Vergonha dos Pés
Capítulo 16
Não se pode dizer que Ana tenha gostado de Antoine. De maneira alguma, aliás, isso ameaçou acontecer. Houve momentos em que os dois conversaram amenidades e Ana até conseguiu controlar a sua antipatia. Mas continuava torcendo para que o dia de sua partida chegasse o mais rápido possível. O maravilhoso dia quando não ia mais precisar ter cuidado com as suas vestimentas noturnas, quase sempre maltrapilhas e indecentes. Também torcia para o sumiço das cuecas do rapaz – que eram lavadas por ele mesmo e estendidas no pequeno varal da área de serviço. Durante aquelas semanas, Ana levou as suas roupas e as de Jaime para uma lavanderia próxima do apartamento. Somente para não ter que compartilhar o mesmo varal com as peças íntimas de Antoine. Jaime chegou a questionar se essa atitude não era por demais grosseira. Ana alegou que “O idiota não percebe essas sutilezas”. Jaime: “Não usar um varal vazio, com apenas meia dúzia de cuecas, não é exatamente uma atitude sutil.” Ela prometeu que inventaria uma desculpa. Tentou. Comentou com o rapaz que o cheiro das roupas lavadas em lavadoras automáticas era delicioso, que estava viciada nesse hábito, mesmo sendo um pouco caro de manter. Antoine ficou olhando para ela como se tivesse comprovado uma teoria. Sua anfitriã, definitivamente, não gostava dele. Jaime não aguentou o clima e perguntou ao convidado se ele estava pensando em fazer uma festa de despedida, antes de partir. A situação ficou pior. Ana se compadeceu, foi até Antoine e beijou o seu rosto. “Nós, brasileiros, somos muito estranhos, não é?” O francês respondeu que não e o assunto morreu. Dias depois, talvez por vingança, Antoine participou ao casal que estava disposto a dar uma festa. E fez questão de usar o termo “bota-fora”. Jaime e Ana não trocaram olhares, pois a cumplicidade dos dois podia ser sentida no ar. Mas não havia nada a fazer sobre o assunto. Ana ainda tentou mostrar, “sutilmente”, que talvez fosse melhor fazer o “bota-fora” numa boate, ou num bar amplo. Nada feito. Antoine queria “Uma festinha no agradável apartamento que tão bem me acolheu”. O casal foi obrigado a consentir, devidamente apoiado numa conclusão de Jaime, que se baseava na hipótese de um dia precisarem de hospedagem na França. Ana sabia que isso era mais uma tolice da cabeça do marido. Afinal, jamais pensou em ir para a França, e muito menos para ficar na casa “desse pentelho”. Mas ela estava cansada de sempre ser “do contra”. Resolveu acreditar que talvez fosse divertido dar uma festa de despedida para um convidado malquisto. Imaginou até um convite: “Venha ao bota-fora deste bosta pentelhudo. Traga cachaça, pois o imbecil acha chique tomar bebidas nativas. E venha acompanhado de um integrante do Ilê Aiyê.” Jaime morreu de rir com essa ideia, mas fez com que Ana prometesse colaborar. Ela jurou que se comportaria. Até se ofereceu para organizar a festa. E organizou: calculou quanto precisaria de dinheiro para as despesas e apresentou as contas ao desconfiado Antoine. “O chéri ainda por cima é pão-duro, para piorar as coisas.” Mas acabou dando a quantia suficiente.
A despedida foi marcada para uma quinta-feira, pois Antoine viajaria sexta à tarde. Na lista, havia vinte e sete convidados. Mas depois que Jaime ouviu rumores sobre sua própria festa nos corredores da faculdade, avisou Ana que viriam no mínimo uns trinta e cinco. “O Antoine conheceu mais gente, passando só um mês aqui, do que eu durante todo esse tempo.” A constatação de Ana foi completada a seguir com o seguinte diagnóstico: “Essa mania de brasileiro de ficar chupando ovo de estrangeiro.”
Diante deste dado, e de outros, a despedida foi um verdadeiro festão. Pessoas chegavam a todo minuto, dentre elas alguns franceses. Ana estava atarefadíssima e prefiriu tomar apenas cerveja. Jaime, enquanto isso, nervoso de ver tanta gente no seu pequeno apartamento, começou a tomar compulsivamente várias doses de uísque. Ana percebeu que o marido estava bêbado quando ele começou a dançar ritmos caribenhos. Sabia que aquilo seria motivo de uma enorme ressaca moral no dia seguinte e o alertou sobre isso. Disse que ele estava dançando como um mameluco. Jaime, tomado por um espírito latino e embriagado, mandou-a à merda.
– Vai à merda, Ana. Me deixa em paz!
Ana olhou nos olhos vermelhos de Jaime e foi para o quarto. Lá, se observou no espelho. Viu que estava abatida e que seu batom quase havia desaparecido, deixando apenas um contorno vermelho-escuro nos lábios. Dava a ela uma aparência gulosa, como se tivesse mastigado e bebido em demasia. Uma boca manchada. Isso, os lábios de Ana estavam mal pintados, como uma boca manchada após um churrasco. Ela pegou um Kleenex e passou com força no rosto. Lembrou-se de Glenn Close, em Ligações perigosas, tirando a maquiagem, arrasada, depois de ter sido vaiada por centenas de pessoas. Muitas delas, que já haviam chupado as suas tetas velhas e caídas. Lembrou-se de outra passagem, que, ao ler o romance, inspirou-lhe um poema. “Foge-me o controle.” Seus olhos se encheram de lágrimas, queria tanto ler aquele poema de novo. Foi até o armário e tentou alcançar as portas de cima. Não conseguiu, mesmo subindo em uma prateleira. Queria ler aquele poema de qualquer maneira. Lembrava-se de um verso, apenas: “São como meias de seda dentro de uma incubadora de vidro.” Queria ler o poema. Queria escrever outros poemas. Queria ser escritora. E sentia-se feia com a roupa que vestiu. Sabia que tinha que se controlar e voltar para a sala, voltar para os convidados que não eram seus. “Mas foge-me o controle.” Olhou-se no espelho, retocou a maquiagem. Estava bela, mas não se sentia bela. Abriu novamente o armário, buscando outra roupa para vestir. Pegou um vestido, mas não era aquele que gostaria de usar. Tirou outro e outro, jogando tudo em cima da cama. Sentia-se feia e nenhum vestido do mundo poderia ajudá-la. Ela, entretanto, não sabia disso – pelo menos conscientemente. Caso soubesse, colocaria um jeans e uma camiseta. E, mesmo ainda se sentindo feia, estaria confortável em sua amiga Levi’s 501. Mas a cabeça não é fiel ao seu dono nos momentos mais delicados. Ana queria ficar bonita e queria que todos achassem que ela estava linda. Jogou na cama e no chão todas as suas roupas. Tinha que ser rápida, para que ninguém sentisse sua falta. Pelo menos, pensava assim. Esquecia que numa festa, principalmente como aquela, ninguém ia se preocupar com sua ausência. Só se fosse necessário buscar um pano de chão e catar os cacos de um copo quebrado. Ana não sabia disso. Não se lembrou do egoísmo humano, da vaidade que toma conta dos corpos junto com o álcool e outras fontes de poder, químicas ou não. Aquela não era uma festa de amigos. Era uma festa onde nada lhe dizia respeito. Mas Ana se esqueceu desse detalhe e ficou meia hora tirando e colocando roupas. Porque queria agradar.
Retornou à sala, vestindo uma saia preta, com uma fenda lateral, e uma blusa vermelha justa ao corpo. Nada mais inadequado para a insegurança que sentia. Jaime puxou Ana para dançar, assim que a viu. Ela foi obrigada a requebrar ao som de uma música cubana insuportável. Ana reagiu, com o corpo duro e sem ritmo. Jaime largou a esposa e se voltou para a francesa, amiga de Antoine, que por ali estava. A partir desta música, os dois dançaram o resto da noite. Enquanto Ana, enciumada, bebeu uísque.
Certa que de nada adiantaria um ataque de ciúmes, Ana decidiu se divertir. No mínimo, tentar se divertir. E mesmo aborrecida e insegura, jamais estaria desinteressante. É uma mulher atraente, afinal – apesar da preguiça que sente de demonstrar isso. Se Jaime estava se engraçando para a francesa, achou que não havia de ser ela a única comportada. Começou a dançar. Primeiro, tensa e desajeitada. Depois, com toda a sua força e em comunhão com a música. Dançou freneticamente, sambou como se tivesse sido criada numa roda de samba no morro da Mangueira. Chamou a atenção de todos os homens da festa para ela. Fez com que todos ficassem ao seu redor. E ora dançava com um, ora dançava com outro.
Em dado momento, alguém teve a ideia de partirem dali para uma boate de ritmos latinos. Ana, imbuída de raiva e teores alcoólicos, fez campanha para todo mundo ir. Jaime tentou apresentar alguns argumentos contra a proposta, mas sem muita convicção. Disse que Ana não teria como voltar para casa e que a boate ficava longe. Problemas logo solucionados, quando uma colega de turma de Jaime ofereceu sua casa para Ana dormir. “Ótimo! Eu vou.” Pegou dinheiro e um batom, deu para a tal colega colocar dentro da bolsa e se despediu do marido, crendo-se magnânima. Algumas pessoas resolveram ficar, dentre elas a francesa. Mas Ana, apesar de enciumada, achou que sua atitude era mais ousada do que qualquer coisa que pudesse vir a acontecer. E liderou o grupo que bateu em retirada.
Já no carro, Ana começou a se arrepender de estar ali. A boate era realmente longe e ela não tinha a menor intimidade com a menina que ofereceu hospedagem. Sentia-se um pouco tonta e pediu para que abrissem os vidros da frente. O vento, em seu rosto, recobrou o seu ânimo. E no decorrer da pequena viagem, ela seduziu a todos com sua sagacidade e animação. Ao volante, ia um rapaz que havia estudado com Jaime no primeiro ano, mas abandonara o curso para morar na França. Ana não o conhecia pessoalmente, até aquela noite. Sabia apenas que era um cara do tipo sortudo, por quem todas as mulheres se derretiam, e de quem os homens morriam de inveja. Tinha retornado ao Brasil de férias, mas um problema qualquer com a família o obrigou a ficar mais tempo do que o previsto. Agora, estavam ali, todos dentro do carro importado do “boa-pinta”. Ana, com seu coração pressentindo dores e uma sensualidade vingativa espumando nos lábios. Ainda no carro, ela notou que o rapaz estava encantado. De vez em vez, ele olhava para Ana pelo retrovisor, e ela retribuía o olhar, não se deixando interromper na história que contava. Algo sobre quando se converteu ao judaísmo. Que depois de tanto sofrer perseguições familiares e sociais concluiu que tudo aquilo se devia a uma “Sarah” que ela tinha “nos ombros”. Como se fosse um espírito de sofrimento, que Ana era forçada a carregar. O rapaz ficou interessado, não se sabe exatamente se pelo assunto ou se por Ana.
– Muito interessante. Você acredita que isso deva ser uma reencarnação?
– Provavelmente. Não é possível que eu passe por tantas provações à toa. Qualquer idiota com senso psicanalítico poderá dizer que, na verdade, eu sofro de mania de perseguição. Mas a questão não é essa...
– Bom, talvez eu seja um idiota psicanalítico... Mas qual é a questão?
– A questão é que eu sofro perseguições reais. Por exemplo... Bem... Ah, sim! Quando fui comprar uma tevê. Eu tinha o dinheiro, por incrível que pareça, eu tinha dinheiro para comprar uma tevê. E simplesmente a porra da loja não me vendeu o aparelho. Eu passei quase uma tarde inteira sendo interrogada. Perguntas absurdas, do tipo: “Como que você arranjou esse dinheiro?”, “O que você faz?”, “Quem lhe deu?”.
– Mas eles desconfiaram que o dinheiro era falso?
– É lógico que eu não tinha a grana na mão. Era cheque, eles não acreditaram no meu cheque!
– O que você fez?
– Rasguei o cheque, xinguei a mãe de todo mundo, disse que eu tinha dinheiro porque eu era puta e fodia muito bem!
Todos dentro do carro riram. Pedro, “o boa-pinta”, ainda mais interessado, continuou:
– E onde entra o judaísmo?
– Ao sair dali, fui tomar uma Coca-Cola, bem em frente à loja. Eu fiquei olhando para a vitrine, vendo a tevê que eu podia comprar e não podia. Não podia por quê? Porque eu sofro perseguições sem sentido lógico, que só podem ser resultado de uma Sarah que eu tenho em mim. Um Jacó, um Abraão, sei lá que nome é. Só sei que acabei me convertendo...
– Eu sou judeu. Judeu, mesmo.
– Ah, é? Então podemos nos casar.
Pedro olhou para Ana pelo retrovisor. Ela mais uma vez retribuiu o olhar. É possível que ele tenha enxergado a tristeza daqueles olhos e teve vontade de largar o volante, se virar para trás e abraçar aquele corpo volumoso, mas delicado. Controlou-se.
– Agora que eu me lembrei! Não podemos nos casar...
– Por quê? Porque você já é casada?
– Não, isso seria fácil de se resolver. É porque eu me desconverti durante a Copa do Mundo. No jogo final, na hora dos pênaltis, eu tinha que fazer alguma coisa, e jurei que voltaria a ser católica se os italianos perdessem o gol. E pimba! O Brasil venceu! Graças à minha promessa... É claro.
– Sim, é claro.
Chegaram à boate e o lugar era exatamente da maneira que Ana temia que fosse: “lotado de mauricinhos, com seus carros possantes e suas garotas estúpidas, cheias de celulite e reflexo na cabeça”. Ela já chegou reclamando – apoiada por Pedro, que concordaria com qualquer coisa para agradá-la. O resto do grupo não deu ouvidos aos dois, foi direto para a pista de dança. Pedro e Ana foram para o bar da boate e pediram dois uísques com água mineral gasosa.
– Copo longo e muito gelo.
– Pra mim também. Ana, você é muito interessante.
– Não, não sou. Eu sou chata, entediada e inútil. Inútil, descobri recentemente, antes eu achava que era escritora. E você? Faz o quê?
– Você não vai acreditar!
– Você é drag queen.
– Não! Sou médico.
– Que ótimo! Eu pensei que você também tivesse feito Letras.
– Eu fiz, um semestre. Tinha acabado de me formar em Medicina. Acho que eu estava viciado em estudar.
– Estranho.
– Letras não era o que eu imaginava. Eu achei que seria uma coisa voltada para os livros que interessam, para as grandes obras, e não aquela lenga-lenga...
– ... de “significado e significante”?
– E mais umas tantas outras chatices inacreditáveis...
– A poética de Aristóteles está incluída nessas chatices?
– Lógico!
– Não acredito! Enfim, Senhor! Eu também não suporto esse livro.
Conseguiram uma mesa, de onde dava para ver a pista de dança. Pediram mais dois drinques.
– Você está casada com Jaime há muito tempo?
– Um pouco.
– Posso me intrometer?
– Um pouco.
– Eu não acho que você ame ele.
– Você acabou de me conhecer e acha que eu não amo o meu marido? Muito interessante.
– E se ele te ama, ele é muito estúpido.
– Por me deixar ir a uma boate sozinha?
– Não, por te fazer chorar. Eu percebi que você chorou, quando você voltou para a sala com essa roupa.
– Eu não chorei por causa dele. Você não gostou da minha roupa?
– Eu gosto de você.
– Precipitado, hein?
– Por que você chorou naquela hora?
– Não quero dizer, porra!
– Desculpe.
– Desculpa.
– Quer dançar?
– Eu chorei porque queria escrever um poema que eu já escrevi. Queria voltar a ter a inspiração, ou o que seja, que um dia me fez escrever aqueles versos.
– Como é o poema?
– Eu não me lembro.
Enquanto Ana tomava um longo gole, tentando conter a vontade de chorar, Pedro passou a mão em seus cabelos. Assim que ela deixou o copo na mesa, ele tentou beijá-la. Ana desviou o rosto, tomou o que restava de bebida em seu copo e foi para a pista de dança. E dançou, dançou, dançou... Como somente ela sabe dançar.
Ana poderia ter beijado aquele homem. Poderia, por ser ele um homem bonito, inteligente, delicado e charmoso. Porém mais ainda, por naquele instante ela estar carente, até mesmo excitada. Ana não beijou Pedro porque ela tem dignidade. Não moral, aquela moral que diz que não se deve trair o marido. Que é proibido desejar outro corpo quando se é casado. Não, não foi a lei dos homens, nem a lei de Deus, nem lei alguma que impediu Ana de beijar os lábios que ela, até, desejou. Foi por ética. Um conceito que, estranhamente, ela aprendeu com o pai. Em algum dia de sua primeira infância, quando o ouviu dizer que um homem pode fazer tudo na vida: ser assaltante, assassino, traidor. Mas deve se ter ética. Não ter beijado Pedro foi o exercício, demonstrado por Ana, daquela lição paterna. Ela poderia ser infiel, mas a sua ética diz que nunca na frente de pessoas que conhecessem Jaime. Não por receio de que ele viesse a saber, mas por respeito a ele. Jamais iria ridicularizá-lo até aquele ponto – para que, mais tarde, apontassem para ele e dissessem: “Lá vai o corno!” Não, nunca fez isso e jamais irá fazer.
Pedro pediu mais dois drinques, aguardando o retorno de Ana à mesa. Após uma série de músicas, ela voltou a se sentar, agindo com total naturalidade a respeito da investida do rapaz. Como se nada houvesse acontecido. Agradeceu a bebida e voltou a conversar amenidades.
– Quando eu paro de dançar e fico olhando as pessoas na pista, fico até constrangida. Como dançam mal. É por isso que eu danço sem parar, só para não ver os outros dançarem. Eu danço mal?
– Nunca vi ninguém dançar tão bem.
– Ah, não brinca.
– Estou falando sério. Parece uma Isadora Duncan...
Ana achou um pouco ridícula essa comparação.
– Você tem um ritmo estranho...
– Você não dança?
– Preciso estar muito bêbado.
– E você não está? Eu estou.
– Não posso ficar bêbado, porque tenho que levar você pra casa.
– Não se preocupe, eu vou dormir na casa da... Cadê a Carla?
– Ela acabou de ir embora, carregada.
– Mas ela está com minhas chaves de casa! Como eu vou entrar? Jaime vai ficar puto da vida.
– Dorme lá em casa.
– De jeito nenhum!
– Não se preocupe, eu sou um bom rapaz. Não vou fazer nada com você.
– Eu tenho certeza disso, mas...
– Acho que não tem outro jeito.
– Onde você mora?
– Não muito longe de você.
– Então vamos fazer o seguinte: a gente passa lá em casa. Se a festa ainda estiver rolando, ou a porta estiver aberta, eu fico. Senão, eu durmo na sua casa.
– Tomara que esteja fechada!
– Se você estiver com intenções, é melhor eu tocar a campainha.
– Eu tenho intenções, sim. Eu adoraria conversar mais com você e que você acreditasse em mim. Eu sou uma boa pessoa. Facilmente, eu me apaixonaria por você, mas se não pode, quero ser seu amigo. OK?
– Vamos ver se você merece.
Acertaram a conta e foram embora. De volta ao carro, Ana percebeu que se sentia realmente à vontade com Pedro. Era como se voltasse a acreditar nela mesma. Diante dos olhos encantados dele, Ana de novo se achou genial. Falaram sobre Literatura. Ela contou que tinha uma ideia para um romance. Pedro confessou que adoraria ser escritor, mas tudo que conseguiu foi ser um bom leitor e mais nada. Depois falaram sobre doenças, riram bastante com algumas hipocondrias dela. Coisas que lia e imediatamente sentia todos os sintomas.
– Mas não pense, só porque sou médico, que eu também não tenha as minhas crises hipocondríacas.
– Por exemplo?
– Meningite. Eu tenho pavor dessa doença! Sempre que há um surto, pode ser na Espanha, eu deixo de ir a lugares fechados. Cinema, coisas assim...
– Estranho isso.
– Eu perdi um coleguinha, quando eu era pequeno. Aquilo ficou marcado, até hoje tenho pesadelos.
– Sabe do que é que eu morro de medo?
– Barata.
– Não, baleia.
– Baleia?!
– É, eu tenho horror.
– Mas, gente, quando você viu uma baleia?
– Nunca. Mas tremo, só em pensar.
– Isso é loucura!
– Não mais do que a sua fobia de meningite.
– Você reconhece de onde vem isso?
– Dizem que baleia simboliza a mãe.
– Isso é besteira.
– Também acho.
– Você leu Pinóquio?
– Sim. Por quê?
– Pronto! É daí, esse seu medo. Você ficou com a imagem do Pinóquio na barriga da baleia.
– Doutor, você é um gênio. Fale mais sobre mim.
– Deixa eu ver... Bom, você sofre da síndrome de inadequação...
– O que é isso?
– Você não se sente bem da maneira que vive. Tudo te insatisfaz, porque nada é adequado a você.
– Nossa! Você devia ser psicanalista, em vez de ortopedista!
Pedro parou o carro na frente do prédio de Ana e Jaime. Ana olhou para cima e viu a luz acesa.
– Acho que a nossa conversa acaba aqui. A luz está acesa.
– Eu espero, mesmo assim. Talvez ele tenha dormido e deixado ligada.
– A luz do quarto está acesa. Jaime, por mais bêbado que estivesse, jamais deixaria a luz acesa.
– Que pena.
– Quer subir e tomar um último drinque?
– Jaime não vai se importar?
– Não, ele certamente está acordado. E se eu bem o conheço, deve estar tomando cerveja, jogando conversa fora com Antoine.
– Então, tá. Qualquer coisa para adiar a despedida.
Azar. Azar é uma sacanagem de Deus. Porque o azar não está ligado à punição. Se estivesse, todos os políticos brasileiros tinham ficado aleijados ou coisa parecida. O azar é aquele detalhezinho que faz um enorme estrago. Naquela noite, Jaime recebeu uma saraivada de azares de Deus. Enumerá-los seria trabalhoso, mas alguns não podem deixar de serem ressaltados. Um: ele incentivou, com sua grosseria e desantenção, a ida de Ana à tal boate. Dois: não pensou na possibilidade de ela voltar para casa. Três: caiu em tentação. Quatro: deixou a luz acesa. Cinco: deixou a porta aberta. Seis: estava sendo chupado na sala. Pequenas sacanagens de Deus, que deixaram Jaime sem escapatória quando Ana abriu a porta.
Ana abriu a porta. A primeira imagem que teve foi Jaime sentado numa cadeira, com as calças abaixadas e um copo na mão. A outra mão segurava a cabeça da francesa, que estava de joelhos diante de sua região pélvica. Ela tinha em sua boca o pênis de Jaime. Ambos estavam de olhos fechados. Ambos se assustaram quando viram Ana e Pedro.
Jaime se levantou rapidamente, tentando fechar as calças. Antes de conseguir, Ana teve tempo de ver o pênis do marido. Ele ainda estava levemente ereto e úmido. A cara de Jaime estava pálida, parecendo o rosto de um cadáver recente. Ana mal conseguiu ver a cara da mulher, já que correu em direção a ela e derrubou-a com um soco. Jaime gritou com Ana, pedindo calma. Mas Ana estava tomada de ódio e subiu em cima da francesa, socando a cara dela com força e golpes masculinos. Pedro ficou parado, estático, assistindo à cena. Jaime tentou tirar a esposa de cima da outra, mas Ana demonstrava uma resistência incomum. Nesse momento, apareceu na sala, vindo do quarto, Antoine. Olhou o que acontecia e mandou Jaime fazer alguma coisa, pois a amiga estava se esvaindo em sangue. Jaime pediu novamente que Ana parasse. Ela continuou a esbofetear a moça. Jaime achou que a única solução era bater em Ana. E bateu. Foi quando Pedro avançou em Jaime, enfiando um soco no seu estômago e outro na cara. Jaime desmaiou.
– Ana! Para! Não adianta.
Ana escutou a voz de Pedro, saindo do estado de surdez raivosa em que se encontrava. Olhou para Jaime, caído no chão, depois olhou para a mulher. Ela estava com o rosto coberto de sangue, parecendo o Stallone em Rocky I. Antoine chorava feito uma moça, ao lado da amiga. Pedro pegou Ana pelo braço e a levou para fora. Não havia condições de ela continuar ali, ao menos naquela noite.