Vergonha dos Pés
Capítulo 15
Ana está aborrecida com o acontecimento no McDonald’s. Já não tem vontade de olhar mais nada no shopping. Inclusive, sente-se até arrependida de ter ido até lá. “Antes eu tivesse ido pra casa. Não adianta nada sair nesse buraco dessa cidade horrorosa.” Mas não quer ficar chateada à toa, quer aproveitar o cabelo novo e se concentra para esquecer o desgaste da lanchonete. “Ficar me aborrecendo por nada. Se eu continuar assim, antes dos quarenta eu tô com câncer. Credo! Não! Desdigo isso, não estarei com essa doença quando estiver com quarenta anos. Com quarenta anos estarei casada com um homem bem rico.” Acha engraçado este pensamento. “É mesmo, um homem bem rico, bonito, que eu ame. Nossa! Como estou animada, daqui a pouco estarei me imaginando com um homem rico e filhos louros, com olhos azuis.” Ana volta para casa, enquanto pensa no homem-ideal-para-os-quarenta-anos. Não tem mais pensado em Jaime. Nas primeiras semanas, depois da separação, não parava de pensar se havia ou não feito a coisa certa. Chegou até a ficar deprimida, sentindo-se arrependida. Enquanto tirava as suas coisas de dentro das malas, chorou compulsivamente. As suas coisas. As suas coisinhas queridas. Para lá e para cá. Entrando e saindo de dentro das malas, dos sacos de plástico do supermercado. Ficou realmente sentida por ver tudo aquilo jogado no chão. Seus potinhos, suas quinquilharias repletas de lembranças. Deitou-se no meio delas, queria abraçar tudo aquilo. Uma daminha antiga, de porcelana, com o braço quebrado. Um gato de plástico verde-musgo, uma bonequinha nua de cabelos longos, que seu pai tinha dado para sua mãe quando ainda eram namorados. Um monte de cartões-postais com fotos de escritores, bijuterias, um pedaço de madeira que um dia um mendigo lhe dera na rua, dizendo ser mágico. Alguns guardanapos com “frases geniais” que anotara nos bares. Alguns recortes de revistas ou jornais. Dentre essas coisas, jogadas no chão, Ana encontrou uma fotografia que havia recortado de uma revista de turismo. Era uma pequena rua com várias casinhas brancas, rústicas, todas iguais. Ana não se recordava mais daquela foto e, quando a reencontrou, ficou emocionada. Aquela foto havia, por uns dois anos, ficado colada na parede diante da sua escrivaninha. Toda vez que ela se sentava para tentar escrever ou estudar, olhava para a fotografia e imaginava-se dentro de uma daquelas casinhas. Iria levar uma vida simples. Teria uma cama espaçosa, com lençóis brancos, uma cabeceira com um abajur e uma garrafa de água, uma poltrona e uma grande mesa, onde escreveria os seus livros. Tudo branco. Teria também um aparelho de som. Nele escutaria Satie, Chopin, Chet Baker, Cartola, João Gilberto... Músicas que a conduziriam a frases perfeitas. Só não iria haver um lugar para guardar as suas coisinhas. Todos os cacarecos de lembranças. Não haveria, pois pra esta casa – em Málaga – Ana não levaria sua memória. Ali, ela gostaria de estar despida de tudo. Queria o branco. O esquecimento.
Ana ficou olhando aquela foto, que nem fazia parte de um passado, assim, tão distante. Há no mundo sonhadores que carregam fotos de castelos que pretendem conhecer, de praias onde gostariam de morar. Ana havia sido, em algum momento, daquele jeito. Não importava se morava num quitinete, pois havia a fotografia da casa em que um dia moraria em Málaga.
Naquele instante, deitada no chão, teve um ímpeto de rasgar a fotografia e dar fim a todas aquelas coisas que levava consigo há tantos anos. Mas, mesmo sabendo que provavelmente jamais morará em Málaga e tampouco conseguirá realizar algum desejo pedindo ao pedaço de madeira, resolveu guardar tudo aquilo. Como se daquela maneira estivesse preservando, em si, toda a ilusão que já havia sentido. Não o sonho, mas a lembrança dele.
A última vez que viu Jaime, ratificou a sua necessidade de não voltar a vê-lo tão cedo. Não guarda mágoa, apesar de em alguns momentos preferir pensar que sim. Afinal, mesmo que intimamente saiba que não partiu dele o motivo da separação, acha mais cômodo acreditar nisso. O fato é que não quer ser sua amiga, não sente a menor falta de sua companhia, de suas opiniões. De seus hábitos, de sua maneira educada de falar “Bom-dia” para a moça dentro do elevador. “Quem disse que ela quer ser interpelada por um estranho, a indagar sobre o seu dia, mesmo que seja para desejar sorte?” No final do casamento, Ana incomodava-se até com a respiração de Jaime, achando o processo por demais ofegante. “Odeio gente que faz barulho quando respira.” E assim o amor foi acabando. Caso ela não quisesse que isso acontecesse, seria necessário um pouco de tolerância. Tolerância nem é a palavra certa, talvez, cegueira. Um pouco de cegueira, surdez e silêncio. Quem cutuca, encontra e faz ferida.
Agora, voltando para casa, Ana até que gostaria de encontrar alguém. Mas não Jaime. E o fato de não encontrar com ele traz uma certa alegria, acabando por deixá-la feliz, mesmo que sozinha. Queria, é certo, mostrar o seu novo cabelo para alguém. Porém basta chegar em casa e olhar-se no espelho.
Entra no apartamento, respira fundo o cheiro de sua casa. Gosta do que sente. Reconhece, ali, a sua propriedade. Humilde, pouco espaçosa, mas sua. Pelo menos ainda durante o ano que se seguirá, do contrato. A secretária eletrônica anuncia recados. Ana alegra-se com a ideia de ouvir alguém. Escuta o aparelho. “Ana. Aqui é Elisa. Ana, você não sabe o que minha sogra fez: colocou a foto de Bianca no concurso ‘Bebê De Plá’. Estou morrendo de vergonha. E ainda teve a petulância de mandar escrever ‘Papai e mamãe sentem muito orgulho da filhinha top model’. Não, se algum amigo meu reconhecer essa porra, eu renego a criança. Digo que não é minha filha. É isso. Cadê você? Porra... Tchau, então. Um beijo.” Ana está rindo. Adora os recados da amiga. Adora a amiga. O outro recado é de Helena. Nele, ela diz que estará chegando logo à noite. Precisa contar algo para a filha. “Mas não se preocupe. É besteira. Tchau.” Impossível não se preocupar. Já está preocupada. A mãe? Fazendo-lhe uma visita para contar algo? Ana acha certo que seja algum problema grave. Imagina vários. Sente vontade de chorar. “Será que ela está doente?” Tenta se acalmar, não consegue, sua cabeça está repleta de desgraças e, quando isso acontece, ela tem a certeza de que todo o seu negativismo estará guiando os acontecimentos. Então tenta mudar o pensamento. Vai tomar um banho. Acha estranho a falta de cabelo, mas sente liberdade na facilidade de tirar o xampu. “Vou gastar bem menos xampu.” Volta a lembrar da visita da mãe. Helena não pegaria um avião para contar algo sem importância para a filha. Ana está realmente tensa. Sai do banho e mal se enxuga. Ainda não anoiteceu. São quase seis horas, mas o dia lá fora ainda é claro. Os bichos de luz, com suas asinhas nojentas, começam a voar em volta das lâmpadas. Ana não suporta esses bichos, teme que eles comam seus livros. Odeia bichos mutantes, que deixam o rastro de seus corpos pelo chão. Está nervosa. Vai até o espelho e se acha bonita. Ana fica bem quando está tensa. Ela acha que sim, que fica muito bem quando está tensa ou deprimida. “Fico um pouco parecida com Debra Winger.”