Schistosoma mansoni e esquistossomose
Parte VI – Epidemiologia e Controle
33 - Epidemiologia e Controle da Esquistossomose
Mansoni
Constança Simões Barbosa; Tereza Cristina Favre; Ronaldo S. Amaral; Otávio Sarmento Pieri
Transmissão peridomiciliar da esquistossomose em comunidade urbana
sem saneamento na Região Metropolitana de Recife, Pernambuco,
mostrando a contaminação de um criadouro de Biomphalaria glabrata com
dejetos lançados diretamente das moradias.
A epidemiologia é o campo da atividade científica que analisa o
processo saúde-doença a partir dos fatores e eventos biológicos,
ecológicos, ambientais, históricos e políticos que são determinantes da
sua ocorrência. Uma das possibilidades da análise epidemiológica é
esclarecer a causalidade dos agravos à saúde, considerando os
componentes sociais, culturais e biológicos como um elenco de
determinação do adoecer.
Este capítulo trata da epidemiologia e do controle da esquistossomose
a partir dos aspectos macroepidemiológicos, discutindo os elementos
sociais e culturais que modulam a manutenção e reprodução da
endemia, e dos aspectos microepidemiológicos, evidenciados no nível
local de ocorrência da doença, ressaltando aqueles de ordem biológica
e ecológico-ambiental. É feito um histórico das estratégias
recomendadas para o controle da esquistossomose pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) e dos programas de controle implementados
pelo ministério da saúde no Brasil, procurando adequar as estratégias
de diagnóstico e tratamento recomendadas por esses dois órgãos ao
cenário ecoepidemiológico da área endêmica do Nordeste.
Esquistossomose: doença e endemia
As abordagens para se compreender e analisar as doenças endêmicas como a esquistossomose não devem ser excludentes. A primeira se refere ao processo do adoecer, ou seja, à construção (causas) do processo endêmico, que só pode ser entendido se considerados os elementos históricos, socioeconômicos e culturais que o determina. A segunda abordagem remete ao nível microambiental onde o homem vive e trabalha e onde são evidenciados os elementos finais (efeitos) responsáveis pelo seu adoecer.
Na primeira abordagem, a esquistossomose é entendida como ‘endemia’, com todo um processo histórico de formação sobre o qual os elementos biológicos, sociais e culturais agiram conjuntamente, ao longo do tempo, para que a doença pudesse se expressar em níveis endêmicos. Nessa perspectiva, o controle da esquistossomose vai além da intervenção imediata sobre os efeitos, mediante ações curativas. É preciso que se aja sobre as causas que mantêm a estrutura epidemiológica, por meio de políticas públicas que priorizem a melhoria das condições de vida e de saúde das populações atingidas pela doença. Na segunda abordagem, as ações são voltadas para intervenções imediatas na forma de ações curativas nos doentes ou intervenções emergenciais no meio ambiente, que são necessárias para minimizar o agravo da doença nos indivíduos.
Assim, a esquistossomose pode ser analisada e controlada de formas diversas. Para a clínica médica, a esquistossomose é definida como ‘doença’, possui causalidade etiológica e modelo biológico de transmissão. É uma doença parasitária causada por um trematódeo – Schistosoma mansoni – e seu diagnóstico se limita ao indivíduo, com base em exames parasitológicos, clínicos e laboratoriais.
O modelo biológico envolve a contaminação de coleções hídricas por fezes
de indivíduos infectados contendo ‘ovos’ de S. mansoni (Figura 1). Essa contaminação pode ocorrer em função do ato de se defecar próximo às margens de rios, córregos, lagoas e açudes, prática comum nas populações rurais, ou por despejo direto dos dejetos nas coleções hídricas dulcícolas. Seja qual for a forma de contaminação, ela se dá onde não há rede adequada de esgotamento sanitário. Ao chegarem na água com as fezes, os ovos do parasito eclodem e cada um libera uma larva ciliada denominada ‘miracídio’, que nada ativamente, penetrando nos hospedeiros intermediários representados por caramujos do gênero Biomphalaria. Nos tecidos do caramujo, os miracídios sofrem transformações, dando origem aos ‘esporocistos primários’, que posteriormente se desenvolverão em ‘esporocistos secundários’. Estes darão origem ao último estágio larvar no caramujo, as cercárias. Decorridos 28 dias, em média, da penetração dos miracídios, as cercárias maduras rompem os tecidos dos caramujos e chegam ao ambiente aquático, onde nadam ativamente e, ao entrarem em contato com o hospedeiro definitivo, representado pelo homem, penetram em sua pele e/ou mucosa. Nesse momento, elas perdem a cauda e passam a se chamar ‘esquistossômulos’, que caem na corrente sanguínea e são arrastados passivamente para o coração, pulmões e fígado. No sistema porta intra-hepático, os esquistossômulos crescem e amadurecem, se transformando em ‘vermes adultos’. Machos e fêmeas se acasalam e migram para as veias mesentéricas do intestino, onde as fêmeas põem seus ‘ovos’. Cerca de metade desses ovos chega à cavidade intestinal e junto com as fezes são expulsos no ambiente; a outra metade chega aos diferentes órgãos, principalmente ao fígado, levada pelo fluxo sanguíneo, podendo provocar a formação de granulomas periovulares.
Figura 1 – Ciclo biológico de Schistosoma mansoni, mostrando os
diferentes estágios de desenvolvimento nos hospedeiros naturais e o
ambiente no qual cada estágio ocorre
Fonte: adaptada de Ross et al. (2002).
Para a epidemiologia a diferença entre doença e endemia é definida a partir da análise das características espaciais e temporais que definem um determinado agravo à saúde. A esquistossomose é considerada endemia, pois acomete ampla faixa de populações sob riscos específicos, há um longo tempo. A epidemiologia procura conhecer os vários níveis de causalidade de ocorrência da esquistossomose, considerando-a uma doença com forte determinação social e cultural, além da biológica. A epidemiologia quantitativa possui metodologias e instrumentos apropriados para mensurar os fatores de risco que condicionam a infecção dos indivíduos e a expressão da doença no coletivo. A epidemiologia social utiliza métodos qualitativos de análise para conhecer os aspectos históricos e culturais (comportamento e crenças de risco) que possam estar relacionados à manutenção e reprodução da endemia. Assim, o modelo epidemiológico da esquistossomose pode ser representado pela conjunção e intersecção dos diferentes níveis de casualidade que determinam sua
ocorrência (Figura 2).
Figura 2 – Modelo epidemiológico esquemático mostrando os diferentes
níveis de causalidades envolvidos na produção e reprodução da
esquistossomose
Contaminação ambiental e transmissão da esquistossomose
Para que o ciclo biológico do parasito S. mansoni se complete e a transmissão da esquistossomose se instale em determinada área é necessária uma conjunção de fatores:
pessoas parasitadas, que são a fonte de infecção;
contaminação fecal de coleções de água doce colonizadas pelos caramujos do gênero Biomphalaria;
contatos humanos com as coleções de água doce onde existam caramujos infectados.
A contaminação fecal dos ambientes aquáticos dulcícolas é o principal componente do processo de transmissão da esquistossomose e de outras parasitoses de veiculação hídrica. Portanto, é nessa etapa do ciclo de transmissão que as ações de controle teriam um efeito mais eficaz e duradouro, impedindo o parasito de chegar ao ambiente aquático e, portanto, inviabilizando seu desenvolvimento biológico. Com isso não haveria risco de infecção para ambos, caramujo e homem. Embora esta constatação possa parecer óbvia, as intervenções que visam impedir a contaminação fecal do meio ambiente são extremamente complexas, envolvendo fatores ligados às práticas culturais, ao estilo e condições de vida de determinadas populações.
Existem, pelo menos, duas vias clássicas de contaminação fecal dos ambientes aquáticos:
Individual: ocorre quando as pessoas defecam ao ar livre e as fezes são carreadas pelas chuvas, atingindo as coleções d’água. Esta é uma prática fortemente enraizada na cultura rural, devido à histórica carência de saneamento, abastecimento de água e de informação. Nas áreas rurais, os indivíduos dependem das águas naturais, representadas por rios, córregos, lagoas, canais de irrigação, para exercer atividades domésticas (lavagem de roupas e louças), higiênicas (banho), econômicas ou de subsistência (pesca e/ou prática agrícola) e de lazer, assim como para a
drenagem e eliminação dos dejetos orgânicos (Figura 3). Essa via de contaminação pode ser interrompida, ou pelo menos reduzida, mediante implementação de ações de educação em saúde, porém, como todo comportamento interiorizado por longo tempo, é de difícil remodelagem.
Figura 3 – Atividades de contato da população com os criadouros de B.
straminea na área rural da Zona da Mata de Pernambuco: água
contaminada como local de banho, lavagem de roupa e lazer
Coletiva: ocorre quando o resíduo de esgotos residenciais é diretamente lançado nas coleções hídricas. Esta é uma prática coletiva de ocorrência usual em localidades periurbanas e/ou favelizadas, cujas populações não têm acesso à rede de
esgotamento sanitário (Figura 4). Nessas localidades, a drenagem das águas servidas e dos dejetos são feitas diretamente para canais abertos ao redor do peridomicílio, onde os caramujos vetores se criam e se infectam. Por ocasião das chuvas, esses canais transbordam e os caramujos, então infectados, são transportados passivamente para as ruas, formando pequenos focos de transmissão, onde as pessoas se infectam acidentalmente pelo simples contato com as águas empoçadas. Essa via de contaminação pode ser corrigida pela ação pública, com medidas de saneamento ambiental representadas, em muitas
situações, por pequenas obras de engenharia sanitária (Figura 5). As duas vias de contaminação fecal, individual e coletiva, antes discutidas proporcionam riscos de transmissão da infecção para pessoas que dependem diretamente dessas águas para suas atividades diárias ou mesmo para outras que as utilizam esporadicamente para diferentes finalidades.
Figura 4 – Esgotos residenciais diretamente lançados em canal (Vila Dom
Hélder, Jaboatão dos Guararapes, PE) que irá contaminar as coleções
hídricas naturais
Figura 5 – Ação de controle da esquistossomose em Natuba, Vitória de
Santo Antão, Pernambuco
Diagnóstico laboratorial e epidemiológico da
esquistossomose mansoni
As formas clínicas da esquistossomose se assemelham a muitas outras doenças; portanto, essa inespecificidade e a variação nos sintomas dificultam o seu diagnóstico apenas pelo exame clínico do paciente. Por esse motivo, o diagnóstico definitivo é dado por exames laboratoriais, que podem ser feitos por métodos diretos, ou seja, que detectam a presença de ovos de S. mansoni nas fezes ou tecidos, ou por intermédio de métodos indiretos, que se baseiam em mecanismos imunológicos. O método direto de Kato-Katz (Katz, Chaves & Pellegrino, 1972) é oficialmente empregado nos programas de controle e desde a década de 1970 tem sido recomendado pela OMS para o diagnóstico da doença. Ele consiste no exame, ao microscópio, de uma quantidade fixa de matéria fecal, permitindo um diagnóstico semiquantitativo, baseado na contagem de ovos. Essa contagem de ovos é uma medida indireta útil da carga parasitária do indivíduo.
No nível individual, o diagnóstico em pacientes que chegam à rede de saúde é feito fundamentado na história e na rotina do paciente, buscando informações sobre se reside em área endêmica ou se relata contato com águas de focos de transmissão. Esse procedimento orienta o diagnóstico, que deverá ser confirmado por exame parasitológico de fezes. No indivíduo, a contagem de ovos fornece uma boa estimativa do quanto sua saúde está comprometida e ajuda a estabelecer condutas adequadas de tratamento da infecção.
No nível coletivo, o diagnóstico da esquistossomose em uma determinada comunidade é realizado por meio de inquéritos epidemiológicos. Esses inquéritos são estudos com intuito de levantar as condições de morbidade por uma causa específica, no caso em questão a esquistossomose, mediante diagnóstico numa amostra representativa da comunidade ou na sua população inteira, definida e localizada no tempo e no espaço (Rouquayrol & Almeida Filho, 2003). A estimativa da carga parasitária numa comunidade também permite estabelecer um juízo quanto à necessidade de medidas de intervenção. O diagnóstico das condições de morbidade da esquistossomose em uma população pode ser realizado por intermédio de exames parasitológicos de fezes para detectar os casos positivos, as cargas parasitárias e a intensidade da infecção na população-alvo e de exames clínicos e sorológicos para identificar as formas clínicas predominantes na população.
Uma investigação epidemiológica eficaz, que inclua a realização de inquéritos parasitológico e malacológico aliados à uma avaliação ambiental de risco, permite aos serviços de saúde estimar as necessidades de intervenção e selecionar quais as ações de controle mais adequadas a cada comunidade. No item Estratégia Alternativa para o Diagnóstico e Controle da Esquistossomose, deste capítulo, faz-se uma breve avaliação das atuais estratégias recomendadas pela OMS e pelo ministério da Saúde (MS) para levantamento parasitológico e tratamento quimioterápico da esquistossomose, e se propõe uma estratégia alternativa, adequada para uma área endêmica específica.
Histórico das estratégias recomendadas pela OMS
para o controle da esquistossomose mansoni
Desde a década de 1950, a OMS tem estabelecido sucessivas diretrizes para a avaliação e o controle da esquistossomose em escala global (WHO, 1953, 1961, 1965, 1967, 1973, 1980, 1985, 1993, 2002). A pesquisa científica proporcionou o avanço do conhecimento, redefinindo objetivos. Novas estratégias de controle foram sendo ajustadas nos nove relatórios produzidos pelos Comitês de Especialistas da OMS, baseados na experiência acumulada de pesquisas em países endêmicos, inclusive o Brasil. O breve histórico que se segue pretende mostrar o esforço dedicado ao equacionamento desse importante problema de saúde pública.
Década de 1950
Em seu primeiro relatório (WHO, 1953), o Comitê de Especialistas da OMS revisava o conhecimento disponível sobre a epidemiologia, a distribuição geográfica e os procedimentos e métodos usados em inquéritos e recomendava a realização de estudos sobre morfologia, taxonomia, suscetibilidade, fisiologia e ecologia dos moluscos hospedeiros intermediários, sobre os aspectos clínicos da doença e também sobre os fatores geográficos, demográficos e socioeconômicos envolvidos em sua transmissão. Além disso, estabelecia as seguintes metas prioritárias:
desenvolvimento de métodos diagnósticos confiáveis e de fácil uso;
descoberta de moluscicidas com toxicidade prolongada restrita às espécies-alvo em baixas concentrações, impacto ambiental mínimo, baixo custo e fácil aplicação;
descoberta de drogas quimioterápicas eficazes e seguras;
utilização de índices fidedignos de infecção;
escolha de escolares como um grupo representativo da população a ser examinada;
realização de ações preventivas no âmbito dos programas locais de saúde.
Década de 1960
No segundo relatório (WHO, 1961), o Comitê reconhecia que o combate aos moluscos hospedeiros intermediários era a medida isolada mais efetiva no controle da esquistossomose. Fez recomendações sobre os aspectos operacionais do uso dos moluscicidas sob diferentes condições ecológicas, visando à sua máxima eficiência. Deixava claro, porém, que o controle da esquistossomose só poderia ser alcançado com o emprego de uma ou mais das seguintes medidas:
tratamento das pessoas infectadas para reduzir ou abolir a liberação de ovos;
redução ou prevenção de contaminação da água com medidas como fornecimento de água encanada, saneamento e adoção de hábitos sanitários pela população;
redução ou completa prevenção do contato humano com água contaminada;
redução ou eliminação dos moluscos hospedeiros.
O Comitê reconhecia que as drogas quimioterápicas disponíveis ainda eram pouco eficazes, caras e inadequadas para uso em campanhas de tratamento e considerava que medidas como o saneamento e a instalação de latrinas não eram de fácil implementação, principalmente em áreas rurais. Evitar o contato humano com a água contaminada poderia ser contraproducente nas áreas de clima quente.
No terceiro relatório (WHO, 1965), o Comitê reconhecia a importante contribuição à pesquisa feita por alguns países endêmicos, entre eles o Brasil. No entanto, advertia sobre a expansão da doença com o desenvolvimento de esquemas de irrigação e outros recursos hídricos. Para a realização de inquéritos parasitológicos representativos, recomendava a amostragem por localidade e residência, abrangendo as diferentes faixas etárias.
O Comitê reiterava que o objetivo dos programas de controle devia ser a redução da transmissão, com base principalmente no uso de moluscicidas. Considerava que o controle da transmissão por meio da quimioterapia ainda não era exeqüível devido à falta de drogas satisfatórias. Porém, ressaltava a importância da provisão de água e esgoto como medidas de suporte aos programas de controle, assim como o papel da educação pública para a saúde na obtenção de cooperação e apoio da comunidade.
No relatório seguinte (WHO, 1967), o Comitê relatava o contraste entre os avanços recentes no conhecimento e a sua aplicação prática no controle da doença. Recomendava que as descobertas fossem testadas no campo e os resultados, avaliados sob diferentes cenários epidemiológicos. Voltava a advertir sobre a expansão da esquistossomose em vários países e, no Brasil, nos estados do Sul e no Maranhão. Como os programas de controle estavam enfrentando problemas de orçamento e pessoal qualificado, o Comitê recomendava que os objetivos fossem ajustados às realidades locais, seja limitando-se a impedir a expansão da doença, seja controlando apenas sua morbidade.
Década de 1970
No relatório que se seguiu (WHO, 1973), o Comitê lamentava que os programas de controle continuassem a ser desencorajados com os argumentos de que as lacunas no conhecimento ainda eram consideráveis e que as deficiências de infra-estrutura, de pessoal qualificado e de orçamento impediam a continuidade das ações por períodos prolongados. Falsas expectativas e concepções errôneas surgiam da definição inadequada dos objetivos específicos. Estes deveriam ser ditados pela epidemiologia e severidade da doença, pelos recursos disponíveis e por sua relevância em relação a outros problemas de saúde pública. Um objetivo altamente prioritário nos países endêmicos seria prevenir a expansão da esquistossomose para áreas indenes, ficando claro que as ações de controle deveriam ser mantidas por vários anos para terem sucesso.
Quanto aos programas de controle até então implementados, se criticava a falta de padronização dos métodos de avaliação, a ausência de áreas de comparação e a pouca duração do período de avaliação. Reconhecia evidências de que a transmissão podia ser reduzida com as medidas de controle disponíveis, destacando no programa brasileiro:
a queda da prevalência de 23% para 9% num período de dois anos, em uma área, e a redução da intensidade de infecção em 40% num período de quatro anos, em outra, ambas com o uso de moluscicida (niclosamida);
a evidência de que o tratamento quimioterápico de crianças, com alta contagem de ovos, poderia impedir a progressão da infecção para formas severas da doença;
o insucesso do controle da transmissão pelo tratamento dos portadores de infecção com hycanthone.
O Comitê não recomendava o desenvolvimento de novos esquistossomicidas, devido ao alto custo das pesquisas clínicas e as exigências dos órgãos de saúde quanto à segurança dos produtos quimioterápicos. Reconhecia que o tratamento dos positivos, conjugado com o controle dos moluscos, tinha impacto mais rápido sobre a incidência, prevalência e intensidade da infecção do que o uso de moluscicidas como única medida de controle. Reiterava a importância dos moluscicidas já disponíveis comercialmente no controle da esquistossomose, recomendando o aperfeiçoamento das estratégias de aplicação desses produtos para obter o máximo de efeito a um custo mínimo. Recomendava o uso de medidas de controle ambiental para tornar as coleções de água inóspitas ao desenvolvimento dos moluscos hospedeiros e desaconselhava o controle biológico dos moluscos sem uma investigação adequada das possíveis conseqüências.
Década de 1980
Sete anos depois (WHO, 1980), o Comitê de Especialistas registrava uma alteração significativa na abordagem do controle, passando a ênfase para a quimioterapia e as ações preventivas (provisão de água, saneamento, educação em saúde e melhorias socioeconômicas). Essa nova abordagem, denominada ‘controle integrado’, colocava o hospedeiro humano no centro das atenções, reconhecendo a importância de seu papel no sucesso e no fracasso dos programas de controle, e a aplicação de moluscicidas passava a ser considerada como medida auxiliar no controle da esquistossomose. Os principais motivos para essa mudança foram:
o investimento da indústria farmacêutica em drogas e formulações mais eficazes e seguras;
o custo crescente dos produtos moluscicidas;
o desenvolvimento de métodos diagnósticos quantitativos simples e rápidos (Katz, Chaves & Pellegrino, 1972);
o sucesso inicial dos programas nacionais de controle, inclusive no Brasil, onde o Programa Especial de Controle da Esquistossomose (Pece) havia medicado mais de um milhão de pessoas com oxamniquine entre 1976 e 1979.
Passados mais cinco anos (1985), o Comitê de Especialistas consolidou uma nova mudança nas prioridades e abordagens operacionais, adotando o controle da morbidade como objetivo imediato, em lugar do controle da transmissão. Considerava que o uso integrado de múltiplas medidas de intervenção para reduzir ou interromper a transmissão estava além dos recursos humanos e financeiros disponíveis na maioria dos países endêmicos. Em compensação, a redução da doença em si era um objetivo exeqüível para os sistemas de cuidados primários de saúde, graças aos seguintes avanços:
simplicidade e confiabilidade dos métodos de diagnóstico;
eficácia, segurança e facilidade de administração das drogas quimioterápicas;
adequação das medidas de controle de moluscos aos critérios epidemiológicos específicos;
precisão na coleta e análise dos dados. No entanto, era advertido que o sucesso das medidas de intervenção com impacto direto sobre a morbidade (como quimioterapia, provisão de água, saneamento e modificação ambiental) dependia da participação ativa da população. Por isso, a educação em saúde deveria ter um papel preponderante nos programas de controle. Os aspectos organizacionais, gerenciais e operacionais do controle também deveriam ser alvos de maior atenção.
A organização das operações de controle era dividida em três fases principais:
‘planejamento’, em que os dados epidemiológicos eram coletados, as metas eram definidas, a abordagem operacional era estabelecida e os recursos, garantidos;
‘ataque’ ou ‘intervenção’, em que as ações de controle eram implementadas e avaliadas continuamente, esperando-se uma redução nos índices de infecção com o tratamento quimioterápico;
‘manutenção’, em que as medidas de controle eram direcionadas para o combate aos moluscos hospedeiros nos focos peridomiciliares de transmissão e/ou para esquemas de
tratamento quimioterápico periódico, dependendo da situação epidemiológica.
Década de 1990
O único relatório do Comitê de Especialistas divulgado na década de 1990 (WHO, 1993) reforçava, em linhas gerais, as diretrizes apresentadas no relatório anterior (WHO, 1985). Ressaltava os avanços obtidos pelos programas de controle da morbidade, principalmente aqueles que se integravam aos sistemas de cuidados primários de saúde. Assinalava também a utilização de novas tecnologias: gerenciamento de dados por computador, utilização de aparelhos portáteis de ultra-sonografia em condições de campo, recursos audiovisuais nas estratégias de informação, educação e comunicação. Recomendava a integração do controle da esquistossomose com o das geo-helmintoses para melhor custo-benefício do Programa.
O Comitê também reiterava a recomendação do primeiro relatório (WHO, 1953) para que as crianças em idade escolar tivessem prioridade nos programas de controle, pelas seguintes razões:
as crianças eram o grupo vulnerável de maior crescimento nos países endêmicos;
eram portadoras de maior carga parasitária;
a doença afetava seu crescimento, desenvolvimento e estado de saúde.
O tratamento quimioterápico periódico permanecia como o componente central dos programas de controle, ainda que o custo das drogas (oxamniquine e praziquantel) permanecesse elevado. Para otimizar a relação custo-benefício, a seguinte estratégia era recomendada, utilizando crianças em idade escolar como um grupo indicador do status da infecção na comunidade:
realizar um inquérito parasitológico nas crianças de 7-14 anos, facilmente localizadas nas escolas e que constituem o grupo de maior intensidade de infecção em uma comunidade;
proceder ao tratamento:
em toda a população, se a prevalência no grupo indicador for maior que 50%;
tratar as crianças de 5-19 anos, se a prevalência no grupo indicador estiver entre 20% e 50%;
tratar todas as crianças positivas do grupo indicador, caso a prevalência esteja abaixo de 20%.
para o retratamento, a principal meta é proteger as crianças de 5-19 anos à medida que crescerem e continuarem a se infectar;
em áreas de baixa endemicidade ou em situações onde faltavam recursos, o controle da morbidade deveria ser feito por intermédio de vigilância passiva que garantisse a disponibilidade do medicamento nas instituições de saúde sempre que algum caso fosse identificado.
Década de 2000
No último relatório divulgado (WHO, 2002), o Comitê de Especialistas consolida uma nova estratégia, conjugando o controle da esquistossomose ao das geo-helmintoses e dirigindo o tratamento para grupos de alto risco sem diagnóstico individual prévio. As razões apontadas são:
superposição dos grupos-alvo e dos aspectos operacionais envolvidos no controle dessas parasitoses;
o custo elevado do diagnóstico no tratamento seletivo;
o praziquantel pode ser administrado com segurança em mulheres grávidas e lactantes;
a queda no preço do praziquantel e outros anti-helmínticos devido ao término de suas patentes, tornando disponíveis as formulações genéricas para uso nos países endêmicos.
Os principais alvos para o tratamento periódico e sistemático da esquistossomose passam a ser as crianças em idade escolar e grupos ocupacionais com alta freqüência de contato com os criadouros (plantadores de cana, pescadores e mulheres em tarefas domésticas). Medidas auxiliares, como provisão de água, saneamento, educação em saúde e controle ambiental dos moluscos hospedeiros, devem ser promovidas em todos os casos.
Mesmo sem as medidas adicionais de controle, o tratamento periódico durante a infância pode garantir a redução da morbidade hepática na comunidade até que a taxa de transmissão decline. Além disso, a introdução de um programa de tratamento regular contra a esquistossomose e as geo-helmintoses pode prevenir deficiências de ferro e anemia e melhorar o desenvolvimento cognitivo e o desempenho escolar. Tal programa também atenderia à resolução da Assembléia Mundial de Saúde, que fixou como meta para o ano 2010 o oferecimento de tratamento regular da esquistossomose e geo-helmintoses a pelo menos 75% das crianças em idade escolar vivendo nas áreas endêmicas.
Foi recomendada a seguinte estratégia para diagnóstico e tratamento, que pode ser modificada para se adequar às peculiaridades de cada área de cobertura:
dividir a área (distrito, município ou região) em zonas ecologicamente homogêneas e conduzir um inquérito parasitológico em uma amostra aleatória de escolas para avaliar a prevalência e a intensidade de infecção, totalizando 200-250 crianças;
categorizar a intensidade de infecção de cada criança: leve (1-99 opg), moderada (100- 399 opg) e severa (> 400 opg);
usar os resultados desse inquérito inicial para determinar o nível endêmico da área: alto (> 50% de prevalência), médio (> 10% e < 50%) ou baixo (< 10%);
com base na determinação do nível endêmico da área, estabelecer o seguinte esquema de tratamento:
nível endêmico alto – tratamento anual dirigido a todas as crianças em idade escolar e demais grupos de alto risco, além de acesso ao praziquantel para tratamento dos casos diagnosticados pelos serviços de saúde;
nível endêmico médio – tratamento bienal dirigido aos escolares e acesso ao praziquantel para tratamento dos casos diagnosticados pelos serviços de saúde;
nível endêmico baixo – tratamento dirigido aos escolares duas vezes durante o período de ensino fundamental, além de acesso ao praziquantel para tratamento dos casos diagnosticados pelos serviços de saúde.
As sucessivas diretrizes da OMS para avaliação e controle da esquistossomose se refletem nas mudanças de prioridades quanto às medidas de controle. Até 1980 o objetivo era exclusivamente o controle da transmissão; a partir daí a ênfase passou para o controle da morbidade. Quanto às estratégias, o controle dos moluscos predominou até o início dos anos 1980, sendo substituído pelo controle quimioterápico seletivo até o final da década de 1990 e, recentemente, pelo controle quimioterápico dirigido aos grupos mais vulneráveis. Outras medidas de controle, embora recomendadas, não tiveram tanta prioridade ao longo das décadas.
Quadro 1 – Evolução dos objetivos e estratégias de controle da
esquistossomose mansoni recomendados pelos Comitês de Especialistas
da OMS. Os sombreados de cor laranja e de cor azul indicam,
respectivamente, alta e baixa prioridade
Recomendações 1953 1961 1965 1967 1973 1980 1985 1993 2002
Transmissão
Objetivo
Morbidade
Químico
moluscos Biológico Controle de
Ecológico
Seletivo
Controle
Dirigido
quimioterápico
Em massa
Outras Educação
controle Saneamento medidas de
Histórico dos programas de controle da esquistossomose no Brasil
O primeiro inquérito nacional para estimar a prevalência da esquistossomose no Brasil foi levado a efeito de 1947 a 1952, por decisão governamental da Divisão de Organização Sanitária (Pellón & Teixeira, 1950). Tal inquérito foi realizado entre escolares, na faixa etária de 7-14 anos, nas sedes dos municípios de maior importância médico-sanitária, priorizando-se os núcleos com população superior a 1.500 habitantes. Os autores estimaram em 2,6 milhões o número de portadores de infecção por S. mansoni nos 16 estados pesquisados:
Tabela 1 – Prevalência da esquistossomose por estado brasileiro,
observada em inquérito realizado por Pellón e Teixeira entre julho de 1947 e
junho de 1950
Estado Prevalência da doença 1. Rondônia NE 2. Acre NE 3. Amazonas NE 4. Roraima NE 5. Pará NE 6. Amapá NE 7. Tocantins NE 8. Maranhão 0,46 9. Piauí 0,04 10. Ceará 0,94 11. Rio Grande do Norte 2,32 12. Paraíba 7,49 13. Pernambuco 25,09 14. Alagoas 19,75 15. Sergipe 29,80 16. Bahia 16,55 17. Minas Gerais 4,92 18. Espírito Santo 1,62 19. Rio de Janeiro 0,10 20. São Paulo NE 21. Paraná 0,12 22. Santa Catarina 0,00 23. Rio Grande do Sul NE 24. Mato Grosso do Sul NE 25. Mato Grosso 0,01 26. Goiás 0,08
27. Distrito Federal NE Brasil 7,26
NE = não endêmico.
Fonte: adaptada de Passos & Amaral (1998) e de Coura & Amaral (2004).
Ainda que o inquérito de Pellón e Teixeira tenha representado um importante avanço no conhecimento da esquistossomose no Brasil, é plausível supor que seu resultado tenha subestimado a real situação da doença, já que eles priorizaram apenas escolares e deixaram de cobrir várias localidades e municípios inteiros da área endêmica da doença no país. Apesar dessa limitação, esse inquérito constituiu um ponto de partida fundamental para as campanhas de controle posteriormente implementadas no país, já que delineou a distribuição geográfica da doença e revelou que a esquistossomose tinha ampla distribuição no país e apresentava índices de positividade superiores a 50% em escolares de vários municípios brasileiros. Apesar disso, o controle nacional da doença só foi implementado em 1975 pela Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), quando o ministério da Saúde criou o Programa Especial de Controle da Esquistossomose (Pece). A criação desse programa foi impulsionada pelo surgimento de uma nova droga antiesquistossomótica, a oxamniquine, que conferia boa eficácia terapêutica, ausência de efeitos colaterais sérios e administração por via oral, em dose única. O Pece adotou como grupo-alvo as crianças na faixa etária de 7-14 anos e direcionou suas atividades para o tratamento seguindo o esquema: em municípios com prevalência acima de 20%, fazia-se tratamento em massa da população acima de dois anos de idade; se a prevalência estivesse entre 5% e 20%, tratava-se a população de cinco a 35 anos e se a prevalência fosse menor que 5%, fornecia-se tratamento somente aos positivos. Entretanto, durante o Pece, o intervalo entre os inquéritos e a faixa etária da população submetida a tratamento variaram bastante. Aplicação de moluscicida para o controle dos caramujos hospedeiros, ações de saneamento, abastecimento de água e educação em saúde, embora previstas pelo Pece, foram implementadas em menor escala e de forma irregular.
Em 1980, o Pece perdeu as características de programa especial, tornando-se um programa de rotina do ministério da Saúde e passando a se chamar Programa de Controle da Esquistossomose (PCE). As ações do PCE restringiram o tratamento em massa e estimularam a participação de outros órgãos de saúde pública no diagnóstico e tratamento. A abrangência do tratamento (dirigido ou seletivo) era definida em função da prevalência em cada município avaliado pelos inquéritos parasitológicos em crianças de 714 anos. As atividades foram direcionadas para o tratamento bienal em massa da população e, em menor escala e de forma irregular, para o controle dos caramujos mediante aplicação de moluscicida. Ações de saneamento, abastecimento de água e educação em saúde foram implementadas esporadicamente.
Em 1990, o PCE foi reestruturado e passou a ser dirigido pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que se originou da fusão da Sucam com a Fundação de Serviço Especial de Saúde Pública (FSesp). A aplicação de moluscicida foi limitada a focos de transmissão isolados e localidades com alta prevalência. Um importante avanço nessa fase foi a adoção da localidade como unidade epidemiológica de onde as informações parasitológicas e epidemiológicas eram extraídas e a partir das quais as intervenções eram implementadas, respeitando-se as peculiaridades de cada uma. Em 1999, a partir da proposta de Reforma Sanitária, o ministério da Saúde descentralizou as ações da Funasa e do controle da esquistossomose. Desde então, o diagnóstico e as ações de controle e vigilância epidemiológica da doença passaram a ser responsabilidade dos serviços municipais de saúde, sob a coordenação estadual, cabendo à União o apoio técnico e financeiro. O PCE passou então a atuar apenas no treinamento dos agentes de saúde em técnicas de diagnóstico, fornecimento de medicação, recolhimento e processamento das informações epidemiológicas levantadas localmente e na realização de inquéritos especiais para diagnóstico e tratamento em massa nas populações com alta prevalência.
Cabe mencionar que, do Pece até a descentralização da Funasa, em 1999, as informações sobre a esquistossomose, incluindo a identificação e o número de portadores da doença, eram obtidas por busca ativa, mediante a realização, nas comunidades, de inquéritos parasitológicos pelos guardas de endemias da Sucam ou da Funasa.
Com a implementação da Reforma Sanitária concebida na 8a Conferência Nacional de Saúde, em 1986, começa o processo de transformação na atuação dos serviços de saúde pública no Brasil (Arouca, 1998). Entre os vários objetivos da Reforma Sanitária, destaca-se a descentralização e regionalização das ações de saúde, cabendo aos municípios a definição de prioridades para promoção da saúde visando ao controle dos agravos, integrando recursos, técnicas e práticas voltadas para a cobertura total das ações de saúde. Por essa nova perspectiva, o controle da esquistossomose é de competência dos serviços de saúde municipais, que devem organizar a busca dos casos com recursos humanos próprios, promover o diagnóstico e tratamento, consolidar as informações levantadas e notificá-las para os órgãos oficiais de saúde a nível estadual e federal.
A Atuação dos Programas Oficiais de Controle
Controle Quimioterápico por meio do Tratamento dos Esquistossomóticos
Os programas oficiais de controle da esquistossomose no Brasil se basearam quase que exclusivamente em campanhas periódicas de tratamento dos portadores da infecção. Desde a implementação do Pece, em 1975, até 1999, a droga empregada pelo ministério de Saúde no tratamento da esquistossomose era a oxamniquine (Mansil), administrada em dose única, que conferia uma taxa de cura na faixa de 65% a 85% (Lima & Costa et al., 1993). Devido ao alto custo da oxamniquine, outro fármaco, o praziquantel, foi introduzido pelo ministério para substituir o anterior, por ser mais barato, conferir uma taxa de cura entre 60% e 90% e uma redução de contagem de ovos de 90% a 95% naqueles casos que não são curados.
Durante o período de atuação dos programas de controle a única mudança considerável no tratamento dos portadores da infecção foi a abrangência com que a droga foi administrada nas comunidades. De 1975 a 1980 o tratamento era administrado em massa, seguindo-se o seguinte esquema: lugares com prevalência superior a 20%, tratamento em massa da população acima de dois anos de idade; quando a prevalência se encontrasse entre 5% e 20%, somente a população de cinco a 35 anos era tratada; e, se a prevalência fosse menor que 5% somente os casos positivos eram tratados. De 1980 até 1990, o tratamento passou a ser administrado de acordo com os níveis de prevalência e segundo a classificação endêmica da área: em áreas endêmicas primárias – com transmissão há longo tempo e altas prevalências –, recomendava-se a o tratamento em massa, bienal, onde a prevalência em crianças de sete a 14 anos fosse superior a 50%; quando a prevalência era de 25% a 50%, tratamento seletivo da população de dois a 14 anos; e tratamento somente dos positivos quando a prevalência fosse inferior a 25%. Para as áreas endêmicas secundárias – com transmissão recente – recomendava-se o mesmo esquema de tratamento baseado na prevalência de exames de 20% de toda a população das localidades com menos de mil habitantes e de 10% em localidades com mais de mil habitantes. Para as áreas com focos isolados recomendava-se o tratamento somente dos positivos (Coura & Amaral, 2004).
Na Tabela 2 são apresentados os números de portadores de infecção detectados pelo método de Kato-Katz e os tratamentos realizados entre 1975 e 2005, em todo o país, pelos programas de controle.
Tabela 2 – População examinada, percentual de positividade e tratamentos
com oxamniquine realizados em portadores de esquistossomose, no
período de 1975 a 2005, em todo o Brasil
Ano População Portadores de Positividade Tratamentos
examinada infecção (%) realizados
1975 855.921 46.331 5,4 11.580 1976 1.018.496 51.718 5,1 8.760 1977 443.591 103.409 23,3 285.370 1978 626.697 86.111 13,7 1.098.309 1979 663.429 59.905 9,0 1.640.191 1980 1.684.615 164.860 9,8 1.296.703 1981 1.840.626 172.242 9,4 978.358 1982 1.732.907 136.882 7,9 777.617 1983 2.096.268 184.149 8,8 811.112 1984 2.347.810 198.025 8,4 834.588 1985 2.697.910 223.609 8,3 700.975 1986 1.878.728 138.481 7,4 407.354 1987 1.406.844 90.001 6,4 208.322 1988 1.363.606 82.962 6,1 145.600 1989 1.395.202 76.412 5,5 150.821 1990 1.802.675 150.934 8,4 195.430 1991 1.900.761 134.103 7,1 164.576 1992 2.353.970 203.207 8,6 253.666 1993 2.354.390 274.084 11,6 316.077 1994 2.559.051 283.369 11,1 321.203 1995 2.715.259 300.484 11,1 322.666 1996 2.718.164 245.401 9,0 261.533 1997 2.791.831 290.031 10,4 287.131 1998 2.163.354 183.374 8,5 195.402 1999 2.095.765 177.146 8,5 170.580 2000 1.364.240 90.580 6,6 92.351 2001 1.369.540 93.347 6,8 89.516 2002 2.067.541 140.627 6,8 132.292 2003 2.055.965 138.963 6,8 130.241 2004 1.821.942 108.717 6,0 99.773 2005 1.827.253 108.705 6,1 102.503
(–): Dados não informados.
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
As informações disponíveis na Tabela 2 demonstram grandes diferenças entre o número de portadores de infecção diagnosticados e o de tratamentos realizados, principalmente nos anos de atuação do Pece e nos primeiros anos do PCE/Sucam, refletindo a extensa utilização do tratamento em massa empregado pelos programas de controle. Nota-se que isso não ocorreu apenas nos anos de 1975 e 1976, pois nessa época a droga disponível para o tratamento da esquistossomose era o hycanthone, que produzia efeitos colaterais indesejáveis. A diferença entre aqueles dois parâmetros tendeu a se reduzir gradativamente ao longo dos anos, refletindo uma mudança nos critérios de abrangência do tratamento.
Não se pode negar que as ações periódicas de tratamento promoveram uma redução na prevalência da esquistossomose na grande maioria dos municípios da área endêmica do país e que o tratamento é uma importante estratégia para o controle da endemia. Vale ressaltar, no entanto, que a quimioterapia é apenas um paliativo e que o controle da doença não pode ser visto fora do contexto social e econômico das comunidades endêmicas. O controle da endemia só será alcançado de forma duradoura e sustentável com o emprego de medidas que impliquem a melhoria das condições de vida das populações menos favorecidas e que são atingidas pela doença.
De acordo com alguns autores, a implementação de tratamento em massa com oxamniquine durante vários anos consecutivos pode ter induzido uma tolerância de S. mansoni a esta droga e promovido a seleção de cepas de resistentes. O grupo assessor do PCE e Gerência Técnica de Esquistossomose do Ministério da Saúde levaram ainda em consideração o custo bem menor do praziquantel para que essa droga tenha sido recentemente adotada pelos programas de controle. A compreensão de vários pesquisadores da área clínica e patológica com extensa experiência em ensaios clínicos e experimentais é a de que um benefício importante oriundo dessa política de medicalização foi a contribuição para a prevenção da evolução e/ou na regressão das formas graves da doença (Kloetzel, 1967; Bina, 1981; Bina & Prata, 1983).
O Controle dos Moluscos Vetores
Até o surgimento da oxamniquine como droga eficaz e segura para tratamento em grande escala da esquistossomose, o controle da endemia era feito basicamente por meio do controle dos hospedeiros intermediários. Esse controle consiste no emprego de agentes químicos, físicos ou biológicos para reduzir a distribuição e a abundância das espécies de Biomphalaria que albergam formas larvares de S. mansoni e, assim, diminuir as chances de infecção do hospedeiro definitivo.
Das medidas de controle biológico e ambiental esperam-se efeitos de médio e longo prazo, não só na densidade de moluscos, mas também nos índices de infecção humana; já do químico, o impacto esperado é em curto prazo. Apesar das perspectivas do controle biológico (Barbosa & Barbosa, 1995) e ambiental (Pieri, Felipe & Sarquis, 1995) dos moluscos vetores, não há informações sistemáticas sobre o impacto dessas medidas na infecção humana. Por outro lado, o controle químico foi alvo de várias pesquisas de campo, sendo o único efetivamente empregado pelos programas nacionais de controle da esquistossomose, por intermédio da aplicação de substâncias tóxicas nos criadouros naturais para reduzir drástica e rapidamente as populações de Biomphalaria.
Até a década de 1970, vários produtos químicos foram testados e empregados no combate dos caramujos, incluindo a cal extinta, o sulfato de cobre, o pentaclorofenato de sódio, a tritilmorfolina e a niclosamida, esta última conhecida comercialmente como Bayluscide. Todos eles eram considerados tóxicos ao meio ambiente. No entanto, o único desses moluscicidas amplamente utilizado nas campanhas nacionais de controle da esquistossomose foi a niclosamida, produzida pela indústria farmacêutica Bayer.
A aplicação da niclosamida nos criadouros de Biomphalaria foi a única medida de controle complementar à quimioterapia implementada com alguma regularidade na área endêmica do país pela Sucam e Funasa, com exceção dos projetos pilotos realizados durante o Pece em localidades de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Minas Gerais, nas quais várias medidas de controle foram conjugadas a fim de se avaliar o impacto sobre a infecção humana.
Com efeito, entre 1977 e 1980, o Pece fez um levantamento malacológico seguido da aplicação de moluscicida em 21.927 localidades da área endêmica de seis estados do Nordeste, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Naquele período, foram pesquisadas 175.712 coleções hídricas, das quais 42.178 (24%) eram colonizadas por moluscos hospedeiros (Machado, 1982). Essa ampla distribuição dos moluscos, associada à alta prevalência da doença nesses estados, bem como à presença desses moluscos em outros estados brasileiros e à sua alta capacidade de reprodução, acabaram por encorajar a aplicação da niclosamida de forma maciça nas diferentes áreas endêmicas da doença. Apesar disso, tanto os levantamentos malacológicos quanto a aplicação de moluscicida nem sempre foram sincronizados com o levantamento da prevalência na população humana seguido de tratamento dos portadores da infecção.
Essa estratégia de aplicar moluscicidas como medida auxiliar à quimioterapia permaneceu nos anos posteriores à atuação do Pece, porém
em escala reduzida. Na Tabela 3 é fornecida uma idéia do uso de moluscicida pela Sucam e Funasa nos estados do Nordeste.
Tabela 3 - Número de coleções hídricas pesquisadas segundo a presença de caramujos Biomphalaria spp e de criadouros tratados com niclosamida,
com respectivos percentuais de tratamento (%). Brasil, 1976-2002
Ano Criadouros Pesquisados Criadouros Tratados %
1976 16.488 1.885 11,4 1977 43.178 1.485 3,4 1978 106.319 20.394 19,2 1979 54.817 17.776 32,4 1980 126.272 33.121 26,2 1981 123.070 28.881 23,5 1982 139.255 27.279 19,6 1983 178.178 37.430 21,0 1984 197.337 27.614 14,0 1985 212.113 30.548 14,4 1986 156.183 17.103 11,0 1987 55.339 6.157 11,1 1988 79.287 5.406 6,8 1989 100.720 7.126 7,1 1990 37.400 4.257 11,4 1991 51.012 4.319 8,5 1992 50.507 7.495 14,8 1993 45.572 7.142 15,7 1994 31.772 4.717 14,8 1995 34.181 4.680 13,7 1996 31.183 2.908 9,3 1997 27.832 4.016 14,4 1998 44.280 15.430 34,8 1999 7.774 729 9,4 2000 1.519 301 19,8 2001 3.306 10 0,3 2002 2.871 0 0,0
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Paralelamente, vários estudos interventivos de campo, conduzidos por diferentes grupos de pesquisa nas diversas áreas endêmicas do país, mostraram uma redução significativa na transmissão quando medidas de controle (moluscicida e/ ou quimioterapia) eram aplicadas periodicamente por alguns anos (Katz, 1998). Estudos realizados entre 1966 e 1978 mostraram que tanto a abundância relativa e a infecção natural de B. straminea quanto os índices de infecção humana (prevalência, incidência e intensidade) sofreram queda significativamente maior na área tratada com moluscicida do que na área não tratada. Apesar de otimistas, os resultados desencorajaram o emprego de niclosamida no controle da esquistossomose, não só porque a transmissão não foi interrompida, mas também pelos altos custos envolvidos (Barbosa & Costa, 1981).
Apesar de os estudos mostrarem que o emprego da niclosamida, único produto disponível comercialmente, é capaz de reduzir a população de caramujos e produzir um impacto substancial sobre a prevalência e a incidência da infecção humana, ela tem como desvantagens o alto custo-benefício (Coura, 1995), a ação letal sobre outros organismos (WHO, 1992) e a necessidade de aplicações freqüentes (Barbosa & Costa, 1981; Coura Filho et al., 1992; Pieri, Felipe & Sarquis, 1995). Mesmo nas áreas endêmicas, o uso continuado da niclosamida só se justifica quando a prevalência e a intensidade da infecção humana são altas, o saneamento é inviável e o impacto ambiental, desprezível.
Isso não significa que o controle dos moluscos vetores deve ser desestimulado nas áreas de transmissão ativa, pelo contrário. Essa medida continua sendo a mais eficaz para reduzir rapidamente a transmissão da doença em áreas de alta prevalência (Sturrock, 1995). Infelizmente, estudos visando oferecer uma alternativa ao uso de moluscicidas químicos para o controle dos hospedeiros intermediários têm tido pouco sucesso.
De fato, muitas pesquisas foram feitas buscando descobrir compostos de origem vegetal, extraídos de várias partes de plantas (fruto, látex etc.) com ação moluscicida, porém com impacto ambiental presumivelmente menor. No entanto, tais pesquisas ainda não geraram um produto eficaz para uso em condições naturais, ou porque não conseguiram isolar um princípio ativo que atue apenas sobre os moluscos- alvo, ou porque não conseguiram produzir quantidades suficientes para seu uso em larga escala. Portanto, até o momento, nenhum desses compostos foi empregado em campanhas de controle em um país endêmico. Dentre as plantas empregadas para fins moluscicidas podem-se citar os compostos extraídos de Phytolacca dodecandra, Ambrosia maritima e Swartzia madagascarensis. Destaque deve ser dado ao estudo do látex de Euphorbia splendes, conhecida como coroa-de-cristo, cuja eficácia já foi testada em condições naturais e os resultados são animadores: mesmo em pequenas concentrações o látex é capaz de matar os caramujos Biomphalaria, exibindo baixa toxicidade para outros animais aquáticos (Schall et al., 2001).
Quanto ao controle biológico, foram utilizados organismos competidores, parasitas ou patogênicos capazes de comprometer a sobrevivência ou a reprodução dos moluscos-alvo. A maioria dos estudos dedicados à busca de agentes biológicos para uso no controle dos moluscos vetores foram realizados até a década de 1980, porém sob condições de laboratório ou em ambientes naturais limitados, como lagoas e pequenos córregos. Os organismos mais comumente empregados nesses estudos foram espécies de moluscos (Marisa cornuarietis, Helisoma duryi, Pomacea sp, Melanoides tubercullata, Biomphalaria straminea) e de peixes (Serranochromis macrocephala, Umbra pygmaea, Cichlasoma biocellatum, Astronotus occelattus, Barbus conchonius e Tilapia melanopleura). O uso dessas espécies competidoras e/ou predadoras tem sido pouco eficaz no campo, apesar dos resultados animadores obtidos no laboratório (Lardans & Dissous, 1998). Experimentos dessa natureza devem ser vistos com cautela, já que a introdução de espécies exóticas em condições naturais, sem a devida avaliação, pode gerar distúrbios ambientais.
Quanto ao controle ambiental, são feitas alterações de fatores-chave do ambiente para tornar os criadouros impróprios para a instalação, o
desenvolvimento ou a manutenção dos moluscos vetores (Figura 6). Medidas locais de pequena escala, como drenagem do solo, remoção da vegetação e retirada de detritos em valas e córregos e/ou aterramento de pequenas coleções hídricas que não representem fonte de vida ou sobrevivência para outras espécies animais são perfeitamente viáveis em áreas do Nordeste do país (Pieri, Felipe & Sarquis, 1995) e têm se mostrado promissoras em diferentes áreas endêmicas (Webbe & Jordan, 1993).
Figura 6 - Controle ambiental por retificação e remoção da vegetação
marginal de um criadouro de B. straminea na área rural da Zona da Mata de
Pernambuco
O panorama traçado anteriormente ilustra a complexidade epidemiológica da esquistossomose também no que diz respeito aos moluscos vetores e aponta para a necessidade de novos estudos que busquem produtos alternativos viáveis, de baixo custo e baixo impacto ambiental que possam ser utilizados como mais uma ferramenta no controle integrado da esquistossomose.
Indicadores epidemiológicos da esquistossomose: dados oficiais do Ministério da Saúde
Os estudos epidemiológicos com base em dados secundários podem avaliar as condições de saúde de uma população pelo seu perfil de morbidade e mortalidade, além de considerar outros indicadores específicos para cada agravo.
Dentre os indicadores de morbidade empregados para se avaliar a gravidade e a importância da esquistossomose para a saúde pública estão a prevalência, a mortalidade e o número de internações hospitalares devido a formas graves ou casos agudos. O perfil da mortalidade (óbitos por esquistossomose em um determinado período), por sexo e faixa etária, permite avaliar fatores de risco específicos atribuídos a estas variáveis. Os dados a seguir foram fornecidos pelo ministério da Saúde e merecem algumas considerações.
Prevalência e Positividade da Infecção
A prevalência é um indicador usado em epidemiologia para expressar a força de ocorrência das doenças nas comunidades. A medida mais simples de prevalência é a freqüência absoluta dos casos. O coeficiente de prevalência é a medida que tem maior valor descritivo pois permite estimar e comparar, no tempo e no espaço, a prevalência de uma dada doença. Pode ser descrito como a relação entre o número de casos diagnosticados (ou conhecidos) e a população, multiplicando o resultado por um número fator (100, 1.000, 10.000 etc.) (Rouquayrol & Almeida Filho, 2003).
Muitas vezes esse indicador é indevidamente utilizado e os resultados podem ser subestimados quando a população trabalhada não é representativa dos municípios, estados e do país e a cada ano são trabalhados municípios ou localidades endêmicas diferentes. Esse viés pode ser minimizado calculando-se prevalências médias para períodos mais longos, por exemplo cinco anos.
A evolução da positividade da esquistossomose na população examinada no Brasil pode ser visualizada a seguir, com dados resultantes de inquéritos realizados nos estados brasileiros durante a atuação da Sucam e Funasa e, mais recentemente, a partir dos dados enviados pelos estados e
consolidados pela Funasa/MS (Tabela 2, vista anteriormente). A inspeção visual desses dados sugere uma redução da prevalência da doença ao longo do tempo, já que em 1977 ela era de 23,3%, caindo gradativamente nos anos seguintes e chegando a 6,3 %, em 2003. Embora à primeira vista os dados sugiram uma queda real da infecção naquele período, que pode ter ocorrido de fato, se pode deixar de considerar uma série de fatores que recomendam cautela na interpretação dessa série histórica.
Deve-se considerar que esses dados foram obtidos por intermédio de inquéritos parasitológicos realizados sem padronização metodológica entre si, abrangendo diferentes grupos etários da população e, em alguns casos, por amostragem em microrregiões específicas. Um outro viés de informação pode estar no fato de que os grupos-alvo foram procedentes de áreas indenes, endêmicas ou de regiões com taxas variáveis para a esquistossomose. Deve-se considerar, ainda, que o Brasil está com quase 80% da sua população concentrada em áreas urbanas ou periurbanas e que grande parte desses inquéritos foram realizados em municípios da área rural. A esquistossomose não é mais somente uma endemia rural, configurando-se em alguns estados como doença focal na periferia das grandes cidades e em localidades do litoral.
Com o conhecimento prévio de todos esses fatores, recomenda-se cautela na interpretação e comparação das prevalências e, principalmente, na hora de emitir um juízo a respeito de sua queda ao longo do tempo. A conjunção desses fatores pode mascar e subestimar a real positividade da esquistossomose, gerando erros sistemáticos e falseando estimativas.
O ministério da Saúde estima em 2,5 milhões o número de portadores da esquistossomose no Brasil (Passos & Amaral, 1998). No entanto, outro estudo aponta para existência de seis a sete milhões de esquistossomóticos no país. Apesar das limitações antes mencionadas, esses dados de positividade são os únicos disponíveis e devem ser considerados valiosos pela história de 27 anos de atuação dos programas nacionais de controle, fornecendo informações relevantes quanto à panorâmica da endemia no país. Porém, a contradição de opiniões sobre a estimativa da esquistossomose denota um desconhecimento da atual situação da doença e justifica a necessidade de um inquérito nacional, com amostragem planejada e representativa dos diversos grupos populacionais brasileiros, a fim de atualizar as informações sobre a endemia (Katz & Peixoto, 2000).
Tabela 4 - Prevalência da esquistossomose observada em dois inquéritos
de abrangência nacional, por estado brasileiro, em 1947/1952 e 1977/1981
Estado 1947/1952 1977/1981
Exames Prevalência exames Prevalência
(%) (%)
1. Rondônia NP NP NP NP 2. Acre NP NP NP NP 3. Amazonas NP NP NP NP 4. Roraima NP NP NP NP 5. Pará NP NP 28.213 0,4 6. Amapá NP NP NP NP
7. Tocantins ** ** NP NP 8. Maranhão 12.733 0,6 13.754 3,2 9. Piauí 10.424 0,4 8.518 0,0 10. Ceará 41.218 0,9 20.461 2,9 11. R.Grande do 18.808 2,3 11.870 0,6 Norte
12. Paraíba 21.715 7,5 10.294 5,8 13. Pernambuco 50.971 25,1 23.495 13,1 14. Alagoas 17.668 19,8 71.987 21,5 15. Sergipe 17.229 29,8 6.085 31,7 16. Bahia 74.590 16,6 NP NP 17. Minas Gerais 162.491 4,9 55.785 10,1 18. Espírito Santo 12.939 1,6 11.057 2,6 19. Rio de Janeiro 69.228 0,1 24.253 0.5 20. São Paulo NP NP NP NP 21. Paraná 45.093 0,1 81.825 1,9 22. Santa 31.926 0,0 14.522 0,0 Catarina
23. Rio Grande do NP NP 29.222 0,0 Sul
24. Mato Grosso *** *** 7.678 0,1 do Sul
25. Mato Grosso 12.991 0,0 10.398 0,5 26. Goiás 14.968 0,1 18.351 0,1
27. Distrito **** **** NP NP
Federal
Brasil 614.992 7,3 447.768 6,7
* NP = não pesquisado.
** = no período, fazia parte de Goiás.
*** = no período, fazia parte de Mato Grosso.
**** = no período, situava-se no Rio de Janeiro.
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Tabela 5 - Percentual de portadores de Schistosoma mansoni detectados
nos estados abrangidos pelo Programa Especial de Controle da
Esquistossomose (Pece), no quadriênio de sua vigência, 1976/1979, e em
2000/2005
1976-1979 (PECE) 2000-2005
Estado Exames. Positivos % Exames Positivos % Maranhão 339.868 17.481 5,1 537.107 23.745 4,42 Piauí 36.508 954 2,6 3.326 3 0,09 Ceará 141.167 11.965 8,5 149.174 1.428 0,96 Rio G. do 155.398 15.263 9,8 80.602 2.540 3,15 Norte
Paraíba 158.344 25.754 16,3 356.323 19.066 5,35 Pernambuco 268.420 59.433 22,1 367.026 37.198 10,13 Alagoas 175.779 51.130 29,1 827.061 95.410 11,54 Sergipe 86.255 23.735 27,5 301.159 30.969 10,28 Bahia 116.204 36.932 31,8 2.501.955 144.532 5,78 Espírito 34.648 2.385 6,9 387.632 15.891 4,10 Santo
Total 1.512.591 245.032 16,2 5.511.365 370.782 6,73
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Internações Hospitalares
Este indicador, relacionado à morbidade, é construído a partir das internações hospitalares provocadas pelas seqüelas dos casos graves ou dos casos agudos da doença. A quantificação das internações pode traduzir, indiretamente, as ocorrências de ambulatórios e hospitais de referência. Como as informações de morbidade são geradas em hospitais, a análise deste indicador demanda uma avaliação externa por parte dos condutores de qualquer programa nacional de controle da esquistossomose. Ao se usar o indicador internações hospitalares, devem ser considerados os seguintes aspectos:
um indivíduo pode ser internado mais de uma vez por ano e provocar superdimensionamento do indicador;
a internação obedece mais à oferta de serviço e menos à distribuição da doença;
a internação não contempla os casos leves;
os casos de esquistossomose podem ser internados com outros diagnósticos.
Na Tabela 6, observa-se que no período de 1984 a 1988 a proporção (por dez mil) de internação por esquistossomose no país aumentou 82,4%, passando de 1,66 para 3,14. Tal crescimento coincide com a instalação gradativa do Sistema de Informação Hospitalar e pode representar aumento de notificação e não aumento real da ocorrência das formas graves. Em seguida, o indicador apresenta uma redução contínua. No período de 1988 a 2006 a proporção de internações por esquistossomose, em relação a dez mil internações, por todas as causas, diminuiu 74%, passando de 3,14 para 0,4.
Considerando-se a proporção média de internação por esquistossomose nos qüinqüênios 1984-1988, 1989-1993 e 1999-2003, no país como um todo, observa-se que esse indicador passou de 2,55 para 1,02, o que
representa uma diminuição de 60% (Gráfico 1).
Tabela 6 - Taxa de internação hospitalar por esquistossomose, por cem mil
habitantes. Brasil, 1984 a 2006
Ano População Internação por esquistossomose Taxa
1984 129.025.577 1.483 1,2 1985 131.639.272 1.279 1,0 1986 134.228.492 1.587 1,2 1987 136.780.739 2.706 2,0 1988 139.280.140 3.497 2,5 1989 141.714.953 3.107 2,2 1990 144.090.756 3.080 2,1 1991 146.825.475 3.293 2,2 1992 148.684.120 3.329 2,2 1993 151.556.521 3.322 2,2 1994 153.726.463 2.926 1,9 1995 155.822.296 2.105 1,4 1996 157.070.163 1.656 1,1 1997 159.636.297 1.522 1,0 1998 161.790.182 1.314 0,8 1999 163.947.436 1.344 0,8 2000 169.799.170 1.322 0,8 2001 172.385.776 1.267 0,7 2002 174.632.932 1.105 0,6 2003 176.876.251 1.017 0,6 2004 179.108.251 859 0,5 2005 184.184.074 890 0,5 2006 186.022.071 757 0,4
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Gráfico 1 - Número de internação hospitalar por esquistossomose, nos
estados com atividades do Programa de Controle da Esquistossomose, nos
anos de 2002 e 2006
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Mortalidade
Os dados de mortalidade expressam a gravidade do agravo e são obtidos das declarações de óbitos padronizadas e processadas nacionalmente pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Essa base de dados apresenta variáveis graus de cobertura, de subnotificação e de registros com causas indefinidas, dependendo da região do país, o que impõe cautela na análise dos dados (Rouquayrol & Almeida Filho, 2003). No caso de doenças como a esquistossomose o indicador de mortalidade deve ser trabalhado na forma de coeficiente, do mesmo modo que o de prevalência, anteriormente descrito. O coeficiente de mortalidade permite analisar a composição etária dos óbitos, assim como seu local de ocorrência e procedência do caso. Do mesmo modo que as internações, a análise da taxa de mortalidade demanda uma avaliação externa, por parte dos condutores de qualquer programa nacional de controle da esquistossomose. A taxa de mortalidade é um bom indicador para análise de impacto das ações de controle da esquistossomose, se levados em conta os seguintes fatores limitantes:
o registro do óbito obedece mais à pouca oferta do serviço que à muita ocorrência da doença;
a evolução crônica da doença e a migração interna dificultam a definição do local de transmissão responsável pelo óbito;
os óbitos de esquistossomose podem ser registrados com outros diagnósticos.
Por outro lado, como o óbito é um evento único, fica restrita a possibilidade
de superdimensionamento desse indicador. Na Tabela 7 são apresentados os dados consolidados para o país e observa-se nos três primeiros anos de implantação do Sistema de Informação de Mortalidade um pequeno aumento da taxa, passando de 0,67, em 1977, para 0,71, em 1979. Em seguida, o indicador apresenta uma redução sustentada, com pequenas variações ao longo do período. No período de 1979 a 2005, a taxa de mortalidade por esquistossomose, por cem mil habitantes, diminuiu 61%, passando de 0,71 para 0,3. Considerando a taxa média dos qüinqüênios 1977-1981 (0,68) e 1998-2002 (0,29) a redução foi de 57%.
Tabela 7 – Taxa de mortalidade por esquistossomose, por cem mil
habitantes. Brasil, 1977 a 2005
Ano População Óbito Taxa
1977 109.984.679 740 0,7 1978 112.757.285 763 0,7 1979 114.651.243 818 0,7 1980 119.011.052 834 0,7 1981 121.154.159 759 0,6 1982 123.774.229 696 0,6 1983 126.403.352 705 0,6 1984 129.025.577 697 0,5 1985 131.639.272 673 0,5 1986 134.228.492 701 0,5 1987 136.780.739 670 0,5 1988 139.280.140 724 0,5 1989 141.714.953 589 0,4 1990 144.090.756 550 0,4 1991 146.825.475 553 0,4 1992 148.684.120 551 0,4 1993 151.556.521 586 0,4 1994 153.726.463 588 0,4 1995 155.822.296 608 0,4 1996 157.070.163 450 0,3 1997 159.636.297 505 0,3 1998 161.790.182 479 0,3 1999 163.947.436 446 0,3 2000 169.799.170 484 0,3 2001 172.385.776 583 0,3 2002 174.633.932 568 0,3 2003 176.876.251 464 0,3 2004 184.184.074 519 0,3 2005 186.020.071 514 0,3
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Gráfico 2 - Número de óbitos por esquistossomose, nos estados com
atividades do Programa de Controle da Esquistossomose, nos anos de
2001 e 2005
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
Estratégias atuais e perspectivas de controle da esquistossomose no Brasil
No Brasil, as estratégias de avaliação e controle da esquistossomose têm acompanhado as diretrizes da OMS, ajustando-as às nossas características epidemiológicas. Atualmente, a seguinte estratégia é recomendada pelo ministério da Saúde, tendo como objetivo evitar a ocorrência de formas graves e óbitos, reduzir a prevalência da infecção e impedir a expansão geográfica da endemia:
identificação dos portadores da infecção por intermédio de inquéritos coproscópicos bienais, a cargo das secretarias municipais de saúde das áreas endêmicas;
tratamento seletivo dos portadores, visando reduzir a carga parasitária e impedir o aparecimento de formas graves.
O diagnóstico e o tratamento dos portadores envolvem a participação das equipes do PSF, atuando em conjunto com os agentes de saúde do Programa de Controle da Esquistossomose (PCE). Essas ações são viabilizadas, incorporadas e integradas à rotina dos serviços de atenção primária à saúde.
A educação em saúde precede e acompanha todas as atividades de controle e se fundamenta em estudos comportamentais das populações em risco. As ações de educação e mobilização comunitária, realizadas pelos agentes de saúde e por profissionais das unidades básicas, têm como público-alvo a população em geral e os escolares das localidades situadas em áreas endêmicas. São utilizados várias técnicas pedagógicas e meios de comunicação de massa para promover atitudes e práticas capazes de modificar as condições favorecedoras e mantenedoras da transmissão.
As ações de saneamento ambiental são reconhecidas como as de maior eficácia para as modificações, em caráter permanente, das condições
favoráveis à transmissão da esquistossomose (Tabela 8). Tais ações incluem coleta e tratamento de dejetos, abastecimento de água potável, provimento de instalações hidráulicas e sanitárias, criação de aterros para eliminação de coleções hídricas que sejam criadouros de moluscos, drenagens, limpeza e retificação de margens de córregos e canais e construção de pequenas pontes.
Tabela 8 - Número de domicílios beneficiados com melhorias sanitárias pelo
Ministério da Saúde. Brasil, 1979 a 2005
Ano Melhorias Sanitárias* Domicílios Beneficiados
1979 82.444 16.489 1980 96.270 19.254 1981 95.097 19.019 1982 108.361 21.672 1983 132.674 26.535 1984 139.601 27.920 1985 131.516 26.303 1986 128.789 25.758 1987 148.760 29.752 1988 154.299 30.860 1989 167.399 33.480 1990 150.677 30.135 1991 175.279 35.056 1992 161.275 32.255 1993 134.205 26.841 1994 167.673 33.535 1995 170.469 34.094 1996 220.071 44.014 1997 143.624 28.725 1998 193.730 38.746 1999 249.331 49.866 2000 217.920 43.584 2001 123.472 24.694 2002 222.460 44.492 2003 241.699 48.340 2004 160.862 32.172 2005 80.951 16.190
* Melhorias sanitárias compreendem: abastecimento de água, reservatórios,
banheiros, sanitários, tanques de lavar roupas elouças.
Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde.
As ações dirigidas ao controle dos hospedeiros intermediários são de natureza complementar e incluem o levantamento malacológico das coleções hídricas para determinação do seu potencial de transmissão e a aplicação de moluscicidas nos criadouros de importância epidemiológica. Essas ações são indicadas na cobertura de áreas ainda não trabalhadas, na investigação e controle de focos ativos de transmissão e em áreas bem delimitadas com altas prevalências.
Descentralização dos serviços de saúde e o papel dos municípios no controle da esquistossomose
A reprodução de doenças transmissíveis, como a esquistossomose, são favorecidas pela manutenção de um elenco de fatores determinantes, entre eles a intervenção humana sobre o meio ambiente e os modos de ocupação do espaço. Existe um acúmulo de evidências científicas mostrando que as condições socioeconômicas e culturais estão fortemente associadas às taxas de morbidade e invalidez e que medidas preventivas e mudanças nas condições de vida são elementos indispensáveis para o controle das doenças endêmicas (Ximenes, Southgate & Smith, 1994).
No Brasil, as políticas estaduais e municipais de controle das endemias ainda são direcionadas para ações curativas, como se fossem doenças de atributos somente biológicos e individuais e não resultantes de um processo histórico e social. Os fatores socioculturais e ecológico-ambientais raramente são incorporados às ações de controle e essa desarticulação entre a produção do conhecimento macroepidemiológico e a definição das políticas de saúde resulta na baixa efetividade dos programas para o controle da esquistossomose, que ficam limitados às ações de intervenção na cadeia biológica de transmissão (Carmo, 1998).
Nas últimas décadas, importantes avanços tecnológicos foram obtidos tanto nos métodos de diagnóstico e na clínica, como na terapêutica da esquistossomose. Desenvolveram-se e importaram-se tecnologias caras, algumas de discutível necessidade diante da realidade de um país onde a esquistossomose e outras doenças parasitárias ainda têm expressiva morbidade entre as populações menos favorecidas.
Até 1991, a Funasa era o órgão responsável pelo controle da doença em todo o país, tendo realizado vários censos parasitológicos. Mais recentemente, a partir da proposta de descentralização das ações de saúde, construída nas 8a a e 9 Conferências Nacionais de Saúde e normatizada pela Reforma Sanitária, o diagnóstico e o controle da doença passaram a ser responsabilidade dos serviços municipais de saúde.
Em 1999, com a descentralização das ações da Funasa, o ministério da Saúde criou a Programação Pactuada Integrada de Epidemiologia e Controle de Doenças (PPI/ECD). Assim, os estados e seus municípios passaram a ter verba para gerir as ações de vigilância e controle da esquistossomose. Esses recursos são transferidos diretamente para os fundos estaduais e municipais, visando estabelecer um fluxo mais rápido e constante para evitar descontinuidades na execução das ações.
Além dos recursos financeiros, os estados e seus municípios receberam da Funasa imóveis, equipamentos, veículos e os recursos humanos que, até 1999, desenvolviam as ações locais nas coordenações regionais. Como contrapartida, os estados e municípios passaram a alocar recursos humanos e materiais para a execução das ações de vigilância e controle da doença e a repassar os dados para o recém-criado Sistema de Informação em Saúde (SIS).
Recentemente, a esquistossomose passou a ser um agravo de notificação compulsória. Todas as informações que o ministério da Saúde detém sobre a doença passaram a depender dos municípios, que as repassam para as secretarias estaduais de saúde. Por fim, essas últimas consolidam os dados e alimentam o SIS. Esse sistema oferece indicadores secundários do impacto dos programas de controle da esquistossomose, constituindo-se numa importante fonte de informações para a análise de dados referentes à notificação de casos positivos (Sinan), de internação hospitalar (SHI) e de mortalidade (SIM) por esquistossomose. Dependendo do detalhamento das fichas de investigação, é possível obter informações sobre os seguintes aspectos:
número de casos notificados no período;
número de municípios que notificaram a doença;
dados individuais dos pacientes (sexo, idade, área de residência, escolaridade, tipo de tratamento, local provável de contaminação).
Cabe ainda, aos municípios, definir suas prioridades de intervenção para o controle da endemia mediante duas abordagens de promoção à saúde, que não devem ser exclusivas: a melhoria das condições físicas do indivíduo, representadas por ações curativas, e a promoção de mudanças ambientais nas comunidades, buscando a melhoria das condições de vida como um todo e entendendo a esquistossomose não como um fenômeno biológico individual, mas como um agravo à saúde complexo, gerado por contextos sociais específicos.
Este modelo descentralizado de atenção à saúde permite o controle da doença em nível local, por intermédio da rede de postos do Programa
Saúde da Família (PSF) (Figura 7), articulando ações de diagnóstico, informação e prevenção específicas, com a clara intenção de evitar a superposição e/ou omissão de ações que ocorriam quando as atribuições de cada nível não estavam bem definidas.
Figura 7 - Unidade do Programa Saúde da Família no município de Itambé
(Pernambuco), onde são prestados serviços básicos de saúde
Figura 8 - Cronograma esquemático para a realização de uma investigação
epidemiológica da esquistossomose em nível local
A epidemiologia da esquistossomose: o caso Pernambuco é um dos estados que apresenta as mais altas prevalências humanas para esquistossomose em áreas rurais da Zona da Mata, onde cerca de um quarto das localidades tem prevalência acima de 25%. Segundo o censo demográfico de 2000, aproximadamente cinco milhões de pessoas residem na área endêmica, o que coloca 62% da população total do estado de Pernambuco sob risco de infecção (Favre et al., 2001).
Por este motivo, neste capítulo sobre epidemiologia e controle da esquistossomose mansoni recortou- se o estado de Pernambuco como modelo didático para exemplificação dos modos de transmissão e controle da doença. Um outro critério de seleção foram os dados disponíveis e a experiência de um grupo de pesquisa que vem trabalhando há vinte anos no conhecimento epidemiológico e no controle desta doença em Pernambuco. As publicações do referido grupo enfatizam a ecologia e o controle dos moluscos hospedeiros intermediários (Barbosa & Costa, 1981; Barbosa & Barbosa, 1994, 1995; Barbosa et al., 1992; Barbosa, 1996; Barbosa, Barbosa & Arruda, 1993; Bogéa et al., 1996; Dannemann & Pieri, 1989, 1992, 1993a, 1993b; Favre et al., 1995, 1997; Gazin, Melo & Barbosa, 2002; Pieri, 1995; Pieri & Thomas, 1986, 1987, 1992; Pieri, Barbosa & Moza, 1998; Sarquis, Pieri & Santos, 1997; Sarquis et al., 1998), os determinantes ecológicos e epidemiológicos da doença (Barbosa, 1997a, 1997b, 1992b, 1998; Barbosa & Barbosa, 1980, 1997; Gonçalves et al., 1992; Barbosa, Silva & Barbosa, 1996; Barbosa et al., 1998, 2001a, 2001b, 2004; Barbosa, Pieri & Moza, 1998; Barbosa & Gouveia, 2000; Barbosa, Pieri & Barbosa, 2000; Barbosa & Pieri, 2000; Simões-Barbosa, Simões-Barbosa & Simões-Barbosa, 2001; Coutinho et al., 1997; Beck et al., 2001) e o impacto do tratamento quimioterápico dos portadores da infecção sobre a sua dinâmica de transmissão (Favre, 1999; Moza et al., 1998; Favre et al., 2002; Pieri, Barbosa & Moza, 1998; Zani et al., 2004).
A existência de casos e focos de transmissão em quase todos os municípios da Zona da Mata, as altas prevalências registradas em localidades rurais e a estimativa da população sob risco de infecção deixam claro que a esquistossomose é ainda hoje um sério problema de saúde pública no estado. A manutenção da endemia nas áreas rurais está relacionada ao baixo desenvolvimento econômico da região, devido ao modelo agrícola voltado para a monocultura e formado por grandes latifúndios que concentram capital e terras produtivas, deixando inativa uma expressiva força humana de trabalho. A expansão da doença para áreas indenes do litoral e da região metropolitana do Recife é determinada, em última instância, pelo movimento migratório de trabalhadores rurais (infectados pelo parasito) que, em busca de sobrevivência, são atraídos para as periferias dos grandes centros urbanos e para os pólos turísticos do litoral. Esse movimento acarreta a ocupação desordenada e a modificação dos espaços urbanos, contribuindo para a favelização de comunidades que passam a viver sob condições insalubres na periferia das cidades. Esse processo de ocupação vem impondo o estabelecimento de novos focos urbanos e de sucessivos relatos de casos agudos da doença no litoral de Pernambuco. Hoje, é possível encontrar focos de transmissão em municípios litorâneos como Goiana (praia Carne de Vaca), Itamaracá (praia do Forte e enseada dos Golfinhos), Paulista (praias de Janga e Pau Amarelo), Jaboatão dos Guararapes (lagoa do Náutico) e Ipojuca (praia de
Porto de Galinhas) (Figura 9).
Figura 9 - Localização dos focos de transmissão da esquistossomose nos
municípios litorâneos do estado de Pernambuco
O surto de esquistossomose aguda ocorrido na praia de Porto de Galinhas, em 2000, ilustra claramente o processo de expansão da esquistossomose da área rural para áreas litorâneas (Barbosa, Silva & Barbosa, 1996, Barbosa et al., 1998, 2004; Barbosa, Pieri & Barbosa, 2000; Barbosa & Pieri, 2000). Naquela ocasião, 662 pessoas foram encontradas infectadas, sendo 62% dos casos diagnosticados como forma clínica aguda (Barbosa et al., 2001b). Os moluscos vetores foram introduzidos na localidade pelo transporte de areia para aterrar terrenos pantanosos, onde sobreviveram e foram contaminados por vazamentos de fossas com fezes de indivíduos parasitados por S. mansoni. Intensas precipitações pluviométricas ocasionaram enchentes e estes caramujos infectados foram levados para as ruas e casas de Porto de Galinhas, fazendo com que 2/3 da população de residentes e veranistas ficassem expostos ao risco de infecção.
Um outro modo de transmissão, condicionado pela falta de informação e acarretado por modificações ambientais, começa a se delinear em Pernambuco. Famílias de classe média/alta, residentes na região metropolitana do Recife, fazem movimento migratório inverso, buscando, nos finais de semana, lazer e tranqüilidade no campo. Residências campestres e antigos engenhos de cana de açúcar, situados em áreas rurais sabidamente endêmicas para esquistossomose, promovem atividades de lazer relacionadas a banhos de rio e cachoeiras onde casos agudos da doença têm sido registrados. Estes cenários apontam para uma mudança no perfil epidemiológico da doença em Pernambuco. Em áreas rurais, a esquistossomose continua a se apresentar predominantemente na forma clínica de doença crônica, incidindo na classe social de baixa renda e tendo como espécie vetora B. straminea. No litoral, a doença é representada por casos agudos em pessoas de classe média/alta, sendo transmitida pela espécie B. glabrata (Barbosa et al., 2001a).
Na Zona da Mata pernambucana, área endêmica da esquistossomose no estado, cinco campanhas de controle foram implementadas pelo ministério da Saúde entre 1977 e 1996, cada uma incluindo inquérito parasitológico e tratamento dos portadores da infecção. As ações implementadas provocaram um impacto substancial, com queda na positividade dos resultados encontrados na maioria dos municípios daquela área, no período de atuação do Pece (1997 a 1980). Nas campanhas posteriores, levadas a efeito pelo PCE, o impacto na positividade foi menor, provavelmente devido à irregularidade dos intervalos de tempo entre cada campanha (Favre et al., 2001). O último censo parasitológico no estado foi realizado na época da quarta avaliação do PCE, de 1988 a 1996, quando a prevalência média foi de 26,2%.
Recentemente, o Serviço de Referência em Esquistossomose do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães/ Fiocruz foi subsidiado pelo Programa Promata, da Secretaria de Planejamento do Estado de Pernambuco, para realizar um inquérito que permitisse avaliar a atual situação epidemiológica da esquistossomose na Zona da Mata pernambucana. Este inquérito foi realizado em 2005, em colaboração com o Laboratório de Eco-Epidemiologia e Controle da Esquistossomose e Geohelmintoses do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz, por intermédio de exames coproscópicos Kato-Katz em amostras representativas de escolares em cada município da Zona da Mata (Barbosa et al., 2006).
Esse inquérito mostrou que a situação da esquistossomose em 26 (60,4%) dos 43 municípios da ZMP inspira atenção especial, já que os níveis de positividade e/ou intensidade de infecção encontrada no grupo-alvo dessa pesquisa indicam um risco considerável de transmissão e morbidade não só nas crianças em idade escolar, mas na população como um todo. É urgente, portanto, a priorização de medidas de controle da esquistossomose nesses municípios, envolvendo tratamento quimioterápico das crianças em idade escolar (estejam ou não freqüentando a escola) e outros grupos de alto risco, bem como saneamento e manejo ambiental, além de estratégias de informação, educação e comunicação (IEC) nas comunidades próximas às escolas com maior prevalência.
Os serviços locais de saúde devem ser aparelhados para cumprir os princípios de descentralização definidos pelo SUS de forma auto-sustentável, e que se refletem nas seguintes atividades:
capacitação e treinamento de recursos humanos para dar conta das ações de diagnóstico parasitológico, epidemiológico e malacológico, e para a aplicação de estratégias de IEC;
planejamento dos inquéritos epidemiológicos, que incluem desde a coleta de fezes, passando pela identificação dos moluscos hospedeiros intermediários, até a caracterização ecológica dos focos de transmissão;
escolha e implementação de estratégias adequadas de controle quimioterápico e ambiental;
avaliação do impacto das medidas de controle.
Referências
AROUCA, A. S. S. Reforma Sanitária Brasileira. Tema Radis, 6(11): 2-4, 1998.
BARBOSA, C. S. Epidemiologia da esquistossomose mansônica no engenho Bela Rosa, município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Cadernos de Saúde Pública, 8(1): 83-87, 1992.
BARBOSA, C. S. Cultivo em massa de Biomphalaria straminea. In: BARBOSA, F. S. (Org.) Tópicos em Malacologia Médica. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1996.
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