Vergonha dos Pés
Capítulo 18
Só quando chegou ao apartamento de Pedro, Ana conseguiu parar de chorar. Estava envergonhada e se sentia suja. De fato, suas mãos estavam com o sangue seco do rosto da mulher nocauteada. Ana percebeu as manchas no momento em que Pedro deu para ela um copo d’água com açúcar. O rapaz estava um pouco assustado e, sem que Ana reparasse, ele próprio tomou essa fórmula caseira de calmante.
– Você está melhor?
Não, ela não estava. Tinha vontade de morrer. Quanto mais se acalmava, pior enxergava as coisas. Melhor compreendia o que havia acontecido. Sentiu nojo de seu corpo, por causa do pênis de Jaime. Lembrou-se de que havia feito sexo com ele, horas antes da festa. Ficou com nojo de homem. Com uma raiva tão grande, que podia dar um tapa em Pedro.
– Posso tomar um banho?
Pedro arranjou uma toalha e um pijama, depois levou Ana até o banheiro. Ela ficou encantada com o tamanho da toalha. Engraçado como a mente arranja tempo para pensar tolices, mesmo diante de situações tão drásticas.
O banho trouxe a calma de volta para Ana, mas pouco fez pelo seu cansaço. Seu corpo estava em frangalhos, como se um pelotão de pernambucanos tivesse passado, dançando frevo, em cima dele. Mal se enxugou, olhou-se no espelho e ficou envergonhada por tudo aquilo. Por Pedro ter assistido “àquela palhaçada”. Precisava imediatamente falar com ele. Saiu do banheiro e foi até a sala, onde Pedro estava se servindo de um uísque.
– Eu não costumo beber tanto, mas...
– Não precisa explicar nada, eu é que devo pedir desculpas. Posso me servir?
– É claro.
– Aquilo tudo evaporou o álcool do meu corpo.
– O mesmo aconteceu comigo.
– Bom, como eu ia dizendo, desculpa.
– Você não me deve desculpas.
– Devo, sim. Eu te coloquei numa situação horrorosa. Estou com muita vergonha.
– Todo mundo já passou por coisas assim.
– Você já?
– Indiretamente.
– Me conta. Preciso acalmar minha vergonha.
– Uma vez, eu conheci uma menina, bastante nova. Na mesma noite, fiquei apaixonado. Mas ela era casada, e o marido não dava a menor atenção pra ela. Ficamos a noite inteira conversando e o marido nem olhava. Estava somente interessado em ficar seduzindo as outras mulheres do bar. E todos fomos ficando bêbados... A garota, tão linda, uns olhos fundos, parecia de outra época. Aí, ela não aguentou mais o desprezo do marido e sentou no meu colo. Apenas isso: sentou no meu colo.
– O que aconteceu?
– Na hora, nada. Mas, depois, quando eu estava em casa, ela bateu na minha porta, chorando. O cara tinha batido nela e deixado a garota na frente da minha casa, sem dinheiro, sem nada. Dizendo que, se ela queria dar pra mim, ele deixava.
– Triste, a história.
– Era triste, a garota.