Vergonha dos Pés
Capítulo 10
No decorrer daquele mês, as coisas entre Jaime e Ana se ajustaram, apesar de ela demonstrar claramente estar sofrendo do “mal de outubro”. Principalmente no sentido místico, foi possível observar em Ana sutis alterações. Com os nervos estressados, ela concluiu que a humanidade precisava de mais bondade e boa vontade. Até aí, tudo bem. Mas Ana, comovida com um programa de tevê sobre um banco de sangue e a carência de doadores, resolveu doar o seu. E o fez, tomada de emoção e medo. Poucos dias depois, após folhear uma revista e ver uma campanha sobre doação de órgãos, ligou para a central de doações e ofereceu suas córneas, seu fígado, seu coração, seus rins, seus pulmões e tudo mais que pudesse vir a servir após sua morte. Durante aqueles dias compulsivos, falou bastante com Elisa ao telefone inclusive sobre suas “boas ações”.
– Você doou para saber se tem Aids.
– Que horror, não foi isso! Primeiro, porque eu sei que não tenho. Segundo, que não preciso desse miserê. Posso muito bem pagar um exame. E olha, só se eu for mesmo muito azarada para ter Aids.
– Minha filha, até quem nunca trepou tem medo. Basta ter ido à manicure ou feito uma tatuagem.
– Pior é pegar no dentista.
– Sei lá, eu não acredito mais que alguém saiba realmente tudo sobre esta doença.
– Elisa, estou brincando. Que pegar no dentista, o quê! Parece ignorante. É lógico que as coisas não são assim.
– Sei, mas você é virgem santa, e não tem chance alguma de ter o vírus?
– Puta que o pariu, Elisa. Eu ligo pra você, pra você botar essa pilha em mim?
– Não! Ana, eu, que sou eu, fiz o exame por causa da gravidez e não deu positivo. Vai dar em você, uma quase carmelita dos pés descalços?
– É, eu fiz uma boa coisa e não vou entrar em paranoia agora. Tenho um sangue saudável e é muito triste pensar que existem centenas de pessoas precisando dele, e não fazer nada a respeito. Por que então não doar?
– Porque vicia.
– Que é isso, Elisa? Quer dizer que existem junkies de bancos de sangue? Associações anônimas de ajuda, fazendas de recuperação...
– Eu li isso em algum lugar.
– Sei. Além de viciada em doar sangue, então eu também corro o risco de me viciar em doar rins, córneas...
– Você fez isso?
– O quê?
– Doou as coisas?
– O que dá para doar, sim.
– Na próxima encarnação, você vai nascer mula sem cabeça!
Elisa sempre teve um senso de humor bastante peculiar e genuíno. Costuma até dizer coisas bastante sensatas, misturadas a uma capacidade ingênua de criar metáforas. Faz Ana rir com suas histórias, desde o dia em que se conheceram, e sempre demonstrou um grande amor pela amiga. Sincero, respeitoso e divertido afeto. Elisa é mais velha que Ana cinco anos, conheceram-se quando Ana ainda era menina. E apesar de Elisa já ser uma moça – e das mais animadas –, brincava com Ana sempre que ela passava os fins de semana com a mãe. A família dela morava no mesmo prédio que Helena, e este era um bom motivo para que a tímida Ana se animasse em visitá-la. Era divertido brincar de boneca com uma adolescente. Elisa colocava pitadas de sexo e outras confusões do mundo adulto, principalmente nas brincadeiras de Susie e Beto. Susie era uma Barbie primitiva, com uma cabeçona redonda. E Beto era o antecessor dos bonecos Ken e do Falcon. Enquanto Falcon era a Barbie dos meninos e Ken, o namorado perfeito da Barbie, Beto era “uma bicha com cabelos de Roberto Carlos e pau em forma de xereca”. Esta singela definição foi dada por Elisa, quando uma das brincadeiras descambou para o tédio conjugal. Ana até hoje se lembra disso e ri. Da mesma forma, ainda sente medo de uma brincadeira que durou um dia inteiro, onde o tema era “Satanás, o rei das trevas e dos porões”. A criatividade de Elisa era infinita quando se tratava de brincadeiras esquisitas. Numas férias de julho, as duas ficaram quase uma semana brincando de “extra, extra”, que era uma história sobre dois moleques que vendiam jornais e desvendavam crimes. Um dos crimes era sobre a morte de Angela Ro Ro. Elas nem sabiam de quem se tratava a tal da Angela Ro Ro, era só um nome. Até hoje, quando Ana escuta o nome da cantora, recorda toda a trama deste capítulo de “extra, extra”. Nessa mesma época, a mãe de Elisa fez uma viagem para os Estados Unidos e trouxe para a filha uma Barbie vestida de caubói. Aquilo causou um tal rebuliço em Ana que a amiga acabou por dar a boneca de presente para ela. Assim é Elisa, generosa até não poder mais. Quando ela começou a ter relações sexuais, muitas vezes Ana escutou a amiga dizer que havia “dado” para fulaninho “por pena”. E assim, ainda muito jovem, já havia alcançado uma razoável fama de vadia. Isso não tinha a menor importância para a já púbere Ana. Ela adorava tudo que era de Elisa: sua casa, suas roupas, sua família – que, por sinal, era bastante confusa. A mãe tinha outros dois filhos do segundo casamento, mais jovens do que Ana. E o pai ainda tinha um filho, mais ou menos da idade dela. Era Vinícius. Durante sua infância, Ana pouco viu Vinícius. Só quando ficou adolescente passou a conviver com ele. Além de estudarem juntos, o irmão decidiu morar com Elisa, num pequeno apartamento que a mãe havia alugado para ela. Era uma festa constante, aquele lugar. Ana vivia enfurnada lá dentro, apesar das implicâncias de Helena, que já estava bem de vida, tinha mudado para um bairro melhor e tirado a filha do internato. A mãe reclamava da reputação daquele apartamento, que, em pouco tempo, atingira fronteiras quase estaduais. Ninguém da família de Elisa parecia se importar com isso. Alguns diziam que ela havia puxado à mãe. Para Ana, a mãe de Elisa era maravilhosa, tudo que ela queria que Helena fosse. Mas reconhecia que a própria mãe não era das mais repressoras – afinal, depois de Ana insistir quase uma semana inteira, Helena acabou por permitir que a filha pernoitasse na casa da amiga. Claro que ela não estava a par da existência de Vinícius.
Elisa é mesmo uma grande amiga. Mas do tipo que se enquadra perfeitamente na definição de porra-louca. Criadora de máximas inesquecíveis, como “Não tenho inveja de pau, eu tenho é ódio de menstruação” ou “ Eu conto mais com um bom garçom do que com uma boa trepada”. Um tipo mignon, não muito bonita, mas realmente charmosa. Dezenas de rapazes choravam por ela. Elisa conseguiu namorar os caras mais bonitos da cidade, nunca havia sofrido por amor. Recuperava-se do término de um namoro arrumando outro. Foi um susto quando Ana soube da gravidez, seguida pelo casamento. Aquilo não era coisa de Elisa. Inclusive, para evitar uma tolice como essa, ela já havia feito três abortos. “Pois quando eu gozo, o bebê já entra no terceiro mês.”
Tudo começou naquela festa em que Ana não foi por causa da estrada bloqueada. Elisa diminuiu as alças do “vestido da fornicação”, que havia arranjado para a amiga. Era vermelho fosco, com um grande decote e duas fendas, que deixavam as pernas de fora desde as coxas até os tornozelos. Não satisfeita, Elisa ainda tinha separado um par de botas pretas, que batiam acima dos joelhos. Ana somente vestiria tal figurino depois de ser exaustivamente encorajada pela amiga – mesmo assim, jamais com as botas. Elisa não teve qualquer receio. Vestiu a roupa e, apesar do exagero, ficou decididamente atraente. Durante a “incrível e imperdível festa”, só houve olhos, sussurros e convites para ela. Como mais tarde narrou para Ana: “As bichas e mocreias se juntaram num canto para me fulminar. Mas eu, protegida pelos meus santos, não levei um tombo.” Elisa, no entanto, estava decidida a não se entregar a nenhum homem, por mais maravilhoso que ele fosse. Estava menstruada e não queria “pagar o mico de esconder o o.b. debaixo da cama”. Mas o mesmo destino que se intrometeu naquele dia entre Ana e Jaime conduziu as atenções de Elisa a um determinado rapaz. Alguém que, se disputasse com outros quatro para dormir com ela, não ficaria em terceiro lugar. Como a hipótese do sexo era improvável – Elisa não estava mais na idade de repetir o velho truque de tomar uma cartela de pílulas com vinagre e suco de limão, para conter o fluxo menstrual –, ela teve que se contentar em buscar uma boa conversa. Afinal, para Elisa, “em primeiro lugar, o sexo; em segundo, a futilidade; e em terceiro, a cultura, para garantir a qualidade dos dois anteriores” .
O nome do sortudo rapaz que fez companhia a Elisa naquela noite é José Maurício. Sorte, aliás, discutível. Na opinião de Ana, por exemplo, ser casado com a amiga deve ser tarefa das mais difíceis.
Quase tão difícil quanto enfrentar aqueles dias de outubro que se seguiram ao sufocamento de Jaime. Enquanto os problemas de Ana eram de âmbito puramente emocional, pode-se dizer que até estavam sob controle. Mas outubro é outubro. Depois que fez a doação de sangue, Ana não se preocupou com o resultado dos exames – até que passou o prazo de dez dias para a chegada de sua carteirinha de doadora. Ela notou que as pessoas da sua faculdade que haviam doado sangue no mesmo dia – era uma campanha que percorria várias universidades – já estavam recebendo os exames na data prevista. Todo dia, por volta das duas da tarde, ficava esperando que o porteiro enfiasse a correspondência por baixo da porta de serviço. Esta expectativa silenciosa estava mexendo com os seus nervos, e não mais por motivos metafísicos. Ana passava a se preocupar com sua saúde física. Por mais que tentasse se acalmar, calculando as reais possibilidades de estar contaminada pelo HIV, começou a se sentir triste e fraca. “Afinal, por que todo mundo já recebeu, menos eu?” Comentou o assunto por alto com Jaime, que estava às voltas com mais preparativos para a formatura. Ele disse que Ana não devia se preocupar, pois certamente era um problema dos correios, ou uma greve no hospital. Ela conseguiu recuperar um pouco da calma perdida. Mas a ansiedade fez com que passasse a comer bem menos e começou a emagrecer rapidamente. Perdeu três quilos que, na verdade, não lhe faziam falta. Há algum tempo, Ana se queixava de um pequeno excesso de peso. Acontece que esta não foi uma época feliz para que o excesso fosse embora. Sempre que alguém comentava sobre seu repentino emagrecimento, ela imediatamente se imaginava “aidética”. E o pior: cada vez mais o seu aniversário se aproximava. Fazia tempo que Jaime tentava convencer Ana a fazer uma festa. Desta forma, poderiam finalmente apresentar o apartamento para os amigos. A questão é que Ana não se lembrava de ninguém que realmente quisesse convidar, além de Elisa. A amiga, porém, já estava com uma enorme barriga e possivelmente não iria poder comparecer. Só para ter com o que se distrair, Ana cedeu às investidas do marido e iniciou os preparativos para o aniversário. Realmente, nos dias que antecederam a data do seu aniversário, ela conseguiu tirar o HIV dos seus pensamentos, já naturalmente compulsivos.
Jaime deu uma boa soma de dinheiro para que ela comprasse bebidas, comidas e o que mais quisesse. A lista dos convidados foi feita com certa dificuldade, pelo simples motivo de Ana conhecer muito pouca gente. A solução encontrada foi convidar algumas pessoas que não eram exatamente amigas, mas com quem mantinha uma gentil convivência, misturadas com alguns colegas do “popular” Jaime. E implorar para que Elisa e o marido viessem.