Samantha Sweet, Executiva do Lar
Doze
Acordo no sábado com o coração martelando e salto de pé, a mente disparada com tudo que preciso fazer...
E então ela pára, como um carro cantando pneus na freada. Por um momento não consigo me mexer.
Depois, hesitante, afundo de novo na cama, dominada pela sensação mais estranha, mais extraordinária que já experimentei.
Não tenho nada a fazer.
Nenhum contrato para revisar, nenhum e-mail para responder, nenhuma reunião de emergência no escritório. Nada.
Franzo a testa tentando lembrar a última vez em que não tive nada para fazer. Mas não sei se consigo.
Parece que nunca fiquei sem nada para fazer desde que tinha uns 7 anos. Saio da cama, vou à janela e olho o céu azul translúcido do início da manhã, tentando entender a situação. É meu dia de folga. Ninguém tem controle sobre mim. Ninguém pode me chamar e exigir minha presença. Este tempo é meu. Meu próprio tempo.
Parada junto à janela, contemplando este fato, começo a sentir uma coisa esquisita por dentro. Leve e meio tonta, como um balão de hélio, estou livre. Um sorriso de empolgação se espalha no meu rosto quando encontro os olhos do meu reflexo no vidro. Pela primeira vez na vida posso fazer o que quiser.
Olho a hora - e são apenas 7h15. O dia inteiro se estende diante de mim como uma folha de papel em branco. O que vou fazer? Por onde começo? Sinto uma bolha nova, de júbilo. crescendo por dentro, até que sinto vontade de rir alto.
Já estou esboçando uma planilha para o dia, na cabeça. Esqueça os segmentos de seis minutos. Esqueça a pressa. Vou começar a medir o tempo em horas. Uma hora para deleitar-me no banho e me vestir. Uma hora para me demorar no café da manhã. Uma hora lendo o jornal, de cabo a rabo. Terei a manhã mais preguiçosa, mais indolente e mais desfrutável que já tive na vida adulta.
Quando entro no banheiro posso sentir os músculos se repuxando de dor em todo o corpo. Músculos que nem mesmo jamais soube que possuía. Realmente deveriam vender o serviço de empregada doméstica como malhação. Encho a banheira com água quente e jogo um pouco de óleo de banho de Trish, depois entro na água perfumada e me deito toda feliz.
Delicioso. Vou ficar aqui durante horas, horas e horas.
Fecho os olhos, deixando a água bater nos ombros, e deixo o tempo passar em grandes vastidões. Acho que até caio no sono um pouco. Nunca passei tanto tempo no banho em toda a vida.
Por fim abro os olhos, pego uma toalha e saio de novo. Quando estou começando a me enxugar, pego o relógio, só por curiosidade.
Sete e meia.
O quê?
Foram apenas quinze minutos?
Sinto um relâmpago de perplexidade. Como, afinal, só gastei quinze minutos? Fico parada, pingando, indecisa por um momento, imaginando se devo retornar e fazer tudo de novo, mais lentamente.
Mas não. Seria esquisito demais. Não importa. E daí se tomei banho depressa demais? Só vou garantir que demorarei adequadamente no café da manhã. Vou realmente aproveitar.
Pelo menos tenho roupas para vestir. Trish me levou ontem à noite a um shopping center a alguns quilômetros de distância. Para que eu pudesse comprar roupa de baixo, bermudas e vestidos de verão.
Disse que me deixaria fazer isso - depois acabou dando uma de chefe e escolhendo tudo para mim ... e de algum modo acabei sem uma única peça preta.
Cautelosamente coloco um vestidinho cor-de-rosa e um par de sandálias, e me olho. Nunca usei rosa, antes. Mas, para minha perplexidade, a aparência não é muito ruim! Afora a mancha enorme de água sanitária no cabelo. Terei de fazer alguma coisa a respeito.
Enquanto vou pelo corredor, não há qualquer som vindo do quarto dos Geigers. Passo em silêncio pela porta, sentindo-me subitamente sem graça. Vai ser meio estranho estar na casa deles durante todo o fim de semana, sem ter o que fazer. É melhor sair, mais tarde. Ficar fora do caminho deles.
A cozinha está silenciosa e reluzente como sempre, mas começa a parecer um pouquinho menos intimidante. Sei me virar com a chaleira e a torradeira, no mínimo, e encontrei todo um lote de geléia na despensa. Comerei torrada com geléia de laranja e gengibre e tomarei uma bela xícara de café. E vou ler o jornal de cabo a rabo. Isso vai me levar até mais ou menos as 11h e então poderei pensar no que fazer.
Encontro um exempla do The Times no capacho e o levo de volta à cozinha no momento em que a torrada está pulando.
Isso é que é vida.
Sento-me perto da janela mastigando torrada, bebendo o café e folheando o jornal preguiçosamente. Por fim, depois de devorar três fatias, duas xícaras de café e todas as seções de sábado, me espreguiço com um grande bocejo e olho o relógio.
Não acredito. São apenas 7h56.
O que há de errado comigo? Eu deveria demorar horas no café-da-manhã. Deveria estar sentada aqui durante toda a manhã. E não terminar tudo em vinte minutos contados.
Certo... não faz mal, Não vamos nos estressar com isso. Vou vagabundear de algum outro modo.
Ponho na lavadora a louça que usei e limpo as migalhas da torrada. Depois sento-me à mesa de novo e olho em volta. Imagino o que farei em seguida. É cedo demais para sair.
Abruptamente percebo que estou batendo com as unhas na mesa. Paro e olho minhas mãos por um momento. Isso é ridículo. Tenho meu primeiro dia de folga verdadeiro em cerca de dez anos. Deveria estar relaxada. Qual é! Certamente posso pensar em alguma coisa legal para fazer.
O que as pessoas fazem nos dias de folga? Minha mente repassa uma série de imagens da TV. Poderia fazer outra xícara de café? Mas já tomei duas. Não estou com vontade de tomar outra. Poderia ler o jornal de novo? Mas tenho memória quase fotográfica. De modo que reler as coisas é meio inútil.
Meu olhar vai até o jardim lá fora, onde um esquilo está empoleirado numa coluna de pedra, espiando em volta com olhos brilhantes. Talvez eu vá lá fora. Curtir o jardim, a vida natural e o orvalho da manhã.
Boa idéia.
Só que o problema do orvalho matinal é que ele molha os nossos pés. Enquanto vou pela grama úmida, já estou desejando não ter calçado as sandálias abertas. Ou que tivesse esperado até mais tarde para o passeio.
O jardim é muito maior do que eu avaliava. Caminho pelo gramado até uma cerca-viva ornamental onde tudo parece acabar, mas percebo que há toda uma seção do outro lado, com um pomar no fim e uma espécie de jardim murado à esquerda.
É um jardim estupendo. Até eu percebo isso. As flores são vívidas sem ser espalhafatosas, cada muro é coberto com alguma trepadeira linda, e enquanto caminho para o pomar vejo pequenas peras douradas penduradas nos galhos das árvores. Acho que nunca tinha visto uma pêra de verdade crescendo numa árvore.
Caminho por entre as árvores frutíferas até um enorme trecho quadrado de terra marrom com planta crescendo em fileiras organizadas. Devem ser as verduras. Cutuco uma delas cautelosamente com o pé.
Pode ser uma alface ou um repolho. Ou as folhas de alguma coisa que cresce debaixo da terra, talvez.
Para ser honesta, poderia ser um alienígena. Não faço idéia.
Caminho mais um pouco, depois me sento num banco de madeira coberto de musgo e olho um arbusto próximo coberto de flores brancas. Hum. Bonitas.
E agora? O que as pessoas fazem em seus jardins?
Acho que deveria ter alguma coisa para ler. Ou deveria estar ligando para alguém. Meus dedos sentem comichão para se mecher. Olho o relógio. Ainda são apenas oito e dezesseis. Ah, meu Deus.
Qual é, não posso desistir ainda. Só vou ficar aqui sentada um pouco e curtir a paz. Recosto-me, fico confortável no banco e olho um passarinho bicando o chão ali perto, por um tempo.
Depois olho o relógio de novo. Oito e dezessete.
Não posso fazer isso.
Não posso não fazer nada o dia inteiro. Isso vai me deixar louca. Tenho de sair e comprar outro jornal no povoado. Se eles tiverem Guerra e paz, vou comprar também. Levanto-me e estou começando a voltar rapidamente pelo gramado quando um bip no meu bolso me faz parar.
É o celular. Recebeu uma mensagem de texto. Alguém acabou de me mandar um recado no início de uma manhã de sábado. Pego o celular e olho para ele, sentindo-me tensa. Não tive nenhum contato com o mundo exterior por mais de um dia.
Sei que há outras mensagens no telefone - mas não li nenhuma. Sei que há recados na caixa postal-mas não ouvi nenhum. Não quero saber. Estou bloqueando tudo.
Ponho a mão no celular, dizendo a mim mesma para guardá-lo. Mas agora a curiosidade foi espicaçada.
Alguém me mandou um recado há alguns segundos. Alguém, em algum lugar, segurou um celular e digitou um recado para mim. Tenho uma visão súbita do Guy, com sua calça de sarja e a camisa azul de usar nos dias de folga. Sentado à mesa, franzindo a testa enquanto digita.
Pedindo desculpas.
Contando alguma novidade. Algum tipo de situação que eu não poderia ter adivinhado ontem ...
Não posso evitar. Apesar de tudo sinto uma súbita pontada de esperança. Parada ali no gramado matutino, sinto meu ser mental sendo arrastado deste jardim, de volta a Londres, de volta ao escritório. Um dia inteiro se passou lá, sem mim. Muita coisa pode acontecer em vinte e quatro horas. Coisas podem mudar. Tudo pode ter ficado positivo, de algum modo.
Ou ... pode ter ficado ainda pior. Eles estão me processando.
A tensão cresce por dentro. Estou apertando o celular com força cada vez maior. Preciso saber. Seja bom ou ruim. Abro o telefone e encontro a mensagem. É de um número que não reconheço.
Quem? Quem, afinal, está me mandando um recado?
Sentindo um certo enjôo, aperto OK para ler.
oi Samantha, é o nathaniel,
Nathaniel?
Nathaniel?
Meu alívio é tão gigantesco que rio alto. Claro! Eu lhe dei o número do celular ontem, para a mãe dele.
Leio o resto do recado.
se estiver interessada, mamãe pode começar aulas de culinária hoje. nat.
Aulas de culinária. Sinto uma fagulha de deleite. É isso. O modo perfeito de preencher o dia. Aperto o botão para responder e digito rapidamente.
adoraria. obrigada. sam.
Envio a mensagem com um pequeno sorriso. Isso é divertido. Um minuto ou dois mais tarde o telefone solta outro bip.
que horas? 11 é muito cedo? nat.
Olho o relógio. Ainda faltam duas horas e meia para as 11h.
Duas horas e meia sem nada a fazer a não ser ler o jornal e evitar Trish e Eddie. Aperto o botão de responder.
pode ser 10? sam.
Às cinco para as dez estou pronta no saguão. Parece que casa da mãe de Nathaniel é difícil de achar, por isso o plano é nos encontrarmos aqui e ele vai comigo. Quando verifico meu reflexo no espelho do banheiro, estremeço, A mancha de água sanitária está mais óbvia do que nunca. Empurro o cabelo para trás e para a frente algumas vezes - mas não consigo escondê-la. Talvez pudesse andar com a mão casualmente na cabeça, como se estivesse pensando. Tento algumas poses casuais diante do espelho.
- Sua cabeça está bem?
Giro chocada e vejo Nathaniel junto à porta aberta, usando camisa xadrez e jeans.
- Ah ... ótima - digo, com a mão ainda grudada à cabeça. - Eu só estava...
Ah, não adianta. Baixo a mão e Nathamel olha a faixa descorada por um momento.
- Está legal-diz ele. - Como um texugo.
- Um texugo? - respondo afrontada. - Não estou parecendo um texugo.
Olho o espelho para me tranqüilizar rapidamente. Não. Não estou.- Os texugos são criaturas lindas - diz Nathaniel dando de ombros. - Eu preferiria me parecer com um texugo a me parecer com um arminho.
Espera aí. Desde quando minha opção está entre texugo e um arminho? Nem sei como estamos nessa conversa.
- Talvez, a gente devesse ir - digo com dignidade. Pego a bolsa e dou uma última olhada no espelho enquanto vou para a porta.
Certo. Talvez eu esteja meio parecida com um texugo.
O verão já esquenta lá fora, e enquanto seguimos pelo caminho de cascalho respiro fundo com prazer. Há algum tipo gostoso de cheiro floral, que definitivamente reconheço...
- Madressilva e jasmim! - exclamo num reconhecimento súbito. Tenho em casa o óleo de banho Jo Malone.
- Madressilva no muro. - Nat aponta para um emaranhado de flores de um amarelo-claro na velha pedra dourada. - Plantei há um ano.
Olho com interesse para as flores delicadas. As madressilvas são assim?
- Mas não há jasmim por aqui - diz ele com curiosidade. - Você está sentindo cheiro?
- Ah... - abro os braços vagamente. - Talvez não.
Acho que não vou mencionar o óleo de banho Jo Malone neste momento. Ou, de fato, em momento nenhum.
Quando saímos da entrada de veículos percebo que é a primeira vez que saio da propriedade dos Geigers desde que cheguei - a não ser pelas compras com Trish, quando estava ocupada demais escarafunchando o CD de Celine Dion dela para notar o ambiente ao meu redor. Nathaniel virou à esquerda e está caminhando com facilidade pela rua - mas não consigo me mexer. Vejo a paisagem à frente, de queixo caído. O povoado é absolutamente estupendo.
Não fazia idéia.
Olho ao redor, absorvendo as velhas paredes de pedra cor de mel. As fileiras de chalés antigos com tetos muito inclinados. O riozinho ladeado de salgueiros. Mais adiante está o pub que eu havia notado na primeira noite, decorado com cestos pendurados. Dá para ouvir o som distante de cascos de cavalos. Nada incomoda. Tudo é suave, brando e parece que está aqui há centenas de anos.
- Samantha?
Nathaniel finalmente notou que estou parada.
- Desculpe - corro para encontrá-lo. - Só que é um lugar tão lindo! Eu não tinha notado.
- É legal. - Posso ouvir o tom de orgulho em sua voz. - Recebe muitos turistas, mas... - Ele dá de ombros.
- Eu não fazia idéia! - Continuamos andando pela rua mas não consigo deixar de ficar espiando ao redor, arregalada. - Olha o rio! Olha a igrejinha!
Sinto-me como uma criança descobrindo um brinquedo novo. Praticamente nunca estive no interior da Inglaterra. Sempre ficamos em Londres ou íamos para o estrangeiro. Estive na Toscana mais vezes do que me lembro, e uma vez passei seis meses em Nova York, quando mamãe fez um trabalho temporário lá.
Mas nunca na vida estive nos Cotswolds.
Atravessamos o rio por uma antiga ponte de pedra, em arco. No topo paro para olhar os patos e cisnes.
- É simplesmente estupendo. - Eu expiro. - Absolutamente lindo.
- Você não viu nada disso quando chegou? - Nathaniel me olha, achando divertido. - Simpelsmente apareceu numa bolha?
Penso naquela jornada em pânico, atordoada, desesperada. Saindo do trem com a cabeça latejando, a visão turva.
- Mais ou menos - digo finalmente. - Na verdade não notei enquanto andava.
Nós dois ficamos olhando dois cisnes nadar regiamente por baixo da pontezinha. Depois olho o relógio.
Já são dez e cinco.
- Vamos indo - digo com um pequeno susto. - Sua mãe deve estar esperando.
- Não há pressa - grita Nathaniel enquanto acelero descendo pelo outro lado da ponte. - Temos o dia inteiro. Ele desce pela ponte e se junta a mim. -Tudo bem. Pode ir mais devagar.
Nathaniel começa a andar pela rua e eu me junto a ele, tentando acompanhar seu ritmo relaxado. Mas não estou acostumada. Estou acostumada a andar depressa em calçadas apinhadas, abrindo caminho, empurrando e dando cotoveladas.
- Então, você cresceu aqui? - pergunto tentando reduzir a velocidade das pernas até um ritmo de passeio.
- Sim. - Ele vira numa pequena rua de paralelepípedos à esquerda. - Voltei quando meu pai ficou doente.
Então ele morreu e eu tive de resolver as coisas. Cuidar da minha mãe. Tem sido duro para ela. As finanças estavam uma confusão ... tudo estava uma confusão.
- Sinto muito - digo sem jeito. - Você tem mais alguém na família?
- Meu irmão Jake. Ele voltou durante uma semana. - Nathaniel hesita. - É dono de uma empresa. Muito bem-sucedido.
Sua voz é tranqüila como sempre, mas posso detectar um fio de... alguma coisa. Talvez eu não deva perguntar mais sobre sua família.
- Bom, eu moraria aqui - digo com entusiasmo.
Nathaniel me dá um olhar ligeiramente estranho.
- Você mora aqui - lembra ele.
Sinto uma pontada de surpresa. Acho que está certo. Tecnicamente, moro.
Caminho alguns passos, tentando processar esse novo pensamento. Nunca morei em nenhum lugar além de Londres, afora os três anos em Cambridge. É isso o que sou. É isso o que eu... era.
Mas a velha eu já está parecendo mais distante. Quando penso em mim, até mesmo na semana passada, é como se estivesse me vendo através de um papel de seda.
Tudo que um dia valorizei foi destruído. E ainda me sinto ferida. Mas ao mesmo tempo... me sinto mais viva com possibilidades do que nunca. Minhas costelas se expandem enquanto respiro o ar do campo e de repente sinto uma onda de otimismo: quase euforia. Num impulso, paro perto de uma árvore enorme e olho os galhos cheios de verde.
- Há um lindo poema de Walt Whitman sobre um carvalho. - Levanto a mão e acaricio a casca fria e áspera. - "Vi na Louisiana um carvalho crescendo. Erguia-se sozinho e o musgo pendia dos galhos."
Olho para Nathaniel, meio esperando que ele pareça impressionado.
- Isso é uma bétula - diz ele assentindo para a árvore.
Ah. Certo.
Não sei nenhum poema sobre bétulas.
- Aqui estamos. - Nathaniel abre um portão de ferro e indica para eu subir por um caminho de pedras até um pequeno chalá com cortinas de flores azuis nas janelas. - Venha conhecer sua professora de culinária.
A mãe de Nathaniel não é nem um pouco como eu esperava. Estava visualizando alguma aconchegante personagem como a Sra. Tiggywinkle, com cabelos grisalhos num coque e óculos meia-taça. Em vez disso olho uma mulher magra com rosto vívido e bonito. Seus olhos são de um azul luminoso, com o início de rugas finíssimas ao redor. O cabelo meio grisalho cai em tranças dos dois lados do rosto. Está usando avental sobre jeans, camiseta e alpercatas, e mexe vigorosamente algum tipo de massa.
- Mãe. - Nathaniel ri e me empurra para a cozinha. - Aqui está ela. Esta é Samantha. Samantha... minha mãe. Iris.
- Samantha. Bem-vinda. - Iris ergue a cabeça e posso vê-la me avaliando, da cabeça aos pés, enquanto bate a massa. - Só me deixe terminar isto.
Nathaniel sinaliza para eu me sentar, e cautelosamente ocupo uma cadeira. A cozinha fica nos fundos da casa e é cheia de luz e sol. Flores em jarros de cerâmica estão em toda parte. Há um antigo fogão, uma mesa de madeira sem verniz e uma meia-porta aberta para o exterior. Enquanto me pergunto se deveria estar puxando conversa, uma galinha entra e começa a ciscar no chão.
- Ah, uma galinha! - exclamo antes que eu possa me conter.
- É, uma galinha. - Posso ver lris me olhando com diversão marota. - Nunca viu uma galinha antes?
Só no balcão gelado da Waitrose. A galinha vem bicando na direção dos meus pés com sandálias abertas e eu os puxo rapidamente para baixo da cadeira, tentando parecer que pretendia fazer isso de qualquer modo.
- Pronto. - Iris pega a massa, molda-a com eficiência numa forma redonda num tabuleiro, abre a pesada porta do fomo e coloca dentro. Em seguida lava as mãos farinhentas na pia e se vira para mim.- Então você quer aprender a cozinhar. - Seu tom é amigável mas profissional. Sinto que esta é uma mulher que não desperdiça palavras.
- Sim. - Sorrio. - Por favor.
- Coisas chiques tipo cordon bleu - entoa Nathaniel, que está encostado no fogão.
- E quanto você já cozinhou na vida? - Iris enxuga as mãos numa toalha xadrez. - Nathaniel disse que nada. Não pode ser verdade. - Ela dobra a toalha e me sorri pela primeira vez. - O que você sabe fazer?
Qual é o seu básico?
Seu intenso olhar azul me deixa meio nervosa. Reviro o cérebro tentando pensar em alguma coisa que sei fazer.
- Bem... eu sei... sei fazer... é... torrada. - Digo. - Torrada seria o meu básico.
- Torrada? - Ela parece pasma. - Só torrada?
- E torrada de pão-de-minuto - acrescento rapidamente. - Torrada de bolinho... qualquer coisa que vá numa torradeira...
- Mas e cozinhar? - Ela dobra a toalha numa barra de aço no fogão e me olha mais lentamente. - E
quanto a... uma omelete? Sem dúvida você sabe fazer omelete.
Engulo em seco.
- Na verdade, não.
A expressão de Iris é tão incrédula que sinto as bochechas em chamas.
- Nunca fiz economia doméstica na escola. - explico. - Nunca aprendi a fazer refeições.
- Mas sua mãe, certamente... ou sua avó... - Ela pára quando balanço a cabeça. - Ninguém?
Mordo o lábio. Iris expira com força, como se absorvesse a situação pela primeira vez.
- Então você não sabe cozinhar nada. E o que prometeu fazer para os Geigers?
Ah, meu Deus.
- Trish queria menus para uma semana. Então eu... bem ... dei um, parecido com isto. -Sem graça, pego o menu do Maxim' s amarrotado na bolsa e entrego.
- Cordeiro assado com cebolas miúdas assemblé com fondant de batatas e crosta de queijo de cabra, acompanhado por purê de espinafre com cardamomo - lê ela em voz alta, com voz incrédula.
Ouço uma fungadela e vejo Nathaniel tendo um ataque de riso.
- Era só isso que eu tinha! - exclamo na defensiva. - O que iria dizer: iscas de peixe com fritas?
- "Assemblé" é só frescura. - Iris ainda está olhando o papel. - Isso é uma torta de carne metida a besta.
Podemos ensiná-la a fazer. E a truta assada com amêndoas é bastante simples... - Ela vai passando o dedo pela página e depois ergue os olhos, com a testa franzida.
Posso lhe ensinar a fazer esses pratos, Samantha. Mas não vai ser fácil, se você realmente nunca cozinhou antes. - Ela olha para Nathaniel. - Não sei bem ...
Quando vejo sua expressão sinto uma pontada de alarme. Por favor, não diga que vai recuar.
- Eu aprendo depressa. - Inclino-me à frente. E vou trabalhar duro. Farei o que for necessário. Quero, quero realmente fazer isso.
Olho-a séria, tentando passar a mensagem. Por favor. Preciso disso.
- Certo - diz Iris finalmente. - Vamos fazer você cozinhar.
Ela abre o armário para pegar uma balança e eu aproveito a oportunidade para enfiar a mão na bolsa e pegar um bloco em uma caneta. Quando Iris se vira e me vê, parece achar curioso.
- Para quê é isso? - Ela sacode a cabeça na direção do bloco.
- Para tomar notas - explico. Anoto a data e "Lição de Culinéria nº 1, sublinho e levanto os olhos. Iris está balançando a cabeça lentamente.
- Samantha, você não vai tomar notas. Cozinhar não tem a ver com escrever. Tem a ver com provar.
Sentir. Tocar. Cheirar.
- Certo. - Assinto com ar de inteligente.
Devo lembrar isso. Rapidamente tiro a tampa da caneta e anoto. "Cozinhar = provar, cheiras, sentir etc."
Tampo a caneta de novo e levanto os olhos. Iris está me examinando com incredulidade.
- Provar - diz ela tirando a caneta e o papel das minha mãos. - Não escrever. Você precisa usar seus sentidos. Seus instintos.
Ela ergue a tampa de uma panela em fervura baixa no fogão e enfia uma colher dentro.
- Prove isto.
Cautelosamente ponho a colher na boca.
- Molho - digo imediatamente. - Delicioso! - acrescento educadamente.
Iris balança a cabeça.
- Não diga o que você acha que é. Diga que gosto você sente.
Encaro-a perplexa. Sem dúvida é uma pergunta capciosa.
- Sinto gosto de... molho.
A expressão dela não muda. Está esperando outra coisa.
- É ... carne? - experimento.
- O que mais?
Minha mente está vazia. Não consigo pensar em mais nada. Quero dizer: é molho. O que mais a gente diz sobre molho?
- Prove de novo. – Iris está implacável. – Precisa se esforçar mais.
Meu rosto está ficando quente enquanto luto em busca de palavras. Sinto-me a criança burra do fundo da sala que não sabe a tabuada de dois.
- Carne ... água ... - Tento desesperadamente pensar no que mais entra nos molhos. - Farinha! - digo numa inspiração súbita.
- Samantha, não pense em identificar o gosto. Só diga qual é a sensação. -Iris estende a colher pela terceira vez. - Prove de novo. E desta vez feche os olhos.
Fechar os olhos?
- Certo. - Ponho uma colherada na boca e fecho os olhos obedientemente.
- Agora. Que gosto você sente? - A voz de Iris está no meu ouvido. -Concentre-se nos sabores. Em nada mais.
Os olhos fechados com força, bloqueio todo o resto e concentro toda a atenção na boca. Só tenho consciência do líquido quente e salgado na boca. Sal. Este é um sabor. E doce... e... há outro gosto enquanto engulo...
É quase como cores aparecendo. Primeiro as luminosas e óbvias, depois as mais suaves que a gente quase deixa de notar...
- Tem gosto de sal e carne... - digo lentamente, sem abrir os olhos. - E de algo doce... e...quase frutoso?
Como cerejas?
Abro os olhos me sentindo meio desorientada. Iris está me examinando com atenção. trás dela noto subitamente Nathaniel, também observando. Ao vê-los fico meio sem graça. Percebo que provar molho de olhos fechados é uma coisa bastante íntima. Não sei se quero alguém me olhando.
Iris parece entender.
- Nathaniel - diz ela depressa -, vamos precisar de ingredientes para todos esses pratos. - Ela escreve uma longa lista e entrega a ele. - Vá correndo pegar para nós, querido.
Enquanto ele sai da cozinha ela me olha com um leve sorriso nos lábios.
- Foi muito melhor.
- Santa macarronada, Batman, ela conseguiu? - digo cheia de esperança, e Iris inclina a cabeça para trás, rindo.
- Ainda não, querida, nem de longe. Aqui, ponha isso. - Iris me entrega um avental de listras vermelhas e brancas e eu amarro em volta do corpo, meio sem jeito.
- É muita gentileza sua me ajudar-digo hesitando enquanto ela pega cebolas miúdas e algum legume laranja que não reconheço. - Agradeço mesmo.
- Gosto de um desafio. - Seus olhos brilham. Fico entediada. Nathaniel faz tudo para mim. Demais algumas vezes.
- Mas mesmo assim. Você nem me conhecia ...
- Gostei de como ele falou de você. - Iris puxa uma pesada tábua de cortar. -Nathaniel contou como você saiu da encrenca na outra noite. Para isso é preciso de um bocado de espírito.
- Eu precisava fazer alguma coisa. - Dou-lhe um sorriso sem graça.
- E em resultado eles lhe ofereceram aumento de salário. Maravilhoso. -Quando ela sorri, rugas finas aparecem em volta dos olhos como fogos de artifício. Trish Geiger é uma mulher muito tola.
- Eu gosto de Trish - digo sentindo uma pontada de lealdade.
- Eu também. - Iris assente. - Ela apóia muito o Nathaniel. Mas você deve ter notado que ela tem pouco cérebro, ou nenhum. - Iris parece tão casual que sinto vontade de rir. Fico olhando enquanto ela põe uma gigantesca panela brilhante no fogão, depois se vira e me olha, de braços cruzados. -Então você os enganou completamente.
- É. - Sorrio. - Eles não fazem idéia de quem sou.
- E quem é você?
Sua pergunta me pega totalmente de surpresa. Abro a boca mas nenhuma palavra sai.
- Seu nome é realmente Samantha?
- É! - digo chocada.
- Isso foi meio grosseiro. Iris levanta a mão, admitindo. - Mas uma garota chega numa cidadezinha, vinda de lugar nenhum, e pega um emprego que é incapaz de fazer... - Ela pára como se escolhesse as palavras. - Nathaniel disse que você saiu de um relacionamento ruim.
- É - murmuro de cabeça baixa. Sinto o olhar esperto de Iris me avaliando.
- Não quer falar sobre isso, não é?
- Na verdade, não. Não. Não quero.
Quando levanto os olhos há um fio de compreensão no olhar dela.
- Por mim, tudo bem. - Iris pega uma faca. - Agora vamos começar. Enrole as mangas, prenda o cabelo e lave as mãos. Vou lhe ensinar a cortar uma cebola.
Passamos o fim de semana inteiro cozinhando.
Aprendo a fatiar uma cebola fininha, virar do outro lado e produzir cubos minúsculos. Aprendo a cortar ervas com uma lâmina redonda. Aprendo a esfregar farinha e moer gengibre para colocar em pedaços de carne, depois pôr numa panela quentíssima de ferro fundido. Aprendo que as massas têm de ser feitas com mãos rápidas e frias, perto de uma janela aberta. Aprendo o truque de descascar feijão-fradinho em água fervente antes de fazê-los sauté na manteiga.
Há uma semana eu nem sabia o que significava sauté.
Entre um aprendizado e outro, sento-me na escada dos fundos com Iris, olhando as galinhas ciscarem na terra e tomando café fresco acompanhado por um bolinho de abóbora ou um sanduíche salgado com alface em pão feito em casa.
- Coma e desfrute - diz Iris a cada vez, entregando minha parte, depois balança a cabeça consternada quando começo a comer. - Não tão depressa. Demore! Sinta o gosto da comida!
Na tarde de domingo, sob a orientação calma de Iris, faço frango assado com recheio de sálvia e cebolas, brócolis ao vapor, cenoura com perfume de cominho e batatas assadas. Quando tiro a enorme assadeira de dentro do fomo, paro um momento e deixo o ar quente, com cheiro de frango, subir acima de mim. Nunca senti um cheiro mais caseiro na vida. O frango está dourado; a pele crocante, rachada, pintalgada com a pimenta que moí antes; os sucos ainda borbulhando na assadeira.
- Hora do molho - grita Iris do outro lado da cozinha. - Tire o frango e ponha no prato... e cubra.
Precisamos mantê-lo quente... Agora incline a assadeira. Está vendo esses glóbulos de gordura flutuando na superfície? Precisa tirar isso com a colher.
Enquanto fala, ela está terminando a cobertura de uma torta de ameixa. Bota alguns pedacinhos de manteiga e coloca no forno, depois, sem interrupção, pega um pano e enxuga a superfície. Fiquei observando-a o dia inteiro, movendo-se com rapidez e precisão pela cozinha, provando enquanto anda, totalmente no controle. Não há sentimento de pânico. Tudo acontece como deveria.
- Isso mesmo. - Ela está do meu lado, olhando enquanto mexo o molho. -Continue... vai engrossar num minuto...
Não acredito que estou fazendo molho. Fazendo molho.
E - como tudo o mais nesta cozinha - está dando certo. Os ingredientes obedecem. A mistura dos sucos do frango, caldo e farinha, de algum modo está se transformando num líquido suave e perfumado.
- Muito bem! - diz Iris. - Agora ponha nesta bela jarra quente... tira qualquer pedacinho flutuante... viu como foi fácil?
- Acho que você é mágica - digo na bucha. - Por isso, tudo funciona aqui. Você é uma bruxa da cozinha.
- Uma bruxa da cozinha! - Ela dá um risinho. - Gosto disso. Agora venha. Tire o avental. Hora de curtir o que fizemos. - Ela tira o avental e estende a mão para a minha. - Nathaniel, terminou de arrumar a mesa?
Nathaniel esteve entrando e saindo da cozinha durante todo o fim de semana e eu fiquei acostumada com sua presença. De fato, estive tão concentrada em cozinhar que mal o notei. Agora ele está arrumando a mesa de madeira com um jogo americano feito de junco, velho talheres com cabo de osso e guardanapos de xadrez clarinho.
- Vinho para as cozinheiras - diz Iris, pegando uma garrafa na geladeira a abrindo-a. Serve-me uma taça e sinaliza para a mesa. - Sente-se, Samantha. Você fez muito, por um fim de semana. Deve estar morta.
- Estou bem! - respondo automaticamente. Mas quando me afundo na cadeira mais próxima percebo como estou exausta. Fecho os olhos e me sinto relaxar pela primeira vez nesse dia. Meus braços e as costas estão doendo de tanto cortar e misturar. Meus sentidos foram bombardeados com cheiros, sabores e novas sensações.
- Não caia no sono! - A voz de lris me arranca de volta ao presente. - Esta é a sua recompensa!
Nathaniel, amor, ponha o frango assado de Samantha ali. Você pode trinchar.
Abro os olhos e vejo Nathaniel levando a bandeja com o frango assado. Quando o vejo de novo, todo dourado, crocante e suculento, sinto um novo brilho de orgulho. Meu primeiro frango assado. Quase quero tirar uma foto.
- Não diga que você fez isso! - exclama Nathaniel incrédulo.
Ah, ha, ha. Ele sabe muito bem que fiz. Mas não evito sorrir de volta.
- Foi só uma coisinha que eu improvisei... - Dou de ombros, descuidadamente. - Como nós, chefes cordon bleu, fazemos.
Nathaniel trincha o frango com facilidade hábil e lris serve os legumes. Quando todos estamos servidos ela se senta e levanta a taça.
- A você, Samantha. Você se saiu esplendidamente.
- Obrigada. - Sorrio e estou para tomar um gole de vinho quando percebo que os outros dois não se mexem.
- E ao Ben - acrescenta Iris baixinho.
- Nos domingos sempre lembramos do meu pai. - explica Nathaniel.- Ah. - Hesito, depois levanto minha taça.
- Agora. - Os olhos de Iris brilham e ela pousa a taça. - O momento da verdade. - Ela pega um pedaço de frango e olho-a mastigar. Tento esconder o nervosismo.
- Muito bom.- Iris balança a cabeça finalmente. - Muito bom mesmo.
Não consigo evitar um riso se espalhando no rosto.
- Verdade? Está bom?
Iris ergue a taça para mim.
- Santa batata frita, Batman. Ela sabe fazer frango assado, pelo menos.
Estou sentindo à luz do fim de tarde, não falando muito, mas comendo e ouvindo a conversa dos outros dois. Contam histórias de Eddie e Trish, de quando eles tentaram comprar a igreja local e transformá-la numa pousada, e não consigo deixar de rir. Nathaniel delineia seus planos para o jardim dos Geigers e desenha um esboço da avenida de limeiras que criou na Marchant House. Quando se anima, desenha cada vez mais rapidamente, e suas mãos quase fazem sumir o toco de lápis que está usando. Iris percebe que olho com admiração e aponta para uma aquarela do lago do povoado, pendurada na parede.
- Ben fez aquilo. - E assente na direção de Nathaniel. - Ele puxou ao pai.
A atmosfera é tão relaxada e tranqüila, muito diferente de qualquer refeição na minha casa. Não há ninguém ao telefone. Ninguém está correndo para ir a outro lugar. Eu poderia ficar sentada aqui a noite inteira.
Quando a refeição finalmente vai chegando ao fim eu pigarreio.
- Iris, só queria agradecer de novo.
- Eu gostei. - Iris come uma colherada de torta de ameixa. - Sempre gostei de ficar mandando nas pessoas.
- Mas verdade: estou agradecida demais. Não sei o que teria feito sem você.
- No próximo fim de semana faremos lasanha. E nhoque! - Iris toma um gole de vinho e enxuga a boca com o guardanapo. - Teremos um fim de semana italiano.
- No próximo fim de semana? - Encaro-a. - Mas ...
- Você não acha que acabou, acha? - Ela uiva de tanto gargalhar. - Eu só comecei com você!
- Mas... não posso ocupar todos os seus fins de semana...
- Ainda não lhe dei o diploma - diz ela com aspereza alegre. - Portanto você não tem opção. Agora, com o quê mais você precisa de ajuda? Faxina? Lavagem de roupa?
Sinto uma pontada de embaraço. Ela sabe claramente da confusão em que me meti ontem.
- Não sei bem como usar a máquina de lavar - admito enfim.
- Vamos resolver isso. - Ela assente. - Vou aparecer na casa quando eles estiverem fora e dar uma olhada.
- Eu não sei pregar botões...
- Botões. - Iris pega um pegaço de papel e um lápis e anota, ainda mastigando. Sabe fazer bainha?
- Ah...
- Fazer bainha. - Rabisca ela. - E passar? - Ela ergue os olhos, subitamente alerta. - Você deve ter tido de passar. Como se saiu dessa?- Estou mandando a roupa para Stacey Nicholson - confesso. - No povoado. Ela cobra três libras por camisa.
- Stacey Nicholson? - Iris pousa o lápis. - Aquela pirralha?
- No anúncio ela dizia que era uma lavadeira experiente.
- Ela tem 15 anos! - Iris empurra a cadeira para trás, parecendo galvanizada.- Samantha, você não vai pagar a Stacey Nicholson para passar roupa. Vai aprender a fazer sozinha.
- Mas eu nunca...
- Vou ensinar. Qualquer um pode passar roupa. - Ela entra numa saleta ao lado, puxa um velha tábua de passar roupa coberta com tecido florido e ajeita-a, depois me chama. - O que você precisa passar?
- Principalmente as camisas do Sr. Geiger - digo, juntando-me nervosa a ela perto da tábua.
- Certo. - Ela liga um ferro e vira o botão. - Quente, para algodão. Espere o ferro esquentar. Não há sentido em começar enquanto não estiver na temperatura certa. Agora vou lhe mostrar o modo certo de atacar uma camisa ...
Iris revira uma pilha de roupa limpa na saleta, franzindo a testa.
- Camisas ... camisas ... Nathaniel, tire a camisa um momento.
Fico rígida. Quando olho Nathaniel vejo que ele se enrijeceu também.
- Mamãe! - ele dá uma risada sem jeito.
- Ah, não seja ridículo, querido - diz Iris impaciente. - Você pode tirar a camisa um momento. Ninguém está sem graça. Você não está sem graça, está, Samantha?
- Ah ... - Minha voz sai meio granulosa. - Ah... não, claro que não ...- Bom, aqui é o vapor. - Ela aperta um botão no ferro e um jato de vapor salta no ar. - Sempre verifique se o compartimento de vapor tem água ... Nathaniel! Estou esperando!
Através do vapor vejo Nathaniel desabotoando lentamente a camisa. Capto um vislumbre de pele lisa e bronzeada e baixo rapidamente o olhar.
Não sejamos adolescentes. E daí se ele está tirando a camisa? Não é grande coisa.
Ele joga a camisa para a mãe, que pega-a habilmente. Meus olhos estão estudadamente baixos. Não vou olhar para ele.
Não vou olhar para ele.
- Comece com o colarinho... - Iris está alisando a camisa na tábua de passar.- Bom, não precisa apertar com força. - Ela guia minha mão enquanto o ferro desliza pelo tecido. - Mantenha um toque suave...
Isso é ridículo. Sou uma mulher adulta, madura. Posso olhar um homem sem camisa sem cair aos pedaços. O que vou fazer é... só dar uma espiadinha casual. É. E tirar isso da cabeça.
- Agora a pala. - Iris vira a camisa na tábua e começo a apertar de novo. -Muito bem ... Agora os punhos...
Levanto a camisa para virá-la - e ao fazer isso, acidentalmente-de-propósito levanto os olhos.
Santo Deus.
Não sei se o negócio de tirar da cabeça vai funcionar, afinal.
- Samantha! - Iris pega o ferro na minha mão. - Está queimando a camisa!
- Ah! - Volto a mim. - Desculpe. Eu ... perdi a concentração.
- Suas bochechas parecem muito vermelhas. - Iris põe a mão curiosa no meu rosto. -Você está bem, querida?
- Deve ser o... é... o vapor. - Começo a passar outra vez, com o rosto parecendo uma fornalha.
Iris começa a me instruir de novo, mas não ouço sequer uma palavra. Enquanto movo o ferro às cegas para trás e para a frente estou pensando obsessivamente em a) Nathaniel, b) Nathaniel sem camisa, c) se Nathaniel tem namorada.
Por fim sacudo a camisa passada com perfeição, com todos os vincos no lugar certo.
- Muito bem! - diz Iris, aplaudindo. - Depois de um pouco de prática você poderá fazer isso em quatro minutos no máximo.
- Parece ótimo! - Nathaniel sorri estendendo a mão. - Obrigado.
- Tudo bem! - Consigo dar um guincho esganiçado, e rapidamente desvio olhar de novo, com o coração martelando.
Fantástico. Fantástico mesmo. Bastou uma olhada no seu corpo e estou com uma paixonite completa.
Honestamente eu achava que era uma pessoa um pouco mais profunda do que isso.