Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 25 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Vinte e Seis

 

Sinto-me entorpecida. Realmente tudo acabou. Estou sentada num compartimento de primeira classe no trem para Londres, com os outros sócios. E um trem expresso. Em duas horas estarei de volta. Estou com uma meia-calça nova. Minha maquiagem foi consertada. Até dei uma nova declaração à imprensa, montada às pressas por Hilary.

— Ainda que eu sempre vá sentir afeto por meus amigos em Lower Ebury, nada é mais empolgante e importante na minha vida agora do que a carreira na Carter Spink.

Disse isso com bastante convicção. Até encontrei um sorriso em algum lugar quando apertei a mão de David Elldridge. É possível que eles possam publicar uma foto disso, e não aquela em que dou um soco em Guy. Nunca se sabe.

Enquanto o trem sai da estação sinto uma pontada dolorosa e fecho os olhos um momento, tentando ficar composta. Estou fazendo a coisa certa. Todo mundo concordou. Tomo um gole de cappuccino, depois outro. Se eu beber café suficiente talvez ele me sacuda para ficar viva. Talvez eu pare de me sentir num sonho.

Espremido no canto diante de rnim está o cinegrafista do documentário, junto com o produtor, Dorninic, um cara com óculos chiques e casaco de brim. Sinto a lente da câmera em mim, seguindo cada movimento, dando zoom, pegando cada expressão. Realmente gostaria de não ter isso.

— E assim a advogada Samantha Sweet deixa o povoado onde era conhecida apenas como empregada doméstica — está dizendo Dominic ao microfone em voz baixa, tipo documentário de TV. — A questão é... será que ela tem algum arrependimento? — Ele me dá um olhar interrogativo.

— Achei que você deveria só filmar sem dizer nada — respondo com olhar maligno.

— Aí está você! — Guy larga um pesado monte de contratos no meu colo. — Este é o acordo da Samatron. Crave os dentes nisso.

Olho a pilha de papéis, com muitos centímetros de grossura. Houve um tempo em que ver um contrato novo em folha me causava uma descarga de adrenalina. Sempre queria ser a primeira a ver alguma anormalidade, a primeira a levantar alguma questão. Mas agora me sinto vazia.

Todo mundo no vagão está trabalhando. Folheio o contrato tentando juntar algum entusiasmo. Ora. Esta é minha vida agora. Assim que voltar ao pique começarei a curtir de novo.

— Dos livros de culinária aos contratos — murmura Dominic ao seu microfone. — Das colheres de pau às ordens judiciais.

Esse cara está realmente começando a me encher o saco.

Viro-me para o contrato. Mas as palavras se embaralham diante dos meus olhos. Não consigo me concentrar. Só consigo pensar em Nathaniel. Tentei ligar, mas ele não atendeu. Nem respondeu aos textos.

É como se não quisesse saber mais de mim.

Como tudo pode estar acabado? Como ele pode simplesmente ter partido?

Meus olhos começam a se turvar com as lágrimas de novo e pisco furiosa para afastá-las. Não posso chorar. Sou sócia. Sócios não choram. Tentando segurar a onda, olho pela janela. Parece que estamos diminuindo a velocidade, o que é estranho.

— Um anúncio a todos os passageiros... — De repente uma voz estala nos alto-falantes. — Este trem foi reprogramado como um trem parador. Vai parar em Hitherton, Marston Bridge, Bridbury...

— O quê? — Guy levanta os olhos. —Trem parador?

— Jesus Cristo. — David Elldridge faz uma careta. — Quanto tempo vai demorar?

— ...e chegará a Paddington meia hora depois do programado — está dizendo a voz. — Pedimos desculpas por qualquer...

— Meia hora? — David Elldridge abre seu celular, lívido. — Terei de remarcar a reunião.

— Terei de fazer o pessoal da Pattinson Lobb esperar. — Guy parece igualmente irritado, e já está digitando no celular. — Ei, Mary? Guy. Escute, este trem ferrou a gente. Vou me atrasar meia hora...

— Remarque com Derek Tomlinson... — está instruindo David.

— Teremos de empurrar a Pattinson Lobb para depois, cancele aquele cara do O Advogado...

— Davina — está dizendo Greg Parker ao seu telefone. — A porra do trem virou parador. Diga ao resto da equipe que vou me atrasar meia hora, estou mandando um e-mail... — Ele pousa o telefone e imediatamente começa a digitar no BlackBerry. Um instante depois Guy está fazendo o mesmo.

Olho incrédula toda essa ação frenética. Todos estão tão estressados! Então o trem vai atrasar. É meia hora. Trinta minutos. Como alguém pode ficar tão abalado por causa de trinta minutos?

É assim que eu devo ser? Porque agora esqueci. Talvez tenha esquecido por completo como ser advogada.

O trem entra na estação de Hitherton e pára lentamente. Olho pela janela — e ofego alto. Um enorme balão de ar quente paira no ar, poucos metros acima do prédio da estação. É vermelho-vivo e amarelo, com pessoas acenando do cesto. Parece algo saído de um conto de fadas.

— Ei, olhem! — exclamo. — Olhem aquilo!

Ninguém levanta a cabeça. Estão todos digitando freneticamente.

— Olhem! — tento de novo. — E incrível! —Ainda não há reação. Ninguém está interessado em nada além do conteúdo dos BlackBerries. E agora o balão subiu de novo. Num momento vai sumir. Todos perderam.

Olho-os, a nata do mundo jurídico, vestidos com seus temos de mil libras feitos à mão, segurando computadores de último tipo. Perdendo. Nem mesmo se importando por estarem perdendo. Vivendo em seu próprio mundo.

Não pertenço a isso aqui. Não é mais meu mundo. Não sou um deles.

De repente sei, com a certeza mais profunda que já tive. Não me encaixo; não me relaciono. Talvez tenha me encaixado um dia, mas não mais. Não posso fazer isso. Não posso passar o resto da vida em salas de reunião. Não posso me obcecar com cada naco minúsculo de tempo. Não posso perder a vida de novo.

Ali sentada, com a pilha de contratos ainda no colo, sinto a tensão crescendo por dentro. Cometi um erro.

Cometi um erro enorme. Não deveria estar aqui. Não é isso que quero da vida. Não é isso que quero fazer.

Não é isso que quero ser.

Preciso sair. Agora.

De um lado e do outro as pessoas estão saindo e entrando no trem, batendo portas, carregando malas. O

mais calmamente que posso, pego minha mala, minha bolsa e me levanto.

— Sinto muito — digo. — Cometi um erro. Só agora percebi.

— O quê? — Guy levanta os olhos.

— Desculpe ter feito vocês perderem tempo. — Minha voz treme ligeiramente. — Mas... não posso ficar. Não posso fazer isso.

— Meu Deus. — Ele segura a cabeça. — De novo, não, Samantha...

— Não tente me convencer — interrompo-o. —Já decidi. Não posso ser como vocês. Simplesmente isso não é para mim. Sinto muito. Não deveria ter vindo.

— Isso tem a ver com o jardineiro? — Ele parece exasperado. — Porque, francamente...

— Não! Tem a ver comigo! Eu simplesmente... — hesito, procurando as palavras. — Guy... não quero ser uma pessoa que não olha pela janela.

O rosto de Guy não registra um miligrama de compreensão. Eu não esperava que registrasse.

— Adeus. —Abro a porta do trem e desço, mas Guy me agarra com força.

— Samantna, pela última vez, pare com essa merda! Eu conheço você. E você é advogada.

— Você não me conhece Guy! — Minhas palavras explodem num jorro de raiva súbita. — Não me defina! Não sou advogada! Sou uma pessoa.

Puxo o braço e fecho a porta com força, tremendo inteira. No instante seguinte ela se abre de novo e Dominic e o cinegrafista saem atrás de mim.

— E então! — Dominic está murmurando empolgado ao microfone. — Numa reviravolta chocante, Samantha Sweet rejeitou sua luminosa carreira jurídica!

Realmente vou arrebentar a cara dele a qualquer minuto.

Enquanto o trem sai da estação vejo Guy e os outros sócios de pé, me olhando consternados. Acho que agora arruinei todas as chances de retornar.

Os outros passageiros começam a se afastar da plataforma, me deixando sozinha. Totalmente sozinha na estação de Hitherton com apenas uma mala por companhia. Nem sei onde fica Hitherton. A câmera de TV

continua fixa em mim e, enquanto passam, as pessoas me dão olhares curiosos.

O que vou fazer agora?

— Olhando os trilhos do trem, Samantha se vê no fundo do poço. —A voz de Dominic é baixa e simpática.

— Não me vejo — murmuro de volta.

— Hoje cedo ficou arrasada por perder o homem que amava. Agora também não tem carreira. — Ele pára e acrescenta num tom sepulcral. — Quem sabe que pensamentos sombrios passam por sua mente?

O que ele está tentando sugerir? Que vou me jogar embaixo do próximo trem? Ele iria adorar isso, não iria? Provavelmente ganharia um Emmy.

— Estou bem. — Levanto o queixo e seguro a mala com mais força. — Vou ficar bem. Eu... fiz a coisa certa.

Mas quando olho a estação vazia ao redor sinto pequenos tremores de pânico enquanto avalio a situação.

Não faço idéia de quando chegará o próximo trem. Não tenho nem idéia de onde quero ir.

— Você tem algum plano, Samantha? — pergunta Dominic, virando o microfone para mim. — Um objetivo?

Por que ele não me deixa em paz?

— Algumas vezes a gente não precisa de um objetivo na vida — digo na defensiva. — Não precisa conhecer o quadro geral. Só precisa saber o que fará em seguida.

— E o que você vai fazer em seguida?

— Estou... estou... pensando nisso. —Viro-me e me afasto da câmera, em direção à sala de espera.

Quando me aproximo vejo um guarda saindo.

— Ah, olá — digo. — Gostaria de saber como che-gar a... — paro, insegura. Aonde vou? —A... é...

— A... — instiga o guarda, solícito.

— A... Cornwall — ouço-me dizendo.

— Cornwall? — Ele parece pasmo. — Onde, em Cornwall?

— Não sei. — Engulo em seco, — Não exatamente. Mas preciso chegar lá o mais depressa possível.

Não pode haver muitos hortos à venda em Cornwall. Vou encontrar o certo. Vou encontrá-lo. De algum modo.

— Bem. — A testa do guarda se franze. — Terei de consultar o livro. — Ele desaparece em sua sala.

Ouço Dominic sussurrando febrilmente ao microfone, mas não me importo.

— Aqui estamos. — O guarda aparece segurando um pedaço de papel coberto de escritos a lápis. — Seis baldeações, infelizmente, até Penzance. E vai custar cento e vinte libras. O trem vai demorar um tempo — acrescenta. — Plataforma dois.

— Obrigada. — Pego a mala e vou até a passarela. Ouço Dominic correndo atrás de rnim com o cinegrafista.

— Samantha parece ter abandonado os sentidos — está ofegando ele ao microfone. — A tensão da situação a fez passar dos limites. Quem sabe que passo impensado dará agora?

Ele quer muito que eu pule, não é? Vou apenas ignorá-lo. Paro decidida na plataforma, olhando para longe da câmera.

— Sem endereço e sem apoio — ouço-o continuar. — Samantha está partindo numa jornada longa e incerta para encontrar o homem que a rejeitou hoje cedo. O homem que se afastou sem dizer adeus. Será um plano sensato?

Certo, já chega.

— Talvez não seja um plano sensato! — Viro-me para encará-lo, respirando ofegante. — Talvez eu não o encontre. Talvez ele nem queira saber. Mas preciso tentar.

Dominic abre a boca de novo.

— Cale-se — digo. — Só cale a boca.

Parecem se passar horas até que ouço o barulho do trem à distância. Mas é do lado errado. É outro trem para Londres. Quando ele pára ouço as portas se abrindo e pessoas entrando e saindo.

— Trem para Londres! — grita o guarda. — Trem para Londres, Plataforma Um.

É o trem em que eu deveria estar. Se não fosse louca. Se não tivesse abandonado os sentidos. Meu olhar percorre preguiçosamente as janelas, as pessoas em seus bancos, falando, dormindo, lendo, ouvindo iPods...

E então tudo parece congelar. Estarei sonhando?

É Nathaniel. No trem para Londres. A três metros de distância, num banco de janela, olhando rigidamente adiante.

O que... por que ele...

— Nathaniel! — tento gritar, mas minha voz se transformou num fiapo rouco. — Nathaniel! — balanço os braços freneticamente, tentando atrair sua atenção.

— Jesus, é ele! — exclama Dominic. — Nathaniel! — grita ele, com a voz parecendo uma sirene de nevoeiro. — Aqui, meu chapa!

— Nathaniel! — finalmente minha voz está funcionando. — Na-tha-ni-el!

Com o meu grito desesperado ele finalmente levanta os olhos e pula de choque ao me ver. Por um instante sua expressão é de pura incredulidade. Depois todo o rosto parece se expandir numa lenta explosão de deleite.

Ouço as portas do trem se fechando. Já vai partir.

— Venha! — grito ansiosa.

Vejo-o se levantando dentro do trem, pegando a mochila, passando espremido pela mulher no banco ao lado. Então desaparece no instante em que o trem começa a sair da estação.

— Tarde demais — diz o cinegrafista, lúgubre. — Ele não vai conseguir.

Meu peito está apertado demais para responder. Só posso olhar o trem que parte, passando vagão a vagão, acelerando, cada vez mais rápido... até finalmente ir embora.

E Nathaniel parado na plataforma. Está ali.

Sem afastar o olhar do dele começo a andar pela plataforma, acelerando quando chego à passarela. Do lado oposto ele faz o mesmo. Chegamos ao topo da escada, andamos um pouco e ambos paramos, a pouco mais de um metro de distância. Minha respiração sai depressa e o sangue inundou meu rosto. Sinto-me em choque, empolgada e incerta ao mesmo tempo.

— Achei que você estava indo para Cornwall — digo finalmente. — Comprar seu horto.

— Mudei de idéia. — Nathaniel também parece chocado. — Pensei em... visitar uma amiga em Londres.

— Ele olha para minha mala. — Aonde você ia?

Pigarreio.

— Estava pensando em... Cornwall.

— Cornwall? — Ele me encara.

— É. — Mostro minha programação de horários, subitamente querendo rir do ridículo daquilo.

Nathaniel se encosta no parapeito, os polegares nos bolsos, e examina as ripas de madeira da passarela.

— Então... onde estão seus amigos?

— Não sei. Foram embora. E não são meus amigos. Dei um soco no Guy — acrescento com orgulho.

Nathaniel vira a cabeça para trás e gargalha.

— Então eles demitiram você.

— Eu os demiti — corrijo.

— Foi? — pergunta Nathaniel, pasmo. Estende a mão para a minha mas eu não a seguro. Por baixo do júbilo continuo me sentindo inquieta. A mágoa desta manhã não passou. Não posso fingir que tudo está bem.

— Recebi o seu bilhete. — Levanto os olhos e Nathaniel se encolhe.

— Samantha... eu escrevi outro no trem. Para o caso de você não me receber em Londres.

Ele enfia a mão no bolso, sem jeito, e tira uma carta com várias folhas; os dois lados do papel cobertos de escrita. Seguro-a por um momento, sem ler.

— O que... o que ela diz? — levanto os olhos.

— É longa e tediosa. — Seu olhar se crava no meu. — E mal escrita.

Viro as páginas lentamente nos dedos. Aqui e ali vislumbro palavras que fazem meus olhos se encherem de lágrimas instantaneamente.

— Pois é — consigo dizer.

— Pois é. — Os braços de Nathaniel envolvem minha cintura; sua boca quente pousa na minha.

Enquanto ele me abraça com força sinto as lágrimas se derramando nas bochechas. Este é o meu lugar. É

aqui que me encaixo. Por fim me solto e olho para ele, enxugando os olhos.

— Para onde, agora? — Ele olha por cima da passarela e acompanho seu olhar. Os trilhos se estendem nas duas direções, até a distância. — Para que lado?

Observo a linha interminável, franzindo as pálpebras por causa do sol. Tenho 29 anos. Posso ir a qualquer lugar, Fazer qualquer coisa. Ser o que quiser.

— Não há pressa — digo finalmente, e levanto a mão para beijá-lo de novo.

FIM

 

Créditos: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=34725232

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