Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 6 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Cinco

Caminho pela recepção no piloto automático. Saio à rua ensolarada e cheia de gente na hora do almoço, um pé na frente do outro, simplesmente outra funcionária de escritório andando.

Só que não sou igual. Perdi cinqüenta milhões de libras de um cliente.

Cinqüenta milhões. É como um tambor na cabeça.

Não entendo como isso aconteceu. Não entendo. Minha mente fica revirando. Revirando e revirando, obsessivamente... Como posso não ter visto... Como posso ter deixado de ver...

Nem vi o documento. Nem o registrei sequer por um instante. Deve ter sido posto na minha mesa e depois coberto com outra coisa. Uma pasta, uma pilha de contratos, um copo de café.

Um erro. Um equívoco. O único erro que já cometi. Quero acordar e descobrir que tudo é um pesadelo, aconteceu num filme, aconteceu com outra pessoa. É uma história que estou ouvindo no pub, boquiaberta, agradecendo aos meus deuses da sorte por não ter sido eu...

Mas fui eu. Sou eu. Minha carreira acabou. A última pessoa que cometeu um erro assim na Carter Spink foi Ted Stephens em 1983, que perdeu 10 milhões de libras de um cliente. Foi demitido no ato.

E eu perdi cinco vezes mais.

Minha respiração está ficando mais curta; minha cabeça está tonta; sinto como se estivesse sendo esmagada. Acho que estou tendo um ataque de pânico. Sento-me num banco, e espero até me sentir melhor.

Certo. Não estou me sentindo melhor. Estou me sentindo pior.

De repente dou um pulo horrorizada quando o celular vibra no bolso. Tiro e olho o identificador de chamadas. É o Guy.

Não posso falar com ele. Não posso falar com ninguém. Agora não.

Um instante depois, o telefone me diz que foi deixada uma mensagem. Levanto o aparelho ao ouvido e aperto “1” para escutar.

- Samantha! - Guy parece jovial. - Aonde você foi? Estamos todos esperando com o champanha para fazer o grande anúncio da sociedade!

Sociedade. Quase quero explodir em lágrimas. Mas... Não posso. É grande demais para isso. Enfio o telefone no bolso e me levanto de novo. Começo a andar cada vez mais depressa, serpenteando entre os pedestres, ignorando os olhares estranhos que atraio. Minha cabeça está martelando, e não faço idéia de para onde vou. Mas não consigo parar.

 

Ando pelo que parece ser horas, num atordoamento, os pés se movendo as cegas pela calçada. O sol bate forte e o chão está poeirento, e depois de um tempo a cabeça começa a latejar. Num determinado ponto meu celular começa a vibrar de novo, mas o ignoro.

Por fim, quando as pernas começam a doer, diminuo a velocidade e paro. Minha boca está seca; estou totalmente desidratada. Preciso de água. Levanto a cabeça, tentando me orientar. De algum modo, pareço ter chegado à estação de trem de Paddington, imagine só.

Entorpecida, viro os passos em direção à porta e entro. O saguão está ruidoso e apinhado de viajantes.

As luzes fluorescentes, o ar-condicionado e os anúncios estrondeantes me fazem encolher. Enquanto vou até um quiosque que vende água, o celular vibra de novo. Tiro e olho a tela. Tenho 15 telefonemas não atendidos e outro recado do Guy. Ele o deixou há uns vinte minutos.

Hesito, o coração batendo de nervosismo, depois aperto o “1” para ouvir.

- Meu Deus, Samantha, o que aconteceu?

Ele não parece mais jovial, parece totalmente estressado. Sinto pontadas de pavor por todo o corpo.

- Nós sabemos - está dizendo ele. – Certo? Sabemos sobre o Third Union Bank. Charles Conway ligou.

Então Ketterman encontrou a papelada na sua mesa. Você tem de voltar ao escritório. Agora. Ligue de volta.

Ele desliga, mas não me mexo. Estou paralisada de medo.

Eles sabem. Todos sabem.

As manchas pretas dançam na frente dos meus olhos de novo. A náusea ondula por dentro de mim.

Todos os funcionários da Carter Spink sabem que eu fiz besteira.

As pessoas devem estar ligando umas para as outras. Mandando e-mails com a novidade numa alegria horrorizada. Você soube...?

Enquanto estou aqui parada, algo atrai o canto do meu olhar. Um rosto familiar quase invisível em meio à multidão. Viro a cabeça e franzo os olhos para o sujeito, tentando situá-lo – então sinto uma nova pontada de horror.

É Greg Parker, um dos sócios principais. Está andando pelo saguão, com seu temo caro, segurando o celular. As sobrancelhas estão franzidas juntas e ele parece preocupado.

- Então, onde ela está? – sua voz atravessa o espaço da estação.

O pânico me acerta como um raio. Preciso sair de seu campo de visão. Tenho de me esconder. Agora.

Entro destras de uma mulher enorme com capa de chuva bege e tento me encolher para ficar escondida.

Mas ela Mas ela fica se mexendo e eu preciso me mexer com ela.- Quer alguma coisa? Você é alguma pedinte? – Ela se vira de repente e me olha cheia de suspeitas.

- Não! – respondo chocada. – Eu... é...

Não posso dizer "Estou me escondendo atrás de você”.

- Bom, me deixe em paz! – Ela faz um muxoxo e parte em direção ao Costa Coffee. Meu coração martela no peito. Estou totalmente exposta no meio do saguão. Greg Parker parou de andar. Está a uns 50

metros, ainda falando ao celular.

Se eu me mexer ele me verá. Se eu ficar parada... ele me verá.

De repente o quadro eletrônico de Partidas se atualiza com informações novas. Um grupo de pessoas que estava olhando para ele, pega as bolsas e jornais e vai para a plataforma nove.

Sem pensar duas vezes me junto a multidão. Estou escondida no meio delas enquanto passamos pelas barreiras abertas, rumo à plataforma nove. Entro no trem com o resto das pessoas, andando rapidamente pelo saguão até onde consigo.

O trem sai da estação e eu afundo numa poltrona, diante de uma família em que todos usam camisetas do zoológico de Londres. Eles sorriem para mim – e de algum modo consigo sorrir de volta. Sinto-me totalmente, absolutamente irreal.

- Lanches? – Um velho empurrando um carrinho aparece no vagão e sorri para mim. – Sanduíches quentes e frios, chás e cafés, refrigerantes, bebidas alcoólicas?

- O último, por favor. – Tento não parecer muito desesperada. – Um duplo. De... qualquer coisa.

Ninguém vem conferir minha passagem. Ninguém me incomoda. O trem parece ser algum tipo de expresso. Subúrbios se transformam em campos e o trem continua sacolejando. Tomei três garrafinhas de gim misturado com suco de laranja, suco de tomate, e uma bebida de iogurte com chocolate. O pedaço de pavor gelado no estomago derreteu. Sinto-me estranhamente distanciada de tudo.

Cometi o maior erro da minha carreira. Provavelmente perdi o emprego. Nunca serei sócia.

Um erro idiota.

A família do zoológico de Londres abriu pacotes de batatas fritas, me ofereceu uma e me convidou a participar do jogo de palavras cruzadas. A mãe até perguntou se eu estava viajando a negócios ou lazer.

Não consegui dar uma resposta.

Meu ritmo cardíaco se reduziu gradualmente, mas sinto uma dor de cabeça horrível, latejante. Estou sentada com uma das mãos sobre um olho, tentando bloquear a luz.

- Senhoras e senhores... – O condutor está anunciando pelo alto-falante. – Infelizmente... serviços na via férrea... transporte alternativo...

Não consigo acompanhar o que ele diz. Nem sei para onde estou indo. Só vou esperar a próxima parada, sair do trem, e partir daí.

- Não é assim que se escreve “passa” – está dizendo a mãe do zoológico de Londres a um dos filhos, quando o trem começa subitamente a diminuir a velocidade. Levanto os olhos e vejo que está parando numa estação. Lower Ebury. Todo mundo vai juntando suas coisas e saindo.

Como um autômato me levanto também Sigo a família do zoológico de Londres para fora do trem e da estação; e olho em volta. Estou diante de uma minúscula estação campestre com um pub chamado The Bell do outro lado da estrada. A estrada faz uma curva nas duas direções, e vejo campos a distância. Há um ônibus na beira da pista e todos os passageiros do trem estão se empilhando nele.

A mãe do zoológico de Londres se virou e sinaliza para mim.

- Precisa vir por aqui - diz solícita.- Se você quer o ônibus para Gloucester. A estação grande, sabe?

A idéia de entrar num ônibus me dá vontade de vomitar. Não quero o ônibus para lugar nenhum. Só quero um analgésico. Parece que meu crânio vai se rachar.

- É... não, obrigada. Estou bem aqui, obrigada. Sorrio o mais convincente que posso; e antes que ela consiga dizer outra coisa começo a andar pela estrada para longe do ônibus.

Não tenho idéia de onde estou. Nenhuma.

Dentro do bolso o telefone vibra subitamente. Pego-o. É Guy. De novo. Deve ser a décima terceira vez que ele telefona. E toda vez deixa um recado dizendo para ligar de volta; perguntando se peguei seus e-mails.

Não peguei nenhum e-mail dele. Estava tão pirada que deixei o BlackBerry na mesa. O celular vibra de novo e eu o olho por alguns instantes. Então, com o estômago apertado de nervosismo, levo-o ao ouvido e aperto o botão de atender.

- Oi. – Minha voz está rouca. – Sou... sou eu.

- Samantha! - A voz incrédula dele explode na linha. – É você? Onde você está?

- Não sei. Tive de sair. Eu... entrei em choque...

- Samantha. Não sei se você pegou os recados. Mas... – Ele hesita. – Todo mundo sabe.

- Sei. – Encosto-me num muro meio desmoronado e fecho os olhos com força, tentando bloquear a dor.

– Eu sei.

- Como isso aconteceu? – Ele parece tão chocado quanto eu. – Como, diabos, você cometeu um erro tão simples? Quero dizer, meu Deus, Samantha ...

- Não sei. – digo entorpecida. - Simplesmente... não vi. Foi um erro.

-Você nunca comete erros!

- Bem, agora cometo! – Sinto lágrimas subindo e pisco ferozmente para contê-las. – O quê... o quê aconteceu?

- O negócio não está bom. – Ele expira. – Ketterman está conversando com os advogados da Glazerbrooks e falando com o banco... e os seguradores, claro.

Os seguradores. Os seguradores de perdas e danos da firma. Subitamente sou apanhada por uma esperança quase hilariante. Se os seguradores pagassem sem criar confusão, talvez as coisas não ficassem tão ruins quanto pensei.

Mas ao mesmo tempo que sinto o ânimo crescer sei que sou como um viajante desesperado vendo a miragem através da nevoa. Os seguradores jamais pagam a quantia inteira. Algumas vezes não pagam nada. Algumas vezes pagam mas aumentam os prêmios para níveis inviáveis.

- O que os seguradores disseram? – Engulo em seco. – Eles vão...

- Ainda não disseram nada.

- Certo. – Enxugo o rosto suado, esforçando-me para fazer a próxima pergunta. – E quanto a... mim?

Guy fica quieto.

Enquanto o significado disso me acerta sinto-me balançando como se fosse desmaiar. Aí está a resposta.

Abro os olhos e vejo dois meninos de bicicleta, me olhando.

- Acabou não foi? – Estou tentando parecer calma, mas a voz oscila fora de controle. – Minha carreira acabou.

- Eu... não sei. Escute Samantha, você está abalada. É natural. Mas não pode se esconder. Tem de voltar.

- Não posso. – Minha voz cresce, cheia de perturbação. – Não posso encarar ninguém.

- Samantha, seja racional!

- Não posso fazer isso! Não posso! Preciso de um tempo...

- Saman ... - Fecho o telefone.

Sinto que vou desmaiar. Minha cabeça está explodindo. Preciso beber um pouco d’água. Mas o pub parece fechado e não estou vendo nenhuma loja.

Sigo cambaleante pela estrada até que chego a dois altos pilares esculpidos, decorados com leões. Uma casa. Vou tocar a campainha e pedir um analgésico e um copo d’água. E perguntar se há algum hotel por perto.

Empurro o portão de ferro fundido e vou pelo caminho de cascalho até a pesada porta de madeira escura.

É uma casa bem grandiosa, feita de pedra cor de mel, com empenas íngremes, altas chaminés e dois Porsches na entrada. Levanto a mão e puxo a corrente da campainha.

Silêncio. Fico ali parada um tempo, mas toda a casa parece morta. Já vou desistir e voltar pelo caminho quando de repente a porta se abre.

Diante de mim, está uma mulher de cabelo louro, fixado com laquê, indo até os ombros e brincos compridos, balançando. Usa bastante maquiagem, calças compridas de seda num estranho tom de pêssego, um cigarro numa das mãos e um coquetel na outra.

- Olá – Ela dá uma tragada no cigarro e me olha com alguma suspeita. – Você é da agência?