Se Ela Visse
Capítulo Doze
—Sabe, Kate disse enquanto dirigia com DeMarco para o Holiday Inn mais próximo, você não precisa de mim para terminar isso. Você é capaz de fazer isso sozinha.
—Eu sei, disse ela. Mas, sendo honesta, simplesmente não gosto do jeito como o diretor Duran acha que consegue arrancar e puxar você pra lá e pra cá. Você ficou o quê... um mês sem receber uma ligação? E agora ele manda você pra cá para checar esses assassinatos e depois espera que você mude tudo e abandone o caso repentinamente?
—Ah, eu também frustração, disse Kate. Mas há um acordo de trabalho realmente bizarro em relação à minha volta da aposentadoria. Até que algo mais concreto seja estabelecido, eu não posso me rebelar.
—Eu imagino que seja um pouco mais fácil estar de volta em Washington, certo? DeMarco perguntou. Quero dizer, com sua neta.
—Sim. Disse Kate, sentindo uma pontada no coração quando se lembrou de como terminara a noite de ontem.
Difícil pensar em ontem se ainda não dormi, pensou Kate.
—E você? Kate perguntou. Algum motivo para você não querer estar perto de DC?
—Não, não realmente. Eu sempre gostei de viajar, então o trabalho me serve. Minha mãe mora em Bethesda, mas fora isso não há familiares por lá. Nenhum interesse amoroso também.
—Sim, você mencionou isso no caminho até aqui, disse Kate. E tenho que admitir… Sinto que preciso me desculpar. Eu realmente não me aprofundei em conhecer você. Eu não sabia que você era gay.
DeMarco deu de ombros. Eu não sou do tipo que deixa isso me definir, sabe? Não é o meu cartão de visita, não dou sinais ou faço qualquer coisa do tipo. Você e eu... nós nunca tivemos uma conversa em que esse assunto surgiu de uma maneira natural.
—Eu sei, disse Kate. E acho que isso pode ter acontecido porque as conversas sempre foram sobre mim, sobre como foi sair da aposentadoria. Meio egoísta da minha parte.
—Não se preocupe, disse DeMarco. Eu não posso nem imaginar como é ficar nesse trabalho quando se tem netos. E você fez isso bem por tanto tempo.
Kate não disse nada, embora quisesse explicar a DeMarco que sua dedicação ao trabalho fora uma enorme pressão para sua família. Ela também guardou todos os pensamentos sobre seu marido, Michael, certamente não querendo dizer a ela que, mesmo depois de Michael ter sido morto, o trabalho tinha ficado em primeiro lugar. Simplesmente tinha sido algo do qual ela nunca foi capaz de se libertar.
—Você disse que sua mãe mora em Bethesda, disse Kate. Vocês são próximas?
—Acho que sim. Nós nunca fomos muito unidas. Mas sou tudo o que ela tem, por mais triste que pareça, então suponho que somos próximas o suficiente.
DeMarco olhou inexpressivamente para fora do para-brisa enquanto conversava brevemente sobre a mãe. Ela falou rapidamente e em um tom monótono também. Para Kate, era uma maneira não verbal e educada de dizer eu realmente preferiria não falar sobre isso.
Quando o letreiro do Holiday Inn apareceu, Kate sentiu uma sensação de culpa pela primeira vez. Estava abandonando DeMarco? Claro, ela só estava seguindo as ordens de Duran, mas ainda assim... vieram aqui juntas para tentar resolver esses assassinatos e lá estava ela, pouco mais de doze horas depois, prestes a voltar sem ela.
—Por favor, não hesite em me ligar com qualquer nova informação. Se isso começar a piorar, imagino que Duran vai me enviar de volta para ajudar.
—Vou manter isso em mente, mas acho que vou ficar bem, disse DeMarco.
—Quer que eu ligue antes para uma locadora de carros? Perguntou Kate.
—Não, eu delegarei isso à polícia. Talvez eu consiga que Palmetto faça isso.
Kate riu enquanto entrava no estacionamento do Holiday.
—Realmente espero que você tenha encerrado o caso no momento em que eu voltar para casa, disse ela com um sorriso.
—Não conseguimos resolver todos os casos como Kate Wise, disse Demarco. Mas obrigada pelo voto de confiança.
Kate estacionou em frente ao local de hospedagem. Esteve aqui antes, presa no limbo sem saber exatamente onde ela iria ficar ou como ela iria chegar do Ponto A ao Ponto B. Ela se lembrou daquela parte de sua carreira com carinho, particularmente de um caso em Utah onde ficou presa por dois dias, porque seu carro alugado quebrou e ocorreu alguma falta de comunicação entre a agência e o aeroporto. Sentia falta daqueles dias e invejava DeMarco um pouco.
—Seja cautelosa e fique alerta, disse Kate.
—Diz a mulher de cinquenta e cinco anos que se jogou de uma varanda e deu uma voadora no Davey Armstrong três horas atrás, disse DeMarco.
Com um sorriso e um aceno de cabeça, DeMarco saiu do carro. Ela deu um último aceno enquanto se dirigia através das portas do saguão e depois desapareceu lá dentro.
Kate verificou a hora e viu que, de alguma forma, eram apenas 4:47 da tarde. Não estava mais verdadeiramente cansada, tendo sido revigorada pelo café e encontrando seu segundo fôlego depois de perseguir Davey Armstrong. Se dirigisse direto sem parar, ela achava que poderia voltar para casa por volta das oito e meia. Podia dormir a noite inteira e acordar por volta das sete da manhã para ligar para Duran para ver como ela poderia ajudar no trabalho de pesquisa.
Embora detestasse deixar um caso ainda não oficialmente encerrado, também não podia negar que era muito bom sentir-se desejada ─ sentir-se necessária em um trabalho que outrora a definiu tão fortemente.
Ainda assim, essa promessa de vida normal brilhava com força. Foi o que fez com que ela pegasse o telefone e mandasse uma mensagem rápida para Melissa antes de sair do estacionamento. Pensou sobre o que dizer por alguns segundos e, depois de algumas tentativas e erros, finalmente decidiu algo simples e direto: Desculpe-me pela noite passada. Podemos nos encontrar na segunda-feira?
Honestamente, não estava esperando uma resposta, mas achava que tinha que pelo menos tentar. E quando ela voltou para a rua na direção de DC, tentou imaginar como se explicar para Melissa. Que diabos deveria dizer? Desculpe, querida..., mas aquele trabalho que tirou tanto da sua infância e a fez ficar longe de mim já está começando a fazer o mesmo com a minha neta também.
Era extremamente infeliz e partia seu coração, mas Deus a livre, temia que isso acabasse sendo verdade.