Vergonha dos Pés
Dedicatória
Esse livro é seu, Alexandre.
“O Homem moderno aperta botões, girando
camas. Surgem luzes, descem tevês, ligam-se
músicas, trocam-se discos, apagam-se luzes.
Quando os botões não servem mais para os
dedos cansados, cria-se tédio.”
Tia Té
1
“Quando o Homem pisa o chão, da maneira que o faz, já diz quem é. Há quem demonstre ser forte ao colocar-se em pé. Os pés desses são como tábuas bem firmes, grudadas no chão. Conduzem as batatas das pernas e, logo em seguida, elas inteiras e o resto do corpo. É comum, nas ilustrações dos livros mitológicos, vermos os heróis gregos com os seus pés protegidos por sandálias que lhes sobem em tiras até os joelhos. Pés grandes, sustentando corpos musculosos e alongados. Outras imagens exemplificam o poder dos pés bem colocados ao chão, ou não, pés em descanso. Até mesmo pés pousados para esculturas. Os pés dizem muito das pessoas. Porque eles aguentam os seus corpos. Todo o corpo fala sobre seu dono, mas os pés, os pés denunciam. Fraquezas e forças, caso elas existam. Há pés que contradizem o corpo que sustentam. Um homem forte pode conseguir disfarçar suas fragilidades, se calçar os sapatos certos. Se esse homem tiver pés pequenos, finos – principalmente quando são brancos, pois esta cor realça as veiazinhas azuis – e usar botinas grandes, com bicos metálicos, ele poderá conduzir com firmeza o seu caminho. Mas uma vez tiradas as armaduras, ele será desmascarado e prontamente veremos a sua real personalidade: um frágil e pequenino rapazinho. Quase um bebê. Essas características podem até agradar algumas mulheres, mas só por um curto tempo. Nenhuma fêmea quer um macho semelhante a ela. Homens com pés de bailarina virgem devem escondê-los, caso pretendam impressionar as mulheres. E mesmo elas, quando não possuem pés adequados para o seu porte, se patetizam, como se tivessem crescido e esquecido dos pés lá embaixo, pequenos e sofridos. Pés que esqueceram de crescer. Pés que foram abandonados na infância. Exemplo disso são as japonesas que, ao amarrarem seus pés quando crianças, até o final do crescimento, conseguem atrofiá-los de tal forma que comprometem o seu andar para sempre. Tornando-se ridículas. Parecem umas tontas, amarradas e empoadas. Olhamos para uma mulher japonesa vestida tipicamente e não conseguimos imaginá-la fazendo nada que não seja caminhar com os seus pezinhos atrofiados e rir, colocando as mãos sobre a boca pintada de vermelho sangue. Na verdade, elas são como qualquer mulher: tomam-se por achaques menstruais e maquinam vinganças quando se sentem traídas.
Compreende-se que, quando pequenas, as pessoas possuam os pés pequeninos também. Mesmo assim, são imperdoáveis quando mínimos em demasia. Nada de pés miúdos. Exagerando, nada de membro nenhum miúdo. Os Homens devem ser grandes para se aproximarem melhor de Deus. Os Homens devem voar.
Não consigo deixar os pensamentos de lado. Queria voar.”
Ana está procurando dormir. Não consegue e se esforça para levantar da cama, mas sua cabeça não convence o corpo a tentar qualquer tipo de movimento. Ela apenas fica ali, entregue ao calor insuportável de quase quarenta graus. Ou já quarenta graus, não sabe ao certo. “Eles nunca informam corretamente a temperatura. Porque, quando passa dos limites humanos de tolerância, todos teriam que deixar as ruas e o que estão fazendo, para se recolher em casa. De preferência, num ambiente com ar-condicionado.” Ana está deitada em seu quarto, com as janelas abertas. De nada adianta as janelas estarem abertas, não venta e tudo está impregnado de calor. No quarto dela não tem ar-condicionado. Não tem ar-condicionado em lugar algum da casa. E isso é desestimulante para Ana. Quando pode, ela não sai da cama durante todo o dia. É o que tem feito, desde que entrou de licença na universidade. Fica ali, ora assistindo à tevê, ora tentando ler. Mas não consegue. Não tem sido capaz de se concentrar em livro algum. Já a tevê é mais fácil, pois não é necessária muita atenção. O controle remoto está sempre à mão para qualquer emergência, e sempre acontece. O dedo aperta com experiência os botões, já conhece cada canal e sua programação. Ana nunca chega a assistir a um filme até o final, sua cabeça se desconcentra e ela se levanta, vai até o banheiro, faz xixi, molha as mãos, o rosto, conserta a sobrancelha que cresce todo dia um fio indesejado e volta para a frente da tevê. Mas aí o filme já não diz mais nada. Ela tenta dormir, só alcança a vigília e sempre sonha coisas estranhas nesse momento. Outro dia sonhou com uma mulher que tinha uma perna mais curta que a outra e os tornozelos tatuados. Essa mulher atraía os homens casados, nenhum fugia aos seus incomuns encantos e um deles dizia serem os seus seios, pequeninos e pontudos como flechas, aquilo que mais desejava. Ana acordou suada e foi ao banheiro. Aproveitou para olhar os seus seios. Eles são belos, apesar do tempo. Não que Ana seja velha, mas já podia ter os seios caídos, caso sua natureza não fosse generosa. Afinal, ela usa sutiã há bem pouco tempo. Antes, não estava nem aí para sutiãs ou outro cuidado qualquer. Era como se a juventude tivesse feito uma promessa de eternidade com ela. Olhando para Ana há alguns meses, era possível crer que ela jamais deixaria de ser aquela jovem esquisita. Uma mulher de idade indefinida, corpo grande, e sem grandes belezas, mas também sem nenhum defeito marcante. Com longos cabelos, um rosto pequeno e bem-feito, que não causaria nenhuma estranheza se não fossem os olhos. Esses, sim, estranhos e belos. Os olhos de Ana são o termômetro de seu rosto. Neles, ficam públicos seus sentimentos. Se olhassem profundamente para seus olhos, poderiam mesmo enxergar o que ela está pensando. Mas nem é preciso tanto. Para disfarçar a força dos olhos, o rosto de Ana já informa, a quem o contempla, aquilo que ela sente. Se não está gostando, é impossível esconder. Da mesma maneira, anuncia a sua alegria. Seu rosto continua explícito como antes, mas de alguma forma ela parece ter rompido com a juventude e avançado num caminho que a levará ao amadurecimento. Não à velhice, mas sim a um estágio onde algumas mulheres permanecem divinas, um pouco cansadas e um tanto ou quanto confusas. Quando estão entre vinte e trinta anos, depois de terem vivido e dito tantas verdades, já não sabem direito de mais nada. E ficam misteriosas para si mesmas, porque o enigmático não é mais charme e, sim, constância. De uns tempos para cá, Ana passou a se preocupar com os seus seios e comprou três sutiãs. Não tem entendido muito bem o que deseja do futuro. Depois de um ano e meio estudando Letras, não sabe o que fará com isso quando se formar. Ao mesmo tempo que questiona a necessidade do curso, conclui que, a essa altura do campeonato, é seguir em frente. E tentará fazê-lo, mesmo que com pouca convicção. Na verdade, o que ela queria ultimamente era ser uma aristocrata ociosa. Mas ela não é. Precisa cumprir com louvor todos os semestres, pois tem uma bolsa integral que financia seus estudos e torna possível sua permanência na cidade. Ela não gosta desta cidade. É quente demais no verão, um quente sem brisa e com “chuvas esquizoides” que duram uma hora e inundam tudo. Ana se aborrece com essas chuvas, porque as deseja no calor insuportável do dia, mas sabe que as chuvas noturnas derrubarão casas e trarão mosquitos para o seu quarto.
Ana pediu licença da faculdade. Ainda é início de período, mas já não aguentava mais ir às aulas, precisava de quinze dias de descanso. Por isso fingiu sofrer de dores na coluna. Era a única doença que não daria para ser comprovada ou desmentida. Foi até a médica da universidade, gemeu um pouco, ao ser tocada, gemeu mais forte, e conseguiu um atestado alegando que sofre de lombalgia. Ganhou a licença, com o preço de inoportunas horas marcadas de fisioterapia. Acha que valeu a pena. E por isso não estava aborrecida quando teve que se levantar da cama para ir à primeira sessão. “É até bom ter motivo para me arrumar.”
Assim que saiu de casa, Ana se lembrou que havia previsão de chuvas antes do anoitecer e que esquecera de levar um guarda-chuva. É certo que odeia este objeto, sempre o esquece em algum lugar, mas como anda um pouco cansada, receia gripar-se. E ela não suporta as dores na garganta. Algumas doem-lhe apenas as cordas vocais, ou o céu da boca, bem antes de chegar à garganta propriamente dita. Essas são menos piores que aquelas que tomam todo o caminho entre o céu da boca e a laringe. Desde menina sofre de dores de garganta. Já ouviu falar que se trata de uma fragilidade de seu signo. Ana não acredita nisso, mas não custa nada levar na bolsa pastilhas para garganta.
Quando entrou no ônibus, foi logo sentar no único lugar vazio ao lado de uma janela. Gosta de andar de ônibus quando consegue a janela. De lá, pode ver as pessoas que vão nos carros. Ana sente um certo prazer de imaginar a vida das pessoas dentro dos carros e também dentro dos apartamentos. Fica olhando tudo, enquanto aguarda um sinal abrir ou um engarrafamento andar. Dos prédios, os primeiros três andares são os seus prediletos. Imagina as pessoas que moram ali – pouco consegue realmente enxergar, mas os lustres e alguns quadros já dão a ideia de seus donos. Uma vez, indo para a universidade, ela viu uma velha na janela de um prédio antigo. A velha penteava os ralos cabelos brancos e parecia rir bestialmente. O ônibus foi embora e aquela imagem ficou em sua mente. Agora, enquanto ia para a fisioterapia, tornava a pensar na velha. Terá ela morrido? “Tomara que sim”, pensou, logo depois se arrependendo desta maldade. “Se bem que, para que viver, sendo velha daquele jeito?” O ônibus mais uma vez parou em um cruzamento. Ana olhou para o carro ao lado, nele estavam duas moças. Elas riam, jovens e satisfeitas por serem belas. “Ficarão velhas e nenhum homem mais vai olhar para elas. Nem para elas, nem para mim.” Ana não está errada. Os anos destroem o poder mais forte e fugaz das mulheres, a juventude. Depois de perdida, restam as fofocas, o tricô; para as mais cultas, a arte, e mais nada. “Acho que é por isso que a natureza deu a maternidade para as fêmeas, para nos compensar e matar o nosso tempo. Os machos não envelhecem tão brutalmente, talvez porque, de certa forma, eles não precisam da beleza para terem amor. Bem verdade que a natureza feminina é assim, mais suscetível, por causa das suas mudanças hormonais, tão bruscas. Talvez se o nosso corpo não tivesse que se responsabilizar pela procriação, as coisas não fossem tão cruéis. Nunca terei filhos.” Pensa nisso quase que diariamente, como que para se lembrar de jamais permitir que sua natureza imponha a formação de um novo ser. Odeia olhar para as grávidas. Acha-as esnobes em seu posicionamento de “deusas da vida”. Todas ficam com um ar patético de “sublimes”. Como se o fato de procriarem lhes desse sabedoria. Ana, que é uma mulher culta, odeia aquelas que passam a vida inteira acreditando que a coisa mais difícil do mundo é tirar cutícula sem arrancar um bife e, depois que parem, sentem-se Kants. Verdadeiras filósofas do existir. Assim foi com sua mãe e até com Elisa, sua melhor amiga.
O ônibus chegou. Quase que ela se deixou levar pelos pensamentos. Isso sempre acontece quando anda de ônibus. – Para falar de Ana, é preciso repetir com frequência certas palavras: sempre, nunca, odeia, ama, não. É difícil narrar uma pessoa tão extrema. A literatura poderá tornar-se quase juvenil e fervorosa. Apesar do tédio em que vive, até ele, Ana defende. Pois ela defende aquilo que gosta ou não com o mesmo ardor. – Desceu do ônibus e, já atrasada, entrou no prédio médico da universidade. Teve que esperar meia hora para que chegasse sua vez. Depois, mais quarenta e cinco minutos, levantando pesinhos e recebendo choques no local “doente”. Só então Ana pôde se vestir e ir ao encontro de Jaime. Tinham marcado no refeitório. Antes, porém, ela se sentou por alguns minutos no banco diante da biblioteca. Sentia-se desanimada para encontrar Jaime. Há apenas dois meses estavam morando em casas separadas, depois de quase um ano juntos. Ana tinha achado melhor ir embora. A questão é que ela nunca foi exatamente feliz, não entende muito bem o que as pessoas querem dizer com isso. Acha um certo exagero esta procura insana pela felicidade. Para Ana, a felicidade é algo meio cafona. Felicidade é coisa para casais românticos das comédias americanas da década de 1950, tipo Doris Day e Rock Hudson. Felicidade é contar o dinheiro da família no fim do mês e ver se dá para uma viagenzinha até o campo. Ou soltar pipa com os dois filhinhos pequenos na praia. Isso, para Ana, é simplesmente um pesadelo. E se alguém pergunta para ela o que é felicidade, Ana responde que felicidade é um jantar com um casal amigo – e ela detesta isso também. Porque Ana sabe que felicidade não tem variantes. Não adianta a conversa mole de que cada um tem a sua versão do que é ser feliz. Ana sabe que a felicidade é, para todos, a mesma coisa, só que não está interessada nela. Não há estímulo algum em correr pelas areias molhadas de uma praia deserta, nem em olhar para o rostinho assustado de um filho que é a sua cara, nem beijar na chuva de madrugada. Não que ela não viva alguns momentos ditos felizes, e até os aprecie. Mas não existe, para Ana, o “estou feliz”. Porque ela despreza ilusões.
Assim que conheceu Jaime, pensou tratar-se de um desiludido. Esta palavra, “desiludido”, pode soar um tanto rancorosa. Mas não é neste sentido que Ana a utiliza. Ser desiludido é não esperar muito, é eliminar a euforia e a ansiedade. Quando Ana encontrou Jaime, tinha cursado um semestre na universidade. Não havia feito novos amigos e nem pretendia fazê-los. Geralmente parece uma pessoa chata para aqueles que não a conhecem, e até para os que sim. Distante, sempre desligada dos grupos, pouco comunicativa com quem não tem intimidade. Mas capaz de conversar por horas a fio com os poucos amigos e de dançar noites inteiras numa boate.
Fazia seis meses que Ana morava na cidade. Chegou em junho, para prestar os exames, e em agosto começaram as aulas. Foi em dezembro que conheceu Jaime. Era o último dia do ano e, mesmo constrangida, ela aceitou ir a uma festa na casa em que morava uma colega de turma. Era um enorme casarão, um pouco maltratado pela juventude desleixada de seus habitantes. Duas moças e três rapazes, dentre eles, Jaime. Ana ainda não o conhecia, porque ele já estava finalizando seu curso.
A noite de ano-novo foi bela. Havia uma enorme lua cheia iluminando o jardim, onde umas cem pessoas brindavam e dançavam felizes – como é de costume estar, nesses dias comemorativos. Algumas meninas haviam tirado suas roupas e se banhavam num chuveirão. Ana adora chuveirões. Ela os prefere a qualquer mar ou piscina. O enorme jato, pesando sobre o corpo, dá a sensação de estar eliminando todos os “micro-organismos invasores”, cada sujeirinha mal vinda e todos os tormentos que a pele porventura possa estar sofrendo.
Ana ficou observando as meninas tomando banho, com uma vontade enorme de fazer o mesmo. Mas achou que seria muito ousado de sua parte agir desta forma, entre estranhos. Ao lembrar que estava entre estranhos, recobrou o ânimo exatamente por estar entre estranhos. “Faz calor. Logo ali, tem um chuveirão como há muito tempo eu não vejo. Não conheço ninguém aqui. Ou melhor, não conheço ninguém o suficiente para me constranger. Não devo nada a nenhum deles e estou vestindo roupas de baixo novas. Eu vou!” Mas não foi de imediato. Aguardou que as meninas saíssem dali e, “agindo naturalmente”, se encaminhou até o chuveiro. Próximo a ele, havia algumas cadeiras, e ali deixou seu vestido e sapatos. Estava de calcinha e camiseta brancas. Sua pele, também branca, dava-lhe a impressão de estar nua. Antes de se molhar completamente, Ana umedeceu primeiro os pulsos e depois a nuca. Um dos poucos hábitos herdados de seu pai, que dizia ser esta a única maneira de evitar um choque térmico muito grande entre a temperatura ambiente e a água. Assim o fez, logo depois se entregando maravilhada àquele jato forte e restabelecedor. Seu corpo foi rapidamente encharcado pela água gélida. Sentiu-se da mesma forma que se sentira em todos os banhos tomados em chuveirões. Essas sensações únicas e iguais durante toda a vida, que dão a impressão de que nada mudou. “Farinha Láctea, por exemplo.” Ana ali ficou, deliciando-se com a possibilidade de ser eterna, de estar com qualquer idade que desejasse ter e viver assim para sempre. Sua alegria durou pouco, pois outras pessoas pareciam estar querendo usar o chuveiro. Mas foi imensa em sensações, deixando Ana limpa de tudo o que havia vivido no ano anterior. Assim que saiu da água, lembrou-se de um detalhe que, imbuída no espírito do desejo, não havia pensado: toalha. Como se enxugar, agora? Não havia a menor chance de ela incomodar sua colega, atrás de algo para se secar. Não é do feitio de Ana incomodar alguém. A única solução era se vestir e partir, mesmo não tendo chegado a meia-noite. Imediatamente colocou o seu vestido e seus sapatos. Irritou-se por estar calçando sapatos fechados. “Essa minha mania de sapatos. Preciso comprar um par de sandálias.” Ela volta e meia pensa em comprar sandálias – como se nunca tivesse tentado encontrar alguma que coubesse em seus pés e não fosse infantil. Ajeitou os cabelos e, antes de partir, achou melhor ir até a cozinha procurar um copo de água, para tomar uma pastilha de vitamina efervescente que tinha em sua bolsa. “Iniciar o ano resfriada por causa de uma atitude intempestiva seria o fim.”
Foi na cozinha que conheceu Jaime. Depois de ter lavado um copo e esperado pacientemente a pastilha se desmanchar, Ana se preparou para levar o líquido à boca. Mas fogos de artifício a assustaram, fazendo com que retornasse o copo à pia e olhasse o relógio. Era meia-noite. Pegou o copo novamente e brindou em voz alta: “Feliz ano-novo. Um brinde a tudo que não quero mais viver!” Jaime, que assistia à cena, levantou o copo de champanhe e se intrometeu: “Um brinde a tudo que não quero mais viver e a tudo que quero viver e ainda não vivi!” Logo em seguida, beijou Ana nos lábios.
Mal tiveram tempo para as apresentações e outras pessoas entraram na cozinha, tornando o lugar por demais pequeno e barulhento. Ana, vendo que Jaime era requisitado para uma dança no jardim, retirou-se sem se despedir. Achou melhor partir, antes que a roupa molhada trouxesse uma gripe.
Um dia, Ana leu em um livro que o acaso é como pássaros que pousam juntos nos ombros de São Francisco de Assis. Aquela imagem ficou marcada, por causa da sua poesia e também pela raridade que são pássaros pousando ao mesmo tempo nos ombros de um santo – ou seja, impossível. Então não se deve esperar pelo acaso? O acaso pode ser forçado? Ou ainda, somente do acaso ocorrem coisas relevantes? Ela não sabe ao certo. Alguns dizem que é bom esperar; outros, que é melhor esperar sentado. Enfim, nada cai do céu, e se cair, dificilmente ainda vai bater na sua porta.
Incentivada por estas filosofias pouco profundas, mas completamente realistas e populares, Ana resolveu procurar Jaime, após passar uma semana pensando naquele beijo de meia-noite. Como não tinha ninguém para se aconselhar além de Elisa, que morava a centenas de quilômetros dali, fato que rendia mensalmente uma pequena fortuna de conta telefônica, Ana sentiu-se obrigada a comentar, “como-quem-não-quer-nada”, com sua colega de turma. Soube, com alguma dificuldade, uma vez que a menina desconfiou das intenções de Ana, que o misterioso rapaz cursava o penúltimo ano de Letras e que suas aulas eram noturnas. Aquilo tudo, de indagar discretamente e fazer-se de tonta, fez com que Ana se sentisse ridícula. Ainda mais quando, dias depois, percebeu a gafe que havia cometido. A garota era namorada do sujeito – inclusive moravam juntos no casarão, com outros estudantes.
– Agora você veja, Elisa, que ridículo! Eu que não abro a boca para dizer um “oi” e de repente começo a questionar o que o cara faz, onde ele mora e o cacete. Não, quase que tenho um treco quando passo pelos dois de mãos dadas e ela ainda me cumprimenta como se nada tivesse acontecido.
– Mas nada aconteceu. Eu fico é boba de ver como você é atrasada. Só por causa de um beijinho e algumas perguntinhas sobre o bofe para a própria namorada, você fica assim? Ah, não, você está parada e perdida no tempo.
– Perdidos no espaço. Você se lembra?
– O quê?
– Aquela série que passava na tevê, com uns caras vestidos com camisa cacharrel de helanca.
– Sei lá o que você tá falando. Pirou?
– Não. Elisa, a gente via juntas e brincava depois de ficção científica. Pib-pib-bibi ou bubu, pupu.
– Que é isso, agora?
– A nave-mãe fazia uma barulho assim, sei lá, algo como upu... pupu...
– Olha, acho melhor a gente desligar. Se tiver alguma novidade sobre o sujeito e sua namoradinha, me liga.
Mas Ana se esqueceu disso e tratou de levar sua vida. Durante aqueles dias, a preocupação era arrumar seu pequeno apartamento quarto e sala. Sua mãe já havia avisado que não ajudaria em nada. Helena tinha estranhas técnicas de criação – dentre elas, nada ajudar. Alegava que, assim, a filha aprenderia a “ganhar a vida”. “Ganhar a vida” é um termo típico da mãe. Ana prefere apenas levá-la.
Helena teve sua filha com dezessete anos. Mal sabia o que estava acontecendo, realmente. Enjoou nos três primeiros meses, depois só fez engordar. Na trigésima sétima semana, nascia uma menina que não queria sair de jeito algum, por isso foi necessária uma cesariana. Três anos após, Helena se viu sem marido e com uma filha asmática a lhe dar trabalho. Nunca havia trabalhado fora, vivia para o lar e para sua família. Até que o marido informou que estava indo embora, não aguentava mais aquela vida, queria sentir a liberdade e fazer tudo o que bem entendesse. Helena disse que queria o mesmo. Ele riu. E ainda estava rindo quando Helena o viu entrar em seu carro e partir.
Deste acontecimento, Ana se lembra de seu pai explicando que iria embora, mas que amava a filha. Se lembra também de sua mãe, chorando na cozinha enquanto fazia algo para o jantar.
Do pai, herdou os olhos e a pele muito branca. Sua mãe sempre acusa Ana de ter o mau gênio do ex-marido. Na verdade, a filha puxou muito mais à personalidade materna do que à paterna. Se isso de fato existe. Percebem-se semelhanças no conceito moral das duas. Embora Ana não suporte a ideia de se parecer com a mãe, nem minimamente. Ana não gosta muito de Helena. É difícil para ela assumir que intimamente preferia nunca mais vê-la. Ao mesmo tempo que se sente culpada por não procurar a mãe mais amiúde. É que Helena se tornou, depois do abandono do marido, uma mulher dura e teimosa. Tudo o que diz tem que estar certo. Um conselho de Helena é, na verdade, uma praga. Caso ela diga “Ana, coloque um casaco, porque vai chover”, mesmo que a meteorologia afirme que a noite será sem chuvas, chove torrencialmente. Helena gosta de falar: “Eu avisei.” Parece que conta com o pior, só para afirmar “Eu sabia”.
Aos seis anos, Ana foi para um colégio interno. Muito diferente daqueles que viria a ler na literatura clássica ou veria nos filmes sobre aristocracias abastadas. O colégio em que estudou nada tinha dos internatos suíços. Estava mais para orfanato do que para qualquer outra coisa. Lá, passou cinco anos seguidos. Foi quando completou onze anos, e sua mãe resolveu colocá-la num colégio melhor, para cursar o ensino fundamental. Tudo lhe pareceu pior do que antes. Afinal, Ana já estava acostumada a conviver com suas colegas pouco afortunadas, assim como ela. Mas Helena havia melhorado sensivelmente de vida. Com sua determinação, conseguiu crescer rápido na profissão de comerciante. Adquiriu vários bens e, antes de Ana chegar aos quinze anos, fez questão de que a filha conquistasse costumes elegantes e frequentasse ambientes mais requintados. Ana parecia viver à parte deste sonho da mãe, pouco se interessando por festas e roupas. Sua alma estava contaminada pela tristeza do internato e ela preferia se comparar às meninas pobres e desgraçadas dos livros. Quanto mais sua mãe desejava vê-la em ambientes mais sofisticados, mais Ana parecia enveredar para uma vida filosoficamente socialista e desprendida. Helena era generosa para aquilo que a convinha. Mas se negava a alimentar os verdadeiros desejos da filha, acabando por deixá-la viver feito pobre, muitas vezes sem ter dinheiro nem mesmo para ir ao cinema.
Com o passar do tempo e da adolescência, Ana não devia absolutamente nada à sua mãe. Nada havia recebido e nada haveria de oferecer. Não realizou os sonhos de Helena, que queria a filha casada e compenetrada nos negócios familiares. Por isso não recebeu colaboração alguma na realização de seu sonho. Tornar-se escritora. Ambas se decepcionaram. Possivelmente por praga materna, Ana não consegue escrever. Pelo menos, nada que ela própria reconheça como bom. Desistiu. Coisa que trouxe uma certa amargura para Ana, uma velhice um tanto precoce. Era como se tivesse vivido a vida inteira em função de sua biografia e nem mesmo isso ela conseguisse transcrever. Tem, portanto, a vida de um artista sem sê-lo. E esta é a maior crueldade que tem de se lembrar. Sabe-se medíocre. Por um triz, poderia não ser, mas sabe-se medíocre.