Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 24 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Vinte e Cinco

A notícia sai na primeira página do Daily Mail. Sou uma verdadeira celebridade. SAMANTHA ESCOLHE

O DIREITO E NÃO A PRIVADA. Quando chego à cozinha na manhã seguinte Trish está examinando-a, com Eddie lendo outro exemplar.

- A entrevista de Trish foi publicada! – anuncia ele. - Olhe!

- "Eu sempre soube que Samantha estava acima da média das empregadas domésticas", diz Trish Geiger, de 37 anos -lê Trish com orgulho. - "Nós costumávamos discutir filosofia enquanto o pó era aspirado."

Ela ergue os olhos e seu rosto muda.

- Samantha, você está bem? Parece absolutamente arrasada.

- Não dormi muito bem - admito, e acendo o fogo para a chaleira.

Passei a noite com Nathaniel. Não falamos muito sobre minha ida. Mas às três horas, quando o olhei, ele também estava acordado, olhando o teto.- Você precisa de energia! - diz Trish perturbada. - É seu grande dia! Precisa estar com a melhor aparência possível!

- Estarei. - Tento sorrir. - Só preciso de uma xícara de café.

Vai ser um dia gigantesco. O departamento de RP da Carter Spink entrou em ação assim que tomei a decisão e -transformou o meu retomo num evento total na mídia.

Haverá uma grande entrevista coletiva na hora do almoço, diante da casa dos Geigers, quando direi como estou adorando voltar à Carter Spink. Vários sócios vão apertar minha mão para os fotógrafos e darei algumas entrevistas curtas. Então todos voltaremos a Londres de trem.

- Então - diz Eddie enquanto ponho pó de café no bule. - Já fez as malas?

- Quase tudo. E, Sra. Geiger ... aqui - entrego a Trish o uniforme azul dobrado, que estava debaixo do meu braço. - Está limpo e passado. Pronto para a próxima empregada.

Quando pega o uniforme, Trish parece subitamente abalada.

- Claro - diz com a voz trêmula. - Obrigada, Samantha. - E aperta um guardanapo nos olhos.

- Pronto, pronto - diz Eddie dando-lhe um tapinha nas costas. Ele próprio parece estar com os olhos úmidos. Ah, meu Deus, agora também sinto vontade de chorar.

- Realmente agradeço por tudo - engulo em seco. - E lamento deixar vocês na mão.

- Sabemos que você tomou a decisão certa. Não é isso. - Trish enxuga os olhos.

- Temos muito orgulho de você - entoa Eddie carrancudo.

- Pois é! - Trish se recompõe e toma um gole de café. - Decidi fazer um discurso na entrevista coletiva.

Tenho certeza que a imprensa vai querer que eu fale.

- Sem dúvida - digo meio perplexa. - Boa idéia.

- Afinal de contas estamos virando personalidades da mídia ...

- Personalidades da mídia - interrompe Eddie, incrédulo. - Não somos personalidades da mídia!

- Ah, claro que somos! Eu saí no Daily Mail! Um leve rubor vem ao rosto de Trish. - Isso pode ser simplesmente o início para nós, Eddie. Se contratarmos o divulgador certo podemos entrar num reality show! Ou ... fazer anúncios de Campari!

- Campari? - exclama Eddie. - Trish, você não bebe Campari!

- Poderia beber! - está dizendo Trish, na defensiva, quando a campainha da porta toca. - Ou eles podem usar água colorida...

Sorrindo vou para o saguão, apertando o roupão em volta do corpo. Talvez seja Nathaniel que veio me desejar sorte.

Mas quando abro a porta vejo toda a equipe de RP da Carter Spink parada, todas com terninhos idênticos.

- Samantha. - Hilary Grant, chefe de RP, passa o olhar sobre mim. - Pronta?

 

Às doze horas estou usando um terninho preto, meia calça preta, sapato alto preto e a camisa branca mais engomada que já vi. Fui maquiada profissionalmente e meu cabelo foi preso num coque.

Hilary trouxe as roupas, o cabeleireiro e a maquiadora. Agora estamos na sala de estar enquanto ela me prepara quanto ao que dizer à imprensa. Pela bilionésima vez.

- Qual é a coisa mais importante a lembrar? – está perguntando ela. - Acima de qualquer coisa?

- Não mencionar vasos sanitários - digo cansada. - Prometo, não vou mencionar.

- E se perguntarem sobre receitas? - Ela gira saindo de onde estivera andando de um lado para o outro.

- Eu respondo: "Sou advogada. Minha única receita é a receita do sucesso."- Consigo pronunciar as palavras com o rosto impávido.

Tinha esquecido como o departamento de RP leva a sério tudo isso. Mas acho que é o trabalho deles. E

acho que todo esse negócio foi um certo pesadelo para eles.

Hilary tem se mostrado agradável por fora desde que chegou, mas tenho a sensação de que na mesa dela há uma bonequinha de cera me representando, empalada com tachinhas.

- Só queremos que você não diga mais nada infeliz. - Ela me dá um sorriso ligeiramente selvagem.

- Não vou dizer! Vou me ater ao roteiro.

- E a equipe do News Today vai acompanhá-la a Londres. - Ela consulta seu BlackBerry. - Nós lhes demos acesso pelo resto do dia. Tudo bem para você?

- Bem... sim. Acho.

Não acredito em como esse negócio ficou grande. Um programa de notícias quer fazer um documentário de TV sobre minha volta à Carter Spink. Não há mais nada acontecendo no mundo?

- Não olhe para a câmera. - Hilary continua dando instruções rápidas. -Você deve ser bem-humorada e positiva. Pode falar das oportunidades de carreira que a Carter Spink lhe deu e como está ansiosa para voltar. Não mencione o salário...

A porta se abre e ouço a voz de Mellissa vindo do corredor: - Então posso ligar para você no escritório e falar sobre meu plano de carreira? Ou quem sabe poderíamos tomar uma bebida?

- Sem dúvida. É ... boa idéia. - Guy aparece na sala e rapidamente fecha a porta antes que Melissa possa entrar com ele. - Quem, diabos, é essa?

- Melissa. - Reviro os olhos para o céu. – Não pergunte.

- Ela diz que é sua protegida. Parece que você ensinou tudo que ela sabe. -Guy dá um riso divertido. Em direito corporativo ou em como fazer bolinhos?

- Ha, ha - digo educadamente.

- Hilary, há um probleminha lá fora. - Guy se vira para ela. - Um cara de TV armando confusão.

- Droga. - Hilary olha para mim. - Posso deixá-la por um momento, Samantha?

- Sem dúvida! - Tento não parecer ansiosa demais. - Vou ficar bem!

Quando ela sai eu solto um suspiro de alívio.

- E então. - Guy levanta as sobrancelhas. Como está? Empolgada?

- Estou! - sorrio.

Na verdade me sinto meio surreal, de novo vestida de preto, rodeada pelo pessoal da Carter Spink. Não vejo Trish ou Eddie há horas. A Carter Spink se apoderou da casa por completo.

- Você tomou a decisão certa, e sabe disso – diz Guy.

- Sei. - Espano um fiapo de algodão da saia.

- Você está sensacional. Vai arrasar com eles. - Guy se empoleira num braço de sofá diante de mim e suspira. - Meu Deus, senti sua falta, Samantha. A coisa não tem sido a mesma.

Espio-o alguns instantes. Será que ele não tem nenhum senso de ironia? Ou será que consertam isso em Harvard, também?

- Então agora você é meu melhor amigo de novo. - Não consigo evitar uma leve tensão. - Engraçado.

Guy me encara.

- O que isso quer dizer?

- Qual é, Guy. - Quase sinto vontade de rir. - Você não quis saber de mim quando eu estava encrencada.

Agora de repente somos amigos do peito de novo?

- Isso é injusto - responde Guy acalorado. – Fiz tudo que pude por você, Samantha. Lutei por você naquela reunião. Foi Arnold que se recusou a tê-la de volta. Na época não tínhamos idéia do motivo...

- Mas não quis que eu fosse para a sua casa, não é? - Dou um meio sorriso.- A amizade não se estendia até aí.

Guy parece genuinamente abalado. Empurra o cabelo para trás com as duas mãos.

- Eu me senti terrível com aquilo. Não fui eu. Foi Charlotte. Fiquei furioso com ela...

- Claro que ficou.

- Fiquei!

- É, certo - digo sarcástica. - Então acho que vocês tiveram uma briga enorme por causa disso e romperam.

- É - responde Guy.

O vento some totalmente das minhas velas

- É? - Engulo o ar finalmente. .

- Nós rompemos. - Ele dá de ombros. – Não sabia?

- Não! Não fazia idéia! Sinto muito. Realmente não... - Paro, confusa. - Não foi... não foi realmente por minha culpa, foi?

Guy não responde. Seus olhos castanhos estão ficando mais intensos. Lá no fundo sinto uma pancada de apreensão.

- Samantha - diz ele, sem afastar o olhar do meu. - Eu sempre senti... - Guy enfia as mãos nos bolsos. -

Sempre senti que nós, de algum modo... deixamos passar nossa chance.

Não. Não. Isso não pode estar acontecendo.

Deixamos passar nossa chance?

Agora ele diz isso?

- Sempre admirei você realmente. Sempre senti que havia uma fagulha entre nós. - Ele hesita. –Imaginava se você sentia ... o mesmo.

Isso é irreal. Quantos milhões de vezes imaginei Guy me dizendo essas palavras? Quantas vezes fantasiei sobre ele me espiando com aqueles olhos escuros e líquidos?

Mas agora que está fazendo isso, é tarde demais. Está tudo errado.

- Samantha?

De repente percebo que estou olhando-o como um zumbi.

- Ah. Certo. - Tento me recuperar. - Bem ... é. Talvez eu sentisse isso também. -Ajeito a saia. – Mas o negócio é... que eu conheci alguém. Depois que vim para cá.

- O jardineiro - diz Guy sem perder o pique.

- É! - Olho-o, surpresa. - Como você...

- Alguns jornalistas estavam falando isso lá fora.

- Ah. Bem, é verdade. O nome dele é Nathaniel. - Sinto-me ruborizar. - Ele é... ele é legal demais.

Guy franze a testa como se não soubesse o que quero dizer.

- Mas isso é apenas um romance de férias.

- Não é um romance de férias! - digo abalada. - É um relacionamento. Nós somos sérios um com o outro.

- Ele vai se mudar para Londres?

- Bem ... não. Ele odeia Londres. Mas vamos fazer com que dê certo.

Guy parece incrédulo um momento, depois vira a cabeça para trás e dá uma gargalhada estrondosa.

- Você está realmente iludida. Vivendo na terra da fantasia.

- Como assim? - digo irritada. - Vamos fazer com que dê certo. Se os dois quisermos bastante ...

- Não sei se você já entendeu a situação completamente. - Guy balança a cabeça. - Samantha, você está deixando este lugar. Está voltando a Londres, à realidade, ao trabalho. Acredite, você nunca vai manter uma aventura de férias.

- Não foi uma aventura de férias ! - grito furiosa quando a porta abre. Hilary olha de Guy para mim com expressão alerta, suspeita.

- Tudo bem?

- Ótimo - digo, dando as costas para o Guy. - Estou bem.- Bom! - Ela bate no relógio. - Porque já é quase hora!

 

O mundo inteiro parece ter baixado na casa dos Geigers. Quando me aventuro pela porta com Hilary e dois gerentes de RP parece haver centenas de pessoas na entrada de veículos. Uma fileira de câmeras de TV está apontada para mim, fotógrafos e jornalistas se apinham atrás, e há secretários da Carter Spink espalhados, mantendo todo mundo na fila e distribuindo café tirado de uma barraquinha de comidas que parece ter brotado do nada. No portão vejo um grupo de freqüentadores do pub espiando curiosos e lanço-lhes um riso mortificado.

- Ainda faltam alguns minutos - diz Hilary, ouvindo ao celular. - Só estamos esperando o Daily Telegraph.

Vejo David Elldridge e Greg Parker parados perto da máquina de cappuccino, ambos digitando nos BlackBerries. O departamento de RP queria o máximo de sócios possível para a fotografia, mas nenhum dos outros pôde vir. Francamente, elas tiveram sorte de aparecerem tantos. Enquanto estou olhando, para minha incredulidade, vejo Melissa se aproximar deles, elegante com um conjunto bege e segurando...

aquilo é um currículo?

- Oi! - ouço-a começar. - Sou muito amiga de Samantha Sweet e Guy Ashly. Os dois recomendaram que eu me candidatasse à Carter Spink.

Não consigo conter um sorriso. A garota tem coragem.

- Samantha. - Levanto os olhos e vejo Nathaniel vindo pelo caminho de cascalho. Seu rosto está sombrio e os olhos azuis tensos. - Como está?

- Estou ... bem. - olho-o por alguns segundos.Você sabe. Isso é meio maluco.

Sinto sua mão segurando a minha e entrelaço os dedos com os dele o mais forte que posso.

Guy está errado. Vai dar certo. Vai durar. Claro que vai.

Sinto seu polegar roçando o meu, como fez naquela primeira noite que tivemos juntos. Como uma linguagem particular; como se sua pele falasse com a minha.

- Vai me apresentar, Samantha? - Guy vem saracoteando.

- Este é o Guy - digo com relutância. – Trabalho com ele na Carter Spink. -Guy... Nathaniel.

- É um prazer enorme conhecê-lo! - Guy estende a mão e Nathaniel é obrigado a soltar a minha para apertá-la. - Obrigado por ter cuidado tão bem de nossa Samantha.

Será que ele tem de parecer tão paternalista? E que negócio é esse de "nossa" Samantha?

- O prazer foi meu. - Nathaniel o encara mal humorado, de volta.

- Então você cuida do jardim. - Guy olha ao redor. - Muito bonito. Muito bem!

Vejo o punho de Nathaniel se fechando ao lado do corpo.

Por favor, não dê um soco nele, rezo ansiosa. Não dê um soco nele...

Para meu alívio noto Iris vindo pelo portão, espiando os jornalistas com interesse.

- Olha! - digo rapidamente a Nathaniel. – Sua mãe.

Cumprimento Iris com um aceno. Ela está usando calça de algodão com a bainha no meio da canela e alpargatas, as tranças enroladas na cabeça. Quando me encontra, simplesmente me olha por alguns instantes: meu coque, a roupa preta, os sapatos altos.

- Minha nossa! - diz finalmente.

- Eu sei. - Dou um riso sem jeito. - Meio diferente.

- Então, Samantha. - Seu olhar pousa suave no meu. - Você encontrou seu caminho.

- É. - Engulo em seco. - É, encontrei. É o caminho certo para mim, Iris. Sou advogada. Sempre fui. É

uma grande oportunidade. Eu seria... seria louca em não aceitar.

Iris assente, com a expressão contida.

- Nathaniel me contou. Tenho certeza que você tomou a decisão certa. - Ela pára. - Bem... adeus, querida. E boa sorte. Vamos sentir sua falta.

Quando me inclino para abraçá-la sinto subitamente lágrimas ardendo nos olhos.

- Iris ... não sei como agradecer-sussurro. – Por tudo que você fez.

- Você mesma fez. - Ela me aperta com força. Tenho muito orgulho de você.

- E não é um adeus de verdade. - Enxugo os olhos com um lenço de papel, rezando para a maquiagem não estar arruinada. - Vou estar de volta antes que você perceba. Vou visitá-los o máximo de fins de semana que puder...

- Aqui, deixe-me... - Ela pega meu lenço de papel e enxuga de leve meus olhos.

- Obrigada. - Dou-lhe um sorriso trêmulo. Essa maquiagem tem de durar o dia inteiro.

- Samantha? - Hilary me chama da barraquinha de comidas, onde está conversando com David Elldridge e Greg Parker. - Pode vir aqui?

- Já vou indo! - grito de volta.

- Samantha, antes de você ir... - Iris segura minhas mãos, o rosto um pouco contorcido de ansiedade. -

Querida, tenho certeza que está fazendo o melhor para você. Mas lembre-se, você só tem a juventude uma vez. - Ela olha para minha mão, apertada na sua. - Só se tem esses anos preciosos uma vez.

- Vou lembrar. - Mordo o lábio. - Prometo.

- Bom. - Ela me dá um tapinha na mão. - Vá.

 

Enquanto caminho até a barraquinha de comidas, a mão de Nathaniel está apertada na minha, nossos dedos entrelaçados. Teremos de nos despedir em umas duas horas.

Não, não posso pensar nisso.

Hilary está parecendo meio estressada enquanto me aproximo.

- Está com sua declaração? - pergunta ela. - Sente-se preparada?

- Tudo certo. - Pego a folha de papel dobrada. - Hilary, este é Nathaniel.

Os olhos de Hilary passam sobre ele sem interesse.

- Olá - diz ela. - Bom Samantha, vamos repassar a ordem de novo. Você lê sua declaração, depois responde às perguntas, depois são as fotos. Vamos começar em uns três minutos. A equipe está distribuindo o material para a imprensa... - De repente ela me espia mais atentamente. - O que aconteceu com sua maquiagem?

- Ah... eu estava me despedindo de uma pessoa digo em tom de desculpas. -Não está muito ruim, está?

- Teremos de refazer. - Sua voz está trêmula de irritação. - Realmente é só disso que eu preciso. – Ela se afasta gritando para uma de suas assistentes.

Mais três minutos. Três minutos antes que minha vida antiga recomece.- Então ... Vou voltar para a festa do Eamon – digo ainda segurando a mão de Nathaniel. - São só alguns dias. Vou pegar o trem na noite de sexta, passar o fim de semana ...

- O próximo fim de semana, não - intervém Guy, salpicando chocolate num capuccino. Ele ergue a cabeça. - Você estará em Hong Kong.

- O quê? - pergunto idiotamente.

- O pessoal da Samatron adorou saber que você estava de volta e pediu que participasse dessa fusão.

Vamos para Hong Kong amanhã. Ninguém lhe contou?

- Não - digo encarando-o chocada. – Ninguém sequer mencionou.

Guy dá de ombros.

- Achei que você soubesse. Cinco dias em Hong Kong e depois Cingapura. Nós dois vamos cantar uns clientes novos. - Ele toma um gole de café. – Você precisa começar a conseguir negócios, Samantha Sweet, sócia plena. Não pode descansar nos louros.

Eu nem comecei no serviço e já estão falando em descansar nos louros?

- Então, quando vamos voltar?

Guy dá de ombros.

- Umas duas semanas?

- Samantha! - diz Elldridge, aproximando-se. - Guy mencionou? Queremos você no fim de setembro, num fim de semana corporativo praticando tiro. Na Escócia. Deve ser divertido.

- Certo. Ah, é, parece ótimo. - Coço o nariz. - A única coisa é que eu estou tentando manter alguns fins de semana livres... manter algum equilíbrio na vida.

Elldridge parece perplexo.

- Você teve a sua folga, Samantha - diz jovialmente. - Agora é voltar ao trabalho. E devo lhe falar sobre Nova York. - Ele me dá um tapinha no ombro e se vira para o barman. - Mais um espresso, por favor.

- Realisticamente, diria que você só terá um fim de semana livre no Natal-intervém Guy. - Eu lhe avisei.

- Ele ergue as sobrancelhas significativamente e se afasta para falar com Hilary.

Há um silêncio. Não sei o que dizer. Tudo está indo rápido demais. Achei que desta vez seria diferente.

Achei que teria mais controle.

- Natal - ecoa Nathaniel por fim, parecendo abalado.

- Não - digo imediatamente. - Ele está exagerando. Não será tão ruim. Vou reorganizar as coisas. Coço a testa. - Olhe, Nathaniel... eu vou voltar antes do natal. Prometo. Custe o que custar.

Uma expressão estranha passa rapidamente por seu rosto.

- Não transforme isso numa obrigação.

- Obrigação? - Encaro-o. - Não é o que eu quis dizer. Você sabe que não é isso que eu quis dizer.

- Dois minutos! - Hilary vem rapidamente com a maquiadora, mas eu a ignoro.

- Nathaniel...

- Samantha! - diz Hilary rispidamente, tentando me puxar. - Você realmente não tem tempo para isso!

- Você deve ir. - Nathaniel sinaliza com a cabeça. - Está ocupada.

Isso é medonho. Parece que tudo está se desintegrando entre nós. Preciso fazer alguma coisa. Alcançá-

lo.

- Nathaniel, só me diga. - Minha voz treme. Diga antes de eu ir. Aquele dia, na casa de fazenda... o que você falou?

Nathaniel me olha por um longo momento, depois algo em seus olhos parece se fechar.

- Foi longo, tedioso e mal expresso. - Ele se vira meio dando de ombros.

- Por favor, faça alguma coisa com essas manchas! - está dizendo Hilary. -Poderia se afastar, por favor?

- acrescenta rispidamente a Nathaniel.

- Vou sair para não atrapalhar. - Nathaniel solta minha mão e se afasta antes que eu possa dizer alguma coisa.

- Você não está me atrapalhando! - grito, mas não sei se ele ouve.

 

Enquanto a maquiadora começa seu trabalho minha mente está girando tão depressa que me sinto desmaiar.

De repente toda a certeza desapareceu.

Será que estou fazendo a coisa certa?

Ah, meu Deus. Será que estou fazendo a coisa certa?

- Feche, por favor. - A maquiadora está passando pincel nas minhas pálpebras. - Agora abra...

Abro os olhos e vejo Nathaniel e Guy parados juntos, a alguma distância. Guy está falando e Nathaniel ouvindo com o rosto tenso. Sinto uma súbita pontada de inquietação.

O que Guy está dizendo?

- Feche de novo - diz a maquiadora. Relutante, fecho os olhos e sinto-a passando mais sombra ainda.

Pelo amor de Deus. Ainda não terminou? Importa como está minha aparência?

Por fim ela afasta o pincel.

- Abra.

Abro os olhos e vejo Guy parado no mesmo ponto, a alguns metros. Mas Nathaniel desapareceu. Para onde foi?

- Feche os lábios... - instrui a maquiadora, pegando um pincel de batom.

Não consigo falar. Não consigo me mexer. Meus olhar salta em pânico pelo caminho apinhado, procurando Nathaniel. Preciso dele. Preciso falar com ele antes que essa coletiva comece.

Tenho uma vida. É isso que realmente quero fazer com ela? Pensei nisso com cuidado suficiente?

- Pronta para seu grande momento? Está com a declaração? - Hilary está em cima de mim outra vez, cheirando a perfume recém-aplicado. - Assim é bem melhor! Queixo para cima! - Ela bate com tanta força no meu queixo que eu me encolho. -Alguma dúvida de última hora?

- Ah... sim-digo desesperada. - Eu estava imaginando... será que poderíamos esperar mais um pouquinho? Só uns minutos?

O rosto de Hilary congela.

- O quê? - pergunta ela finalmente. Tenho uma sensação pavorosa de que ela vai explodir.

- Estou meio... confusa. - Engulo em seco. Não sei se tomei a decisão certa. Preciso de mais tempo para pensar ... - paro, diante da expressão de Hilary.

Ela vem para mim e traz o rosto bem perto do meu. Ainda está sorrindo mas seus olhos dardejam e as narinas estão abertas e brancas. Dou um passo atrás, encolhendo-me, mas ela me segura pelos ombros com tanta força que sinto suas unhas se cravando na minha carne.

- Samantha - sibila Hilary. - Você vai até lá, vai ler sua declaração e vai dizer que a Carter Spink é a melhor firma de advocacia do mundo. E se não fizer isso... eu mato você.

Acho que ela está falando sério.

- Todos ficamos confusos, Samantha. Todos precisamos de mais tempo para pensar. É a vida. - Ela me dá uma leve sacudida. - Supere isso. - Hilary solta o ar com força e alisa seu terninho. - Certo! Vou anunciá-la.

Ela marcha para o gramado. Fico ali parada, trêmula.

Tenho trinta segundos. Trinta segundos para decidir o que farei da vida.

- Senhoras e senhores da imprensa! - A voz de Hilary estrondeia pelo microfone. - Tenho o enorme prazer de recebê-los aqui esta manhã.

De repente vejo Guy, servindo-se de água mineral.

- Guy! - grito ansiosa. - Guy, onde está Nathaniel?

- Não faço idéia - Guy dá de ombros, despreocupado.

- O que você disse a ele? Quando estavam conversando agora mesmo?

- Não precisei falar muita coisa. Ele entendeu para onde o vento estava soprando.

- Como assim? - encaro-o. - O vento não estava soprando para lugar nenhum.

- Samantha, não seja ingênua. - Guy toma um gole d'água. - Ele é adulto. Entende.

- ...nossa mais nova sócia na Carter Spink, Samantha Sweet! - a voz de Hilary e os aplausos irrompendo mal tocam minha consciência.

- Entende o quê? - pergunto horrorizada. – O que você disse?

- Samantha! - Hilary me interrompe com um sorriso docemente selvagem. -Estamos todos esperando!

Muita gente ocupada! - Ela pega minha mão com um aperto de ferro e me arrasta com força surpreendente pelo gramado. - Vá! Aproveite! - Ela me dá uma cutucada forte nas costas e se afasta.

Certo. Trinta segundos não bastaram. Estou na frente de toda a imprensa do país e não sei o que quero.

Não sei o que devo fazer.

Nunca me senti tão confusa.

- Anda! - A voz baixa e tensa de Hilary me faz pular. Sinto-me numa esteira transportadora. O único caminho é para a frente.

Com as pernas bambas vou até o meio do gramado, onde um microfone foi posto num pódio. O sol está se refletindo em todas as lentes das câmeras e eu me sinto meio ofuscada. Examino a multidão do melhor modo que posso, procurando Nathaniel, mas não o vejo em lugar nenhum. Trish está parada a alguns metros à direita, vestindo um conjunto rosa-fúcsia, e acena freneticamente. Ao seu lado Eddie segura uma minicâmera de vídeo.

Lentamente desdobro o papel da declaração e o aliso.

- Bom-dia - digo ao microfone, com a voz tensa. - Tenho o enorme prazer de compartilhar com vocês a notícia empolgante. Depois de receber uma oferta maravilhosa da Carter Spink, retomarei hoje à firma como sócia. Desnecessário dizer... que estou empolgada.

De algum modo não consigo fazer a voz parecer empolgada. As palavras parecem vazias quando as digo.

- Fiquei impressionada com o calor e a generosidade da recepção da Carter Spink – continuo hesitando –e me sinto honrada em entrar para uma sociedade tão prestigiosa e com tanto...

Meus olhos continuam a procurar Nathaniel. Não consigo me concentrar no que estou dizendo.

- Talento e excelência! – diz Hilary rispidamente.

- Ah... sim. – Encontro o lugar na folha. – Talento. E excelência.

Um risinho sufucado percorre a multidão de jornalistas. Não estou fazendo um bom trabalho.

- A qualidade do serviço da Carler Spink é... ah ... não fica atrás de nenhuma outra - continuo tentando parecer convincente.

- A qualidade é melhor do que a das privadas que você limpava? - grita um jornalista de bochechas vermelhas.

- Neste momento não responderemos a perguntas! - Hilary entra irritada no gramado. - E não responderemos a perguntas sobre toaletes, banheiros ou qualquer outra forma de sanitários. Samantha, vá em frente.

- Eles eram indescritíveis, é? - grita o sujeito de bochechas vermelhas, com um riso contido.

- Samantha, continue - diz Hilary quase cuspindo, lívida.

- Claro que não eram indescritíveis! - Trish vem pelo gramado, com os saltos-altos fúcsia afundando na grama. - Não permitirei que meus toaletes sejam execrados! São todos Royal Doulton. São Royal Doulton -

repete ela ao microfone. - Da melhor qualidade. Você está se saindo muito bem, Samantha - Ela me dá um tapinha no ombro.

Agora todos os jornalistas estão rindo. O rosto de Hilary ficou totalmente branco.

- Com licença - diz a Trish com fúria contida. Estamos no meio de urna entrevista coletiva. Poderia sair, por favor?

- Este gramado é meu! - diz Trish levantando o queixo. - A imprensa vai querer que eu fale também!

Eddie, onde está meu discurso?

- Você não vai fazer um discurso! - reage Hilary horrorizada, enquanto Eddie vem correndo pelo gramado com uma folha impressa por computador.

- Gostaria de agradecer ao meu marido Eddie por todo esse apoio - começa Trish, ignorando Hilary.

Gostaria de agradecer ao Daily Mail...

- Isto aqui não é a porcaria do Oscar! – Hilary está apopléctica.

- Não grite comigo! - retruca Trish incisivamente. - Gostaria de lembrar que sou a dona desta residência.

- Sra. Geiger, a senhora viu Nathaniel? - olho a multidão ao redor pela milionésima vez.

- Quem é Nathaniel? - pergunta um dos jornalistas.

- É o jardineiro - diz o sujeito de rosto vermelho. - O namorado. Então o negócio acabou? – acrescenta ele para mim.

- Não! - digo magoada. - Vamos manter o relacionamento.

- Como farão isso, então?

Posso sentir um novo interesse se agitando na multidão de jornalistas.- Simplesmente vamos manter, certo? - De repente, sem motivos, me sinto à beira das lágrimas.

- Samantha - diz Hilary furiosa. - Por favor, volte à declaração oficial! - Ela empurra Trish para longe do microfone.

- Não me toque! - berra Trish. - Eu processo você. Samantha Sweet é minha advogada, você sabe.

- Ei, Samantha, o que Nathaniel acha de você voltar para Londres? - grita alguém.

- Você colocou a carreira acima do amor? – entoa uma garota de cara alegre.

- Não! - respondo desesperada. - Eu só... preciso falar com ele. Onde ele está? Guy! – Subitamente vejo Guy na lateral do gramado. - Aonde ele foi? Corro até ele pelo gramado, quase tropeçando. – Você precisa dizer. O que falou com ele?

- Aconselhei a manter a dignidade. - Guy dá de ombros, arrogante. - Para ser honesto, contei a verdade ao sujeito. Você não vai voltar.

- Como ousa? - ofego furiosa. - Como ousa dizer isso? Eu vou voltar! E ele pode ir a Londres...

- Ah, por favor. - Guy levanta os olhos. – Ele não quer ficar por perto como um desgraçado digno de pena, atravancando seu caminho, envergonhando você...

- Me envergonhando? - Encaro Guy, aparvalhada. - Foi isso que você disse a ele? Por isso ele foi embora?

- Pelo amor de Deus, Samantha, dá um tempo - diz Guy impaciente. - Ele é um jardineiro.

Meu punho age antes que eu possa pensar. Acerta Guy bem no queixo.

Ouço sons ofegantes, gritos e máquinas fotográficas espocando ao redor, mas não me importo. É a melhor coisa que já fiz na vida.

- Ai! Merda! - Ele segura o rosto. - Por que diabo você fez isso?

Agora todos os jornalistas estão apinhados ao redor, atirando perguntas para nós, mas eu os ignoro.

- É você quem me envergonha - digo enojada. Você não vale nada comparado a ele. Nada.- Para meu horror, sinto lágrimas vindo aos olhos. Preciso encontrar Nathaniel. Agora.

- Está tudo bem! Está tudo bem! - Hilary vem trovejando pelo gramado, um borrão de terninho de risca-de-giz. - Samantha está um pouco tensa hoje! Ela segura meu braço como um torno, os dentes à mostra num sorriso rígido. - É só uma discordância amigável entre sócios! Samantha está tremendamente ansiosa pelos desafios de liderar uma equipe jurídica de fama mundial. Não é, Samantha? - Seu aperto aumenta.

Não é, Samantha?

- Eu ... não sei - digo em desespero. – Simplesmente não sei. Sinto muito, Hilary. - Arranco meu braço da mão dela.

Hilary tenta furiosamente agarrar meu braço mas escapo e começo a correr pelo gramado em direção ao portão.

- Segurem-na! - grita Hilary ao pessoal de RP. Bloqueiem a passagem!

Mulheres vestidas de terninho vêm para mim, de todas as direções, como algum tipo de equipe da SWAT. Não sei como consigo me desviar. Uma tenta agarrar meu paletó e eu me solto. Jogo longe os sapatos altos e acelero, mal sentindo a dor do cascalho nos pés.

Quando chego ao portão meu coração começa a martelar. Há três garotas do RP em fila, bloqueando o caminho.

- Ora, Samantha - diz uma delas, num tom de policial bonzinho. - Não seja idiota.

- Vamos voltar à coletiva. - Uma delas está se aproximando cautelosamente, com as mãos estendidas.

- Deixem ela passar! - berra uma voz de trombeta atrás de mim. Olho, e para minha perplexidade vejo Trish correndo o mais depressa que seus saltos fúcsia permitem.

- Ajudem, seus idiotas! - acrescenta a um grupo de jornalistas próximos.

Um instante depois as garotas do RP foram submersas por jornalistas abrindo o portão; abrindo caminho para mim. E estou fora, correndo pela rua, sem olhar para trás.

 

Quando chego ao pub minha meia-calça virou trapos na rua, o cabelo saiu do coque e caiu nas costas, a maquiagem nada em suor e meu peito arde de dor.

Mas não me importo. Preciso achar Nathaniel. Preciso dizer que ele é a coisa mais importante da minha vida, mais importante do que qualquer emprego.

Preciso dizer que eu o amo.

Não sei por que não percebi antes, por que nunca disse antes. É tão óbvio! É tão ofuscante!

- Eamonn! - grito ansiosa ao me aproximar, e ele ergue a cabeça, surpreso, recolhendo copos. – Preciso falar com Nathaniel. Ele está aqui?

- Aqui? - Eamonn parece sem palavras. - Samantha, você se desencontrou dele. Nathaniel já foi.

- Foi? - Paro ofegando. - Foi aonde?

- Olhar o negócio que ele quer comprar. Partiu de carro há pouco tempo.- O de Bingley? - Engulo em seco, aliviada, ainda sem fôlego. - Você poderia me dar uma carona?

Preciso falar com ele.

- Não é lá... - Eamonn esfrega o rosto vermelho, sem jeito. Encaro-o sentindo uma premonição súbita. -

Samantha ... ele foi a Cornwall.

O choque me acerta no peito como um caminhão. Não consigo falar. Não consigo me mexer.

- Achei que você sabia. - Eamonn dá um passo adiante, abrigando os olhos do sol. - Ele disse que poderia ficar umas duas semanas por lá. Achei que tinha lhe contado.

- Ah, não - digo com a voz mal funcionando. Não contou.

De repente minhas pernas parecem feitas de geléia. Sento-me num dos barris, com a cabeça latejando.

Ele foi para Comwall. Assim. Sem sequer dizer adeus. Sem falar a respeito.

- Ele deixou um bilhete, para o caso de você passar aqui. - Eamonn tateia no bolso e pega um envelope.

Quando me entrega, seu rosto está franzido de perturbação. - Samantha, sinto muito.

- Tudo bem. - Consigo dar um sorriso. - Obrigada, Eamonn. - Pego o envelope e tiro o papel.

 

S

Acho que nós dois sabemos que este é o fim da linha.

Vamos parar enquanto estamos inteiros.

Só quero que saiba que este verão foi perfeito.

N

 

Lágrimas escorrem pelas minhas bochechas, sem parar. Não acredito que ele foi embora. Como pode ter desistido de nós? Independentemente do que Guy tenha lhe dito, independentemente do que ele pensasse.

Como pode ter simplesmente ido embora?

Nós poderíamos fazer com que desse certo. Ele não sabia disso? Não sentia, no fundo?

Ouço um som, levanto a cabeça e vejo Guy e uma multidão de jornalistas ao meu redor. Nem tinha notado.

- Vão embora - digo em voz abafada. – Deixem me em paz.

- Samantha - diz Guy com a voz baixa e conciliatória. - Sei que você está magoada. Desculpe se a perturbei.

- Vou lhe dar um soco de novo. - Enxugo os olhos com as costas da mão. -Estou falando sério.

- As coisas podem parecer ruins nesse momento. - Guy olha o bilhete. -Mas você tem uma carreira fantástica para continuar.

Não respondo. Meus ombros estão curvados, o nariz escorrendo e o cabelo caindo em volta do rosto em mechas duras de laquê.

- Seja razoável. Você não vai voltar a limpar privadas. Não há nada para segurá-la aqui. - Guy dá um passo adiante e coloca meus sapatos altos brilhantes na mesa ao lado. - Venha, sócia. Todo mundo está esperando.