tranqüilos! – Trish dá um risinho. – Este é o quarto principal... o segundo quarto...
Enquanto caminhamos pelo corredor, ela abre e fecha portas e me mostra camas de dossel e cortinas feitas à mão, até que minha cabeça gira mais ainda. Não sei o que havia naqueles comprimidos, mas estou me sentindo mais esquisita a cada minuto.
- O quarto verde... Como você deve saber, não temos filhos nem animais de estimação... Você fuma? –pergunta Trish subitamente inalando a fumaça do seu cigarro.
- Ah ... não. Obrigada.
- Não que a gente se incomode.
Descemos um pequeno lance de escada e tento me firmar na parede, que parece se afastar num emaranhado de flores estampadas.
- Você está bem? – Eddie me segura quando estou para despencar no chão.
- Acho que os analgésicos eram meio fortes. – murmuro.
- Eles são meio malignos. – Trish me olha, pensativa. – Você não bebeu álcool hoje, bebeu?
- Ah... bem, sim...
- Aaah. – Ela faz uma careta. – Bom, tudo bem, desde que você não comece a ter alucinações. Então precisaríamos chamar um médico. E ... aqui estamos! – continua ela, e abre a última porta. – Os aposentos dos empregados.
Todos os cômodos desta casa são enormes. Este é mais ou menos do tamanho do meu apartamento, com paredes claras e janelas com acabamento em pedra dando para o jardim. Tem a cama mais simples que vi nesta casa, vasta, quadrada e arrumada com lençóis impecáveis.
Luto contra uma ânsia de súbito, quase avassaladora, de deitar nela, acomodar a cabeça e afundar no esquecimento.
- Linda – digo educadamente. – É um quarto estupendo.
- Bom! – Eddie bate palmas. - Bem, Samantha, eu diria que você conseguiu o emprego!
Olho-o através do atordoamento.
Emprego? Que emprego?
- Eddie! – reage Trish. – Você não pode simplesmente oferecer o emprego a ela! Não terminamos a entrevista!
Entrevista?
Será que perdi alguma coisa?
- Nem fizemos a descrição completa do trabalho! – Trish continua brigando com Eddie. – Não falamos de nenhum detalhe!
- Bem, fale dos detalhes, então! – retruca Eddie. Trish lhe atira um olhar de fúria e pigarreia.
- Então, Samantha - diz em tom formal - seu papel como empregada doméstica em tempo integral implicará...
- Perdão? – Encaro-a.
Trish estala a língua exasperada.
- Seu papel como empregada doméstica – diz mais lentamente. – implicará fazer toda a limpeza, lavar as roupas e cozinhar. Vai usar uniforme, manter uma postura cortês e respeitar...
Meu papel como ...
Essas pessoas acham que estou me candidatando a ser empregada doméstica?
Por um momento fico pasma demais para falar.
-... alimentação e moradia – está dizendo Trish. – e quatro semanas de férias por ano.
- Qual é o salário? – pergunta Eddie com interesse. – Vamos pagar mais do que à última garota?
Por um momento acho que Trish vai assassiná-lo no ato.
- Com licença, Samantha! - Antes mesmo que eu consiga abrir a boca ela arrastou Eddie para fora do quarto e bate a porta. Em seguida, segue-se uma discussão em voz baixa.
Olho o quarto ao redor, tentando juntar os pensamentos.
Eles acham que sou empregada doméstica. Empregada domestica! Isso é ridículo. Preciso esclarecer.
Tenho de explicar o mal-entendido.
Outra onda de tontura me atinge e eu me sento na cama. Então, antes que possa me impedir, deito-me na colcha branca e fresca, e fecho os olhos. É como afundar numa nuvem.
Não quero me levantar. Não quero me levantar desta cama. É um porto seguro.
Foi um dia longo. Um pesadelo de dia longo, exaustivo e doloroso. Só quero que acabe.
- Samantha, sinto muito por isso. – Abro os olhos e luto para ver Trish entrando de novo seguida por Eddie com o rosto cor-de-rosa. – Antes de continuarmos, você tem alguma pergunta sobre o trabalho?
Encaro-a com a cabeça girando como um carrossel.
Este é o momento em que preciso explicar que houve um equívoco. Que não sou empregada doméstica, sou advogada.
Mas nada sai da minha boca.
Não quero ir embora. Quero deitar nesta cama e cair no esquecimento.
Eu poderia ficar esta noite aqui, é a idéia que explode no meu cérebro Só uma noite. Poderia resolver o equívoco amanhã.
- Ah... seria possível começar esta noite? – ouço-me dizendo.
- Não vejo por que não ... – começa Eddie.
- Não vamos pôr o carro na frente dos bois - interrompe Trish rispidamente.- Temos um bocado de candidatas para este trabalho, Samantha. Várias muito impressionantes. Uma tem até diploma de culinária cordon bleu, da França!
Ela traga o cigarro, dando-me um olhar objetivo. E algo dentro de mim se enrijece como um reflexo automático. Não consigo evitar. É maior do que eu, maior ate do que o meu desejo de despencar na cama branca e macia.
Será que ela está sugerindo ...
Será que ela está dando a entender que eu poderia não conseguir este emprego?
Olho Trish em silêncio por alguns instantes. Em algum lugar, no fundo de meu estado de choque embriagado sinto um minúsculo clarão da velha Samantha retornando. Sinto minha ambição entranhada levantando a cabeça e farejando o ar. Enrolando as mangas e cuspindo nas mãos. Sou capaz de derrotar uma garota formada em culinária cordon bleu francesa.
Nunca fracassei numa entrevista na vida.
Não vou começar agora.
- Então – Trish olha sua lista. – Você é experiente em todas as formas de lavanderia?
- Ganhei um prêmio de lavanderia na escola – respondo com um movimento modesto de cabeça. – Foi o que realmente me fez entrar nessa carreira.
- Meu Deus! – Trish está pasma. – Estudou cordon bleu?
- Estudei com Michael de la Roux de la Blanc. – Faço uma pausa séria. – O nome dele obviamente fala por si.
- Sem duvida - diz Trish olhando insegura para Eddie.
Estamos sentados na estufa de novo. Trish dispara uma série de perguntas que parecem ter vindo de um panfleto “Como contratar sua Empregada Doméstica”. E vou respondendo a todas elas com confiança total.
No fundo do cérebro, ouço uma vozinha gritando: “o que você esta fazendo? Samantha, que diabo você está FAZENDO?”
Mas não ouço. Não quero ouvir. De algum modo, consegui bloquear a vida real, o equívoco, minha carreira arruinada, todo pesadelo de um dia ... tudo no mundo, menos essa entrevista. Minha cabeça continua girando e sinto que posso naufragar a qualquer momento – mas por dentro há um pequeno núcleo concentrado de determinação. Vou conseguir esse emprego.- Poderia nos dar uma amostra de menu? – Trish acende outro cigarro. – Para um jantar formal, digamos?
Comida... comida impressionante...
De repente me lembro do Maxim’s da noite passada. O menu de lembrança de aniversário.
- Preciso consultar minhas anotações – Abro a bolsa e disfarçadamente examino o menu do Maxim’s. –Para um jantar formal, eu serviria... foi grãs tostado com cobertura de abricó... cordeiro com hamus apimentado... seguido por suflê de chocolate e hortelã com dois tipos de sorvete feitos em casa.
Tome isso, garota do cordon bleu.
- Bom! – Trish parece perplexa. – Devo dizer que é muito impressionante!
- Maravilhoso! – Eddie parece estar salivando. - Foie gras tostado! Poderia fazer um pouco para nós agora?
Trish olha-o irritada.
- Presumo que você tenha alguma referência, não é, Samantha?
Referência?
- Nós precisaremos de uma referência. – Trisha começa a franzir a testa.
- Quem pode dar referências minhas é Lady Freya Edgerly - digo numa inspiração súbita.
- Lady Edgerly? - As sobrancelhas de Trish se levantam e um tom rosado começa a subir lentamente pelo seu pescoço.
- Estive ligada a Lorde e Lady Edgerly durante muitos anos. Sei que Lady Edgerly vai falar a meu favor.
Trish e Eddie estão me encarando boquiabertos. Tal vez eu deva acrescentar algum detalhe doméstico.
- Uma família adorável-enfeito. – era um trabalho ótimo, manter limpa a mansão. E... polir as tiaras de Lady Edgerly.
Merda. Dei um passo longe demais com as tiaras.
Mas, para minha perplexidade, nenhuma nota de suspeita atravessava o rosto de nenhum dos dois.
- Você cozinhava para eles, é? – pergunta Eddie. – Café da manhã e assim por diante?
- Naturalmente. Lorde Edgerly gostava muito de meu prato especial, Ovos Benedict. – Tomo um gole d’água.
Posso ver Trish fazendo que claramente imagina que sejam expressões cifradas para Eddie, que está disfarçadamente assentindo de volta. É como se tivessem "Vamos ficar com ela” tatuado na testa.
- Uma última coisa. – Trish dá uma tragada funda no cigarro. – Você vai atender ao telefone quando o Sr. Geiger e eu estivermos fora. Nossa imagem na sociedade é muito importante. Por favor, demonstre como fará isso. – Ela assente para um telefone numa mesinha ali perto.
Não podem estar falando sério. Só que... acho que estão.
- Você de dizer “Boa-tarde; residência dos Geigers" – instiga Eddie.
Levanto-me obedientemente. Ignorando do melhor modo possível a cabeça a cabeça tonta, vou até lá e pego o telefone.
- Boa tarde – digo na minha voz mais charmosa e mais perfeita da escola de elite. - Residência dos Geigers. Em que posso ajudar?
Parece que todos os natais de Trish e Eddie chegaram ao mesmo tempo.