Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 16 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Dezesseis

No dia seguinte sou acordada por Trish batendo com força na minha porta.

- Samantha! Preciso falar com você! Agora!

Não são nem oito horas de uma manhã de sábado. Onde é o incêndio?

- Está bem! - grito sonolenta. - Espere um segundo!

Saio cambaleando da cama, a cabeça cheia com lembranças deliciosas de ontem à noite. A mão de Nathaniel na minha ... Os braços de Nathaniel me envolvendo ...

- Sim, Sra. Geiger? - Abro a porta e vejo Trish parada, de roupão, o rosto vermelho e os olhos injetados.

Ela põe a mão sobre o telefone sem fio que está segurando.

- Samantha. - Seus olhos estão mais estreitos do que nunca e há um estranho tom de triunfo em sua voz.

- Você mentiu para mim, não foi?

Sinto um clarão incandescente de choque e meu estômago cai no pé. Como ela... como ela pôde ...

- Não mentiu? - Ela me lança um olhar penetrante. - Tenho certeza que sabe do que estou falando.

Minha mente corre frenética por todas as mentiras que contei a Trish, até chegar a "sou empregada doméstica". Pode ser qualquer coisa. Pode ser algo pequeno e insignificante. Ou ela pode ter descoberto tudo.

- Não sei o quê a senhora está se referindo - digo em voz gutural. - Senhora.- Bem. - Trish vem até mim, farfalhando seu roupão de seda. - Como pode imaginar, estou muito chateada por você nunca ter me contado que fez paella para o embaixador espanhol.

Minha boca se escancarara. O embaixador o quê?

- Outro dia eu lhe perguntei se tinha cozinhado para alguma pessoa notável. - Trish arqueia a sobrancelha em reprovação. - Você nem mencionou o banquete para trezentas pessoas em Mansion House.

O quê? Ela perdeu o juízo?

Certo, será que Trish tem sido bipolar todo esse tempo? Isso explicaria muita coisa.

- Sra. Geiger - digo um tanto nervosa -, gostaria de se sentar?

- Não, obrigada! - responde ela cheia de irritação. - Ainda estou ao telefone com Lady Edgerly.

O chão parece balançar embaixo de mim. Freya está ao telefone?

- Lady Edgerly... - Trish ergue o telefone ao ouvido. - A senhora está certa, ela é despretensiosa demais...

- E ergue os olhos. - Lady Edgerly gostaria de trocar uma palavra com você.

Trish me entrega o telefone e, numa névoa de incredulidade, levo-o ao ouvido.

- Alô?

- Samantha? - A voz rouca e familiar de Freya irrompe no meu ouvido como um mar de estalos. - Você está bem? Que diabos está acontecendo?

- Estou... bem! - Olho para Trish, que continua parada e aproximadamente dois metros. - Só vou... a algum lugar um pouco mais...

Ignoro os olhos de laser de Trish, retiro-me para o quarto e fecho a porta com força. Então levo o telefone ao ouvido de novo.

- Estou bem! - Sinto um jorro de alegria por estar falando com Freya de novo. - É incrível falar com você!

- Que diabos está acontecendo? - pergunta ela de novo. - Recebi um recado que não fazia sentido! Você é empregada doméstica? Isso é alguma confusão?

- Não. - Olho para a porta, depois entro no banheiro e ligo o ventilador. -Sou uma empregada doméstica em tempo integral - digo em voz mais baixa.- Deixei o emprego na Carter Spink.

- Você se demitiu? - pergunta Freya incrédula. - Assim, sem mais nem menos?

- Não me demiti. Fui... mandada embora. Cometi um erro e eles me demitiram.

Ainda é difícil dizer. Ou mesmo pensar.

- Você foi mandada embora por causa de um simples erro? - Freya parece ultrajada. - Jesus Cristo, essa gente...

- Não foi um simples erro - interrompo-a no meio do fluxo. - Foi um erro grande, importante. De qualquer modo, foi isso que aconteceu. E decidi fazer alguma coisa diferente. Virar empregada doméstica por um tempo.

- Decidiu virar empregada doméstica - ecoa Freya devagar. - Samantha, você perdeu totalmente a cabeça?

- Por que não? - digo na defensiva. - Você é que dizia que eu devia dar um tempo.

- Mas empregada doméstica? Você não sabe cozinhar!

- Bom, sei.

- Quero dizer, você realmente não sabe cozinhar! - Agora ela está rindo. -Já vi você cozinhando. E sua faxina inexistente.

- Eu sei! - Uma onda de histeria me domina. No início foi um certo pesadelo. Mas estou meio...

aprendendo. Você ficaria surpresa.

- Você tem de usar avental?

- Tenho um uniforme de náilon medonho ... - Agora estou fungando de riso.- E chamo os dois de senhora ... e senhor ... e faço reverências ...

- Samantha, isso é insano - diz Freya entre engasgos de riso. -Absolutamente insano. Você não podo ficar aí. Vou resgatá-la. Vou voltar de avião amanhã ...

- Não! - respondo com mais veemência do que pretendia. - Não! Eu ... estou me divertindo. Está tudo bem.

Há um silêncio cheio de suspeitas do outro lado da linha. Droga. Freya me conhece bem demais.

- Com um homem? - A voz provocadora chega finalmente.

- Talvez. - Sinto um riso involuntário chegar ao meu rosto. - É.

- Detalhes?

- Ainda está começando. Mas ele... você sabe. É legal. - Rio idiota para meu próprio reflexo no espelho do banheiro.

- Bem, mesmo assim. Você sabe que só estou a um telefonema de distância. Pode ficar na nossa casa...

- Obrigada, Freya. - Sinto uma pontada de afeto por ela.

- Sem problemas. Samantha?

- Sim? - Há um longo silêncio até eu achar que a linha pode ter sido cortada.

- E a advocacia? - diz Freya por fim. - E ser sócia? Sei que peguei no seu pé por causa disso. Mas era o seu sonho. E vai simplesmente abandonar?

Sinto uma pontada de tristeza profunda, enterrada.

- Aquele sonho acabou - digo rapidamente. - Sócios não cometem erros de cinqüenta milhões de libras.

- Cinqüenta milhões de libras?

- É.

- Meu Deus. - Ela ofega, parecendo chocada. - Eu não fazia idéia. Não consigo imaginar como você suportou tudo isso...

- Está tudo bem - interrompo-a. - Superei. Verdade.

Freya suspira.

- Sabe, tive a sensação de que alguma coisa estava acontecendo. Tentei mandar um e-mail para você pelo site da Carter Spink. Mas sua página havia sumido.

- Verdade? - Sinto uma pontada pequena e estranha por dentro.

- Então pensei ... - Ela pára, e posso ouvir algum tipo de tumulto ao fundo.- Ah, merda. Nosso transporte chegou. Escute, ligo para você logo...

- Espera! - digo ansiosa. - Antes de desligar, Freya, por que, diabos, você falou a Trish sobre o embaixador espanhol? E a Mansion House?

- Ah, isso. - Ela dá um risinho. - Bom, ela ficou fazendo perguntas, por isso achei melhor inventar alguma coisa. Falei que você sabia dobrar guardanapos na forma de uma cena do Lago dos Cisnes ... e fazer esculturas de gelo... e que uma vez David Linley pediu sua receita de canudinhos de queijo ...

- Freya ... - fecho os olhos.

- Na verdade inventei um monte de coisas. Ela adorou! Tenho de ir, querida. Amo você.

- Amo você também.

O telefone fica mudo e eu permaneço imóvel por um momento com o banheiro subitamente silencioso sem a voz rouca de Freya em meio ao clamor de fundo da Índia.

Olho o relógio. Nove e quarenta e cinco. Só tenho tempo de dar uma olhada.

 

Três minutos depois estou sentada à mesa de Eddie, batendo os dedos enquanto espero que a conexão com a internet funcione. Perguntei a Trish se poderia mandar um e-mail para Lady Edgerly. Ela se mostrou solícita em abrir o escritório para mim e ficar esperando atrás da cadeira. Até que pedi educadamente para ela sair.

A página de Eddie se abre e imediatamente digito www.carterspink.com.

Quando o familiar logotipo roxo aparece e descreve um círculo de 360 graus na tela, sinto todas as velhas tensões retornando, como folhas subindo do fundo de um poço. Respiro fundo, clico rapidamente e passo pela introdução, indo direto a Advogados. A lista surge - e Freya está certa. Os nomes vão direto de Snell a Taylor. Sem Sweet.

Eu expiro, dizendo a mim mesma para ser racional. Claro que eles me tiraram. Fui demitida, o que mais eu esperava? Essa era minha velha vida e não estou mais preocupada com ela. Deveria simplesmente fechar o computador, ir para a casa de Iris e esquecer disso. É o que eu deveria fazer.

Em vez disso me pego usando o mouse e digitando "Samantha Sweet" na caixa de buscas. "Sem resultados" surge alguns instantes depois, e fico olhando, pasma.

Sem resultado? Em nenhum lugar de todo o site? Mas... e na seção de mídia? Ou Arquivos de Notícias?

Rapidamente clico na caixa de Contratos Feitos e procuro "Euro - Sal, fusão, DanCo". Foi um grande negócio feito no ano passado e eu cuidei das finanças. O relatório apareceu na tela, com o cabeçalho "Carter Spink orienta fusão de 20 bilhões de libras". Meus olhos percorrem o texto familiar "A equipe Cartes Spink foi liderada em Londres por Andold Saville, com os advogados Guy Ashby e Jane Smilington."

Paro incrédula, depois volto e leio o texto com mais cuidado, procurando as palavras que faltam -

deveria estar escrito "e Samantha Sweet". Mas as palavras não estão lá. Não estou lá. Rapidamente clico em outro negócio feito, a aquisição da Conlon. Sei que estou neste relatório. Já li, pelo amor de Deus. Eu estava na equipe, tenho uma lápide para provar.

Mas também não sou mencionada aqui.

Meu coração martela enquanto vou de um negócio a outro, recuando um ano. Dois anos. Cinco anos.

Eles me apagaram. Alguém repassou meticulosamente todo o site e retirou meu nome. Fui apagada de todos os negócios em que me envolvi. É como se nunca tivesse existido.

Respiro fundo, tentando ficar calma. Mas a raiva está borbulhando, quente e forte. Como eles ousam mudar a história? Como ousam me apagar? Eu lhes dei sete anos da minha vida. Não podem simplesmente me bloquear do lado de fora; fingir que nunca sequer estive na folha de pagamento.

Então um novo pensamento me acerta. Por que se incomodaram em fazer isso? Outras pessoas saíram da firma e não foram completamente apagadas. Por que sou um embaraço tão grande? Olho a tela em silêncio por um momento. Depois, lentamente, digito www.google.com e coloco "Samantha Sweet" na caixa. Acrescento "advogada" para garantir, e aperto enter.

Um instante depois a tela se enche de texto. Enquanto examino os itens sinto como se tivesse sido acertada na cabeça.

 

... o desastre de Samantha Sweet...

... descoberta, Samantha Sweet desapareceu sem dar notícias, deixando os colegas...

... ouviu falar de Samantha Sweet...

... piadas sobre Samantha Sweet. Como você chama um advogado que...

... Samantha Sweet foi demitida da Carter Spink...

 

Um depois de outro. Sites de advogados, serviços de notícias jurídicas, blogs de estudantes de direito. É

como se todo o mundo jurídico estivesse falando de mim pelas costas. Atordoada, clico na página seguinte -e há ainda mais. E na próxima página, e na próxima.

Sinto-me como se estivesse examinando uma ponte desmoronada. Olhando os danos; percebendo pela primeira vez como a devastação é ruim.

Nunca posso voltar.

Eu sabia.

Mas acho que não sabia de verdade. Não no fundo do estômago. Não onde é importante.

Sinto uma umidade na bochecha e pulo de pé, fechando todas as páginas; limpando o histórico, para o caso de Eddie ficar curioso. Desligo o computador e olho a sala silenciosa ao redor. É aqui que estou. Não lá. Aquela parte da minha vida acabou.

*

O chalé de Iris está idílico como sempre quando corro até a porta da frente, sem fôlego. Na verdade, ainda mais idílico agora, com um ganso andando com suas gansas.

- Olá. - Ela ergue a cabeça sorrindo, sentada com uma xícara de chá. -Você parece apressada.

- Só queria chegar a tempo. - Olho o jardim ao redor mas não vejo sinal de Nathaniel.

- Nathaniel teve de ir consertar um vazamento num dos pubs - diz Iris, como se lesse meu pensamento. -

Mas vai voltar depois. Enquanto isso vamos fazer pão.

- Ótimo! - Acompanho-a até a cozinha e ponho o mesmo avental listrado da outra vez.

- Já comecei - diz Iris indo até uma tigela grande e à moda antiga sobre a mesa. - Fermento, água quente, manteiga derretida e farinha. Misture tudo e você ter a massa. Agora vai amassar.

- Certo - digo de novo, olhando a massa com expressão vazia.

Ela me lança um olhar curioso.

- Você está bem, Samantha? Parece ... meio desligada.

- Estou bem. - Tento sorrir. - Desculpe.

Ela está certa. Não pareço ligada. Ande. Concentre-se.- Conheço pessoas que têm máquinas para fazer isso - diz ela, jogando a massa na mesa. - Mas é assim que fazemos do modo antigo. Nunca existirá um gosto melhor.

Ela aperta a massa algumas vezes.

- Está vendo? Dobre, vire um quarto de volta. Precisa usar um pouco de energia.

Cautelosamente mergulho as mãos na massa macia e tento imitar o que ela estava fazendo.

- É isso - diz Iris olhando atentamente. - Pegue um ritmo e realmente trabalhe a massa. Fazer pão é muito bom para aliviar o estresse -acrescenta com ar maroto.- Finja que está batendo em todos os seus piores inimigos.

- Farei isso! - consigo responder num tom animado.

Mas há um nó de tensão no meu peito, que não diminui enquanto amasso o pão. Na verdade, quanto mais dobro e viro a massa, pior aquilo fica. Não consigo impedir que a mente volte ao site. Não consigo impedir o fogo de injustiça dentro do peito.

Fiz coisas boas para aquela firma. Ganhei clientes. Negociei acordos. Não era um zero à esquerda.

Não era um zero à esquerda.

- Quanto mais você trabalhar a massa, melhor o pão ficará - diz Iris, vindo à mesa com um sorriso. Pode sentir como ela está ficando elástica nas mãos?

Olho a massa nos dedos, mas não consigo me conectar com ela. Não consigo sentir o que Iris está falando. Meus sentidos não estão ligados. Minha mente está deslizando como um pássaro sobre gelo.

Começo a amassar de novo, com mais força do que antes, tentando capturar a sensação. Quero encontrar o contentamento que tive na última vez, aqui; aquele sentimento de simplicidade e pé no chão. Mas fico perdendo o ritmo; xingando de frustração quando os dedos grudam na massa. Meus braços estão doendo; o rosto, suando. E o tumulto por dentro de mim só vai ficando pior.

Como ousaram me apagar? Eu era uma boa advogada.

Eu era uma boa advogada, cacete.

- Quer descansar? - Iris vem e toca o meu ombro. - É um trabalho duro quando a gente não está acostumada.

- Qual é o sentido? - As palavras disparam antes que eu possa impedir. -Quero dizer, qual é o sentido de tudo isso? Fazer pão. A gente faz e come. E depois ele vai embora.

Paro abruptamente, sem saber o que me deu. Minha respiração está curta e entrecortada. Não me sinto totalmente no controle de mim mesma.

Iris me olha atentamente.

- Você poderia dizer o mesmo com relação a toda comida - observa gentilmente. - Ou da vida em si.

- Exato. - Esfrego a testa com o avental. - Exato. Não sei o que estou falando. Por que estou brigando com Iris? Preciso me acalmar. Mas sinto a agitação fermentando por dentro.

- Acho que chega de amassar - diz ela, pegando a massa comigo e batendo-a até ficar redonda.

- E agora? - pergunto tentando falar mais normalmente. - Devo pôr no forno? -

- Ainda não. - Ela coloca a massa de volta na tigela e coloca em cima do fogão. - Agora esperamos.

- Esperamos? - Encaro-a. - Como assim, esperamos?- Esperamos. - Ela coloca uma toalha de pratos em cima da tigela. - Meia hora deve bastar. Vou fazer uma xícara de chá.

- Mas ... o que estamos esperando?

- Que o fermento cresça e faça sua mágica na massa. - Ela sorri. - Por baixo daquela toalha um pequeno milagre está acontecendo.

Olho a tigela, tentando pensar em milagres. Mas não tá funcionando. Não consigo me sentir calma nem serena. Meu corpo está retesado demais; cada nervo salta de tensão. Eu costumava controlar meu tempo até cada minuto. Cada segundo. E agora devo esperar o fermento? Devo ficar aqui, de avental, esperando um...

fungo?

- Desculpe - ouço-me dizendo. - Não consigo fazer isso. - Vou para a porta da cozinha e saio para o jardim.

- O quê? - Iris vem atrás, enxugando as mãos no avental. - Querida, o que há de errado?

- Não consigo fazer isso! - Viro-me para ela. Não consigo ... simplesmente ficar sentada com paciência, esperando que o fermento faça seu número.

- Por que não?

- Por que é uma tremenda perda de tempo! - Seguro a cabeça, frustrada. -É uma tremenda perda de tempo. Tudo isso!

- O que você acha que deveríamos estar fazendo, então? - pergunta ela com interesse.

- Alguma coisa... importante. Certo? - Vou até a macieira e volto, incapaz de ficar parada. - Alguma coisa construtiva.

Olho para Iris, mas ela não parece ofendida. Em vez disso parece se divertir.

- O que é mais construtivo do que fazer pão?

Ah, meu Deus. Sinto uma ânsia de gritar. Está tudo bem para ela, com suas galinhas, seu avental e nenhuma carreira destroçada na intemet.

- Você não entende nada - digo à beira das lágrimas. - Desculpe, mas não entende. Olha... eu vou embora.

- Não vá. - A voz de Iris é surpreendentemente firme. No momento seguinte está à minha frente, pondo as mãos nos meus ombros, me olhando com os olhos azuis penetrantes.

- Samantha, você teve um trauma - diz em voz gentil. - E isso a afetou muito profundamente ...

- Eu não tive um trauma! - Giro para longe, fora de seu alcance. -Simplesmente ... não consigo fazer isso, Iris. Não posso fingir que sou isso. Não sou padeira, certo? Não sou uma rainha do lar. - Olho o quintal ao redor, desesperada, como se procurasse alguma pista. Não sei mais quem sou. Não faço a mínima idéia.

Uma única lágrima escorre pelo meu rosto e eu a enxugo com força. Não vou chorar na frente de lris.

- Não sei quem sou. - Eu expiro com mais calma. - Nem qual é meu objetivo ... nem para onde vou na vida. Nem nada.

Minha energia se foi e afundo na grama seca. Alguns instantes depois Iris vem e se agacha ao meu lado.

- Não importa - diz ela em voz suave. - Não se critique por não saber todas as respostas. Nem sempre sabemos quem somos. Não é preciso ter o quadro geral, nem saber para onde estamos indo. Algumas vezes basta saber o que vamos fazer em seguida.

Por um tempo não digo nada. Deixo suas palavras correrem pela minha cabeça, como água fria numa dor de cabeça.

- E o que vou fazer em seguida? - digo finalmente, dando de ombros desamparada.

- Vai me ajudar a debulhar favas para o almoço. - Ela parece tão casual que não consigo evitar um meio sorriso.

 

Acompanho Iris humildemente para dentro de casa, pego uma grande tigela de favas e começo a debulhar, como ela me mostra. Cascas num cesto no chão. Grãos na bacia. De novo, de novo e de novo.

Fico um pouco mais calma à medida que mergulho na tarefa. Eu nem sabia que as favas vinham em vagens assim.

Para ser honesta, toda a minha experiência com favas foi pegá-las num pacote coberto de plástico na Waitrose, colocar na geladeira, tirar uma semana depois do prazo de validade se esgotar e jogar no lixo.

Mas isto é a coisa de verdade. É assim que elas são, arrancadas do solo. Ou ... colhidas nos galhos. Sei lá.

Cada vez que abro uma é como encontrar uma fileira de jóias verde-claras. E quando ponho uma na boca, como ...

Ah, certo. Precisa ser cozida.

Eca.

 

Quando terminei com as favas amassamos o pão de novo. Moldamos, colocamos em formas e depois temos de esperar mais meia hora para crescer de novo. Mas, de algum modo, desta vez não me incomodo. Fico sentada à mesa com Iris, tirando cabinhos de morangos e ouvindo o rádio até que é hora de colocar as formas de pão no forno. Então Iris enche uma bandeja com queijo, salada de feijão, biscoitos e morangos e levamos para fora, para uma mesa arrumada à sombra de uma árvore.- Pronto - diz ela, colocando um pouco de chá gelado numa jarra de vidro.- Está melhor?

- Sim. Obrigada - digo sem jeito. - Desculpe o que fiz antes. Eu só...

- Samantha, está tudo bem. - Ela me olha brevemente, enquanto corta o queijo. - Não precisa se desculpar.

- Mas preciso sim. - Respiro fundo. - Agradeço de verdade, Iris. Você tem sido tão gentil ... e Nathaniel.

..

- Ouvi dizer que ele levou você ao pub.

- Foi incrível! - digo entusiasmada. - Você deve sentir tanto orgulho de ter isso na família!

Iris assente.

- Aqueles pubs são dos Blewetts há gerações. - Ela se senta e nos serve de salada de feijão temperada com azeite e salpicada de ervas. Pego um bocado - e é absolutamente deliciosa.

- Deve ter sido difícil quando seu marido morreu - digo cautelosamente.

- Tudo ficou numa tremenda confusão. - Iris parece casual. Uma galinha vem até a mesa e ela a espanta.

- Houve dificuldades financeiras, eu não estava bem. Se não fosse Nathaniel poderíamos ter perdido os pubs. Ele garantiu que voltassem aos trilhos. Pela memória do pai. - Os olhos de Iris se nublam um pouco e ela hesita, com o garfo a caminho da boca. - A gente nunca sabe o que vai acontecer, por mais que planeje.

Mas você já sabe disso.

- Sempre pensei que minha vida seria de um determinado jeito - digo olhando o prato. - Tinha tudo mapeado.

- Mas não aconteceu assim?

Por alguns segundos não posso responder. Estou me lembrando do momento em que soube que ia virar sócia. Aquele instante de júbilo não diluído, ofuscante. Quando pensei que minha vida finalmente havia se encaixado; quando achei que tudo estava perfeito.

- Não - digo tentando manter a voz firme. - Não aconteceu assim.

Iris está me espiando com olhos tão claros, simpáticos, que quase acho que ela pode ler minha mente.

- Não seja dura demais com você, querida - diz ela. - Todo mundo passa por um naufrágio.

Não imagino Iris jamais passando por um naufrágio. Ela parece tão calma e controlada!

- Ah, eu naufraguei - diz ela, lendo minha expressão. - Depois que Benjamin se foi. Foi súbito demais.

Tudo que pensei que tinha sumiu de uma hora para a outra.

- Então ... o que você... - abro as mãos, desamparada.

- Encontrei outro caminho. Mas demorou. - Por um momento ela sustenta meu olhar, depois olha o relógio. - Por falar nisso, vou fazer um café. E ver com aquele pão vai indo.

Levanto-me para acompanhá-la, mas ela me obriga a me sentar de novo.

- Sente-se. Fique. Relaxe.

 

Fico sentada ali, à luz manchada do sol, tomando o chá gelado, tentando relaxar. Mas as emoções continuam nadando rapidamente ao meu redor como peixes inquietos.

Outro caminho.

Mas não conheço nenhum outro caminho. Não tenho idéia do que estou fazendo; não tenho idéia de qual é o quadro geral. Sinto que a luz se foi e estou tateando o caminho, um passo de cada vez. E só sei que não posso voltar ao que era.

Fecho os olhos com força, tentando limpar o pensamento. Não deveria ter olhado o site. Não deveria ter lido os comentários. Agora aquele é um mundo diferente.

- Estenda os braços, Samantha. - A voz de Iris está subitamente atrás de mim. - Não abra os olhos. Ande.

Não tenho idéia do que ela vai fazer, mas fecho os olhos e estendo os braços. No momento seguinte sinto algo quente sendo posto neles. Um cheiro fermentado está subindo. Abro os olhos e vejo um pão nos meus braços.

Olho-o numa incredulidade total. Parece pão de verdade. Pão de verdade como o que a gente vê numa vitrine de padaria. Gordo, rechonchudo e de um marrom dourado, com leve estrias e uma crosta na parte de cima, quase em flocos.O cheiro é tão delicioso que sinto água na boca.

- Diga que isso não é nada - insiste Iris apertando meu braço. - Você é que fez, querida. E deveria ter orgulho de si mesma.

Não posso responder. Alguma coisa quente entala minha garganta enquanto seguro o pão morno. Eu fiz esse pão. Eu fiz, eu, Samantha Sweet, que nem era capaz de esquentar um pacote de sopa no microondas.

Que abriu mão de sete anos da vida para acabar com nada, para ser apagada da existência. Que não tem mais idéia de quem ela é.

Fiz um pão. Neste momento sinto como se fosse a única coisa que tenho para me segurar.

Para meu horror uma lágrima rola subitamente pela bochecha, seguida por outra. Isso é ridículo. Preciso me segurar.

- Parece bom - diz a voz tranqüila de Nathaniel atrás de mim, e giro em choque. Ele está parado perto de Iris, o cabelo luzindo ao sol.

- Oi - digo sem graça. - Achei que você estava... consertando um cano ou algo assim.

- Ainda estou. - Ele assente. - Só vim dar um pulo em casa.

- Vou tirar os outros pães - diz Iris, dando um tapinha no meu ombro, e desaparece pelo gramado em direção à casa.

Levanto-me e olho Nathaniel por cima do pão. Só a visão dele acrescenta todo tipo de emoções à mistura: mais peixes nadando ao redor do meu corpo.

Se bem que, agora que penso nisso, são principalmente variedades do mesmo peixe.

- Você está bem? - pergunta ele, olhando minha lágrimas.

- Estou. Só que foi um dia estranho - digo enxugando-as embaraçada. - Em geral não fico tão emotiva com ... pão.

- Mamãe disse que você ficou meio frustrada. - Ele ergue as sobrancelhas. -De tanto apertar a massa?

- Foi o crescimento. - Dou um sorriso pesaroso - Ter de esperar. Nunca fui boa em esperar.

- Ahã. - Os olhos firmes e azuis de Nathaniel encontram os meus.

- Qualquer coisa. - De algum modo, pareço estar chegando cada vez mais perto dele. Não sei totalmente por quê. - Preciso ter as coisas agora.

- Ahã.

Agora estamos separados por centímetros. E enquanto o olho, ofegando, todas as frustrações e choques das últimas duas semanas parecem estar se destilando dentro de mim. Um gigantesco bloco de pressão crescendo até que não suporto mais. Preciso soltá-lo. Incapaz de me impedir, estendo a mão e puxo o rosto dele para o meu.

Não beijava assim desde que era adolescente. Cada um com os braços em volta do outro; sem perceber mais nada no mundo. Completamente perdidos. Trish poderia estar ali com uma câmera de vídeo, dirigindo a cena, eu não notaria.

Parece que horas se passaram quando abro os olhos e nos separamos. Sinto os lábios inchados; as pernas bambas. Nathaniel parece igualmente chocado. Seus olhos estão opacos e ele respira mais depressa.

O pão está totalmente esmagado, noto de repente. Tento ajeitá-la do melhor modo que posso, colocando-o na mesa como um pote de cerâmica deformado enquanto recupero o fôlego.

- Não tenho muito tempo - diz Nathaniel. Preciso voltar ao pub. - Ele passa a mão de leve pelas minhas costas e sinto o corpo se curvando para o dele.

- Eu não demoro muito - digo com a voz rouca de desejo.

Quando, exatamente, fiquei tão ousada?

- Realmente não tenho muito tempo. - Ele olha o relógio. - Uns seis minutos.

- Eu só levo seis minutos - murmuro com um olhar provocador e Nathaniel sorri de volta, como se eu estivesse brincando.

- Sério - digo tentando parecer modesta mas sensual. - Sou rápida. Seis minutos, mais ou menos.

Há silêncio por alguns instantes. Uma expressão incrédula vem surgindo sobre o rosto de Nathaniel. De algum modo, ele não parece tão impressionado como imaginei.

- Bem ... por aqui nós fazemos as coisas meio devagar - diz finalmente.

- Certo - respondo tentando não parecer totalmente desapontada. O que ele está tentando dizer? Que tem algum tipo de problema? - É ... bem ... tenho certeza ... - deixo no ar.

Não deveria ter começado aquela frase.

Ele olha o relógio de novo.

- Preciso ir. Tenho de ir até Gloucester esta noite.

Sinto uma queda por dentro diante de seu tom profissional. Agora ele mal olha para mim. Não deveria ter mencionado tempos, percebo consternada. Todo mundo sabe, nunca se fala de qualquer tipo de medida numérica durante o sexo com um homem. É a regra mais básica. Isso, e não pegar o controle remoto na metade a não ser que você tenha certeza de que está com o botão de mudo acionado.

- Então ... vejo você - digo tentando parecer casual e ao mesmo tempo encorajadora. - O que vai fazer amanhã?

- Ainda não sei. - Ele dá de ombros, sem se comprometer. - Você vai ficar por aí?

- Acho que sim. Talvez.

- Bem... talvez eu veja você.

E com isso ele está se afastando de novo pelo gramado e sou deixada apenas com um pão amassado e uma confusão total.