Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 19 de 25

Páginas do PDF

Samantha Sweet, Executiva do Lar

Dezenove

Não vejo a brochura da Carter Spink de novo até duas semanas depois, quando estou entrando na cozinha para fazer o almoço.

Não sei o que aconteceu com o tempo. Mal o reconheço. Os minutos e as horas não passam tiquetaqueando em nacos rígidos. Fluem, refluem e redemoinham. Nem uso mais relógio. Ontem me deitei num campo de feno durante toda a tarde com Nathaniel, olhando sementes de dente-de-leão flutuando; e o único tiquetaque era dos grilos.

Mal me reconheço, também. Estou morena de ficar deitada ao sol no descanso do almoço. Há fiapos dourados nas pontas dos meus cabelos. Minhas bochechas estão cheias e coradas. Meus braços estão ganhando músculos de tanto polir, amassar pão e carregar panelas pesadas de um lado para o outro.

O verão está com força total e cada dia é mais quente do que o anterior. Toda manhã, antes do café, Nathaniel caminha comigo de volta pelo povoado até a casa dos Geigers - e mesmo a essa hora o sol já está esquentando. Tudo parece lento e preguiçoso hoje em dia. Nada parece importar. Todo mundo está em clima de férias - a não ser Trish, que entrou num frenesi total. Vai dar um grande almoço de caridade na semana que vem, porque leu numa revista que é isso que as damas de alta classe fazem. Pela confusão que está fazendo, o negócio parece um casamento real.

Estou arrumando os papéis que Melissa deixou atulhados na mesa quando vejo a brochura da Carter Spink embaixo de uma pasta de papel. Não resisto a pegá-la e folhear as imagens familiares. Ali está a escada que subi todos os dias da vida durante sete anos. Ali está Guy, mais admiravelmente bonito do que nunca. Ali está aquela garota Sarah, do departamento de litígio, que também era candidata a sócia. Nem ouvi dizer se conseguiu.

- O que você está fazendo? - Melissa entrou na cozinha sem que eu ouvisse. Ela me olha cheia de suspeitas. - Isso é meu.

Honestamente. Como se eu fosse roubar uma brochura.- Só estou arrumando suas coisas - digo objetivamente, pousando a brochura. - Preciso usar esta mesa.

- Ah. Obrigada. - Melissa coça o rosto. Parece exausta ultimamente. Há sombras sob seus olhos e o brilho do cabelo sumiu.

- Você está trabalhando duro - sugiro mais gentilmente.

- É, bem ... - Ela ergue o queixo. - No fim vai valer a pena. Eles fazem a gente trabalhar muito no início, mas depois que a gente se qualifica, tudo se acalma.

Olho seu rostinho cansado, repuxado, arrogante. Mesmo que pudesse lhe dizer o que sei, ela não acreditaria.

- É - digo depois de uma pausa. - Tenho certeza que você está certa. - Olho de novo a brochura da Carter Spink. Está aberta numa foto do Arnold. Ele usa uma gravata de bolinhas azul-escura e um lenço combinando, e está rindo de orelha a orelha para o mundo. Só de vê-lo me dá vontade de sorrir.

- Então você vai se candidatar a essa firma de advocacia? - pergunto casualmente.

- É. É a melhor. - Melissa está pegando uma Diet Coke na geladeira. - Esse é o cara que deveria me entrevistar. - Ela inclina a cabeça para a foto de Arnold. - Mas ele vai sair.

Sinto uma sacudida de perplexidade. Arnold vai sair da Carter Spink?

- Tem certeza? - pergunto antes de me conter.

- É. – Melissa me dá um olhar estranho. - Por quê?

- Ah, nada - respondo largando rapidamente a brochura. - Só quis dizer... que ele não parece ter idade para se aposentar.

- Bem, ele vai. - Ela dá de ombros e sai da cozinha, e eu fico olhando perplexa.

Arnold vai sair da Carter Spink? Mas ele sempre alardeou que nunca se aposentaria. Sempre alardeou que duraria mais vinte anos. Por que sairia agora?

Estou totalmente fora de contato. Nas últimas semanas vivi numa bolha. Não li O Advogado, mal li um jornal comum. Não sei nenhuma fofoca e não me importei nem um pouco. Mas agora, olhando o rosto familiar de Arnold, sinto pontadas de curiosidade.

Sei que não estou mais nesse mundo, mas ainda quero saber. Por que, diabos, Arnold vai sair da Carter Spink? O que mais aconteceu que eu não sei?

 

Assim, nessa tarde, depois de tirar a mesa do almoço, entro no escritório de Eddie, ligo o computador e clico no Google. Procuro "Arnold Saville" - e, sem dúvida, na segunda página encontro um pequeno item sobre sua aposentadoria precoce. Leio a matéria de cinqüenta palavras, repetidamente, tentando descobrir pistas. Por que Arnold iria se aposentar? Está doente?

Procuro outros itens, mas é o único que encontro. Depois de hesitar um momento vou à caixa de busca e dizendo a mim mesma que não deveria fazer isso – digito "Samantha Sweet". Imediatamente um zilhão de histórias a meu respeito surge de novo na tela. Mas desta vez não fico tão pirada. Quase não parece mais que sou eu.

Examino um item depois do outro, vendo os mesmos detalhes repassados. Depois de clicar umas cinco páginas acrescento "Third Union Bank" à busca, e examino os resultados. Então digito "Third Union Bank, BLCC Holdings", depois "Third Union Bank, Glazerbrooks". Então, num frisson estranho, digito "Samantha Sweet, 50 milhões de libras, carreira encerrada". E como olhar meu próprio carro bater, num replay.

Meu Deus, o Google é viciante. Fico ali sentada, totalmente absorta, clicando, digitando e lendo, chafurdando chafurdando em páginas intermináveis, automaticamente usando a senha da Carter Spink quando preciso. Depois de uma hora estou sentada frouxa na cadeira de Eddie, como um zumbi. Minhas costas doem e o pescoço está duro, e as palavras se atropelam. Tinha esquecido como era ficar sentada diante de um computador. Realmente usava isso o dia inteiro?

Esfrego os olhos cansados e olho a página da internet aberta diante de mim, imaginando por que estou fazendo isso. É uma obscura lista de convidados de um almoço que aconteceu no início do ano no Painters Hall. Mais ou menos na metade está o nome BLCC Holdings, que deve ter sido o link. No piloto automático movo o cursor pela página - e surge o nome "Nicholas Hanford Jones, diretor".

Alguma coisa tilinta no meu cérebro cansado. Nicholas Hanford Jones. Por que conheço esse nome? Por que, de algum modo, estou associando-o a Ketterman?

Será que a BLCC Holdings é cliente de Ketterman? Não. Não pode ser. Eu teria sabido.

Aperto os olhos com força e me concentro o máximo que posso. Nicholas Hanford Jones. Quase posso ver nos olhos da mente; estou procurando uma associação ... uma imagem ... Ande, pense.

E de repente lembro. As letras rebuscadas num convite de casamento. Estava preso no quadro de avisos da sala de Ketterman, há uns três anos. Ficou ali durante semanas. Eu via sempre que entrava.

 

fÜA x fÜtA TÜÇÉÄw ftä|Ä x

ÜxÖâ|á|àtÅ É ÑÜtéxÜ wx áât vÉÅÑtÇ{|t

ÇÉ vtátÅxÇàÉ wx áât y|Ä{t Y|ÉÇt

vÉÅ É fÜA a|v{ÉÄtá [tÇyÉÜw ]ÉÇxáA

Nicholas Hanford Jones é genro de Arnold Saville? Arnold tem ligações familiares com a BLCC

Holdings?

Afundo na cadeira, totalmente desconcertada. Por que ele nunca mencionou isso?

E então outro pensamento me acerta. Estive há um minuto na página da BLCC Holdings Companies House. Por que Nicholas Hanford Jones não era listado como diretor? Isso é ilegal, para começar.

Coço a testa, depois, por curiosidade, digito "Nicholas Hanford Jones". Um instante depois a tela se enche de itens, e me inclino adiante cheia de expectativa.

Ah, pelo amor de Deus. A internet é uma merda. Estou olhando outros Nicholas, outros Hanfords e outros Jones, mencionados em todo tipo de contexto diferente. Olho em frustração total. Será que o Google não percebe que não é nisso que estou interessada? Por que eu iria querer ler sobre uma equipe de remo canadense onde há um Greg Hanford, um Dave Jones e um Chip Nicholas?

Nunca vou achar nada aqui.

Mesmo assim começo a abrir caminho, examinando cada naco de texto, clicando na próxima página e na próxima. E então, quando estou para desistir, meu olhar cai num item no fim da página. William Hanford

Jones, diretor financeiro da Glazerbrooks, agradeceu a Nicholas Jenkins por seu discurso .. .

Olho por alguns segundos com incredulidade total. O diretor financeiro da Glazerbrooks chama-se Hanford Jones também? São da mesma família? Sentindo-me uma espécie de detetive particular, entro na Friends Reunited, e dois minutos depois tenho a resposta. São irmãos.

Fico meio atordoada. Esta é uma conexão bem gigantesca. O diretor financeiro da Glazerbrooks, que faliu devendo 50 milhões de libras ao Third Union Bank. Um diretor da BLCC Holdings, que emprestou a ela 50 milhões três dias antes. E Arnold, representando o Third Union Bank. Tudo relacionado; tudo na mesma família ampliada. E a coisa mais estranha é que tenho quase certeza que mais ninguém sabe.

Arnold nunca mencionou isso. Ninguém na Carter Spink jamais mencionou. Nem eu vi isso em qualquer relatório sobre o caso. Arnold manteve tudo em segredo.

Esfrego os olhos, tentando juntar os pensamentos desconexos. Não é um potencial conflito de interesses?

Ele não deveria ter revelado a informação imediatamente?

Por que, diabos, Arnold manteria uma coisa tão importante assim em segredo? A não ser...

Não.

Não. Não poderia ...

Abro os olhos, meio tonta, como se de repente tivesse mergulhado em água com um quilômetro de profundidade. Minha mente está saltando adiante, ricocheteando em possibilidades e se despedaçando de novo, incrédula.

Será que Arnold descobriu alguma coisa? Será que está escondendo alguma coisa?

Será por isso que vai sair?

Levanto-me e passo as mãos pelo cabelo. Certo, só vamos ... pára com isso, agora mesmo. É do Arnold que estou falando. Do Arnold. Estou virando uma louca fanática por teorias de conspiração. Daqui a pouco vou digitar "alienígenas, Roswell, eles vivem entre nós".

Com decisão súbita pego o telefone. Vou ligar para o Arnold. Vou desejar sorte na aposentadoria. Então talvez consiga me livrar de todas essas idéias ridículas que flutuam na minha cabeça.

 

Preciso de umas seis tentativas fracassadas antes de juntar coragem para digitar o número inteiro e esperar a resposta. A idéia de falar com alguém da Carter Spink - quanto mais com o Arnold - me deixa ligeiramente enjoada. Fico desligando antes de completar a conexão; largando o telefone como se tivesse escapado por pouco.

Mas por fim me obrigo a apertar os números e manter a linha. Nunca saberei, se não fizer isso. Vou conseguir falar com Arnold. Vou conseguir manter a cabeça erguida.

Depois de três toques o telefone é atendido por Lara.

- Escritório de Arnold Saville.

Tenho uma visão súbita de Lara sentada em sua mesa de madeira clara, com o casaco cor de vinho que ela sempre usa, digitando. Tudo parece a um milhão de quilômetros de distância.

- Oi, Lara - digo. - É... Samantha. Samantha Sweet.

- Samantha? - Lara parece abatida por uma machadada. - Diabo! Onde você está? O que está fazendo?

- Estou bem, obrigada. Estou bem mesmo. Controlo um espasmo de nervosismo. - Liguei porque fiquei sabendo que Arnold vai sair. É verdade?

- É! - diz Lara aliviada. - Fiquei pasma! Parece que Ketterman o levou para jantar e tentou convencê-lo a ficar, mas ele decidiu. Imagine só, ele vai se mudar para as Bahamas.

- Bahamas? - repito perplexa.

- Comprou uma casa lá! Parece linda. A festa de despedida vai ser na semana que vem. - Lara continua: - Vou ser transferida para a sala de Derek Green, lembra dele? Sócio do setor de impostos? Um cara muito legal, mas parece que é meio temperamenta1...

- É... fantástico! - interrompo-a, subitamente lembrando de sua capacidade de fofocar por horas sem respirar. - Lara, eu só queria desejar tudo de bom ao Arnold. Será que você poderia passar a ligação?

- Verdade? - Lara parece surpresa. - Isso é incrivelmente generoso da sua parte, Samantha. Depois do que aconteceu.

- Bem, você sabe - digo sem jeito. - Não foi culpa do Arnold, foi? Ele fez o que pôde.

Há um silêncio estranho.

- É - diz Lara depois de uma pausa. - Bem. Vou completar a ligação.

Depois de alguns instantes a voz familiar de Arnold estrondeia pela linha.

- Samantha, querida! É você, mesmo?

- Sou eu, mesmo! - consigo sorrir. - Não desapareci totalmente da face da terra.

- Espero que não! Você está bem, não está?

- Estou ... bem - respondo sem jeito. - Obrigada. Só fiquei surpresa ao saber que você ia se aposentar.

- Nunca fui obcecado por tortura! - Ele dá um riso fácil. - Trinta e três anos labutando no direito. Basta para qualquer ser humano. Quanto mais para um advogado!

Só sua voz jovial me tranqüiliza. Devo estar louca. Arnold não pode ter se envolvido em nada ilegal.

Não pode estar escondendo nada. Ele é o Arnold.

Vou mencionar a ele, decido. Só para provar a mim mesma.- Bem ... espero que tudo corra bem - digo. - E ... acho que você vai ver mais a sua família, não é?

- Vou ficar assoberbado por aqueles chatos, sim! – Ele estrondeia numa gargalhada de novo.

- Não sabia que seu genro era diretor da BLCC Holdings! - tento um tom casual. – Que coincidência!

Há um momento de silêncio.

- Perdão? - diz Arnold. Sua voz continua charmosa como sempre, mas o calor desapareceu.

- BLCC Holdings - engulo em seco. - Sabe, a outra companhia envolvida no empréstimo do Third Union Bank? A que registrou a cobrança? Por acaso acabei de notar...

- Preciso desligar agora, Samantha! - Arnold me interrompe com voz mansa. - É um prazer bater papo, mas vou sair do país na sexta-feira, portanto há muito que fazer.A coisa aqui está movimentada demais, de modo que, se fosse você, eu não ligaria de novo.

A linha emudece antes que eu possa falar mais. Lentamente pouso o telefone e olho uma borboleta voando do lado de fora da janela.

Isso não estava certo. Não foi uma reação natural. Ele se livrou de mim assim que mencionei seu genro.

Algo está acontecendo. Algo está acontecendo com certeza.

 

O que pode ser? Abandonei por completo o trabalho doméstico durante a tarde e estou sentada na cama com um bloco de anotações e um lápis, tentando deduzir as possibilidades.

Quem ganha com isso? olho de novo os fatos rabiscados e as setas. Dois irmãos. Milhões de libras sendo transferidas entre bancos e empresas. Pense. Pense ...

Com um pequeno grito de frustração rasgo a página e amasso. Vamos começar de novo. Vamos colocar tudo em ordem lógica. A Glazerbrooks entrou em falência. O Third Union Bank perdeu o dinheiro. A BLCC Holdings pulou à frente na fila...

Bato com o lápis impacientemente no papel. Mas e daí? Eles só pegam de volta o dinheiro que emprestaram. Não têm vantagem nenhuma, não têm benefício, não faz sentido.

A não ser... e se eles nunca pagaram nada, para começar?

A idéia acerta meu cérebro vinda de lugar nenhum. Sento-me ereta, incapaz de respirar. E se for isso? E

se essa for a mutreta?

Minha mente começa a disparar. Imagine que haja dois irmãos. Eles sabem que a Glazerbrooks está com sérios problemas financeiros. Sabem que o banco acabou de pagar cinqüenta milhões mas que o empréstimo não foi registrado. Isso significa que há um empréstimo de cinqüenta milhões sem seguro circulando na empresa, podendo ser apanhado por qualquer um que faça um registro...

Não consigo mais ficar sentada. Estou andando de um lado para o outro, mordendo febrilmente o lápis, o cérebro soltando fagulhas como um circuito elétrico. Isso funciona. Funciona. Eles alteram os números. A BLCC Holdings recebe o dinheiro que o Third Union Bank pagou, a seguradora da Carter Spink cobre a conta...

Paro de andar. Não. Não funciona. Estou sendo idiota. A seguradora só vai cobrir os cinqüenta milhões porque eu fui negligente. Este é o elemento crucial. Todo o plano dependeria de que eu, Samantha Sweet, cometesse esse erro específico.

Mas, puxa... como eles poderiam ter planejado isso? Não faz sentido. É impossível. Não se pode planejar um erro antecipadamente. Não se pode fazer com que alguém esqueça de fazer alguma coisa, não se pode obrigar alguém a fazer merda...

E então paro. De repente minha pele fica úmida. O memorando.

Eu não vi aquele memorando na mesa até que era tarde demais. Sei que não vi.

E se...

Ah, meu Deus.

Afundo no banco da janela, as pernas parecendo de borracha. E se alguém plantou o memorando na minha mesa? Enfiou numa pilha de papéis depois do prazo?

Meu coração começa a martelar e eu seguro a cortina em busca de equilíbrio.

E se eu não cometi um erro?

Sinto como se tudo estivesse estalando e mudando de forma ao redor. E se Arnold deliberadamente não registrou o empréstimo do banco - e fez parecer que era minha culpa?

Como uma fita que é exibida continuamente, a minha conversa com Arnold passa várias vezes pela minha mente. Quando eu disse que não podia lembrar de ter visto o memorando em cima da mesa. E ele imediatamente mudou de assunto.

Eu presumi que o memorando estivesse ali o tempo todo. Presumi que o erro fosse meu. Ineficiência minha. Mas e se não foi? Todo mundo na Carter Spink sabia que eu tinha a mesa mais bagunçada da firma.

Seria fácil enfiar o memorando numa pilha de papéis. Fazer parecer que estava ali há semanas.

Estou respirando cada vez mais ofegante, até quase ficar com oxigênio demais no sangue. Vivi com esse erro por dois meses. Ele estava ali toda manhã, quando eu acordava, e todo dia quando ia para a cama.

Como uma dor constante ao fundo; como um refrão na minha cabeça: Samantha Sweet arruinou a vida.

Samantha Sweet fez merda.

Mas... e se eu fui usada? E se a culpa não foi minha? E se não cometi o erro, afinal de contas?

Preciso saber. Preciso saber a verdade. Agora. Com a mão trêmula pego o celular e digito o número de novo.

- Lara, preciso falar com Arnold outra vez – digo assim que a ligação é completada.

- Samantha... - Lara parece sem jeito. – Infelizmente Arnold não vai receber mais nenhum telefonema seu. E pediu que eu lhe dissesse para não incomodá-lo de novo falando sobre seu emprego.

Sinto um choque. O que ele andou falando sobre mim?

- Lara, não estou incomodando por causa do emprego - digo tentando manter a voz firme. - Só preciso falar com ele sobre uma ... questão. Se ele não quer falar comigo, vou ao escritório. Pode marcar uma hora, por favor?

- Samantha... - Ela parece ainda mais embaraçada do que antes. - Arnold disse para lhe informar... que se você tentar vir ao escritório a segurança vai expulsá-la.

- Me expulsar? - olho o telefone, incrédula.

- Sinto muito. Verdade. E não culpo você! Acrescenta ela fervorosa. - Achei realmente chocante o que Arnold fez com você! Um monte de gente também acha.

Sinto uma nova confusão. O que ele fez comigo? Lara sabe sobre o memorando?

- O que... o que você quer dizer? - gaguejo.

- O modo como ele fez você ser demitida!

- O quê? - Sinto que toda a respiração foi espremida do meu peito. - O que você está falando?

- Eu realmente me perguntei se você saberia. – Ela baixa a voz. - Ele está indo embora, por isso posso dizer. Peguei as minutas da reunião, depois de você ter fugido. E Arnold convenceu todos os outros sócios.

Disse que você era um perigo e que não podiam se arriscar e tê-la de volta, e coisa e tal. Muitos outros queriam lhe dar outra chance, sabe? - Ela estala a língua. – Fiquei pasma. Claro, não podia dizer nada ao Arnold ...

- Claro que não - consigo responder. – Obrigada por me contar, Lara. Eu... não fazia idéia.

Estou tonta. Tudo está ficando distorcido. Arnold não me defendeu. Fez com que eu fosse demitida. Não conheço esse sujeito. Todo aquele charme afável... é puro teatro. É uma porcaria de teatro.

Com uma repulsa enjoativa lembro-me subitamente dele no dia depois de tudo ter acontecido, insistindo em que eu ficasse onde estava, que não voltasse. Por isso. Ele me queria fora do caminho para eu não lutar.

Para que ele pudesse acabar comigo.

E eu confiei. Total e absolutamente. Como uma imbecil, uma imbecil culpada.

Meu peito ofega dolorosamente. Todas as dúvidas desapareceram. Arnold está metido em algum trambique. Eu sei. Armou para cima de mim. plantou o memorando na minha mesa, sabendo que isso destruiria minha carreira.

E em três dias terá desaparecido nas Bahamas. Sinto uma pontada de pânico. Preciso agir agora.

- Lara - digo tentando parecer calma. – Poderia me ligar com Guy Ashby? Sei que briguei com Guy. Mas ele é a única pessoa em que posso pensar e que poderia me ajudar.

- Guy foi para Hong Kong - diz Lara, surpresa. - Você não sabia?

- Certo - respondo com o coração afundando. - Não... não sabia.

- Mas ele vai estar com o Black Berry – acrescenta ela, solícita. - Você pode passar um e-mail.

- É. - Respiro fundo. - É, talvez eu faça isso.