Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 4 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Nove horas depois ainda estamos na reunião.

TRÊS

 

Nove horas depois ainda estamos na reunião.

A gigantesca mesa de mogno está cheia de cópias de esboços de contratos, relatórios financeiros, blocos de notas cobertos de rabiscos, post-its e copos de isopor sujos de café. Caixas de lanche de viagem espalhadas no chão. Uma secretária distribuindo novas cópias do esboço do contrato. Dois advogados da oposição levantaram-se da mesa e estão murmurando sérios na sala de descanso. Cada sala de reunião tem uma dessas: uma pequena área lateral onde você pode ir para ter conversas particulares ou quando está a fim de pirar de vez.

A intensidade vespertina passou. É como um refluxo na maré. Rostos estão vermelhos ao redor da mesa, os humores continuam exacerbados, mas ninguém está gritando mais. Os clientes foram embora. Chegaram a um acordo por volta das quatro horas, apertaram as mãos e partiram em suas limusines brilhante.

Agora fica por nossa conta, os advogados, deduzir o que eles disseram e o que realmente queriam dizer (

e se você acha que é a mesma coisa, é melhor abandonar o direito agora mesmo) e colocar tudo num esboço de contrato a tempo para a reunião de amanhã.

Quando provavelmente começarão a gritar mais um pouco.

Coço o rosto seco e tomo um gole de capuccino, antes de perceber que peguei o copo errado - o copo gelado, de horas atrás. Argh. Argh. E não posso exatamente cuspir aquilo na mesa.

Engulo com uma careta o gole repulsivo. As luzes fluorescentes estão piscando nos olhos e me sinto esgotada. Meu papel em todos aqueles megaacordos é do lado financeiro - de modo que fui eu que negociei o acordo de empréstimo entre nosso cliente e o banco PGNI. Fui eu que resgatei a situação quando um buraco negro de dívida apareceu numa companhia subsidiária. E fui eu que passei umas três horas desta tarde discutindo o uso de uma única expressão idiota na cláusula 29(d).

A expressão era "maior empenho". A oposição queria usar "esforço razoável". Nós vencemos, mas não consigo sentir o triunfo de sempre. Só sei que são sete e dezenove e dentro de onze minutos eu deveria estar do outro lado da cidade, sentando-me para jantar com minha mãe e meu irmão Daniel.

Terei de cancelar. Meu próprio jantar de aniversário.

No instante em que penso nisso consigo ouvir a voz ultrajada de minha mais antiga colega de escola, Freya, ressoando no ouvido.

Eles não podem fazer você ficar no trabalho no dia de seu aniversário!

Cancelei com ela também, na semana passada, quando iríamos a um show de humor. O contrato deveria ser assinado no dia seguinte e eu não tinha opção.

O que ela não entende é que o prazo vem na frente, e ponto final. Os compromissos anteriores não contam, os aniversários não contam. Feriados são cancelados toda semana. Do outro lado da mesa, à minha frente, está Clive Sutherland, do departamento corporativo. A mulher de Clive teve gêmeos hoje cedo e ele estava de volta à mesa ao meio-dia.

- Certo, pessoal. - A voz de Ketterman exige atenção imediata.

Ketterman é o único que não tem rosto vermelho, não parece cansado nem mesmo incomodado. Parece mecânico como sempre; tão arrumado como de manhã. Quando fica com raiva, nem um fio de cabelo sai do lugar. Simplesmente exsuda uma fúria silenciosa, de aço.

- Precisamos adiar.

O quê? Minha cabeça se levanta bruscamente.

Outras cabeças se levantam também; posso detectar esperança ao redor da mesa. Somos como colegiais sentindo inquietação durante a prova de matemática, não ousando nos mover para o caso de não receber castigo duplo.

- Até termos a documentação da Fallons, não podemos continuar. Vejo vocês todos amanhã, aqui, às nove horas. - Ele sai e, quando a porta se fecha, eu respiro. Percebo que estava perdendo o fôlego.

Clive Sutherland já partiu para a porta. As pessoas já estão com os celulares por toda a sala, falando de jantar, filmes, descancelando compromissos. Há um ânimo jubiloso. Tenho súbita ânsia de gritar: "Iupiiii!"

Mas isso não seria digno de uma sócia.

Pego meus papéis, enfio na pasta e empurro a cadeira para trás.

- Samantha. Esqueci. - Guy está atravessando a sala. - Tenho uma coisa para você.

E me entrega um embrulho branco, simples. Sinto um ridículo jorro de alegria. Um presente de aniversário Ele é o único em toda a firma que se lembrou do meu aniversário. Não consigo deixar de luzir por dentro enquanto abro o envelope de papelão.

- Guy, você não deveria!

- Não foi nada - diz ele, claramente satisfeito consigo mesmo.

- Mesmo assim! - rio. - Eu pensei que você tinha ...

Paro abruptamente quando descubro um DVD corporativo numa embalagem laminada. É um resumo da apresentação da European Partners que fizemos no outro dia. Eu tinha mencionado que queria uma cópia.

Viro-o nas mãos, certificando-me de que o sorriso esteja completamente intacto no rosto antes de levantar a cabeça. Claro que ele não se lembrou do meu aniversário. Por que lembraria? Provavelmente nem sabia.

- Isso é ... ótimo - digo finalmente. - Obrigada!

- Sem problemas. - Ele está pegando sua pasta. - Tenha uma boa noite. Planejou alguma coisa?

Não posso dizer que é meu aniversário. Ele vai achar...vai perceber...

- Só... um negócio de família. - Sorrio. - Vejo você amanhã.

 

Pois é. O principal é que saí. Vou ao jantar, afinal de contas. E nem devo me atrasar demais!

Enquanto meu táxi se arrasta pelo tráfego em Cheapside, remexo na bolsa rapidamente em busca da nova sacola de maquiagem. Um dia desses dei um pulinho na Selfridges, na hora do almoço, quando percebi que ainda estava usando o velho delineador e o rímel cinza que comprei para a formatura há seis anos. Não tinha tempo para uma demonstração, mas perguntei se a garota do balcão poderia me vender rapidamente tudo que achasse que eu precisava.

Realmente não escutei enquanto ela explicava cada item, porque estava no telefone com Elldridge falando sobre o contrato da Ucrânia. Mas a única coisa que lembro é que é a insistência para eu usar algo chamado "Pó Bronze". Ela disse que isso me daria um brilho e me faria deixar de parecer tão pavorosamente...

Então ela parou.

- Pálida - disse por fim. - Você está meio...pálida.

Pego o compacto e o enorme pincel de blush e começo a passar o pó nas bochechas e na testa. Então, quando olho o reflexo no espelho, contenho um riso. Meu rosto me olha de volta, dourado e brilhante como um alienígena. Estou ridícula.

Quero dizer, quem estou enganando? Uma advogada do centro de Londres que não tira férias há dois anos não é bronzeada. Nem mesmo brilha. Desse jeito eu poderia muito bem andar com contas nos cabelos e fingir que acabei de chegar de Barbados.

Olho-me por mais alguns segundos, depois pego um lenço de limpeza e tiro o bronze até que meu rosto esteja branco de novo, com tons de cinza. De volta ao normal. A garota da maquiagem ficou falando das sombras escuras debaixo dos meus olhos, também.

O negócio é que se eu não tivesse sombras debaixo dos olhos provavelmente seria demitida.

Estou usando tailleur preto, como sempre. Minha mãe me deu cinco tailleurs pretos quando fiz 21 anos; e nunca abandonei o hábito. O único item de cor é a bolsa. Vermelha. Mamãe me deu, também, há dois anos.

Pelo menos me deu uma preta. Mas por algum motivo - talvez o sol estivesse brilhando ou eu tivesse acabado de fechar algum contrato fantástico, não lembro - tive um ataque e troquei por uma vermelha. Não sei se algum dia ela me perdoou.

Solto o cabelo do elástico, penteio rapidamente e depois torço de novo, pondo no lugar. O cabelo nunca foi exatamente meu orgulho e meu júbilo. É cor de rato, comprimento médio, com onda média. Pelo menos era na última vez em que olhei. Na maioria do tempo vive retorcido num nó.

- Vai ter uma noite boa? - pergunta o chofer do táxi, que esteve me olhando pelo retrovisor.

- É meu aniversário, na verdade.

- Feliz aniversário! - Ele pisca. - Então vai festejar. Curtir a noite.

- É... mais ou menos.

Minha família e festas loucas não combinam exatamente. Mas mesmo assim vai ser ótimo a gente se ver e colocar os assuntos em dia. Isso não acontece muito.

Não que não queiramos nos ver. Só que todos temos carreiras ocupadas. Minha mãe é advogada nos tribunais superiores. É bem conhecida, na verdade. Abriu escritório próprio há dez anos e no ano passado ganhou prêmio da Mulheres do Direito. E há o meu irmão Daniel, que tem 36 anos, é diretor de investimentos no Whittons. Ano passado foi citado como um dos principais negociadores do centro financeiro de Londres.

E também há o meu outro irmão, Peter mas, como falei, ele meio que teve um colapso. Agora mora na França e ensina inglês numa escola e nem tem secretária eletrônica. E meu pai, claro, que mora na África do Sul com a terceira mulher. Não o vejo muito desde que tinha 3 anos. Mas tudo bem. Minha mãe tem energia suficiente pelos dois pais.

Olho o relógio enquanto aceleramos pela Strand. Sete e quarenta e dois. Estou começando a ficar bem empolgada. Quanto tempo faz que não vejo mamãe? Deve ter sido... no Natal. Há seis meses.

Paramos diante do restaurante e pago ao motorista, acrescentando uma bela gorjeta.

- Tenha uma ótima noite, querida! - diz ele. - E feliz aniversário!

- Obrigada!

Enquanto entro correndo no restaurante, olho ao redor procurando mamãe e Daniel, mas não os vejo.

- Oi! - digo ao maître. - Vou me encontrar com a Sra. Tennyson.

É mamãe. Ela desaprova as mulheres pegarem o sobrenome do marido. Também desaprova mulheres que ficam em casa, cozinhando, fazendo limpeza ou aprendendo a datilografar, e acha que todas as mulheres devem ganhar mais do que os maridos porque são naturalmente mais inteligentes.

O maître me leva a uma mesa vazia no canto e eu me sento na banqueta de camurça.

- Oi! - sorrio para o garçom que se aproxima. - Gostaria de um Buck' s Fizz, uma vodca com suco de limão e um martíni, por favor. Mas não traga tudo antes da chegada dos outros convidados.

Mamãe sempre toma vodca com lima. E não faço idéia do que Daniel toma ultimamente, mas não recusará um martíni.

O garçom confirma com a cabeça e desaparece. Sacudo meu guardanapo, olhando as pessoas que jantam ao redor. O Maxim's é um restaurante bem legal, todo com pisos de madeira africana, mesas de aço e iluminação climática. É muito popular entre os advogados, e na verdade mamãe tem conta aqui. Dois sócios da Linklates estão numa mesa distante, e no bar posso ver um dos mais famosos advogados especializados em calúnias de Londres. O ruído de conversas, rolhas espocando e garfos batendo nos pratos enormes é como o rugido gigantesco do mar, com ocasionais maremotos de risos fazendo cabeças girarem.

Enquanto examino o menu sinto-me subitamente voraz. Não como uma refeição decente há uma semana, e tudo parece tão delicioso! Fois gras com cobertura vidrada. Cordeiro com hamus apimentado. E na folha de pratos especiais há suflê de chocolate com hortelã e dois sorvetes feitos em casa. Só espero que mamãe possa ficar tempo suficiente para a sobremesa. Ela tem o hábito de chegar para jantar e depois sair zunindo na metade do prato principal. Ouvi-a dizer muitas vezes que metade de um jantar basta para qualquer pessoa. O problema é que mamãe realmente não se interessa por comida. Nem por ninguém que seja menos inteligente do que ela. O que descarta praticamente todo mundo.

Mas Daniel vai ficar. Assim que meu irmão abre uma garrafa de vinho, sente-se obrigado a ir até o fim.

- Srta. Sweet? - Levanto os olhos e vejo o maître se aproximando, segurando o celular. – Tenho um recado. Sua mãe ficou presa no escritório.

- Ah. - Tento esconder o desapontamento. Mas não posso reclamar. Fiz a mesma coisa com ela muitas vezes. - Então...a que horas ela vai chegar?- Estou com ela aqui ao telefone. A secretária vai completar a ligação ... Alô? - diz ele ao telefone. -

Estou com a filha da Sra. Tennyson.

- Samantha? - diz uma voz nítida e precisa em meu ouvido. - Querida, infelizmente não posso ir esta noite.

- Não pode vir? - Meu sorriso falha. - Nem... para uma bebida?

Seu escritório fica a cinco minutos de distância, no Lincoln' s Inn Fields.

- Coisa demais a fazer. Tenho um caso muito importante e vou ao tribunal amanhã... Não, pegue a outra pasta - acrescenta para alguém no escritório. -Essas coisas acontecem - retoma ela. - Mas tenha uma boa noite com Daniel. Ah, e feliz aniversário. Transferi trezentas libras para sua conta no banco.

- Ah, certo - digo depois de uma pausa. - Obrigada.

- Já ouviu alguma coisa sobre a sociedade?

- Ainda não. - Posso ouvi-la batendo com a caneta no telefone.

- Quantas horas você marcou neste mês?

- Ah ... provavelmente umas duzentas ...

- Isso basta? Samantha, você não quer ser deixada para trás. Haverá advogados mais jovens chegando.

Alguém na sua posição pode facilmente ficar de molho para sempre.

- Duzentas é muita coisa - tento explicar. - Comparada aos outros ...

- Você tem de ser melhor que os outros! - Sua voz interrompe a minha como se ela estivesse num tribunal. - Não pode deixar que seu desempenho fique abaixo de excelente. Este é um tempo crucial... Não aquela pasta! -acrescenta impaciente a quem quer que seja. - Espera na linha, Samantha...- Samantha?

Levanto a cabeça, confusa, e vejo uma garota vestida num conjunto azul-pólvora se aproximando da mesa. Está segurando um cesto de presente adornado com uma fita e tem um sorriso largo.

- Sou Lorraine, assistente de Daniel - diz num tom cantarolando que subitamente reconheço. -

Infelizmente ele não pode vir esta noite. Mas tenho uma coisinha para você. E ele está aqui ao telefone, para dizer olá.

Lorraine estende um celular iluminado. Em confusão total, pego-o encosto no outro ouvido.

- Oi, Samantha - diz o sotaque profissional de Daniel. - Olha, querida, estamos com um mega-negócio.

Não posso ir.

Sinto um mergulho de consternação total. Nenhum dos dois vem?

- Sinto muito mesmo, querida - está dizendo Daniel. - É a vida. Mas divirta-se com a mamãe, certo?

Engulo em seco várias vezes. Não posso admitir que ela me deu bolo também. Não posso admitir que estou sentada aqui sozinha.

- Certo! - De algum modo consigo arranjar um tom lépido. - Vamos nos divertir!

- Transferi um dinheiro para a sua conta. Compre alguma coisa legal. E mandei uns chocolates com Lorraine - acrescenta orgulhoso. - Eu mesmo escolhi.

Olho o cesto de presente que Lorraine está estendendo. Não são chocolates. É sabonete.

- É uma graça, Daniel, verdade - consigo dizer. - Muito obrigada.- Parabéns pra você...

Há um coro súbito atrás de mim. Giro e vejo um garçom trazendo um copo de coquetel. Uma bebida borbulha dentro e "Feliz aniversário, Samantha" está escrito com caramelo na bandeja de aço. Três garçons vêm atrás, todos cantando em harmonia.

Depois de um momento Lorraine se junta a eles, sem graça.

- Nessa data querida ...

O garçom pousa a bandeja na minha frente, mas tenho as mãos ocupadas com os telefones.

- Vou pegar isso para você - diz Lorraine, aliviando-me do telefone de Daniel. Ela o leva ao ouvido depois ri para mim. - Ele está cantando! - diz apontando de modo encorajador para o aparelho.

- Samantha? - diz mamãe ao meu ouvido. - Ainda está aí?

- Só estou ... eles estão cantando Parabéns pra você...

Ponho o telefone na mesa. Depois de pensar um momento, Lorraine coloca o seu cuidadosamente, do lado oposto.

Esta é a festa de aniversário da minha família.

Dois celulares.

Vejo pessoas olhando para a cantoria, com os sorrisos caindo um pouco quando vêem que estou sozinha.

Dá para notar a pena no rosto dos garçons. Estou tentando manter o queixo erLord, mas minhas bochechas queimam de vergonha.

De repente o garçom a quem eu tinha feito o pedido aparece à mesa. Traz três coquetéis numa bandeja e olha a mesa vazia, numa ligeira confusão.

- Para quem é o martíni?

- Deveria ser para o meu irmão...

- É o Nokia - disse Lorraine solícita, apontando o celular.

Há uma pausa. Então, com rosto inexpressivo e profissional, o garçom põe a bebida diante do celular, junto com um guardanapo.

Quero rir - só que há uma ardência atrás dos meus olhos e não sei se consigo. Ele põe os outros coquetéis na mesa, assente para mim e vai embora. Há uma pausa incômoda.

- Então... - Lorraine pega o celular de Daniel e o guarda na sua bolsa. -Feliz aniversário. E tenha uma ótima noite!

E sai do restaurante com os saltos altos tiquetaqueando. Pego o outro telefone para me despedir, mas mamãe já desligou. Os garçons cantores desapareceram. Somos apenas eu e o cesto de sabonetes.

- Quer fazer o pedido? - O maître reapareceu perto da minha cadeira. -Posso recomendar o risoto - diz com gentileza. - Uma boa salada, talvez? E um copo de vinho?

- Na verdade - obrigo-me a sorrir. - Só a conta, por favor.

 

Não importa.

A verdade é que nunca teríamos um jantar. Foi uma fantasia. Nem deveríamos ter tentado. Todos somos ocupados, temos carreiras, minha família é assim.

Quando saio do restaurante um táxi pára na minha frente e eu estendo a mão. A porta de trás se abre e uma velha sandália havaiana com contas emerge, seguida por um par de jeans recortados, um kaftan bordado, cabelo louro desgrenhado e familiar.

- Fique aí - diz ela ao motorista do táxi. - Só posso ficar cinco minutos.- Freya? - reajo incrédula. Ela gira e seus olhos se arregalam.

- Samantha! O que está fazendo na calçada?

- O que você está fazendo aqui? Achei que ia para a Índia.

- Estou indo! Vou encontrar Lord no aeroporto dentro de... - ela olha o relógio. - Dez minutos.

Freya faz uma cara de culpa e não consigo deixa de rir. Conheço-a desde que tínhamos 7 anos e entramos no colégio interno. Na primeira noite ela contou que sua família era de artistas de circo e que sabia montar num elefante e andar na corda bamba. Durante um semestre inteiro acreditei e ouvi histórias sobre sua vida exótica no circo. Até que os pais dela chegaram para pegá-la e por acaso eram dois contadores da Staines. Mesmo então ela não se abalou, e disse que eles tinham sido artistas de circo.

Freya tem olhos azuis luminosos e pele sardenta, permanentemente bronzeada de suas viagens. Neste momento o nariz está descascando um pouquinho e ela tem um brinco novo, bem no topo da orelha. Tem dentes mais brancos e mais tortos que já vi; e quando ri, um canto do lábio superior sobe.

- Vim invadir seu jantar de aniversário. - Os olhos de Freya giram até o restaurante, cheios de suspeitas. -

Mas achei que estava atrasada. O que houve?

- Bem... - hesito. - O negócio é que... mamãe e Daniel...

- Foram embora cedo? - Enquanto me olha, a expressão de Freya passa a ser de horror. - Eles não apareceram? Meu Deus, que sacanas! Não podiam nem uma vez colocar você na frente, uma vez da porra dos... - Ela pára, respirando fundo. - Desculpe. Sei. É sua família. Pois é.

Freya e mamãe não se dão exatamente bem.

- Não faz mal - digo dando de ombros, pesarosa. - Verdade. De qualquer modo tenho uma pilha de trabalho para fazer.

- Trabalho? - Ela me encara. - Agora? Está falando sério? A coisa não pára nunca?

- Estamos cheios de serviços no momento - digo na defensiva. - É só um pico de atividade.

- Sempre há um pico! Sempre há uma crise! Todo ano você deixa de fazer qualquer coisa divertida ...

- Não é verdade.

- Todo ano você diz que isso vai melhorar. Mas não melhora! - Os olhos dela estão ardendo de preocupação. - Samantha, o que aconteceu com sua vida?

Encaro-a de volta por alguns instantes, com os carros rugindo atrás de mim na rua. Não sei como responder. Para ser honesta, não lembro como era minha vida.

- Quero ser sócia na Carter Spink – digo finalmente. – É isso que eu quero. A gente precisa fazer sacrifícios.

- E o que acontece quando você for sócia? – continua ela. – A coisa fica mais fácil?

Dou de ombros evasivamente. A verdade é que não pensei para além de ser sócia. É como um sonho.

Como uma bola brilhante no céu.

- Você tem 29 anos, pelo amor de Deus! – Freya gesticula com a mão cheia de anéis de prata. – Você deveria ser capaz de fazer alguma coisa espontânea de vez em quando. Deveria estar vendo o mundo! – Ela agarra meu braço. – Samantha, venha para a Índia! Agora!

- O quê? – Dou um riso espantado. – Não posso ir à Índia.

- Tire um mês de folga. Por quê não? Eles não vão demitir você. Venha ao aeroporto. Vamos conseguir uma passagem.

- Freya, você está maluca. Sério. - Aperto seu braço - Amo você, mas você está maluca.

Lentamente o aperto de Freya em meu braço se afrouxa.

- Eu digo o mesmo. Você está maluca, mas amo você.

Seu celular toca mas ela o ignora. Em vez disso está remexendo na bolsa bordada. Finalmente pega um minúsculo frasco de perfume feito de prata, intricadamente trabalhado, mal embrulhado num pedaço de seda púrpura.

- Aqui - ela o estende para mim.

- Freya - viro-o nos dedos - é incrível.

- Achei que você iria gostar - Ela tira o celular do bolso. - Oi! - diz impacientemente ao aparelho. - Olha, Lord, estou chegando, certo?

O nome inteiro do marido de Freya é Lord Andrew Edgerly. O apelido de Freya para ele começou como uma piada e meio que pegou. Eles se conheceram há cinco anos num kibutz e se casaram em Las Vegas.

Tecnicamente isso faz dela Lady Edgerly - mas ninguém consegue aceitar a idéia. E, menos que todos, a família Edgerly.

- Obrigada por ter vindo. Obrigada por isto. - Abraço-a. - Tenha uma estada fabulosa na Índia.

- Teremos. - Freya está subindo de novo no táxi. - E se quiser ir, é só me avisar. Invente uma emergência de família... qualquer coisa. Dê meu número a eles. Eu cubro você. Qualquer que seja a sua história.

- Vá – digo rindo e lhe dou um empurrãozinho. – Vá para a Índia.

A porta bate e ela enfia a cabeça pela janela.

- Sam... boa sorte amanhã. – Ela segura minha mão e me encara, subitamente séria. – Se é realmente isso que você quer, espero que consiga.- É o que quero mais do que qualquer coisa. - Enquanto olho minha mais velha amiga, toda a indiferença calculada desaparece. - Freya ... não posso dizer o quanto quero isso.

- Você vai conseguir. Eu sei. - Ela beija minha mão e acena se despedindo. -E não volte para o escritório! Prometa! - grita indistintamente enquanto o táxi parte rugindo para o tráfego.

- Certo! Prometo! - grito de volta. Espero até ela ter desaparecido e estendo a mão para um táxi.

- Carter Spink por favor - digo quando ele pára.

Eu estava cruzando os dedos. Claro que vou voltar ao escritório.

 

Chego em casa às onze horas, exausta e com o cérebro morto, tendo examinado apenas metade da pasta de Ketterman. Ketterman desgraçado, estou pensando, enquanto abro a porta da frente do prédio da década de 1930 onde moro. Ketterman desgraçado. Desgraçado ... desgraçado ...

- Boa noite, Samantha.

Quase pulo um quilômetro de altura. É Ketterman. Bem ali, parado na frente dos elevadores, segurando uma pasta gorda. Por um instante fico hipnotizada de horror. O que ele está fazendo aqui?

Será que fiquei maluca e estou tendo alucinações com os sócios principais?

- Alguém me disse que você morava nesse prédio. - Os olhos dele brilham através dos óculos. - Comprei o número 32 como residência secundária. Seremos vizinhos nos dias de semana.

Não. Por favor diga que isso não está acontecendo. Ele mora aqui?

- Ah... bem-vindo ao prédio! - digo fazendo o maior esforço possível para parecer sincera. A porta do elevador se abre e os dois entramos.

Número 32. Isso significa que são dois andares acima de mim.

Sinto como se o diretor da escola tivesse vindo morar aqui. Como vou me sentir relaxada de novo? Por que ele tinha que escolher este prédio?

Enquanto subimos em silêncio sinto-me cada vez mais desconfortável. Será que devo bater papo? Algum papo leve, de vizinho?

- Consegui avançar um bocado nos documentos que você me deu - digo finalmente.

- Bom - responde ele rapidamente e balança a cabeça.

Isso que é bater papo. Eu deveria ir direto ao que importa.

Vou ser admitida como sócia amanhã?

- Bem... boa-noite - digo sem jeito enquanto saio do elevador.

- Boa noite, Samantha.

A porta se fecha e eu emito um grito silencioso. Não posso morar no mesmo prédio de Ketterman, terei de me mudar.

Estou para colocar a chave na fechadura quando a porta do apartamento em frente se entreabre.

- Samantha?

Meu coração afunda. Como se eu não tivesse tido o suficiente esta noite. É a Sra. Farley, a vizinha. Tem cabelos prateados, três cachorrinhos e um interesse insaciável pela minha vida. Mas é muito gentil e pega as encomendas para mim, de modo que basicamente a deixo sondar e se intrometer à vontade.

- Chegou outra entrega para você, querida ela. - diz ela. - Desta vez é da lavanderia a seco. Vou pegar.

- Obrigada - digo com sinceridade, abrindo a porta. Uma pequena pilha de propaganda está pousada no capacho e eu a empurro de lado, com a pilha maiOr que vai crescendo na lateral do meu corredor. Estou planejando reciclá-la quando tiver um momento. Faz parte da minha lista.

- Você chegou tarde de novo. - A Sra. Farley está ao meu lado, segurando uma pilha de blusas cobertas de plástico. - Vocês, garotas, são tão ocupadas!- Ela estala a língua. - Esta semana não chegou em casa antes das onze nenhum dia!

É isso que eu quis dizer com interesse insaciável. Ela provavelmente tem tudo isso anotado em algum lugar, num caderninho.

- Muito obrigada. - Faço menção de pegar as roupas, mas para meu horror a Sra. Farley passa por mim e entra no apartamento, exclamando: - Eu levo para você.

- É...desculpe a... é...a bagunça - digo enquanto ela se espreme passando por uma pilha de quadros encostados na parede. - Vivo pensando em pendurar isso... E me livrar das caixas...

Guio-a rapidamente até a cozinha, para longe da pilha de menus de comida para viagem sobre a mesa do corredor. Então desejo não ter feito isso . Na bancada da cozinha há uma pilha de velhas latas e embalagens, junto com um bilhete da minha nova faxineira, todo em maiúsculas:

CARA SAMANTHA

 

1. TODA A SUA COMIDA ESTÁ COM PRAZO DE VALIDADE VENCIDO. DEVO

JOGAR FORA?

2. VOCÊ TEM ALGUM MATERIAL DE LIMPEZA, POE EXEMPLO ÁGUA SANITÁRIA? NÃO CONSEGUI ACHAR.

3. VOCÊ ESTÁ COLECIONANDO CAIXAS VAZIAS DE COMIDA CHINESA POR

ALGUM MOTIVO? NA DÚVIDA, NÃO JOGUEI FORA.

 

SUA FAXINEIRA JOANNE

 

Dá para ver que a Sra. Farley está lendo o bilhete. Praticamente ouço as engrenagens rodando na sua cabeça. No mês passado ela fez um pequeno sermão perguntando se eu não tinha uma panela de cozimento lento, porque só era preciso colocar o frango com legumes de manhã e não se leva mai do que cinco minutos para picar uma cenoura, não é?

Realmente não faço idéia.

- Então ... obrigada. - Tiro rapidamente a roupa lavada das mãos da Sra. Farley e largo na bancadda, depois levo-a até a porta da frente, cônscia de seu olhos que giram inquisitivos. - É muita gentileza da senhora.

- Sem problema. - Ela me dá um olhar brilhante. - Não querendo interferir, querida, mas sabe, você poderia lavar suas blusas de algodão muito bem em casa e economizar todo esse dinheiro.

Olho-a inexpressiva. Se eu fizesse isso teria de secá-las. E passar a ferro.

- E por acaso notei que uma delas voltou com um botão faltando -acrescenta. - A de listras rosa e brancas.

- Ah, certo. Bom ... tudo bem. Vou mandá-la de volta. Eles não vão cobrar.

- Você mesma pode pregar um botão, querida! - diz a Sra. Farley, parecendo chocada. - Não vai demorar dois minutos. Você deve ter algum botão de sobra em sua caixa de costura, não é?

Minha o quê?

- Não tenho uma caixa de costura - explico o mais educadamente que posso.- Realmente não sei costurar.

- Você sabe pregar um simples botão, sem dúvida! - exclama ela.

- Não - respondo meio irritada com a expressão da mulher. - Mas não tem problema. Vou mandar de volta à lavanderia.

A Sra. Farley fica pasma.

- Você realmente não sabe pregar um botão? Sua mãe nunca ensinou?

Contenho o riso ao pensar na minha mãe pregando um botão.

- É... não. Não ensinou.

- No meu tempo - a Sra. Farley balança a cabeça - todas as moças bem educadas aprendiam a pregar botão, cerzir meia e virar um colarinho.

Nada disso significava nada para mim. Virar um colarinho. É pura algaravia.

- Bem, no meu tempo, não - respondo educadamente. - Aprendemos a estudar para as provas e conseguir uma carreira que valha a pena. Aprendemos a ter opiniões. Aprendemos a usar o cérebro - não resisto a acrescentar.

A Sra. Farley me olha de cima a baixo durante alguns instantes.

- É uma pena - diz finalmente e me dá um tapinha simpático no braço.

Estou tentando manter a calma, mas as tensões do dia vão crescendo por dentro. Trabalhei durante horas.

Tive um aniversário inexistente, estou morta de cansaço e com fome... e agora essa velha está me mandando pregar botão?

- Não é uma pena - digo tensa.

- Tudo bem, querida - responde a Sra. Farley em tom apaziguador e atravessa o corredor até o seu apartamento.

De algum modo isso me irrita ainda mais.

- Por que é uma pena? - pergunto saindo pela porta. - Por quê? Certo, talvez eu não saiba pregar um botão. Mas sei reestruturar um acordo financeiro e economizar trinta milhões de libras para o meu cliente.

É isso que sei fazer.

A Sra. Farley me olha de sua porta. No mínimo parece ter mais pena do que antes.

- É uma pena - repete como se não tivesse me ouvido. - Boa-noite, querida.- Ela fecha a porta e eu emito um ruído de exasperação.

- A senhora já ouviu falar do feminismo? - grito junto à sua porta.

Mas não há resposta.

Irritada volto ao meu apartamento, fecho a porta e pego o telefone. Aperto o botão de memória com o número da pizzaria a lenha do bairro e peço o de sempre: uma capricciosa e um saco de fritas Kettle. Sirvo uma taça de vinho da garrafa que está na geladeira, volto a sala e ligo a TV.

Uma caixa de costura. O que mais ela acha que eu deveria ter? Um par de agulhas de tricô? Um tear?

Afundo no sofá com o controle remoto e fico mudando de canal, olhando vagamente as imagens.

Noticiário... um filme francês ... um documentário sobre animais...

Espera aí. Paro de zapear, largo o controle e me acomodo de volta nas almofadas.

Os Waltons.

Conforto definitivo para a visão. Exatamente o que eu necessitava.

É uma cena final. A família está reunida em volta da mesa, vovô faz a oração de agradecimento.

Tomo um gole de vinho e me sinto começando a relaxar. Sempre amei secretamente Os Waltons, desde que era criança. Costumava ficar sentada no escuro quando todo mundo estava fora de casa e fingia morar também na Montanha Walton.

E agora é a última cena de todas; a que sempre espero: a casa dos Waltons está escura. Luzes se apagando; grilos cricrilando. John Boy falando em off. Uma enorme casa cheia de gente. Abraço os joelhos e olho cheia de desejo para a tela enquanto a música familiar vai encerrando.

- Boa-noite, Elizabeth!

- Boa-noite, vovó - respondo em voz alta. Não há ninguém para ouvir, mesmo.

- Boa-noite, Mary Ellen!

- Boa-noite, John Boy - digo em uníssono com Mary Ellen.

- Boa-noite.

- Noite.

- Noite.