Se Ela Visse
Capítulo Oito
Travis Rogers vivia em uma casa não muito longe do denso trânsito de um complexo comercial. Dado que estava se aproximando da hora do almoço, o trânsito estava muito ruim quando Kate se aproximou do local. Passar pela Starbucks e um Dunkin’Donuts também a fez perceber que, falta de profissionalismo ou não, ela teria que parar para tomar um café depois que questionassem Travis Rogers ou ela poderia muito bem adormecer no trabalho.
Ela seguiu em frente e estacionou na frente da casa cerca de quarenta minutos depois de deixar Biltmore Threads. Ela e DeMarco correram para a porta da frente, nenhuma das duas tinha muita esperança de que um homem na casa dos trinta estaria em casa no meio do dia─ especialmente não um que provavelmente estaria procurando um emprego.
Então ambas ficaram surpresas quando a porta foi atendida por um homem robusto e bonito. Parecia um pouco desgrenhada a sua barba, mas bem arrumado. Parecia um pouco cansado, talvez, como se tivesse acabado de sair da cama.
—Você é Travis Rogers? DeMarco perguntou.
—Eu sou. Quem pergunta?
DeMarco assumiu a liderança desta vez, mostrando seu distintivo e dando um passo em direção à porta para que ele soubesse que elas não seriam recusadas.
—FBI? Por que diabos?
—Seu nome surgiu de passagem em relação a um caso em que estamos trabalhando, Kate disse. Se você nos der apenas cinco minutos do seu tempo, podemos seguir nosso caminho.
Claramente confuso e um pouco alarmado, Travis deu um passo para o lado e abriu a porta. Quando o fez, Kate viu que sua mão direita estava engessada desde o alto do pulso até as juntas dos dedos.
Seria muito difícil matar alguém da maneira na qual os Nash e Langley foram mortos se você tivesse um gesso na mão direita, Kate disse a si mesma.
A porta da frente se abriu na sala de estar, que estava bem limpa. Um laptop estava na mesinha de centro. Ela viu um perfil do LinkedIn na tela; aparentemente, Travis estava de fato fazendo alguma busca de emprego.
—Eu vou assumir que isso é sobre o que aconteceu na Biltmore Threads, certo? Travis disse quando se sentou no sofá. Embora eu não saiba por que o FBI se envolveria em algo tão pequeno.
—Posso perguntar por que você ficou violento com o Sr. Garraty? Kate perguntou.
—Foram apenas meses e meses de frustração, sabe? Eu pedi um aumento por cerca de meio ano. Eu estava lá há quase cinco anos e só tinha conseguido dois pequenos incrementos, então eu pensei que já estava passando da hora. Garraty basicamente me disse que ele poderia passar a minha reclamação adiante, mas se eu continuasse importunando-os, a coisa ficaria ruim. Nós trocamos algumas palavras e, francamente, eu perdi minha compostura. Joguei longe uma pequena placa com seu nome que estava em cima da mesa nele. Comecei a correr pela sala para pegá-lo, mas pensei melhor.
—E as suas transgressões passadas?
—Uma briga de bar quando eu tinha dezenove anos e depois me defendi quando um idiota perdeu a calma em um ataque de raiva quando acidentalmente bati no carro dele. Não quero ser um espertinho, mas fiquem à vontade para dar uma olhada em tudo. Olha… essa coisa toda com Garraty e Biltmore Threads… é embaraçoso. Então, se você precisar de alguma coisa de mim, me avise. Eu gostaria de deixar isso para trás o mais rápido possível.
—Bem, e sobre o material que você estava roubando? DeMarco perguntou.
—Eu só fiz isso duas vezes, e isso foi depois que comecei a ficar puto por não ser pago de forma justa. Eu não tenho orgulho disso. Mas eu estive no tribunal e vou pagar as multas.
—Garraty disse que você roubou os materiais para a sua namorada.
—Sim. Jess dirige esta pequena loja, Etsy. Ela faz essas bolsinhas de mão personalizadas e bolsas de ombro. Ela faz mais grana do que eu fazia... então sim, eu peguei um material para ela.
Kate estava quase certa de que Travis era inocente. Ele tinha feito algumas escolhas idiotas, com certeza, e ele tinha uma sorte infeliz quando se tratava de brigas físicas, mas ele com certeza não era um assassino.
—O que aconteceu com a sua mão? DeMarco perguntou.
Travis revirou os olhos e olhou para o chão. Só mais uma decisão genial da minha parte. Eu estava tão chateado quando os policiais foram chamados em Biltmore Threads que eu soquei a parede do lado de fora do prédio. É uma parede de tijolos e doeu para caramba. Eu quebrei três dedos e fiz uma pequena fratura na base da minha mão.
—Você tem alguma prova de quando você fez isso? DeMarco perguntou.
—Sim. Na verdade, a primeira fatura do raio X veio hoje. Ele se levantou e foi até a borda do balcão na cozinha anexa. Ele pegou uma correspondência e trouxe de volta para eles. Kate e DeMarco examinaram e viram que a consulta inicial para o raio X havia sido três semanas atrás ─ pelo menos duas semanas inteiras antes de os Langley terem sido assassinados.
—Correndo o risco de parecer intrometido, posso perguntar do que se trata? Travis perguntou.
Kate tinha mais uma coisa a fazer. Ela quase decidiu contra isso porque estava certa de que Travis Rogers era inocente. Ela pegou o saco de provas com o pedaço de cobertor dentro dela e mostrou para ele.
—Isso parece familiar para você? Ela perguntou.
Sua reação inicial lhe disse o que ela precisava saber. Não havia alarme, culpa ou medo. Ele apenas olhou de perto e encolheu os ombros. Acho que não. É algo da Biltmore Threads?
—É, disse Kate, embolsando o saco novamente. Obrigada pelo seu tempo, Sr. Rogers.
Quando elas voltaram para o carro, a sensação que Kate experimentou saindo da Biltmore Threads começou a se desfazer. O tecido de manta vindo de Biltmore parecia um presságio, um sinal de que elas estavam no caminho certo. Mas agora, voltando a não ter pistas, sentia-se um pouco perdida.
—Você acha que devemos tentar falar com os vizinhos das vítimas agora? DeMarco perguntou quando estavam de volta no carro.
—Essa é a melhor ideia em que posso pensar, disse Kate. É claro que os Nash não tinham vizinhos próximos ─ ninguém que pudesse ver alguém entrando e saindo de casa.
—Então os Langley, disse DeMarco.
—Certo, Kate concordou. Mas primeiro... eu tenho que tomar um café. Todo esse sono regular que vem com a aposentadoria me arruinou.
***
Com o café na mão, Kate saiu do carro ao lado da residência dos Langley. Olhou para a casa ao lado e percebeu que elas podem ter acertado o pote de ouro. Embora odiasse ceder a estereótipos ─ especialmente em sua linha de trabalho ─ havia um que ela costumava achar que se provava verdadeiro: quanto mais velha a mulher, mais propensa a fofocar. E havia apenas uma dessas mulheres na varanda ao lado da casa dos Langley. Estava enchendo cuidadosamente um alimentador de pássaros com algum tipo de líquido. Um alimentador de beija-flores, se Kate estivesse vendo corretamente.
Kate e DeMarco se aproximaram lentamente, não querendo parecer ameaçadoras ou apressadas. A mulher deu-lhes um sorriso incerto quando terminou com o alimentador de pássaros. Ele balançou suavemente quando ela o soltou, o líquido vermelho que ela acabara de colocar dentro parecia quase um Kool-Aid.
—Beija-flores? Kate perguntou.
—Isso mesmo, disse a velha senhora. Estava chegando aos setenta... talvez oitenta. Era difícil dizer devido ao sorriso radiante em seu rosto. Eles vêm e me veem pelo menos duas vezes por dia, desde que eu mantenha o alimentador cheio. Agora... posso ajudar vocês, moças?
—Sim, senhora. Eu sou Agente Wise, e esta é a Agente DeMarco, Kate disse, mostrando sua identidade. Fomos designadas para o caso envolvendo os Langley e esperávamos que você pudesse conversar um pouco com a gente.
A mulher olhou por cima do ombro de Kate, em direção à casa dos Langley. O sorriso radiante em seu rosto desaparecera agora. Também não havia nenhuma carranca... apenas um olhar resignado. Um olhar do tipo o que aconteceu com esse mundo?
—Prazer em conhecê-las Agentes, disse a mulher. Ela se agachou em uma cadeira de gramado que ficava contra os trilhos da varanda e olhou para elas. Sou Callie Spencer, a propósito. Moro aqui nesta casa há cerca de vinte e cinco anos.
—Então, você esteve por aqui o tempo todo em que os Langley moraram aqui?
—Sim, de fato. Scott e Bethany chegaram no início dos anos noventa, eu diria.
—Você os chamaria de amigáveis? Perguntou DeMarco. Sociáveis?
—Acho que sim. Quero dizer, eles não eram rudes ou grosseiros. Eram um casal legal, mas um pouco reservado. Especialmente nos últimos anos.
—Alguma ideia do porquê? Kate perguntou.
Callie franziu a testa e concordou. Bethany meio que ficou diferente depois que sua irmã morreu naquele acidente de carro. Há dez anos ou mais, eu acho.
—Você pode elucidar o que você quer dizer com reservado? DeMarco perguntou.
—Bem, você sabe… reservado pode não ser a melhor palavra. Se nos cruzássemos na calçada, conversaríamos por um tempo. Mas eles nunca vieram me visitar. Nunca realmente deram qualquer informação a respeito deles. Scott me pegava tentando cortar a grama de vez em quando e insistia em terminar o trabalho para mim. Então, não, não eram reclusos, mas também não eram muito extrovertidos.
—Você sabe se eles tinham algum visitante regular? Kate perguntou.
—Nenhum que eu saiba. Eu acredito que Scott tinha um amigo ou dois do trabalho vindo de vez em quando durante a temporada de futebol. E houve um período de tempo, você sabe, quando Davey estava morando com eles.
—Davey? Kate perguntou.
—Sim. Bem, eu o chamava de Davey. Seu nome verdadeiro é David. Ele é o sobrinho deles ─ o filho da irmã de Bethany. Quando ela morreu, ele veio e ficou com eles. Ele tinha apenas dez anos de idade. Ficava com os Langley por um tempo e depois iria embora por meses a fio. Descobri depois de Scott que, naqueles tempos, ele ficava com o tio do lado do pai no Texas.
Kate e DeMarco compartilharam um olhar. Isso não era necessariamente uma pista, mas eram novas informações que poderiam levá-las a vários lugares diferentes. Por acaso você sabe por quanto tempo Davey ainda morou com eles?
—Ah, acho que ele saiu de casa há dois ou três anos. Já era hora também. Eu sentia pena dele, sabe? Passou de um lado para o outro entre as famílias. Mas os Langley eram bons para ele, eu acho. Eram pessoas doces. Eles eram pais adotivos. Você sabia disso?
—Sim, senhora, disse Kate, recordando as informações que haviam encontrado ao escavar o Departamento de Polícia de Roanoke.
—Quando foi a última vez que eles criaram alguém? Perguntou DeMarco.
—Ah, eu não posso dizer com certeza. Pelo menos há alguns anos, eu acho. Uma vez eles ficaram com uma menina por alguns meses. Um doce! Ela vinha até aqui e jogávamos damas na varanda.
—E quanto a Davey? Kate perguntou. Você teve muito contato com ele?
—Não muito. Eles estavam preparando Davey para os estudos quando meu marido faleceu. Todos vieram para cá ─ Davey inclusive ─ e deram suas condolências. Mas, você sabe, sendo vizinho é muito fácil ver coisas sobre pessoas, sabe? E com Davey, ele sempre foi muito quieto. Ele tinha esse tipo de característica ensimesmada nele. Eu sei que quando ele ficou mais velho, ele se tornou muito difícil de lidar. Desafiador, eu acho.
—Você sabe para onde ele foi depois de deixar os cuidados dos Langley? DeMarco perguntou.
—Ah, ele ainda está por perto. Ele acabou indo para a faculdade comunitária, mas acabou desistindo. Eu não sei o porquê... notas, ou apenas sem compromisso, talvez. Não tenho certeza de onde ele mora, mas sei onde ele trabalha. Ele está trabalhando na Gingos Pizza há pelo menos alguns meses.
—Você tem certeza disso? Kate perguntou.
—Eu sei que estava trabalhando lá, cerca de seis meses atrás, porque ele entregou uma pizza pra mim. Eu costumo achar estúpido pedir pizzas, porque você tem que dar uma gorjeta, mas eu estava doente, então... Ela percebeu que estava divagando neste ponto. Sorriu, revirou os olhos para si mesma e continuou. De qualquer forma, e depois minha amiga Janell, com quem tomo chá duas vezes por semana, disse que o viu trabalhando na Gingos não faz muito tempo. Talvez cerca de duas ou três semanas.
—Obrigada, disse Kate.
—Espere, espere. Você não acha que Davey teve algo a ver com seus assassinatos, não é?
—Provavelmente não, disse Kate. Mas ele seria uma ótima fonte de informações sobre a família. E agora, todas as informações são críticas.
Callie pareceu aliviada com isso, dando-lhes um aceno de cabeça. Ao fazê-lo, um beija-flor flutuou perto do alimentador. As três mulheres assistiram por um momento, o sorriso retornando ao rosto de Callie.
—Espero que você possa descobrir quem fez isso, disse Callie. Há rumores de que uma família em Whip Springs também foi morta. Marido e mulher. É verdade?
—Não podemos comentar sobre isso, disse Kate, odiando seu tom. Sabia que, para alguém como Callie Spencer, aquele comentário evasivo soaria como um grande e gordo sim.
—Bem, boa sorte, Agentes, disse Callie quando Kate e DeMarco começaram a descer as escadas.
DeMarco ficou atrás do volante desta vez. Quando Kate abriu a porta do passageiro, ela olhou de volta para Callie Spencer em sua varanda. Estava olhando fixamente para o beija-flor ─ que agora estava acompanhado por mais dois. Foi então que Kate percebeu que Callie não estava muito interessada nos pássaros, já que estava decidida a não olhar na direção da casa dos Langley. Encontrando algo triste e consolador nisto, Kate entrou no carro e pegou as instruções para chegar a Gingos Pizza.