Se Ela Visse

Blake Pierce · Capítulo 32 de 33

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Se Ela Visse

Capítulo Trinta e um

Kate estava sentada com DeMarco na pequena sala de exames do hospital mirando o celular. Eram 8:55 e estava olhando para uma tela de texto em branco com o nome de Allen na parte superior. Ela tinha pensado no que dizer nos últimos minutos e finalmente decidiu: Então, eu sou terrível. O trabalho me chamou, novamente. Mesmo caso. Mas nós o solucionamos. Isso significa que não haverá jantar. Eu lamento.

Ela enviou e olhou para DeMarco. Estava sentada na beira da pequena cama. Havia uma gaze envolvendo seu braço esquerdo, onde havia sido cortada. Não perdeu muito sangue e, embora a ferida tenha sido bastante profunda, ela foi facilmente consertada com dezesseis pontos.

—Foi para a sua filha? DeMarco perguntou.

—Não. Namorado.

DeMarco assentiu com a testa franzida. Tem sido difícil para você, hein? Tentar equilibrar tudo isso.

—Sim. Mas estou pegando o jeito. Eu só tenho que parar de desapontar as pessoas ao meu redor, as que vivem vidas normais. E eu... espere. Aguente. Você é a única que foi esfaqueada no braço. Que diabos você está fazendo se preocupando comigo?

DeMarco deu de ombros e olhou para o chão. Minha mãe costumava me contar histórias quando eu era jovem sobre como ela quase não seguia o caminho da família. Estava tocando violão e cantando nessa banda que quase conseguiu sucesso. Ela me contou como sempre admirou Stevie Nicks... você sabe, a cantora do Fleetwood Mac?

—Sim, eu sei quem ela é.

—Bem, minha mãe se espelhava em Stevie sobre como agir, como fazer o papel de uma protagonista feminina em uma banda. E, ai meu Deus, isso vai sair mais brega, mas... você é minha Stevie Nicks, Kate. No momento em que entrei como Agente na Unidade de Crimes Violentos, comecei a pesquisar seus casos mais antigos, aprendendo com você e vasculhando seus arquivos. Então sim… eu vou me preocupar com você. O fato de você ter voltado da aposentadoria para fazer coisas como as que fizemos hoje me deixa chocada.

—Obrigada por isso, disse Kate, sentindo as lágrimas chegando.

Se apenas Melissa pensasse em mim da mesma maneira.

O telefone dela tocou na mão. Olhou para baixo e viu que Allen havia retornado seu aviso. Compreendo. Fica como um vale encontro. Ligue quando você chegar.

Ela ficou aliviada por ele ter aceitado tão bem, mas também sentiu que estava se aproveitando dele. Pensou em trocar mensagens de texto com Melissa, mas decidiu não fazer isso. Melissa nem sabia que ela tinha sido chamada de volta para Roanoke, de qualquer maneira. Pensando em ambos um espaço tão curto, ocorreu a Kate que Melissa nem sabia sobre Allen.

Não é bom que DeMarco já saiba mais sobre minha vida pessoal do que minha própria filha, Kate pensou.

Ainda se recuperando dos comentários de DeMarco, Kate tentou pensar em algo igualmente sentimental para contar a DeMarco, mas foi interrompida por uma batida na porta. Depois de um segundo ou dois, ela se abriu e Palmetto entrou.

—Como vão? Ele perguntou.

—DeMarco é uma heroína, Kate disse, usando isso como seu elogio de retorno.

—Dezesseis pontos não me tornam uma heroína, argumentou DeMarco. Embora adicione uma cicatriz, e cicatrizes são foda.

—Estou feliz que não tenha sido pior. Você realmente salvou o dia, Agente DeMarco. Então, obrigada por isso.

—De qualquer forma, eu só queria aparecer e atualizar vocês, disse Palmetto. Neely confessou tudo. Ele está culpando a incapacidade de todos em amá-lo quando criança. Quando eles o revistaram, encontraram um pedaço do cobertor no bolso de trás. Ele admitiu abertamente que pretendia enfiar aquilo na garganta de Ruth Coleman. Ele disse que teve a ideia ao ver seu pai matar sua mãe tão facilmente, como se fosse nada. As primeiras reações dos policiais são de que ele, provavelmente, irá fazer um pedido de insanidade.

—Você acha que ele vai conseguir? Kate perguntou.

—Por mim, sim.

—Por que o cobertor, no entanto? DeMarco perguntou.

—É aí que o mais louco entra em cena. Ele diz que foi a única coisa que ele teve quando criança que o fez se sentir seguro e confortável. Mas quando ele ficou mais velho e viu como essas pessoas que deveriam amá-lo não o amavam do jeito que ele pensava que deveriam, o cobertor começou a assumir todo esse novo significado. Ele o odiava. Queria usar algo que ele já pensou ser seguro para ajudar nos assassinatos.

—Isso é terrível, disse DeMarco.

—Quanto a Ruth Coleman, ela perdeu muito sangue e havia duas artérias principais cortadas. Uma facada não atingiu seu coração por menos de uma polegada. Ela também está com um pulmão perfurado. Está listada como em estado crítico, mas eu falei com o médico que a supervisionou quando deu entrada. Pode não ser tão sem esperança quanto sua aparência faz parecer.

—Isso é uma notícia fantástica, disse Kate.

—É, concordou Palmetto. Ele então olhou para DeMarco e disse:

—Você se importa se eu roubar a Agente Wise por um segundo?

—Não é um problema, disse DeMarco.

Palmetto abriu a porta e levou Kate para o corredor. Ele começou a andar devagar para a frente e teve um olhar pensativo no rosto.

—O que é? Kate perguntou. Está tudo bem?

—Sim, o caso está basicamente encerrado graças a vocês duas. Mas eu tinha outra coisa... algo que eu precisava te perguntar. Eu sei que você é de fora de DC e tudo, mas eu achei que não poderia doer perguntar se você gostaria de ir a um jantar ou algo assim antes de voltar.

Foi totalmente inesperado e ela supôs que o olhar em seu rosto dizia isso. O olhar de reflexão de Palmetto se voltou para um pedido de desculpas enquanto ela procurava as palavras certas para usar.

—Desculpe, disse Palmetto. Eu notei que não há anel no seu dedo. Eu pensei que estaria tudo bem em perguntar.

—Ah, é. E eu estou lisonjeada, mas estou saindo com alguém. E honestamente, entre você e eu, mesmo que eu não estivesse, eu não sei se iria. Minha vida está meio bagunçada agora. Há um equilíbrio que preciso encontrar e...

—O quê?

—Nada, disse ela com uma risada. Eu quase acabei de despejar um monte de reclamação sobre você.

—Não teria problema.

—Quanto ao jantar, vou ter que recusar. Mas sério... obrigada por perguntar. Às vezes, isso é tudo que uma mulher precisa para se sentir valorizada.

—Você é incrível, Agente Wise. Eu não vejo você tendo problemas em se sentir digna.

Se não tivesse Allen de volta em casa esperando por ela, ela o teria beijado ali mesmo. Não por uma atração ou forte desejo, mas porque aquelas estavam bem próximas das palavras exatas que ela precisava ouvir desde que saíra do período sombrio em que viveu depois que seu marido, Michael, fora morto.

—Obrigada, disse Kate. Pelos comentários e sua ajuda sobre o caso.

Ele concordou, entendendo que o comentário dela terminara a conversa sobre relacionamentos e os colocara de volta em assuntos oficiais. Foi um prazer conhecê-la, Agente Wise. DeMarco também. Tenham uma volta segura para casa.

Com isso, ele continuou pelo corredor. Kate observou-o ir por um tempo antes de voltar para DeMarco. Quando ela voltou para a sala, a enfermeira havia retornado e estava entregando a papelada ambulatorial para DeMarco.

—O que Palmetto queria? DeMarco perguntou, olhando para cima a partir dos formulários.

—Nada.

—Tudo bem?

Kate sorriu. Olhou para o braço de DeMarco. Ela pensou em Melissa, Michelle e Allen em casa. Ela pensou nos Coleman, juntos e vivos em outro lugar dentro desse mesmo hospital.

—Sim, disse Kate com um sorriso genuíno. Tudo bem.

***

Depois que saíram do hospital, o diretor Duran telefonou e pediu que Kate voltasse para DC para uma breve reunião. Estava ansiosa para voltar para Allen assim que pudesse, mas concordou em fazer a viagem. Foi assim que ela acabou pegando o elevador até o escritório de Duran na segunda-feira à tarde. Parte dela estava muito nervosa, imaginando se talvez tivesse cruzado algumas linhas ou ultrapassado seus limites ao pegar Jeremy Neely.

Poderia ser algum tipo de reclamação ou queixa apresentada contra mim durante este último caso, ela pensou. Então, por trás desse pensamento veio outro: de onde vem toda essa negatividade? Você nunca se questionou tanto assim antes de se aposentar...

—Agente Wise, bem-vinda de volta. Fico feliz que você e a Agente DeMarco tenham voltado relativamente ilesas. Você falou com DeMarco hoje?

—Falei. Ela acha ridículo que tenha que ficar em casa por uma semana por causa de um corte no braço.

Duran sorriu. Você sabe, a Agente DeMarco me lembra outra Agente que eu conheço muito bem.

—É muito mais inteligente e corajosa do que eu, disse Kate.

—Então você gosta dela como agente?

—Gosto. Se eu não soubesse da situação e você me dissesse que ela só esteve na agência por pouco mais de dois anos, eu não acreditaria em você.

Duran bateu os dedos ansiosamente na pasta na frente dele e deslizou para Kate. Dê uma olhada nisso e deixe-me saber o que você pensa.

Ela pegou a pasta e abriu; havia apenas duas páginas dentro. E dentro de cinco segundos de esmiuçar a página de cima, ela entendeu para o que estava olhando. Olhou para Duran, certificando-se de que ele não estava brincando com ela.

—Reintegração? Ela perguntou.

—É o mais próximo que conseguimos, com base no fato de você ter se aposentado. Você não desistiu e você não foi demitida. Mas também não estaríamos contratando você como uma nova funcionária. Então sim... considere este pedido oficial do FBI para que você volte como Agente em tempo integral. E com base no que você me disse hoje, gostaria de incluir a Agente DeMarco como parceira em tempo integral.

Kate olhou os formulários e estava cheia das mesmas emoções que sentiu quando Palmetto a elogiou generosamente no corredor do hospital. Isso a fez se sentir valorizada. Isso a fez se sentir desejada.

—Mas sabia que não poderia. Poderia?

—Eu não posso voltar para DC, disse ela. Estarei em Richmond por um longo prazo. Minha família está lá... uma nova neta e tudo mais.

—Podemos trabalhar em torno disso, disse ele. Não sou só eu, Agente Wise. Mesmo aqueles acima de mim acham que você ainda é um recurso valioso. Eu sei que muitos Agentes se aposentam e voltam para ajudar na pesquisa e no ensino. E, embora, você seja ótima nisso, suas habilidades também seriam desperdiçadas. Eu senti isso quando estive lá na reunião da semana passada, em que você orientou esses Agentes mais jovens em direção a uma resposta no caso de rapto de crianças ─ uma resposta, devo acrescentar, que levou a uma prisão hoje de manhã.

Ela suspirou e fechou a pasta. Você pode me dar algum tempo para pensar sobre isso?

—Lógico. Não tenha pressa. E novamente, eu realmente aprecio o trabalho que você fez nestes dois últimos casos.

—Obrigada.

—Isso é tudo por agora, disse Duran. Desculpe por fazer você voltar para DC para esta breve reunião.

—Tudo bem, disse ela, segurando as bordas da pasta. Valeu a pena.