Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 23 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Vinte e Quatro

Estou errada. O interesse da mídia não diminui. Acordo na manhã seguinte e encontro o dobro de jornalistas de ontem, acampados do lado de fora, além de dois furgões de TV. Quando desço, carregando uma bandeja de xícaras de café sujas, vejo Melissa encostada na janela, olhando a cena.- Oi - diz ela. - Já viu quantos jornalistas?

-É. - Não consigo deixar de parar junto dela olhar de novo. - É totalmente maluco.

- Deve ser realmente esmagador. - Ela joga o cabelo para trás e examina as unhas por um momento. Mas você sabe... estou aqui para o que der e vier.

Por um momento acho que devo ter ouvido mal.

- É... o que...?

- Estou aqui para ajudar você. - Melissa levanta a cabeça. - Sou sua amiga. Vou ajudá-la a passar por isso.

Estou pasma demais até mesmo para rir.

- Melissa, você não é minha amiga - digo o mais educadamente que posso.

- Sou sim! - Ela parece totalmente inabalável Sempre admirei você, Samantha. Na verdade, sabia o tempo todo que você não era realmente uma empregada doméstica. Sabia que havia mais alguma coisa.

Não acredito. Como ela pode ficar ali parada, tão cara-de-pau?

- De repente você é minha amiga. - Não tento esconder o ceticismo. - E isso não tem nada a ver com o fato de ter descoberto que sou advogada? Ou com o fato de você querer uma carreira no direito?

- Sempre gostei de você - diz ela teimosamente.

- Melissa, qual é! - Dou-lhe o olhar mais duro que consigo, e para minha satisfação vejo apenas um minúsculo tom de rosado aparecer em volta de suas orelhas. Mas a expressão permanece impassível.

Odeio dizer, mas essa garota vai ser uma ótima advogada.

- Então... quer mesmo me ajudar? – pergunto franzindo a testa, pensativa.- Quero! - Ela assente, com uma fagulha de empolgação no rosto. - Poderia servir como elemento de ligação com a Carter Spink... ou você poderia me contratar como porta-voz...

- Será que poderia levar isto? - Entrego-lhe a bandeja que estava carregando, com um sorriso doce. E

tenho uma camisa que precisa ser passada. Só tenha muito cuidado com o colarinho, certo?

Sua careta é inestimável. Tentando não rir, continuo a descer e entro na cozinha. Eddie está sentado à mesa coberta de jornais e levanta a cabeça quando entro.

- Você saiu em absolutamente todos os jornais. - informa. - Olhe. - E mostra uma matéria de duas páginas no Sun. Há uma foto minha superposta em um vaso sanitário, e alguém desenhou uma escova de limpar privada numa das minhas mãos. "Prefiro lavar privadas!" Está escrito em letras enormes perto do meu rosto.

- Ah, meu Deus. - Afundo numa cadeira e olho a foto. – Por quê?

- É agosto - diz Eddie, folheando o Telegraph. Não há mais nada no noticiário. - Diz aqui que você é "uma vítima da sociedade atual obcecada pelo trabalho". - Ele vira o jornal para me mostrar um pequeno item com a manchete FIGURONA DA CARTER SPINK ESCOLHE TRABALHO BRAÇAL DEPOIS DE

BOATOS DE ESCÂNDALO.

- Diz aqui que você é "uma judas para as mulheres profissionais em toda parte". - Atrás de mim Melissa largou a bandeja na bancada com um estrondo e pegou o Herald.

- Olhe: essa colunista, Mindy Malone, está realmente furiosa com você.

- Furiosa? - ecôo perplexa. - Por que alguém estaria furiosa comigo?- Mas no Daily Mail você é salvadora dos valores tradicionais. - Eddie pega o jornal e abre. - "Samantha Sweet acredita que as mulheres devam voltar para junto do fogão pelo bem da própria saúde e da sociedade".

- O quê? Eu nunca disse isso! - Pego o jornal e examino o texto, incrédula.- Por que eles estão tão obcecados?

- Temporada fraca -. diz Eddie pegando o Express - E verdade que você descobriu sozinha ligações com a Máfia na sua firma?

- Não! - olho horrorizada. - Quem falou isso?

- Não lembro onde vi - responde ele folheando as páginas. - Há uma foto de sua mãe neste. É bonita.

- Minha mãe? - Olho consternada.

- Importante filha de mãe importante -lê Eddie em voz alta. - Será que a pressão do sucesso foi demasiada?

Ah, meu Deus. Mamãe vai me matar.

- Este aqui tem uma pesquisa. - Eddie abriu outro jornal. - "Samantha Sweet, heroína ou idiota? Telefone ou mande seu voto por mensagem de texto," Eles dão um número para ligar. - Eddie pega o telefone e franze a testa. - Devo votar em quê?

- Idiota - diz Melissa pegando o telefone. – Eu faço isso.

- Samantha! Já acordou?

Levanto a cabeça e vejo Trish entrando na cozinha segurando um maço de jornais sob o braço. Quando me olha está com a mesma expressão chocada de ontem, como se eu fosse uma obra de arte inestimável que ela subitamente pendurou na cozinha.

- Estive lendo sobre você!

- Bom-dia, Sra. Geiger. - Pouso o Daily Mail e me levanto rapidamente. - O que posso fazer para o desjejum? Um café, para começar?

- Não faça o café, Samantha! - responde ela, parecendo abalada. - Eddie, você pode fazer o café!

- Não vou fazer café! - reage Eddie.

- Então ... Melissa! - diz Trish. - Faça um bom café para todos nós. Samantha, sente-se ao menos uma vez! Você é nossa convidada! - Ela dá um riso sem naturalidade.

- Não sou convidada de vocês! - protesto. – Sou sua empregada!

Vejo Eddie e Trish trocando olhares de dúvida. O que eles acham? Que vou embora?

- Nada é diferente! - insisto. - Ainda sou sua empregada! Só quero continuar o trabalho como sempre.

- Você é maluca. - Melissa revira os olhos cheia de desprezo. - Já viu quanto a Carter Spink quer lhe pagar?

- Você não entenderia - respondo. - Sr. e Sra. Geiger, vocês entenderiam. Aprendi muita coisa vivendo aqui. Mudei como pessoa. E descobri uma vida plena. E, eu poderia ganhar muito mais dinheiro sendo advogada em Londres. É, poderia ter uma carreira poderosa e cheia de pressão. Mas não é isso que eu quero. - Abro os braços indicando a cozinha ao redor. - E isso que eu quero fazer. É aqui que eu quero estar.

Fico esperando que Trish e Eddie comecem a parecer comovidos com meu pequeno discurso. Em vez disso os dois me espiam com total incompreensão, depois se entreolham.

- Acho que você deveria pensar na oferta – diz Eddie. - Diz no jornal que eles estão desesperados para conquistá-la de volta.

- Nós não ficaríamos nem um pouco ofendidos você fosse embora -acrescenta Trish, assentindo com ênfase. - Entenderíamos completamente.

É só isso que eles podem dizer? Não estão satisfeitos por que eu quero ficar? Não me querem como empregada?

- Não quero ir embora! - reajo irritada. – Quero ficar aqui e desfrutar de uma vida plena num ritmo diferente.

- Certo - diz Eddie depois de uma pausa, depois, sub-repticiamente faz uma cara tipo "o quê?" para Trish.

O telefone toca e Trish atende.

- Alô? - Ela ouve por um momento. - Sim, claro, Mavis. E Trudy. Vejo vocês mais tarde! - Ela pousa o aparelho. - Mais duas convidadas para o almoço de caridade!

- Certo. - Olho o relógio. - É melhor eu começar a preparar as entradas.

Quando estou pegando a massa o telefone toca de novo e Trish suspira.

- Se forem mais convidadas de última hora... Alô? - Enquanto ouve, sua expressão muda e ela põe a mão sobre o fone.

- Samantha - sussurra ela. - É uma agência de publicidade. Você quer aparecer num comercial de TV do Pato Purific? Iria usar peruca de advogado e toga e teria de dizer...

- Não! -respondo me encolhendo.- Claro que não!

- Nunca se deve recusar a TV - diz Eddie, reprovando. - Poderia ser uma grande oportunidade.

- Não, não poderia! Não quero aparecer em nenhum comercial! - vejo Eddie abrindo a boca para argumentar. - Não quero dar nenhuma entrevista acrescento depressa. - Não quero ser modelo de comportamento. Só quero que tudo volte ao normal.

Pela hora do almoço nada voltou ao normal. Na verdade tudo está mais surreal ainda do que antes.

Recebi mais três pedidos de aparecer na TV e um para fazer uma seção de fotos "de bom gosto" para o Sun, com uniforme de doméstica. Trish deu uma entrevista exclusiva ao Mail. Pessoas que ligaram para um programa de rádio que Melissa insistiu em ouvir me descreveram como "imbecil antifeminista", "pretensa Martha Stewart" e "parasita dos contribuintes que pagaram por meus estudos". Fiquei tão furiosa que quase telefonei também.

Mas em vez disso desliguei o rádio e respirei fundo três vezes. Não vou me permitir ser arrastada para controvérsias. Tenho outras coisas em que pensar. Quatorze convidadas chegaram para o almoço de caridade e estão andando no gramado. Tenho tortinhas de cogumelo selvagem para assar, molho de aspargos para terminar e filés de salmão para pôr no fomo.

Queria desesperadamente que Nathaniel estivesse aqui para me manter calma. Mas ele foi a Buckingham pegar algumas carpas japonesas para o laguinho, que Trish decidiu subitamente que precisava ter.

Aparentemente custam centenas de libras e todas as celebridades têm. É ridículo. Ninguém jamais olha o laguinho.

A campainha toca no momento em que estou abrindo o fomo, e dou um suspiro. Outra convidada, não.

Tivemos quatro aceitações de última hora nesta manhã, o que estragou totalmente minha programação.

Para não falar da jornalista do Mirror que, vestida num conjunto floral, tentou convencer a Eddie que era uma nova moradora do povoado.

Ponho a forma com tortinhas no fomo, pego o resto da massa e começo a limpar o rolo de pastel.

- Samantha? - Trish dá uma batida na porta. - Temos mais uma pessoa!- Mais uma? - Viro-me, limpando farinha da bochecha. - Acabei de colocar as tortinhas no forno...

- É um amigo seu. Diz que precisa falar com você urgentemente. Serão negócios? - Trish levanta a sobrancelha de modo significativo e depois fica de lado. E congelo, atônita.

É o Guy. Ali parado na cozinha de Trish. Com seu imaculado temo Jermyn Street e punhos engomados.

Encaro-o incapaz de falar, absolutamente perplexa.

A avaliar por sua expressão, ele está bem aparvalhado, também.

- Ah, meu Deus - diz ele vagarosamente, os olhos observando meu uniforme, o rolo de pastel, as mãos com farinha. - Você é mesmo empregada doméstica.

- Sou. - Levanto o queixo. - Sou mesmo.

- Samantha... - diz Trish à porta. - Não que eu queira interromper, mas... servimos as entradas em dez minutos?

- Claro, Sra. Geiger. - Automaticamente faço uma reverência quando Trish sai e os olhos de Guy quase caem da cabeça.

- Você faz reverência?

- A reverência foi um certo equívoco - admito. Capto seu olhar pasmo e sinto um risinho subindo por dentro. - Guy, o que você está fazendo aqui?

- Vim convencê-la a voltar.

Claro que veio. Eu deveria ter adivinhado.

- Não vou voltar. Com licença. - Pego a vassoura e a pá de lixo e começo a varrer a farinha e as migalhas de massa no chão. - Cuidado com os pés!

- Ah. Certo. - Guy sai desajeitadamente do caminho.

Jogo as migalhas de massa no lixo, depois tiro o molho de aspargos da geladeira, coloco numa panela e ponho em fogo baixo.

Guy está me olhando com curiosidade.

- Samantha - diz quando me viro. – Precisamos conversar.

- Estou ocupada. - A campainha do temporizador da cozinha ressoa estridente e eu abro o forno de baixo para tirar os rolinhos de alho com alecrim. Sinto um jorro de orgulho ao vê-las, todos de um marrom dourado e soltando um perfume delicioso, de ervas. Não resisto a beliscar um deles, depois ofereço a Guy.

- Você fez isso? - Ele parece atarantado. – Não sabia que você sabia cozinhar.

- Não sabia. Aprendi. - Enfio a mão na geladeira de novo para pegar manteiga sem sal e jogo um pouco no fumegante molho de aspargos. Depois olho para Guy que está parado perto do suporte de utensílios. – Poderia me passar um batedor?

Guy olha desamparado para os utensílios.

- É... qual é o...

- Não se preocupe. - Estalo a língua. - Eu pego.

- Tenho uma oferta para você - diz Guy enquanto pego o misturador e começo a bater a manteiga. Acho que deveria olhar.

- Não estou interessada. - Nem levanto a cabeça.

- Você ainda não viu. - Ele enfia a mão no bolso de dentro e pega uma carta branca. - Aqui. Olhe.

- Não estou interessada! - repito com exasperação. - Você não entende? Não quero voltar. Não quero ser advogada.

- Em vez disso quer ser empregada doméstica. - Seu tom é tão superior que me sinto ferida.

- É! - E largo o batedor. - Quero sim! Estou feliz aqui. Estou relaxada. Você não faz idéia. É uma vida diferente!

- É, entendi. - Guy olha minha vassoura. Samantha, você precisa enxergar a razão. - Ele pega um telefone no bolso de dentro. - Há alguém com quem você realmente deveria falar. - Ele digita um número e depois levanta os olhos. - Estive em contato com sua mãe para falar da situação.

- Você o quê? - Encaro-o horrorizada. – Como ousa ...

- Samantha, só quero o melhor para você. Ela também. -Oi, Jane - diz ele ao telefone. -Estou com ela agora. Vou passar.

Não acredito. Por um instante sinto vontade de jogar o telefone pela janela. Mas não. Posso enfrentar isso.

- Oi, mamãe - digo pegando o telefone com Guy. - Quanto tempo.

- Samantha. - Sua voz é tão gélida quanto na última vez em que falamos. Mas de alguma maneira isso não me deixa tensa ou ansiosa. Ela não pode me dizer o que fazer. Não faz mais idéia do que é minha vida.

– O que, exatamente, você acha que está fazendo? Trabalhando como algum tipo de doméstica?

- Isso mesmo. Sou empregada doméstica. E acho que você quer que eu volte a ser advogada, não é?

Bom, estou feliz e não vou. - Provo o molho de aspargos e acrescento um pouco de sal.

- Você pode achar engraçado ser petulante – diz ela em tom peremptório. -Trata-se da sua vida, Samantha. Sua carreira. Acho que você não entende...

- Você não entende! Nenhum de vocês! – Olho furiosa para Guy, depois baixo o fogo e me encosto na bancada. - Mamãe, eu aprendi um modo diferente de viver. Faço meu trabalho do dia, acabo... e só. Sou livre. Não preciso levar papelada para casa. Não preciso ter meu BlackBerry ligado 24 horas por dia sete dias por semana. Posso ir ao pub, posso ter planos para o fim de semana, posso me sentar no jardim por meia hora com os pés para cima ... e isso não faz mal. Não tenho mais pressão constante. Não estou estressada. E isso me serve. – Pego um copo, encho d'água e tomo um gole comprido, depois enxugo a boca. - Desculpe, mas eu mudei. Fiz amigos. Conheço a comunidade aqui. É como... os Waltons.

- Os Waltons? - Ela parece espantada. – Há crianças aí?

- Não! - digo frustrada. – Você não entende! Eles simplesmente... se importam. Por exemplo: há duas semanas me deram uma festa de aniversário incrível.

Há silêncio. Imagino se toquei num ponto sensível.

- Que bizarro! - diz ela em tom cortante. – Seu aniversário foi há dois meses.

- Eu sei. - Suspiro. - Olha, mãe, estou decidida. - O forno solta um ping subitamente e eu pego uma luva térmica. - Preciso desligar.

- Samantha, esta conversa não terminou! – diz ela furiosa. - Nós não terminamos.

- Terminamos, sim, certo? Terminamos! – Desligo o telefone, jogo na mesa e solto o ar, meio trêmula mesmo contra a vontade. - Muito obrigada, Guy-digo rapidamente. - Mais alguma surpresinha para mim?

- Samantha... - Ele abre os braços como se pedisse desculpas. - Eu estava tentando alcançar você...

- Não preciso "ser alcançada". - Viro-me para outro lado. - E agora tenho de trabalhar. Este é o meu emprego.

Abro o forno de baixo, tiro as formas com as tortinhas e começo a colocá-las em pratinhos quentes.

- Vou ajudar - diz Guy aproximando-se.

- Você não pode ajudar. - Reviro os olhos.

- Claro que posso. - Para minha perplexidade ele tira o paletó, enrola as mangas e coloca um avental estampado de cerejas. - O que faço?

Não consigo evitar um risinho. Ele parece incongruente demais.

- Ótimo. - Entrego uma bandeja. - Pode levar as entradas comigo.

Vamos à sala de jantar, levando as tortinhas de cogumelo e os rolinhos. Quando entramos na sala com toldo branco, a conversa pára e 14 cabeças tingidas e cheias de laquê se viram. As convidadas de Trish estão sentadas ao redor da mesa, tomando champanha, cada uma usando um conjunto de uma cor pastel diferente. É como entrar num mostruário de tintas.

- E esta é Samantha! - diz Trish, cujas bochechas estão de um rosado forte. -Todas vocês conhecem Samantha, nossa empregada... e além disso advogada importante!

Para meu embaraço, aplausos irrompem.

- Vimos você nos jornais! - diz uma mulher vestida de creme.

- Preciso falar com você. - Uma mulher de azul se inclina com expressão intensa. - Sobre meu acordo de divórcio.

Acho que vou fingir que não escutei.

- Este é Guy, que está me ajudando hoje – digo começando a servir as tortas de cogumelos.

- Ele também é sócio na Carter Spink – acresenta Trish com orgulho.

Vejo olhares impressionados sendo trocados ao redor da mesa. Uma mulher idosa, na outra ponta, se vira para Trish, perplexa.

- Todos os seus empregados são advogados?

- Nem todos - diz Trish com ar superior, tomando um grande gole de champanha. - Mas sabe, tendo uma empregada formada em Cambridge eu nunca poderia voltar atrás.

- Onde você os consegue? - pergunta avidamente uma ruiva. - Há uma agência especial?

- Chama-se Domésticos Oxbridge - diz Guy, pondo uma tortinha de cogumelos diante dela. – Muito exclusiva. Só quem tem diploma de primeira classe pode se candidatar.

- Minha nossa! - A ruiva olha para cima, boquiaberta.

- Eu, por outro lado, cursei Harvard – continua ele. - Portanto, sou da Serviçais Harvard. Nosso lema é: "Para isso é que serve uma educação de alto nível." Não é, Samantha?

- Cala a boca - murmuro. - Só sirva a comida.

Por fim todas as senhoras são servidas e recuamos para a cozinha vazia.

- Muito engraçado - digo largando a bandeja com um estrondo. - Você é tão espirituoso!

- Ah, pelo amor de Deus, Samantha. Você esperava que eu levasse isso tudo a sério? Jesus. - Ele tira o avental e o joga na mesa. - Servir comida a um punhado de avoadas. Deixar que elas banquem as superioras.

- Tenho um trabalho a fazer - digo tensa, abrindo o forno para verificar o salmão. - Portanto, se não vai ajudar...

- Este não é o trabalho que você deveria estar fazendo! - Ele explode subitamente. - Samantha, isso é uma tremenda de uma piada. Você tem mais cérebro do que qualquer uma naquela sala, e está servindo a elas? Está fazendo reverências para elas? Está limpando o banheiro delas?

Ele parece tão passional que me viro, chocada. Seu rosto está vermelho e todos os traços de provocação divertida sumiram.- Samantha, você é uma das pessoas mais brilhantes que eu conheço. - Sua voz está -trêmula de raiva. –Tem a melhor mente jurídica que qualquer um de nós já viu. Não posso deixar que jogue a vida fora nessa... porcaria iludida.

Encaro-o exaltada.

- Não é coisa nenhuma iludida! Só porque não estou "usando meu diploma", só porque não estou num escritório, estou desperdiçando a vida? Guy, eu estou feliz. Estou curtindo a vida de um modo que nunca fiz. Eu gosto de cozinhar. Gosto de cuidar de uma casa. Gosto de colher morangos no jardim ...

- Você está vivendo na terra da fantasia! – grita ele. - Samantha, tudo isso é novidade! É divertido porque você nunca vez antes! Mas com o tempo vai se desgastar! Você não vê?

Sinto uma pontada de incerteza por dentro, que ignoro.

- Não vai não. - Dou uma mexida enérgica no molho de aspargos. - Eu adoro esta vida.

- Ainda vai adorar quando estiver lavando banheiros há dez anos? Caia na real. - Ele vem até o fogão e eu me viro. - Então você precisava de férias. Precisava de uma folga. Tudo bem. Mas agora precisa voltar à vida real.

- Isto é a vida real para mim - atiro de volta. – É mais real do que minha vida antiga.

Guy balança a cabeça.

- Charlote e eu fomos à Toscana no ano passado e eu aprendi a pintar aquarelas. Adorei. O azeite... os pores-do-sol, a coisa toda. - Ele me encara com intensidade por um momento e depois se inclina adiante.

Isso não significa que vou me tomar uma droga de aquarelista da Toscana.

- É diferente! - Arranco o meu olhar para longe dele. - Guy, não vou voltar àquela carga de trabalho. Não vou voltar àquela pressão. Trabalhei sete dias por semana, durante sete anos, porcaria ...

- Exato. Exato! E assim que ganha a recompensa você dá o fora? - Ele segura a cabeça. - Samatha, não sei se você entende a posição em que está. Foi-lhe oferecida sociedade plena. Pode basicamente exigir ganhar quanto quiser. Você está no controle!

- O quê? - olho-o perplexa. - Como assim?

Guy solta o ar dos pulmões e levanta os olhos, como se invocasse a ajuda dos Deuses dos Advogados.

- Você percebe - diz cautelosamente - a tempestade que criou? Percebe como tudo isso foi ruim para a Carter Spink? É a pior semana de imprensa desde o escândalo dos Storesons nos anos oitenta.

- Eu não planejei nada disso - digo na defensiva. - Não pedi para a mídia aparecer à porta...

- Sei disso. Mas ela apareceu. E a reputação da Carter Spink afundou. O departamento de Recursos Humanos está fora de si. Depois de todos os programas de bem-estar, de todos os recrutamentos em oficinas para recém-formados, você diz ao mundo que prefere limpar privadas. - Ele gargalha subitamente.

- Isso é que é divulgação negativa!

- Bem, é verdade - digo levantando o queixo. - Prefiro.

- Não seja tão perversa! - Guy bate na mesa, exasperado. - Você deixou a Carter Spink de saia justa! Eles querem que o mundo a veja retomando àquele escritório. Vão pagar o que você quiser! Você seria louca em não aceitar a oferta!

- Não estou interessada em dinheiro. Tenho dinheiro suficiente...

- Você não entende! Samantha, se voltar, pode ganhar o suficiente para se aposentar em dez anos. Estará feita pelo resto da vida! Depois pode colher morangos, flores ou qualquer merda que queira fazer.

Abro a boca automaticamente para retrucar ... mas de repente minhas palavras secaram. Não consigo rastrear os pensamentos. Eles estão pulando de um lado para o outro, confusos.

- Você mereceu a sociedade - diz Guy, com a voz mais baixa. - Você mereceu, Samantha. Use-a.

 

Guy não fala mais nada sobre o assunto. Sempre soube exatamente quando encerrar uma argumentação; deveria ter sido advogado de tribunal. Ele me ajuda a servir o salmão, depois me dá um abraço e manda ligar para ele assim que tiver tido tempo de pensar. E então vai embora, e fico sozinha com os pensamentos borbulhando.

Eu tinha tanta certeza! Estava tão segura! Mas agora...

Seus argumentos ficam repassando na minha mente. Ficam parecendo verdadeiros. Talvez eu esteja iludida. Talvez tudo isto seja novidade. Talvez depois de alguns anos de vida mais simples eu não fique mais contente, fique frustrada e amarga. Tenho uma visão súbita de mim mesma passando pano no chão com uma echarpe de náilon amarrada na cabeça, enchendo o saco das pessoas: "já fui advogada corporativa, sabe?"

Eu tenho cérebro. Tenho anos pela frente.

E ele está certo. Trabalhei duro para obter a sociedade. Mereci.

Enterro a cabeça nas mãos, apoiando os cotovelos na mesa, ouvindo o coração bater no peito, martelando como uma pergunta: O que vou fazer? O que vou fazer?

No entanto, o tempo todo estou sendo empurrada para uma resposta. A resposta racional. A resposta que faz mais sentido.

Sei qual é. Só não sei se estou pronta para encará-la ainda.

Demoro até as seis horas. O almoço terminou e limpei tudo . As convidadas de Trish saíram ao jardim, tomaram xícaras de chá e foram embora. Enquanto caminho na tarde suave, agradável, Nathaniel e Trish estão parados junto ao laguinho, com um tanque de plástico junto aos pés.

Sinto que algo aperta meu estômago quando me aproximo dele.

- Esta é uma Kumonryu - está dizendo Nathaniel enquanto tira algo do tanque com uma grande rede verde. - Quer olhar? - Quando me aproximo vejo um enorme peixe estampado sacudindo-se ruidoso na rede. Ele o oferece a Trish e ela recua com um gritinho.

- Leve isso para longe! Ponha no lago!

- Custou duzentas libras suas - diz Nathaniel dando de ombros. - Achei que você gostaria de dizer olá. -

Ele me lança um riso divertido por cima dos ombros de Trish e, não sei como, consigo sorrir de volta.

- Ponha todos aí dentro. - Trish estremece. Virei vê-las quando estiverem nadando.

Ela gira nos calcanhares e volta para a casa.

- Tudo certo? - Nathaniel me olha. - Como foi o grande almoço de caridade?

- Bom.

- Soube da notícia? - Ele põe outro peixe no lago. - Eamonn acabou de ficar noivo! Vai dar uma festa no pub na semana que vem.

- É... é fantástico.

Minha boca está seca. Anda. Conta a ele.

- Sabe, nós deveríamos ter um laguinho de peixes ornamentais no horto -diz Nathaniel jogando o resto dos peixes no lago. - Sabe qual é a margem de lucro desses...

- Nathaniel, eu vou voltar. - Fecho os olhos tentando ignorar a pontada de dor por dentro. - Vou voltar a Londres.

Por um momento ele não se mexe. Então, muito lentamente, gira com a rede ainda na mão, o rosto inexpressivo.

- Certo - diz ele.

- Vou voltar ao antigo trabalho de advogada. - Minha voz treme um pouco. -Guy, da firma, veio aqui hoje e me convenceu... me mostrou. Ele me fez perceber... - paro e faço um gesto desamparado.

- Perceber o quê? - pergunta Nathaniel com a testa se franzindo um pouco.

Ele não sorriu. Não disse "Boa idéia, era exatamente isso que eu ia sugerir." Por que não pode facilitar as coisas para mim?

- Não posso ser empregada doméstica a vida inteira! - Pareço mais na defensiva do que gostaria. – Sou advogada formada! Tenho cérebro.

- Eu sei que você tem cérebro. - Agora ele parece na defensiva. Ah, meu Deus. Não estou fazendo isso direito.

- Eu mereci a sociedade. Sociedade plena na Carter Spink. - olho-o, tentando passar o significado disso. -

É o cargo mais prestigioso... lucrativo... incrível... em poucos anos posso ganhar dinheiro suficiente para me aposentar! .

Nathaniel não parece impressionado. Simplesmente me olha fixamente.

- A que custo?

- Como assim? - Evito seu olhar.

- Quando você apareceu aqui era como um destroço de nervosismo. Parecia um coelho pirado. Branca que nem uma folha de papel. Rígida como uma tábua. Parecia que nunca tinha visto o sol, parecia que nunca tinha se divertido...

- Você está exagerando.

- Não estou. Você não vê o quanto mudou? Não é mais tensa. Não é mais um feixe de nervos. - Ele levanta meu braço e o deixa cair. - Esse braço teria ficado imóvel!

- Certo, eu relaxei um pouco! - Levanto as mãos. - Sei que mudei. Fiquei mais calma, aprendi a cozinhar, passar roupa e servir chope... e me diverti maravilhosamente. Mas é como férias. Não pode durar para sempre.

Nathaniel balança a cabeça em desespero.

- Então, depois de tudo isso, você vai simplesmente voltar, pegar as rédeas e continuar como se nada tivesse acontecido?

- Desta vez será diferente! Vou fazer com que seja diferente. Vou manter o equilíbrio.

- Quem você está querendo enganar? – Nathaniel segura meus ombros. -Samantha, vai ser o mesmo estresse, o mesmo estilo de vida...

Sinto uma raiva súbita contra ele, por não ter entendido; por não me apoiar.

- Bem, pelo menos eu tentei alguma coisa nova! Minhas palavras jorram numa torrente. - Pelo menos tentei uma vida diferente durante um tempo!

- O que isso quer dizer?- Sua mão se solta, chocada.

- Quer dizer: quando foi que você tentou, Nathaniel? - Sei que estou esganiçada e agressiva, mas não consigo evitar. - Você tem a mente estreita demais! Vive no mesmo povoado onde cresceu, cuida dos negócios da família, está comprando um horto pertinho... praticamente continua no útero. Portanto, antes de me fazer sermão sobre como viver minha vida, tente viver uma vida sua, certo?

Paro, ofegando, e vejo Nathaniel parecendo que lhe dei um tapa.

Imediatamente quero morder a língua.

- Eu ... não falei sério - murmuro.

Dou alguns passos para longe, sentindo-me à beira das lágrimas. Não era para ser assim. Nathaniel deveria me apoiar, me abraçar e dizer que eu estava tomando a decisão certa. Em vez disso aqui estamos, a metros de distância um do outro, nem mesmo nos olhando.

- Eu pensei em abrir as asas - diz Nathaniel subitamente, com a voz rígida.- Há um horto em Cornwall que eu gostaria de ter. Terra fantástica, negócio fantástico... mas não fui olhar. Preferi não ficar a seis horas de distância de você. - Ele dá de ombros. - Acho que você está certa. Foi muita estreiteza mental da minha parte.

Não sei como responder. Por um tempo há silêncio a não ser pelos pombos arrulhando no final do jardim. É a tarde mais espetacular, percebo subitamente. O sol des ce em direção ao salgueiro e a grama tem cheiro doce sob meus pés.

- Nathaniel... eu preciso voltar. - Minha voz não está muito firme. - Não tenho opção. Mas ainda podemos ficar juntos. Ainda podemos fazer com que dê certo. Teremos férias... fins de semana... eu vou voltar para a festa do Eamonn... Você nem vai saber que fui embora!

Ele fica quieto um momento, mexendo com a alça do balde. Quando finalmente levanta os olhos, sua expressão faz meu coração se apertar.

- Vou - diz ele em voz baixa. - Vou sim.