Se Ela Visse

Blake Pierce · Capítulo 16 de 33

Páginas do PDF

Se Ela Visse

Capítulo Quinze

Era muito bizarro acordar com alguém do outro lado da cama. Kate tirou um momento para apreciar a sensação quando saiu da cama silenciosamente. Ela pegou um par de peças íntimas e seu roupão e saiu do quarto enquanto Allen ainda dormia. Isso a fez se sentir um pouco imatura, mas não conseguia entender o quão feliz estava. Não tinha um homem dormindo na sua cama desde que Michael morreu. Havia algo de libertador nisso ─ algo que a fazia lembrar que era certo viver um pouco egoisticamente de vez em quando.

Entrou na cozinha e começou a preparar um bule de café. Então quebrou alguns ovos e começou a fazer omeletes. Enquanto o café fervia e os ovos cozinhavam, ela impulsivamente foi até o balcão da cozinha e abriu o iPad, puxando os arquivos do gabinete de Roanoke. Como de costume, sabia que não conseguiria parar de pensar no caso até que estivesse oficialmente cem por cento acabado.

Procurou por qualquer detalhe que pudesse ter perdido, mas não havia qualquer um. Sabia que, à medida que os médicos legistas terminassem seus trabalhos e a perícia estivesse com tudo submetido, haveria mais para continuar. Mas, por enquanto, achava que ela e DeMarco haviam feito praticamente tudo o que podiam. Ainda assim, isso não ajudou em nada para eliminar o fato de que não conseguia superar a sensação de que estavam deixando passar alguma coisa ─ algo que estava bem na frente de seus rostos.

Kate fechou os arquivos e depois abriu o e-mail. Ela tinha vários deles, todos relacionados com a assistência de pesquisa que havia marcado mais tarde naquele dia. Parecia muito detalhada e, se os Agentes que ela supervisionava trabalhassem bem juntos, poderiam ter seu caso atual terminado muito rapidamente. Também viu que estava sendo convidada para estar em Washington às três da tarde. Ela leu o resumo do caso que havia sido preparado para ela, lendo-o duas vezes e memorizando-o. Realmente parecia um caso que estava longe de ser fechado por uma teoria ou pista.

Ela ouviu passos atrás dela. Antes que pudesse se virar, sentiu as mãos de Allen em seus ombros, massageando-a gentilmente. Ele a beijou na nuca, enviando um arrepio delicioso através dela.

—Bom dia, ele disse.

—Bom dia para você também, disse ela. Ela clicou no iPad para ficar em espera enquanto se virava para ele.

—Você desligou o iPad imediatamente, disse ele. Informação sensível?

—Mais ou menos, ela disse. Você está com fome?

Ele olhou para onde ela havia colocado seus pratos. Ela tinha queimado um pouco as omeletes porque estava distraída com os arquivos do caso, mas não achava que Allen era do tipo que reclamaria de tal coisa.

—Com certeza, disse ele.

Caminhou até a banqueta ao lado do balcão, vestindo as mesmas roupas que usava na noite anterior. Ele tinha um olhar no rosto que refletia os sentimentos de Kate. Estava começando a pensar que Allen, muito raramente, se encontrava nesse tipo de situação também.

—Você está voltando para isso tudo por que sente falta ou por que a aposentadoria não é para você? Perguntou Allen, apontando para o iPad.

—Eu me pergunto isso quase todos os dias, disse ela. É principalmente porque sinto falta disso. É tudo que que sei fazer.

—Depois de ontem à noite, eu insisto em discordar, disse ele com um pequeno sorriso malicioso.

Ela se virou um pouco quando suas bochechas coraram. De qualquer forma, eu preciso estar em Washington às três horas da tarde. Provavelmente será uma viagem bem rápida se você quiser fazer alguns planos para amanhã.

—Sim, soa legal para mim, disse ele, mexendo em seu café da manhã.

—Desculpe novamente por ter feito você esperar tanto tempo ontem à noite.

—Ah, tudo bem, disse ele. Mesmo. Parte de mim está um pouco encantada pelo que você faz. Eu gostaria que você não me dissesse nada diferente, mas eu imagino que você chute portas e jogue meliantes no chão. É tipo, sexy.

Não conseguiu conter o sorriso quando pensou sobre o enfrentamento com Davey Armstrong no chão ontem. Sim, claro, disse ela. É assim para mim quase todos os dias. Muita corrida e luta.

—Então, ele disse, engolindo o último pedaço de omelete, — se você precisa estar em Washington as três, eu acho que você tem que se mexer, hein?

—Sim, eu provavelmente deveria me arrumar.

—Eu serei uma visita terrível se eu perguntar se posso usar o seu chuveiro antes de sair? Allen perguntou.

—De jeito nenhum, disse ela. Só um momento e talvez eu me junte a você.

Agora era a vez dele de esconder um pouco de rubor em suas bochechas. Ele colocou o prato na pia e tomou um último gole de café antes de sair da cozinha. Deu um pequeno beijo no canto da boca dela e voltou para o quarto.

Kate pretendia se juntar a ele, mas sua mente instantaneamente voltou ao caso. Ela continuava vendo aqueles pedaços de tecido, partes de um cobertor que haviam sido enfiadas na boca das vítimas. Olhou para o relógio na pia da cozinha, viu que eram 8:37 e decidiu ligar para DeMarco.

Ela atendeu no segundo toque e pareceu satisfeita por Kate ter ligado. Muita solidão aqui em Roanoke, disse DeMarco.

—Nada novo?

—Nada. Eu até cheguei a verificar os registros do ensino médio dos Nash e dos Langley, na esperança de encontrar algum tipo de conexão. Também solicitei todos os formulários e documentação do condado que dizem respeito a qualquer coisa relacionada ao processo de adoção dos Langley. Eu vou conseguir isso hoje, mas com base no que o Departamento de Serviços Sociais pensa, os Langley são perfeitos. Nenhum registro criminal ou bandeiras vermelhas de qualquer tipo. Então, eu não estou esperando encontrar surpresas sobre eles.

—E os Nash nunca foram pais adotivos, certo?

—Não que saibamos. Não há nada que aponte para isso de qualquer maneira. Isso seria uma conexão bastante relevante, não seria?

—Sim, mas se não há, não há. Ela suspirou e acrescentou: e o Davey Armstrong? Todos por aí ainda parecem pensar que é ele?

—Sim, e há pelo menos alguma evidência para apoiar isso. Não é tão forte quanto eu gostaria, mas é o suficiente para detê-lo por um tempo. Por exemplo, há um registro policial de quando Davey tinha dezessete anos. Ele se trancou no banheiro dos Langley com uma arma e estava ameaçando se matar. Há também algumas mensagens feias do G-chat que foram encontradas ontem à noite em seu computador. Estava conversando com um amigo dele da faculdade comunitária sobre suas experiências com os Langley. Ele fala sobre algumas fantasias sexuais muito doentias com a Bethany Langley. Mencionou estupro algumas vezes.

—Você acha que pode enviá-las para mim? Kate perguntou.

—Sim, se você quiser.

—Algo mais?

—Não, isso é tudo. Eu falei com o amigo da faculdade sobre essas mensagens e ele jura que não acha que Davey teria coragem de matar alguém. Ele disse que Davey parecia um pouco vago às vezes. Para dizer a verdade, posso ver Duran me ligando para que eu vá de volta para Washington amanhã, se nada mais acontecer nesse período.

—Bem, mantenha-me informada, disse Kate. Fale-me se você precisar de alguma coisa.

Elas terminaram a ligação e Kate instantaneamente tentou pensar em Davey Armstrong como um adolescente, morando na casa dos Langley e tendo fantasias sexuais sobre sua tia. A adição desse item tornou a coisa toda um pouco diferente. Talvez houvesse algo que Davey não estivesse dizendo a eles. Talvez estivesse envergonhado não só pelo uso de drogas, mas também pela maneira como ele se sentia sobre sua tia.

Essa ideia a deixou desconfortável. E embora tivesse dito a Allen que poderia se juntar a ele no chuveiro, qualquer pensamento sobre atividade sexual foi apagado de sua mente com essa nova atualização sobre Davey Armstrong. Em vez de se juntar a Allen, ela permaneceu no balcão, examinando os arquivos mais uma vez e tomando seu café.

Que diabos estou deixando fugir? Perguntou a si mesma, certa de que havia algo ali em frente a ela que de algum modo a iludiu até agora.

***

Allen não comentou sobre Kate decidir não se juntar a ele no chuveiro. Parecia entender que sua mente normalmente não estava em uma única direção, mas em todos os lugares. Kate imaginou que se eles eventualmente tivessem um relacionamento mais longo mais tarde, isso poderia ser algo que eles teriam que enfrentar. Mas, por enquanto, ela simplesmente apreciava o fato de ele ser compreensivo.

Ela começou a fazer as malas quando ele saiu do banheiro. Estava de calças e estava secando o cabelo.

—Tudo bem com você? Ele perguntou.

—Sobre o quê? Ela perguntou.

Ele deu de ombros enquanto colocava a camisa. Bem, a noite passada foi incrível, não me entenda mal. Mas agora, esse ir e vir e sua vida ocupada. Eu não sei. Sinto que talvez eu tenha usado você ou algo assim. Talvez eu tenha me aproveitado da sua agenda e ocupações. Estou sendo idiota?

—Não, ela disse, seu coração se aquecendo por causa dele. Isso é incrivelmente sensível. Não, você não me usou. E eu também não fiz isso por culpa de tê-lo feito esperar. Então, não se incomode por isso.

—É bom saber, disse ele. Você se importa se eu ficar por aqui até você sair?

—De jeito nenhum.

Dentro de alguns minutos, estava na cozinha lavando os pratos do café da manhã.

Ele se serviu de outra xícara de café e sentou-se com ela no quarto enquanto ela fazia as malas. Eles tiveram uma conversa bastante agradável sobre coisas superficiais: a previsão do tempo da semana, os restaurantes que eles gostariam de conhecer, os filmes que poderiam ver juntos no cinema nas próximas semanas. No que dizia respeito à Kate, era bom ter conversas tão inocentes e comuns.

Estava de malas prontas e saindo pela porta às 9:30. Isso a colocaria em DC pelo menos duas horas antes do horário da reunião, mas estava tudo bem para ela. Ela imaginou que poderia tentar conversar com Duran para discutir o caso em Roanoke.

Allen levou uma bolsa para ela e a colocou no porta-malas do carro. Então estendeu a mão e pegou a mão dela.

—Eu gosto disso, disse ele. Disso, claro, sem definição. O que quer que esteja acontecendo entre nós... eu gosto.

—Eu também, disse ela. Vou ligar para você quando estiver a caminho de casa.

—Não precisa. Eu prometo que não vou ficar triste esperando na sua varanda até você voltar.

—Mas eu quero, disse ela. Ela quase expressou o raciocínio por trás disso, mas deixou que permanecesse em sua cabeça. Eu gosto da ideia de que alguém está esperando por mim, de que alguém está ansioso para me ver novamente.

Com esse pensamento em mente, ela também percebeu que Melissa ainda tinha que responder sua mensagem. Isso a machucava, mas não conseguia se concentrar nisso agora.

Então quando? Ela se perguntou quando Allen abriu a porta do carro para ela. Se você quer que esse relacionamento funcione, você precisa enfrentá-lo mais cedo ou mais tarde.

Ela entrou no carro com um suspiro pesado, tentando aliviar a tempestade em sua cabeça.

—Você está bem? Allen perguntou.

—Sim. Apenas muita coisa na minha cabeça, minha mente. Trabalho… Melissa… eu realmente sou apenas uma grande bagunça. Você vai descobrir muito em breve, eu acho.

Ele sorriu para ela, inclinou-se para o carro e beijou-a. O beijo a aqueceu levemente e fez com que tremesse em todos os pontos certeiros de seu corpo. Quando ele se afastou, meu Deus, estava tonta.

—Tenha cuidado lá fora, disse Allen.

—Vou tentar. Vejo você em breve.

Ele fechou a porta e deu-lhe um pequeno aceno quando ela ligou o carro. Quando saiu, olhou para trás e o viu ainda olhando da calçada. Sorriu ao vê-lo e, pela primeira vez em muito tempo, imaginou se talvez houvesse alguma coisa na vida além do que havia conseguido no trabalho. Claro, havia Melissa e Michelle, mas também havia essa coisa inominável entre ela e Allen. Não amor, ainda não, mas algum tipo de impacto que se parecia com o de se sentir desejada.

Isso, em conjunto com saber que ela iria assistir a pequena Michelle crescer, a fez sentir uma alegria intensa que a pegou desprevenida. Era algo que não sentia há muito tempo ─ algo além de seu trabalho que a fez ansiar pelo o futuro.