Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 8 de 23

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Vergonha dos Pés

Capítulo 8

Outra sessão de fisioterapia. Ana começa a se aborrecer com esta palhaçada toda. “O tipo de mentira que se alimenta do ridículo.” Ela tira sua roupa, logo depois veste um roupão de tergal grosseiro. Entrega seu vestido dobrado a uma funcionária mal-humorada, que joga a peça num armário de metal enferrujado. Ali, Ana é tratada como uma miserável tísica. Parece estar num cenário da cinza ex-Alemanha Oriental. Uma das atendentes chama Ana de “meu bem”. Ela respira fundo, teme esbofetear a mulher, mas sossega. Foi Ana mesmo quem inventou tudo isso e desde o início estava ciente dos inconvenientes. Deita de bruços na maca, para receber a massagem. Tem nojo daquilo. Sente o óleo deslizar na sua pele. “Que constrangimento.” Tenta se distrair, quase adormece. O roupão está aberto nas costas, para que a enfermeira possa aplicar arnica na área “doente”, com dedos ásperos e pesados. Depois da massagem, colocam uma bolsa térmica na região lombar. Este é o melhor momento de “toda a palhaçada”, quando se vê livre das funcionárias da clínica. Perto dela, em outra maca, há uma criança com as pernas fininhas. Sua aparência assemelha-se à de um boneco de caroço de manga. O tronco estufado e de cor amarelo girassol, com pernas iguais a palitos de dentes. O rosto de Ana está voltado para a maca da “criança manga”. Ela não quer olhar para ele, mas teme que, ao mudar de posição, seu coleguinha enfermo se sinta repelido. “Esta criança deve conviver diariamente com caras de nojo e espanto. Eu jamais vou saber que sensação é essa.”

– Qual é o seu nome?

– Edison.

– É o nome de um grande inventor.

A criança não diz nada. “Será que não sabe o que é inventor?”

– Você gosta de cinema?

O menino fez que sim com a cabeça.

– Edison inventou o cinetoscópio.

– Que é isso?

– Um tipo de cinema, bem antigo.

– Faz tempo que eu não vou ao cinema.

– Por quê?

Ana estremece ao imaginar as inúmeras respostas tristes que poderá escutar.

– Não sei.

Calaram-se. Ana está deprimida. Sente-se mal por se fingir doente, ocupando as enfermeiras com mentiras. Não aguenta ficar mais um minuto encenando esta doença. “Vou contar até vinte, se ninguém aparecer, vou embora.” A criança está olhando para ela. “Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte.”

– Tchau! – disse, levantando-se.

– Tchau!

Veste-se rapidamente, não quer encontrar ninguém. O menino olha. “Devem ser os primeiros seios que vê na vida.”

– Você pode andar?

– Sim.

– Se eu lhe der dinheiro, você dá um jeito de ir ao cinema?

– Sim.

Ana entrega a ele uma nota de cinquenta. É muito, mas quer se desculpar por tudo aquilo que já fez.