Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 19 de 23

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Vergonha dos Pés

Capítulo 20

O dia começava a amanhecer. No rosto de Ana, despontavam, junto com a claridade lá fora, olheiras. Ela estava sentada numa poltrona de veludo puído, de cor vinho, e mesmo sendo uma mulher de porte grande, vestida com o pijama de Pedro, encolhida, de frio e cansaço, parecia uma menina. Uma pequena menina descalça. Sentadinha na grande poltrona antiga, os seus pés lhe pareciam proporcionais. Como se voltasse a ser uma garota de oito, dez anos, que tem os pés pequeninos e maltratados pelas peripécias infantis. Pezinhos que calçam sandálias de plástico. Aquelas que Ana tinha, quando criança: sandálias de plástico cor fumê, transparente, azul e Coca-Cola. Ana era a menina do prédio que mais tinha daquelas sandálias, sua mãe trazia dos Estados Unidos. Assim como foi a primeira menina dali a ter Barbie. Adorava brincar com as suas Barbies. Era com as bonecas que podia fingir-se grande, deixar de lado a infância que tanto odiava. Cresceu, não brinca mais com Barbies, não precisa mais da boneca para fazer-se grande. Agora, Ana já era grande. Adulta. Triste. Mas com os pés pequeninos, a lembrá-la, sempre, de que ainda não deixara de sofrer.

Diante dela, sentado num sofá, estava Pedro. Também parecia abatido. Olhava para Ana, com uma enorme vontade de beijá-la. Mesmo estando ela cansada, mesmo tentando se convencer de que isso era um absurdo: desejar uma mulher que acabou de flagrar o marido em situação sexual. A última coisa que essa mulher poderia querer era sexo. Naquele momento, para Ana, sexo representava tudo de mais nojento e podre. Pedro, com o seu bom-senso, se controlou. Pois, na verdade, não era sentado diante dela que queria estar. Era debaixo dela, ou em cima dela, ou em qualquer outra posição na qual pudesse tê-la. Estava completamente atraído por Ana, por sua cultura literária, sua queda para o romantismo dramático, seus olhos tristes e sua cor muito branca. Podia imaginá-la nua, com um corpo inadequado para os tempos atuais: grande, com os quadris proeminentes e uma cintura muito fina. Seios arredondados, com mamilos róseos, perfeitos para serem chupados. Pedro olhava Ana, vestida, e os livros que lera narravam-na nua.

Uma música tocava. Uma música erudita que Ana conhecia, mas não lembrava do compositor. Terminada a música, outra começou e esta, mais do que a primeira, lembrou-lhe algo, mas tão distante... Era uma valsa, bastante conhecida, do tipo “debutante”. Mas não era isso que Ana recordava, não havia debutado, apenas soprado quinze velas num bolo de padaria. Parecia com a trilha sonora de algum acontecimento passado, fechou os olhos, queria lembrar.

– Você está cansada? Quer dormir?

– Ainda não. Você quer?

– Não.

– Que música é essa?

– “Vozes da Primavera”, de Strauss. Quer que eu tire?

– Não.

– É um pouco ridícula, mas eu gosto.

– Por que ridícula?

– Sei lá. Talvez porque, na minha adolescência, eu tenha visto muita menina dançar essa música com o pai, no aniversário de quinze anos.

– Eu gosto. É leve.

– É. Da vontade de dançar.

– Valsa?

– Sim.

– Dança comigo.

– Eu não sei dançar valsa.

– Por favor...

Pedro se levantou e pediu a mão dela, à maneira antiga. Ana, assim como uma dama da corte, estendeu sua mão, consentindo a dança. E bailaram em meio a móveis apertados. Ana fechou os olhos e, como se estivesse num enorme salão, entregou-se levemente aos passos. Sua cabeça rodava, mas não porque seu corpo estava rodando, e sim porque estava num redemoinho de sensações etéreas. Meio alucinada, transportada para um outro tempo, sentindo um tipo de alegria não feliz. Uma alegria de debutante, de Cinderela. “Boa-noite, Cinderela.” Pronto, era isso. Ela, naquele instante, havia ganhado o sapatinho de cristal do programa infantil de Silvio Santos, a que assistia quando era menina. Ela era a Cinderela, que todo o auditório aplaudia.

A música estava terminando e Pedro não aguentava mais a enorme vontade de beijar aquela boca. Esses impulsos masculinos, que não medem hora nem lugar para aparecerem. Era físico, era “homem”, mas era como ele acreditava poder apaixoná-la. Segurou o rosto de Ana e buscou a sua boca. Ela, ainda Cinderela, aceitou o beijo. Mas acordou logo a seguir.

– Não!

– Deixa eu te amar.

“Faz de conta que sou o primeiro”, pensou Ana, descontrolada.

– Não! Não quero. Não me beije na boca. Não quero nada humano entrando em mim.

“Que frase estranha”, pensou Ana, percebendo que estava descontrolada.

– Você quer me ver nua?

– Quero.

– Você me obrigaria a isso?

– Não, de jeito nenhum. Eu nem iria te tocar, juro.

– Onde é o seu quarto?

Pedro segurou Ana pela mão e andou até lá. Era um quarto pequeno e escuro. Nele, havia uma escrivaninha, uma estante com muitos livros e um mezanino, onde ficava a cama de casal e uma tevê presa na parede. Era necessário subir numa escada estreita para chegar à cama. Ela pediu para que ele subisse e aguardasse um instante. O tempo de ela tirar a roupa e ir atrás. Pedro estava deitado e mal acreditou quando viu o corpo nu, que tanto havia desejado naquela noite.

– Tira a sua roupa, também.

Pedro tirou a camisa e a calça, meio desajeitado. Ficou só de cuecas.

– E agora?

– Agora me abrace. Mas, por favor, só faça isso.

Dormiram abraçados. Primeiro, Ana, depois, Pedro. Antes de adormecer, ele ficou sentindo a delícia que era a pele de sua acompanhante. Não precisou acariciá-la, apenas experimentou o contato estático da posição em que estavam. No dia seguinte, acordou com a voz de Ana. Ela dizia que precisava ir embora.

– Pra onde?

– Eu preciso voltar pra casa.

– Eu não acho que você deva.

– Jaime deve estar preocupado.

– E você se importa?

– Ele não é um monstro.

– Eu não disse isso.

– Mas acha que sim.

– OK. Mas, antes, vamos comer alguma coisa.

– Tá bom. Estou morta de fome.

O apartamento de Pedro era otimamente aparelhado, em se tratando apenas de um lugar onde passava curtas temporadas. Ele explicou que seu irmão havia morado lá, durante um tempo, e que tinha deixado tudo montado. Ana perguntou onde estava ele. Pedro disse que o irmão estava morto e esse era o motivo de sua prolongada estada no Brasil. Ana sentiu-se egoísta. Percebeu que, nas últimas horas, enquanto estava em companhia de Pedro, ela havia pensado e agido em torno de si, de seus problemas, de suas vontades. Pediu desculpas. Ele perguntou por quê. Ela respondeu o que sentia, que era de sua natureza agir sempre conforme suas vontades.

– Mas o que há de errado nisso?

– Muita coisa. Eu sou incapaz de realizar os desejos dos outros.

– Você não me negou nada.

– Lógico que sim. Você queria transar comigo, não queria?

– Sim, mas não por caridade.

– Não seria caridade alguma trepar com você.

Ele riu.

– Por que você está rindo?

– Você é a primeira mulher que eu escuto falando “trepar”.

– Não fica bem, não é?

– Em você, sim.

– Preciso ir embora.

– Fica.

– Não posso.

– Você está sendo egoísta.

– Seu chantagista.

– Só até amanhã.

– Tá bom, eu fico.

Acabaram de tomar o café da manhã. Ana decidiu que faria o almoço e, depois de investigar a despensa, notou que era preciso fazer algumas compras. Avisou a Pedro que sairia um instante, ele a fez prometer que não iria embora. Enquanto Ana foi a um supermercado, Jaime ligou para a casa de Pedro. Queria saber da mulher. Não foi hostil, nem demonstrou nenhuma vergonha. Apenas perguntou por ela. Pedro disse que estava tudo bem e que não poderia dizer nada mais além disso. Jaime quis saber aonde Ana havia ido. Pedro informou. E a mente, com seus meandros, fez com que nesse momento Jaime ficasse nervoso. Ana, ir ao supermercado, para outro homem? Ficou enciumado, mas se conteve. Pediu que ela ligasse para casa, assim que chegasse. Pedro pensou em se desculpar pelo soco. Não o fez. Concluiu que Jaime havia recebido o que merecia.

Assim que Ana chegou, foi direto para a cozinha, guardar as compras. Pedro estava no banho e deixou um bilhete preso na geladeira, com o recado de Jaime. Era a hora de ligar para casa. Exatamente como agir, ela ainda não sabia. Resolveu deixar para ver o que aconteceria, e se sentou no sofá para discar os números. O sinal de chamando fez com que tremesse. O que dizer para ele?

– Oi.

– Ana! Vem pra casa.

– Ainda não.

– Eu preciso te explicar...

– Você não tem nada pra me explicar.

– Por favor, Ana.

– Eu não vou voltar hoje, preciso de um tempo.

– Mas você nem conhece o Pedro!

– Eu não conheço ninguém nessa cidade.

– Eu te amo!

– Você não foi meu amigo.

Depois que desligou o aparelho, Ana não sentia absolutamente nada. Estava em estado de letargia emocional. Pensou no que Jaime tinha dito, que não era certo que ela ficasse na casa de Pedro, pois ela não o conhecia. Verdade, Ana nunca o tinha visto até a noite anterior, mas era ele a única pessoa, naquele instante, que poderia ampará-la. Achava tudo muito estranho, como se a festa, e todo o resto, tivesse acontecido muito tempo atrás. E, no entanto, os acontecimentos ainda estavam fervilhando por sobre a chapa. Foi até a janela e olhou para o dia lá fora. Havia acabado de chegar da rua, mas, dali, ela percebeu que fazia um dia estranho. Não era a primeira vez que ela tinha essa sensação. Muitos foram os dias em que Ana olhava e via tudo muito estranho. As pessoas num tom acima ou abaixo, as corriqueiras ações subitamente inadequadas, realmente esquisitas. Talvez fossem os seus olhos. Talvez existam, de fato, dias estranhos. Olhando pela janela, os sentimentos, ausentes por alguns minutos, retornaram pouco a pouco. Ana, pensando em controlá-los, foi para a cozinha.

Estava, agora, tão triste, que a dor lhe era insuportável. O que estava fazendo ali, afinal? Que tipo de impulso, esquizofrênico, fazia com que ela reagisse a essa dor cortando batatas? Não era hora de cortar batatas, mas foi a forma que sua cabeça encontrou para fingir que nada estava acontecendo. Sua vida era tão esquematizadamente fragmentada em deveres – deveres que delimitavam os seus sonhos e disfarçavam a vida porcaria que levava – que Ana se sentia como um cubano em frente ao mar, obrigado a somente olhar para a água, nunca para o horizonte. Era Jaime, para Ana, Fidel Castro. Dava-lhe meios, dominando-a. Contava com a colaboração dos horários ríspidos, que controlavam sua mulher. Com as batatas, que começava a cortar às onze da manhã, com as batatas no forno às onze e trinta, doze na boca, e no Tupperware às doze e quarenta e cinco. Todas as donas de casa são cubanas, presas aos seus deveres do lar. E o marido é o ditador, gentil ou não. Mas todos com poder – mesmo inconsciente – sobre as esposas. É assim, será assim ainda por muitas gerações, até que os gays comecem a reinar soberanos e a virar os maridos. Só então as mulheres poderão sair das cozinhas, ou parar de dar ordens à outra mulher uniformizada.

É fragmentando o cotidiano de uma pessoa que você a tem em mãos mais facilmente. Fragmentando o seu próprio cotidiano e participando suas ações agendadas a outrem que você se torna dominado. E isso, também, não tem solução. “A que horas você almoça?”, “Quantas vezes por semana você nada?”, “Quando eu te encontro em casa?”...

Ali, enquanto Ana cozinhava batatas para um outro homem, a dor deixava um rastro em sua cabeça, induzindo-a ao ódio. Largou de lado a faca, e nos seus olhos azuis começaram a se formar bacias de água. Em silêncio, as lágrimas derrubaram-se no rosto branco de Ana. Quando ela sentiu esta água, com o gosto do soro caseiro, em seus lábios, Ana deu o primeiro soluço. Depois disso, somente acalmou o pranto quando Pedro foi ao seu socorro, na cozinha. Ele abraçou seu corpo e deixou que ela depositasse todo o seu peso no dele. Esvaída de energia, sem forças para ficar em pé, Ana sentia-se morta. Era como se tivesse morrido e sua agonia, sem corpo, pairasse, de uma forma transcendental qualquer, no ar. E, sem controle algum, fosse flutuar para sempre naquela cozinha. Deve ser isso, aquele lugar que alguns espíritas acreditam ir, atrás das chamas das velas: agonias sem corpos. Atrás de um calor, mesmo não sendo ele humano.

Quando o corpo de Ana começou a pesar demais nos braços de Pedro, ele utilizou as suas também últimas energias para carregá-la até o sofá da sala.

– Eu não quero cozinhar!

– Não precisa.

Pedro não compreendeu o porquê daquela raiva. Ele não pediu para Ana fazer o almoço – jamais pediria. Preferia, até, que ela nada fizesse, só para poder contemplá-la melhor. E acalmou a mulher dos seus desejos, fazendo massagem em seu corpo. Nele todo. Ana fechou os olhos e, pela primeira vez, relaxou ao receber os toques de uma massagem. Sempre, ao contrário das pessoas em geral, ficava incomodada. Como se, ao descobrirem os nódulos de suas tensões, ela se revelasse tal qual verdadeiramente é: uma mulher nervosa e insatisfeita. Mas ali, no sofá de Pedro, entregue às suas mãos, aos seus toques, Ana relaxou. E quando os dedos ágeis daquele homem tocaram seus pequenos pés, ela dormiu.

Foram duas horas de um sono profundo. Seu corpo permaneceu na mesma posição durante esse tempo e Pedro conseguiu, enfim, observá-la. Ana vestia um blusão que ele havia emprestado e a mesma saia que usara na noite anterior. Sua perna esquerda estava quase toda à mostra, enquanto a direita era parcialmente escondida pela outra, magnanimamente revelada pelo corte da saia. A pele de Ana, branca, bastante branca, deixava à vista suas veias azuis. E Pedro permaneceu duas horas sentado diante daquele corpo, percorrendo cada veiazinha, como se fosse um mapa que o levaria a um lugar esplêndido e inexplorado. Queria seguir o caminho com a língua, mas o autocontrole, que vinha exercitando nas últimas horas, valeu-lhe mais uma vez como reprimenda. Não podia se aproveitar de Ana. Caso o fizesse, teria que assumir a possibilidade de perdê-la, pois a rapidez de suas ações iria fatalmente afugentá-la. Preferiu aguardar a chance de apaixonar. Porque apaixonar é uma ciência que deve seguir várias regras e uma série inesgotável de metodologias. Cada pessoa deve ser avaliada com minúcia, para só depois começar a investida de se fazer apaixonante para ela. Pedro era um homem sensato. Sabia que Ana não era uma menininha tola. Conhecia as mulheres, tinha feito várias conquistas, bem e malsucedidas. Desta vez, ele temia o fracasso. Mas não havia perdido as ilusões. Não era comum, em sua vida, encontrar uma mulher assim, de forma tão rica em acasos. Não podia deixar de estar excitado com tudo aquilo. E minutos antes de Ana acordar, Pedro notou – com um certo constrangimento – que estava com o pênis duro.

Assim que acordou, Ana se sentiu desconcertada com a presença de Pedro na frente dela. Não gosta de ser observada enquanto dorme. Acha covardia, não poder se defender do olhar intruso. Controlou o mau humor, focalizando a mente no desejo de comer algo.

– Podemos pedir pizza ou sair para comer, você que sabe.

– Não, você que sabe. Juro. Eu não conseguiria tomar nenhuma decisão, agora.

– Pizza, então. OK?

– Pizza!

Ana concordou com a pizza, como concordaria em comer cérebro de macaco. Tanto fazia qualquer coisa, naquele instante. Enquanto Pedro pedia a comida pelo telefone, Ana se lembrou de uma frase, que um dia havia escutado no rádio. Foi anotada com rapidez: “Não te dou a mínima, César, nem tento te agradar. Pouco me importa que sejas branco ou preto.” Ela esperava usar essa frase em alguma obra, em algum momento oportuno, que, quando bem utilizado, assina genialidades.

– Pronto, estarão aqui em meia hora.

– Não te dou a mínima, César, nem tento te agradar. Pouco me importa que sejas branco ou preto.

– O que é isso? Eu te magoei?

– Não! Ai, desculpa. Isso é Caio Valério Catulo. Uma citação que eu me lembrei. De um livro que eu li. Nem me lembro de qual... Essa frase foi dita oitenta e quatro anos antes de Cristo.

“Rádio Relógio informa: você sabia?”

– É uma boa frase.

– Vou dizer para Jaime. É mais ou menos a mesma coisa que: “Eu tô cagando e andando.” Ou “Foda-se, seu babaca!”.

– Uma vez, fiquei uma tarde inteira pensando no que de pior eu podia dizer para uma pessoa...

– Chegou a alguma conclusão?

– Cheguei. “O melhor que você pode fazer da sua vida é me dar uma boa notícia e morrer!”

– É maravilhoso!

– É terrível. Imagina: o cara vem, fala que você ganhou sozinho na Loto, uma puta grana, e depois morre. Só serviu para isso e mais nada.

– Eu também me dedico a esses pensamentos de inutilidade pública.

– Uma vez, um cara me irritou bastante e eu fiquei na hora com cara de idiota, espumando, mas sem saber o que falar.

– Nada pior do que ficar, depois, “eu devia ter dito isso”...

– Foi o que me aconteceu. Inclusive, várias vezes. Até que eu descobri a grande frase...

– Fala, fala!

Pedro se levantou da cadeira em que estava sentado, foi até Ana e mostrou os dedos da mão direita.

– “Está vendo esses cinco dedos? Pegue os seus, e enfie no cu!”

Ana riu com a liberdade de uma quase gargalhada.

– É muito bom! Eu tenho que anotar...

– Calma! Eu tenho um repertório.

– Quero caneta e papel, preciso anotar...

– Depois eu faço uma lista pra você.

– Me conta outra, então.

– “Enfia o dedo no cu e exploda!”

– Gente, você é o máximo! Essa é para caixas de banco mal-humoradas...

– Caixas de padaria! Existe povo mais grosseiro?

– Caixa de supermercado...

– Trocador de ônibus, funcionários do correio...

– Não, funcionário público no geral. Recentemente, quase fui presa por desacato, quando fui pagar o IPTU que estava atrasado.

– Como?

– É, tem uma lei que se você desrespeitar um funcionário público, vai preso por no mínimo dois anos, sei lá... Uma coisa horrorosa! Eles nos tratam daquela maneira, quando a gente manda eles enfiarem o dedo no cu e explodirem, somos obrigados a fazer trabalhos forçados e o cacete.

Pedro sorria diante de tanta genuinidade.

– Você está melhor?

– Acho que sim... Mas prefiro não falar.

– OK, “Seu cabeça de feto abortado”!

– Que maravilha! Isso é ótimo, ainda vou chamar um professor disso.

– Também tem: “seu vômito!” Essa eu tirei de um filme.

– Você também inventa palavras?

– Algumas. E você?

– Várias. Eu adoro, cheguei a propor pro Jaime da gente inventar um novo dialeto, mas ele ficou com medo.

– Eu topo! Sempre quis uma língua que só eu e outra pessoa dominássemos. Sem aquela obviedade da “língua do i”. “Vici si limbri dissi?”

– É claro. Quem não se lembra? E a do “pê”: “Vopô cepê êpê muipú topô bopô nipi topô.”

– Ibriguidi.

A campainha do telefone interrompeu um momento que Pedro estava considerando importantíssimo, dentro da sua estratégia de conquista. Caso realmente fosse, era mediunidade de Jaime ter ligado outra vez.

– É pra você.

– Alô!... Sei... Não! Não faça isso, vai ser pior para você... Eu não quero saber, Jaime!... Acho melhor você se acalmar... Eu não te devo explicação nenhuma... Tchau. Eu vou desligar na sua cara... Tchau... Por favor, Jaime... Tchau.

Ana bateu com o telefone na cara dele. Metaforicamente, então, Jaime deve ter ficado com outro olho roxo, além daquele com que Pedro o havia presenteado.

O clima novamente entrou em declínio. Os olhos de Ana, com a facilidade que lhes é comum de refletir seus sentimentos, ficaram escuros e tensos.

– Ele está pensando em vir aqui.

– Você acha que ele realmente virá?

– Não sei. Ele me pareceu descontrolado.

– Vamos sair.

– Pedro, acho melhor eu ir embora. Não acho legal ficar aqui, assim, dando trabalho. Tudo isso é muito ridículo.

– Você acha certo me deixar de fora? Ana, desculpe a intromissão, mas eu não posso deixar você, agora. Eu também faço parte dessa história. Não vou deixar que ele te ameace.

– Jaime não é um cara ruim.

– Você não deve defendê-lo e, sim, você.

Aquela frase de Pedro convenceu Ana. Ela estava prestes a se sentir a culpada daquilo tudo. Pois há, nela, uma culpa sem sentido. Uma “culpa kafkiana”, que embaralha os fatos de tal forma em sua mente que no fim, se disserem que Ana é a única culpada, ela aceita. É o mandado de prisão de O processo. Se ela de repente receber um mandado de prisão, é capaz de nem sequer perguntar o motivo e estender os braços às algemas.

– E o que vamos fazer? Fugir? De repente ele nem vem.

– E se vier? Eu não temo por mim.

– Nem eu. Ele não é agressivo...

– Tudo bem, então vamos esperar.

A campainha do interfone tocou. Ambos levaram um susto e ficaram aliviados ao serem informados que era a pizza. Ninguém queria mais comer nada. A comida foi paga e metida dentro do fomo.

– Para onde iríamos?

– Ana, para qualquer lugar.

– Isso é decididamente ridículo. Eu, sem nenhuma roupa, nem dinheiro, nem documentos...

– Esquece isso! Tem roupa o suficiente aqui.

– Sim, cuecas, ternos... Tem umas gravatas bacanas, também?

– Você deve ficar linda de gravatas bacanas...

– Então, para onde vamos?

– Para a casa da minha mãe.

– Não! Eu ia morrer de vergonha.

– Se ela estiver em casa, nós nem a veremos...

– Não! Eu prefiro, sei lá... Ir a um cinema.

– Sei. A quantas sessões nós assistiríamos?

O telefone tocou novamente, novamente era Jaime.

– Pra você.

– Alô!

– Ana, Jaime.

– Eu sei que é você.

– Desculpe, pelo amor de Deus...

– Jaime...

– Escuta! Eu tava bêbado e juro, eu nem...

– Nem percebeu?

– Não seja irônica, por favor. Eu estou acabado.

– Jaime, eu não quero te fazer mal. Você me fez mal, não inverta as coisas. Eu estou aqui, dando um tempo pra minha cabeça. Eu não quero te ver agora.

– Você está dormindo com ele?

– Se você ligou para me agredir, vou desligar de novo.

– Não! Escuta: eu confio em você. Mas cuidado com esse cara, ele tem a maior lábia...

– Não precisa se preocupar, nem a lábia de Clark Gable me atrairia nesse momento.

Pedro não pôde deixar de escutar o que Ana havia falado. Compreendeu que se tratava dele.

– Eu sei, Ana... Eu te amo muito.

– Se me ama, por favor, me dá um tempo.

– Até quando?

– Não sei, amanhã, talvez... Mas não me procure. Você me ouviu?

– Tá bom. Eu não vou até aí. Vou te esperar aqui, na nossa casa.

– Tchau.

– Tchau, meu amor.

– Ana, eu não pude deixar de escutar...

– É claro que não, ouvido não tem pálpebras...

Não, não tem. E seria de grande alívio para o Homem, caso tivesse. O Homem fecha os olhos, o nariz, a boca, mas pouco consegue vedar sua audição. O Homem seria mais feliz se escutasse menos.

– Não, não tem. Bom, sobre se eu vou ou não tentar te seduzir, tenha certeza de que é o que eu tenho feito nas últimas horas. Mas não é à toa, você é a mulher mais interessante que eu conheci e...

– Por favor... Tente me seduzir, se você quiser, mas não me explique nada. Eu estou cansada de vocês.

– Nós?

– Desculpa. Vamos comer a pizza?

A massa já estava fria e, o queijo, com a feia textura que adquire, depois de derretido e esfriado. Mesmo assim, Ana e Pedro comeram com fúria. A fome havia sido desprezada por ambos, em meio a tantos acontecimentos. Mas ela continuou ali, presente o tempo inteiro, apenas esperando o momento de ser acionada. E foi. Comeram uma pizza tamanho “maracanã”, coberta por ketchup. Para Ana, até esse simples molho lembrava Jaime. Quando um casal se separa, tudo acaba lembrando o outro. Ana pressentia o que viria a sentir, com o frasco de plástico vermelho do ketchup. A partir dali, e até hoje, o seu passado recente a remete para Jaime. Um pombo manco lembra Jaime. Uma barraquinha de pipoca lembra Jaime. É duro refazer as imagens das coisas, depois que se convive alguns anos ao lado de outra pessoa. Vendo as coisas como se elas fossem cenário para o seu amor viver, e não simplesmente frascos, pombos, pipocas.

Durante o lanche, tomaram cervejas. Foi imprescindível a presença do álcool naquelas horas. Para Pedro, como um estimulante, que o tornou mais inspirado. Para Ana, apenas uma maneira de gastar melhor o tempo. Não que estar com Pedro fosse entediante, mas caso não bebesse algo, sua primeira e única vontade seria dormir e dormir.

Terminaram de comer e Pedro propôs que fossem para o quarto, deitar um pouco e ainda tomar algumas cervejas. Ana gostou da ideia. Havia gostado principalmente da cama do rapaz. Cama em mezanino ainda estimula nela um certo desejo juvenil, de albergues ou qualquer coisa parecida. Desde pequena, sonhava com o dia que teria uma beliche em casa. São determinadas infantilidades que algumas pessoas conseguem manter com o passar dos anos. Desejos não realizados, como ter uma casa de boneca no jardim, um autorama gigantesco, e outras tantas coisas, que poucas pessoas tiveram quando crianças. Algumas, felizardas, conseguem – sem constrangimento, nem timidez – realizar esses sonhos depois de adultas.

Ana subiu com destreza a escada estreita que dava na cama. Depois ajudou Pedro a carregar as cervejas até lá. Era realmente aconchegante aquele “buraco” próximo ao teto. Cheio de travesseiros, lençóis e cobertores. Um exagero. A tevê também não poderia estar mais bem localizada, na opinião de Ana. Pedro ficou satisfeito por sua amada gostar do seu quarto. Contou que o quarto havia sido projetado por ele, quando ainda morava na cidade, antes de ir para Paris. Mas todo o resto era obra de Ricardo, seu irmão. Ana ficou curiosa, tanto a respeito da ida dele para Paris quanto da morte de Ricardo. Conteve-se. Mas Pedro estava disposto a contar para ela toda a sua vida, e contou.

Ainda antes de se formar em Medicina, Pedro entrou em crise existencial e profissional. Depois de tantos anos se dedicando ao curso, plantões e residência, começou a desconfiar que não queria ser médico.

– Mas, assim...? Depois de quase cinco anos?

– É, para você ver a gravidade da crise.

Certamente por ter entrado para a universidade muito cedo, e a exemplo do pai, quando chegou numa certa idade, ou maturidade, sentiu um desânimo por aquilo que tinha optado. Mas o que fazer? Largar tudo? Foi quando conheceu uma menina e se apaixonou completamente. Ela era exatamente tudo aquilo que os seus pais mais deploravam: revoltada, irônica e depressiva. Os ingredientes perfeitos para encantar o entediado Pedro. A moça era poetisa e, por causa disso, Pedro resolveu fazer Literatura. Os pais, diante de tal “calamidade”, prometeram um apartamento para o rapaz, caso ele não largasse a Medicina.

– Então, ela fez muito bem a você.

– Não muito, acredite.

Pedro se mudou para o apartamento, assim que o quarto ficou pronto. E era só isso: cama e uma geladeira. A garota, com o tempo, foi morar com ele. E daí foi só inferno: ela vigiava cada detalhe da sua vida, com um ciúme enlouquecedor. O curso de Letras era uma porcaria e os plantões tomavam-lhe quase todas as noites.

– Ela me acusava de mentiroso, que eu não ia para o hospital e, sim, me encontrar com outras mulheres. Coitada, ela era doente.

Até que um dia a garota cometeu uma loucura, para chamar a atenção de Pedro. Ele estava no hospital e ela tomou quarenta e três calmantes. Antes, pediu uma ambulância, para que a levassem até o hospital público em que Pedro trabalhava.

– Foi uma imagem terrível. Nunca vou esquecer: ela com os lábios roxos e a pele gelada. Pensei que estava morta. Mas não, ela sobreviveu depois de uma lavagem estomacal.

Depois disso, era claro que Pedro não podia mais ficar com ela. Aguentou outros dois meses, até que ela se recuperasse. Pagou um terapeuta e, com delicadeza, tentou convencê-la de que era preciso que se separassem. Escolheu um dia, levou a moça até um restaurante numa praia distante e conversou com ela. Mostrou com clareza seus pontos de vista, enquanto ela apenas ficava olhando para a sua cara. Aí, ela se levantou e andou até a praia. Depois, se agachou e começou a comer areia, compulsivamente. Só parou quando foi carregada dali, nos braços de Pedro.

Ana ficou pensando a respeito do que levaria uma mulher a se agachar e comer areia. E quase entendeu a sensação de dor e abandono, que ela deve ter sentido e tentado apagar com algo pior. Quantas e quantas vezes, Ana tinha pedido para ter infecção de ouvido, ou coisa semelhante, apenas para tapear outra dor maior. Comer areia deve ter sido a mesma solução, adaptada às preferências da namorada de Pedro.

Enfim, depois de ter que recorrer à família da menina, Pedro conseguiu que ela saísse de sua casa. Mas não de sua vida. Três meses depois, ela apareceu dizendo estar grávida, e realmente estava. Pedro, influenciado pela família, não acreditou que fosse dele. E não teve a menor culpa, na época, em levá-la a um médico e pagar um aborto. Hoje, Pedro não tem tanta certeza se agiu de forma certa. Mas, anos atrás, assim pareceu mais adequado.

Foi aí que ficou resolvido que ele iria fazer pós-graduação na França. Era melhor para todos que Pedro não visse mais a namorada. E ele aceitou. O irmão mais novo foi morar no apartamento, pois era mais conveniente levar a sua vida longe dos pais. Ricardo era gay. Decorou o apartamento e quatro anos depois morreu de Aids.