Samantha Sweet, Executiva do Lar
Sete
Acordo na manhã seguinte com um teto desconhecido, liso e branco acima de mim. Olho-o por alguns instantes, perplexa, depois levanto a cabeça um pouco. Os lençóis fazem um som estranho, farfalhante, quando me mexo. O que está acontecendo? Meus lençóis não fazem esse som.
Mas claro. São os lençóis dos Geigers.
Afundo confortavelmente de volta nos travesseiros - até que outro pensamento me assalta.
Quem são os Geigers?
Franzo o rosto tentando lembrar. Sinto como se estivesse com ressaca e ainda bêbada ao mesmo tempo.
Trechos do dia de ontem estão nítidos na minha mente, em meio a uma névoa densa. Não sei direito o que é real e o que é sonho. Vim de trem ... é... tinha dor de cabeça... Estação de Paddington ... saí do escritório ...
Ah, meu Deus. Ah, por favor, não.
Com um jorro enjoativo todo o pesadelo volta ao cérebro. Sinto como se alguém tivesse me dado um soco no plexo solar. O memorando. O Third Union Bank. Cinqüenta milhões de libras. A pergunta a Guy, se eu ainda tinha um emprego.
O silêncio dele.
Fico deitada imóvel por um tempo, deixando a coisa se assentar de novo. Minha carreira está despedaçada. Não tenho chance de virar sócia. Provavelmente não tenho emprego. Tudo que eu conhecia acabou.
Por fim empurro as cobertas e saio da cama sentindo-me fraca e atordoada. Percebo subitamente que não comi nada ontem, a não ser os poucos salgadinhos do pacote, de manhã.
Nesta hora, ontem, eu estava na minha cozinha, preparando-me para ir trabalhar, abençoadamente sem saber o que aconteceria. Em outro mundo -num universo paralelo a este - eu estaria acordando hoje como sócia da Carter Spink. Estaria rodeada de mensagens de parabéns. Minha vida estaria completa.
Fecho os olhos com força, tentando escapar dos pensamentos que começam a flutuar na mente.
Pensamentos enjoativos, do tipo "se ao menos". Se tivesse visto o memoorando antes ... Se tivesse uma mesa mais arrumada... Se Arnold não tivesse me dado aquele trabalho ...
Mas não adianta. Ignorando a cabeça latejante, vou até a janela. O que aconteceu, aconteceu. Tudo que posso fazer é enfrentar. Enquanto olho para o jardim sinto-me absolutamente irreal. Até este momento toda a minha vida era mapeada hora a hora. Através de exames, estágios nas férias, os degraus da escada da carreira ... Achava que sabia exatamente para onde eu estava indo.
E agora encontro-me num quarto estranho, no meio do campo. Com minha carreira em ruínas.
Além disso... há outra coisa. Algo me incomoda. Uma última peça. do quebra-cabeça ainda falta no meu cérebro atordoado. Vai chegar num minuto.
Encosto atesta no vidro fresco e tranqüilizante e olho um homem no horizonte longínquo andando com seu cachorro. Talvez as coisas possam ser salvas. Talvez não sejam tão ruins como imaginei. Será que Guy disse que eu perdi o emprego? Preciso ligar para ele e descobrir até que ponto a coisa está ruim. Respiro fundo e passo as mãos pelos cabelos emaranhados. Meu Deus, ontem enlouqueci. Quando penso no modo como agi, fugindo do escritório, pulando num trem ... estava mesmo em outro planeta. Se não fosse a compreensão dos Geigers...
Meu fluxo de pensamento pára abruptamente.
Os Geigers.
Alguma coisa sobre os Geigers. Alguma coisa que não estou lembrando ... alguma coisa que dispara uma pequena campainha de alarme ...
Viro-me e focalizo um vestido azul pendurado na porta do guarda-roupa. Algum tipo de uniforme, com debruns. Por que haveria um ...
A campainha de alarme está ficando mais alta. Está começando a chacoalhar loucamente. Tudo volta como uma espécie de sonho terrível, bêbado.
Peguei um emprego de doméstica?
Por um instante não consigo me mexer. Ah, Jesus. O que fiz? O que fiz?
Meu coração começa a pular enquanto avalio a situação pela primeira vez. Estou na casa de um casal estranho sob argumentos totalmente falsos. Dormi na cama deles. Estou usando uma velha camiseta de Trish. Eles até me deram uma escova de dentes quando inventei uma história de "mala roubada no trem". A última coisa que me lembro, de antes de ter apagado, foi ter ouvido Trish contando vantagem ao telefone.
"Ela é inglesa! É, fala inglês perfeitamente! Super garota. Estudou cordon bleu!
Preciso dizer que era tudo mentira.
Há uma batida na porta do quarto e eu pulo, apavorada.
- Samantha? Posso entrar?
- Ah! É... sim!
A porta se abre e Trish aparece usando roupa de ginástica, rosa-clara, com logotipo em strass. Está totalmente maquiada e usa um perfume muito forte que já está me fazendo engasgar.
- Fiz uma xícara de chá para você- diz ela entregando-a com um sorriso formal. - O Sr. Geiger e eu gostaríamos que se sentisse muito bem-vinda em nossa casa.
- Ah! - engulo em seco nervosamente. - Obrigada.
Sra. Geiger, há algo que preciso dizer. Não sou empregada doméstica.
De algum modo as palavras não se formam na minha boca.
Os olhos de Trish se estreitaram como se já estivesse se arrependendo do gesto amigável.
- Não pense que receberá isso todo dia, claro! Mas como não estava se sentindo bem ontem à noite ... -
Ela bate no relógio. - Agora é melhor se vestir. Nós a esperamos lá em baixo dentro de dez minutos. Via de regra, só tomamos um café-da-manhã leve. Torrada, café e alguma outra coisinha. Depois podemos falar das outras refeições do dia.
- É... certo - respondo debilmente.
Ela fecha a porta e eu pouso o chá. Ah, merda. O que vou fazer? O quê? O quê?
Certo. Calma. Priorize. Preciso ligar para o escritório. Descobrir exatamente até que ponto a situação é ruim. Com um espasmo de apreensão enfio a mão na bolsa procurando o celular.
A tela está apagada. A bateria deve ter acabado.
Olho-o em frustração. Ontem eu devia estar tão desligada que esqueci de carregar. Pego o carregador, ligo na parede e conecto o telefone. Imediatamente ele começa a se carregar.
Espero o sinal aparecer... mas não aparece. Não há sinal, porcaria.
Sinto uma pontada de pânico. Como vou ligar para o escritório? Como vou fazer qualquer coisa? Não posso existir sem meu celular.
De repente me lembro de ter passado por um telefone no patamar da escada. Estava numa mesa junto a uma pequena janela saliente. Talvez eu pudesse usá-lo. Abro a porta do quarto e olho para o corredor. Não há ninguém por perto. Curiosamente vou até a janela e levanto o aparelho. O tom de discagem ressoa calmo em meu ouvido. Respiro fundo - e digito o número da linha direta do Arnold. Ainda não são nove horas, mas ele estará lá.
- Escritório de Arnold Saville - atende a voz alegre de Lara, a secretária dele.
- Lara-digo nervosa. - É Samantha. Samantha Sweet.
- Samantha? - Laura parece tão aparvalhada que eu estremeço. - Ah, meu Deus! O que aconteceu? Onde você está? Todo mundo ficou... - Ela se contém.
- Eu... no momento estou fora de Londres. Posso falar com Arnold?
- Claro. Ele está aqui. - Ela desaparece brevemente da linha.
- Samantha - a voz amigável e segura de Arnold eclode na linha. - Minha garota. Você se meteu em apuros, não foi?
Só Arnold poderia descrever a perda de cinqüenta milhões de dólares de um cliente como "apuro".
Apesar de tudo, um minúsculo meio sorriso aparece nos meus lábios. Posso visualizá-lo com seu colete e as sobrancelhas lanosas se juntando.
- Eu sei - digo tentando imitar seu tom calmo. - É... não é legal.
- Sinto-me obrigado a dizer que sua partida intempestiva ontem não ajudou nada.
- Eu sei. Sinto muito. Simplesmente entrei em pânico.- É compreensível. No entanto você deixou uma boa bagunça para trás.
Por baixo do verniz alegre de Arnold posso detectar níveis desconhecidos de tensão. Arnold nunca fica tenso. As coisas devem estar realmente ruins. Quero cair no chão em frangalhos, gritando "sinto muito!", mas isso não ajudaria ninguém. Já fui pouco profissional o bastante.
- Então ... qual é a situação atual? - Tento parecer composta. - Há algo que os credores possam fazer?
- Acho improvável. Eles dizem que estão com as mãos amarradas.
- Certo. - É como uma marretada no estômago. Então é isso. Os cinqüenta milhões foram perdidos de vez. - E a seguradora da firma?
- Esse é o próximo passo, claro. O dinheiro acabará sendo recebido, tenho certeza. Mas não sem complicações. Como acho que você poderá avaliar.
- Sei - sussurro.
Por alguns instantes nenhum de nós fala. Não há boas notícias. Não há um raio de esperança. Estou ferrada, fim da história.
- Arnold - digo com a voz trêmula. - Não faço idéia de como fui cometer um erro tão ... estúpido. Não entendo como aconteceu. Nem me lembro de ter visto o memorando na minha mesa ...
- Onde você está agora? - interrompe Arnold.
- Estou ... - Olho desamparada pela janela. - Para ser honesta, nem sei exatamente onde estou. Mas posso ir para aí. Vou voltar agora. - Minhas palavras saem aos borbotões. - Vou pegar o primeiro trem ... Serão apenas algumas horas.
- Não acho uma boa idéia. - Há uma nova tensão na voz de Arnold, que me faz para.
- Eu... eu fui demitida?
- Isso ainda não foi abordado. - Ele parece irritado. - Houve questões um pouco mais prementes a considerar, Samantha.
- Claro. - Sinto o sangue jorrando de volta dentro da cabeça. - Sinto muito. Eu só ... - Minha garganta está ficando apertada. Fecho os olhos tentando manter o controle.-Estive na Carter Spink durante toda a minha vida profissional.Tudo que eu sempre, sempre quis foi...
Nem posso dizer.
- Samantha, sei que você é uma advogada muito talentosa. - Arnold suspira.- Ninguém tem nenhuma dúvida disso.
- Mas cometi um erro.
- Samantha, farei tudo o que puder - diz ele finalmente. - Posso dizer que foi marcada uma reunião para esta manhã, para discutir seu destino.
- E você acha que não devo ir? - Mordo o lábio.
- Isso pode fazer mais mal do que bem, no momento. Fique onde está. Deixe o resto comigo. - Arnold hesita, a voz meio carrancuda. - Farei o máximo que puder, Samantha. Prometo.
- Estarei esperando - digo rapidamente. - Muito obrigada. - Mas ele já desligou. Lentamente pouso o telefone.
Nunca me senti tão impotente na vida. Tenho uma visão súbita de todos eles sentados sérios ao redor de uma mesa de reuniões. Arnold. Ketterman. Talvez até o Guy. Decidindo se vão me dar um tempo.
Tenho de pensar positivo. Ainda há uma chance. Se Arnold estiver do meu lado, outros também estarão ...
- Super garota.
Pulo ao som da voz de Trish se aproximando.
- Bem, é claro que vou verificar as referências dela, mas Gillian, eu sou muito boa avaliadora de caráter.
Não sou enganada com facilidade ...
Trish vira a esquina segurando um celular junto ao ouvido, e rapidamente me afasto do telefone.
- Samantha! - diz ela, surpresa. - O que está fazendo? Ainda não se vestiu? Ande logo! - Ela se afasta de novo e volto rapidamente ao quarto. Fecho a porta e me olho no espelho.
De repente me sinto um pouco mal.
Na verdade me sinto muito mal. Como os Geigers vão reagir quando eu contar que sou uma fraude completa? Que não sou empregada doméstica nem estudei cordon bleu, que só queria um lugar para passar a noite?
Tenho uma imagem súbita dos dois me expulsando furiosamente da casa. Sentindo-se totalmente usados.
Talvez até chamem a polícia. Mandem me prender. Ah, meu Deus. Isso pode ficar bem feio.
Mas, puxa, não tenho outra opção. Não é como se eu pudesse ...
Poderia?
Pego o uniforme azul e passo os dedos por ele, com a mente girando e girando.
Eles foram bem gentis me aceitando. E no momento não estou fazendo nenhuma outra coisa. Não tenho aonde ir. Talvez fazer um pouco de trabalho doméstico até afaste minha mente dos problemas...
Abruptamente tomo uma decisão.
Vou fazer isso durante uma manhã. Não pode ser tão difícil. Vou fazer a torrada, tirar o pó dos ornamentos ou sei lá o quê. Vou pensar nisso como uma pequeno agradecimento a eles. Então, assim que tiver notícias do Arnold, arranjo uma desculpa convincente para sair. E os Geigers nunca vão saber que eu não era empregada de verdade.
Rapidamente visto o uniforme e passo um pente nos cabelos. Depois me olho no espelho.
- Bom dia, Sra. Geiger - digo para o reflexo. - E...é... como quer que eu tire a poeira da sala de estar?
Tudo bem. Vai dar certo.
Enquanto desço a escada os Geigers estão parados embaixo, me olhando. Nunca me senti mais sem graça na vida.
Sou uma empregada doméstica. Tenho de me comportar como uma empregada.
- Bem-vinda, Samantha! - diz Eddie quando chego ao saguão. - Dormiu bem?
- Muito bem, obrigada, Sr. Geiger - respondo com recato.
- Isso é bom! - Eddie balança para trás e para a frente nas solas dos pés. Parece um pouquinho sem jeito.
De fato os dois parecem sem jeito. Por baixo da maquiagem, dos bronzeados, das roupas caras, parece haver uma leve sugestão de incerteza nos Geigers.
Vou até um banco e ajeito uma almofada, tentando parecer que sei o que faço.
- Você deve estar querendo conhecer sua nova cozinha! - diz Trish toda animada.
- Claro! - respondo com sorriso confiante. Estou ansiosa por isso!
É só uma cozinha. É só uma manhã. Posso fazer isso.
Trish vai na frente, entrando na enorme cozinha forrada de madeira, e desta vez olho ao redor com mais atenção, tentando captar os detalhes. Há um negócio enorme, parecido com um fogão, engastado na bancada de granito à minha esquerda. Dois fornos embutidos na parede. Para todo lugar aonde olho vejo brilhantes aparelhos cromados ligados a tomadas. Fileiras de panelas e utensílios de todo tipo estão penduradas no alto, numa mixórdia de aço inoxidável.
Não tenho a mínima idéia do que é qualquer coisa daquelas.
- Você vai querer arrumar do seu jeito, claro - diz Trish sinalizando ao redor. - Mude o que quiser. Ponha no jeito. Você é a profissional!
Os dois estão me olhando cheios de expectativa.
- Sem dúvida - digo em tom cheio de eficiência. - Obviamente tenho meus próprios ... é... sistemas.
Aquilo não deveria estar ali, por exemplo. - Aponto aleatoriamente para algum aparelho. - Terei de mudar de local.
- Verdade? - Trish parece fascinada. - Por quê?
Há um silêncio momentâneo. Até Eddie parece interessado.
- Teoria... culinária...ergonômica - improviso. - Então, gostaria de torradas para o café-da-manhã? -
acrescento rapidamente.
- Torradas para nós dois - diz Trish. - E café com leite desnatado.
- Já vai sair. Sorrio sentindo um ligeiro alívio.
Sei fazer torrada. Assim que deduzir qual dessas coisas é uma torradeira.- Então, já levo para vocês num momento - continuo tentando expulsá-los. Gostariam de comer na sala de jantar?
Há um pequeno ruído no corredor.
- Deve ser o jornal - diz Trish. - Sim, pode servir o cefé-da-manhã na sala de jantar, Samantha. - Ela sai rapidamente, mas Eddie se demora na cozinha.
- Sabe, mudei de idéia - Ela dá um sorriso jovial. - Esqueça a torrada, Samantha. Comerei seus famosos Ovos Benedict. Ontem à noite você aguçou meu apetite.
Ontem à noite? O que eu disse ontem...
Ah, meu Deus. Ovos Benedict. Meu famoso prato especial amado por Lorde Edgerly.
O que eu estava pensando?
- Tem... certeza de que é isso que quer? - consigo dizer em voz apertada.
- Eu não perderia seu prato especial! - Eddie coça a barriga num gesto de apreciação. - É meu desjejum predileto. Os melhores Ovos Benedict que já comi foi no Carlyle, em Nova York, mas aposto que os seus são ainda melhores!
- Não sei! - De algum modo consigo dar um sorriso luminoso.
Por que, diabos, eu disseque sabia fazer Ovos Benedict?
Tudo bem ... fique calma. Deve ser bem simples. Ovos e... alguma coisa.
Eddie se encosta na bancada de granito com olhar cheio de expectativa. Tenho uma suspeita maligna de que ele está esperando que eu comece a cozinhar. Com hesitação pego uma panela brilhante que estava pendurada, no momento em que Trish entra com o jornal. Ela me olha com enorme curiosidade.
- Como vai usar a panela de cozinhar aspargos no vapor, Samantha?
Merda.
- Só queria ... examinar. É. - Assinto rapidamente, como se a panela tivesse confirmado minhas suspeitas, e penduro-a cuidadosamente de novo.
Estou me sentindo cada vez mais quente. Não tenho sequer idéia de como começar. Quebro os ovos?
Cozinho? Jogo-os na parede?
- Aqui estão os ovos. - Eddie põe uma caixa enorme na bancada e levanta a tampa. - Imagino que haja bastante!
Olho a fileira de ovos marrons, sentindo-me um pouco tonta. O que acho que estou fazendo? Não sei fazer Ovos Benedict, porcaria. Não sei fazer o café-da-manhã desse pessoal. Terei de me entregar.
Viro-me e respiro fundo.
- Sr. Geiger... Sra. Geiger...
- Ovos? - A voz de Trish interrompe a minha. - Eddie, você não pode comer ovos! Lembre-se do que o médico disse! - Ela me olha com os olhos estreitados. - O que ele lhe pediu, Samantha? Ovos cozidos?
- É... o Sr. Geiger pediu Ovos Benedict. Mas o negócio é...
- Você não vai comer Ovos Benedict! - Trish praticamente berra com Eddie.- É cheio de colesterol!
- Eu como o que quiser! - protesta Eddie.
- O médico fez um plano de dieta para ele. - Trish está tragando furiosamente o cigarro. Eddie já comeu uma tigela de flocos de milho hoje!
- Eu estava com fome! - diz Eddie na defensiva. - Você comeu um bolinho de chocolate!
Trish ofega como se ele tivesse lhe dado um soco. Pequenas manchas vermelhas aparecem em sua bochecha. Por alguns instantes ela parece incapaz de falar.
- Cada um de nós vai tomar uma xícara de café, Samantha - anuncia ela finalmente, com voz digna. -
Pode servir na sala de estar. Use a louça cor-de-rosa. Venha, Eddie. - E ela o arrasta para fora antes que eu possa dizer qualquer coisa.
Enquanto olho a cozinha vazia ao redor não sei se quero rir ou chorar. Isso é ridículo. Não posso continuar com essa charada. Preciso contar a verdade. Agora. Saio decididamente da cozinha para o corredor. Então para atrás da porta fechada da sala de estar ouço a voz aguda e indistinta de Trish dando uma bronca furiosa em Eddie, entrecortada pelo resmungo defensivo dele.
Recuo depressa para a cozinha e ligo o fogo da chaleira. Deve ser mais fácil simplesmente fazer o café.
Dez minutos depois arrumei uma bandeja de prata com um bule de café cor-de-rosa, xícaras cor-de-rosa, leiteira, açúcar e um pequeno buquê de flores cor-de-rosa que peguei num cesto pendurado do lado de fora da janela da cozinha. Estou bastante orgulhosa, mesmo que seja eu que diga.
Chego perto da porta da sala de estar, ponho a bandeja na mesa do corredor e bato cautelosamente.
- Entre! - grita Trish.
Quando entro ela está sentada numa poltrona perto da janela, segurando uma revista num ângulo bastante artificial. Eddie está do outro lado da sala, examinando uma escultura em madeira.
- Obrigada, Samantha. - Trish inclina a cabeça graciosamente enquanto sirvo o café. - É só isso por enquanto.
Sinto-me como se tivesse entrado numa estranha peça de Merchant Ivory, só que os figurinos são roupa de ioga cor-de-rosa e suéter de golfe.
- É... muito bem, senhora - digo representando o meu papel. Então, sem intenção, faço uma reverência.
Há uma pausa hesitante. Os dois Geigers simplesmente me olham aparvalhados.
- Samantha, você acabou de... fazer uma reverência? - pergunta Trish finalmente.
Olho-os de volta, congelada.
O que eu estava pensando? Por que fiz uma reverência? Ela vai achar que estou de sacanagem.
Empregadas domésticas não fazem reverência, caramba. Isso aqui não é o seriado Gosford Park.
Eles ainda estão me encarando boquiabertos. Preciso dizer alguma coisa.
- Os Edgerly gostavam que eu fizesse reverências. - Meu rosto está todo pinicando. - Acabou virando hábito. Desculpe, senhora, não farei de novo.
A cabeça de Trish está se inclinando cada vez mais, os olhos completamente franzidos. Está me olhando fixamente como se quisesse me decifrar.
Ela deve perceber que sou uma fraude, deve.
- Gosto disso - pronuncia por fim e inclina a cabeça, satisfeita. É, gosto. Você pode fazer reverências aqui também.
O quê?
Posso fazer o quê?
Este é o século XXI. E uma mulher chamada Trish está me pedindo para fazer reverências?
Respiro fundo para protestar, depois fecho a boca de novo. Não importa. Não é real. Posso fazer reverências por uma manhã.