Vergonha dos Pés
Capítulo 5
Graças ao acaso, Ana passou o final de semana com Jaime. Mas sabia que não seriam novamente as forças do destino que cuidariam de um novo encontro. Ao mesmo tempo, não acreditava que ele iria procurá-la, porque – por mais que Elisa tentasse convencê-la de que Jaime não havia percebido que ela era uma doida varrida – Ana se sentia insegura e desconfiada da despedida que tiveram na rodoviária. Teria que fazer alguma coisa. Não é do seu feitio querer algo e simplesmente cruzar os braços. Se bem que preferia mil vezes que ele lhe telefonasse. Seria muito mais fácil para ela, marcariam um encontro e ela se comportaria normalmente dessa vez. Estava decidida a ter Jaime e não parava de pensar nisso um só minuto.
Sabia que acabaria cruzando com sua colega que namorava Jaime, faziam uma cadeira juntas, seria inevitável. Por isto, preparou-se para agir com seriedade. Caso a menina engrossasse, tentaria contornar as coisas com calma e segurança. Mas na verdade estava tensa. Ana não suporta situações constrangedoras e receia sempre que sua agressividade a leve a tomar atitudes extremas nesses momentos. Chegado o dia da tal matéria, concluiu que o melhor era ligar para Jaime e indagar diretamente sobre tudo que acontecera e sobre como deveria agir diante da garota. Dava tempo, a aula era a última da manhã. Teve vergonha quando se viu indo até a casa dele para pegar o número e procurar o telefone na lista. Há situações na vida que sempre farão com que se sinta ainda uma adolescente. Assim se sentiu, enquanto se esgueirava atrás de uma moita para anotar o número. Era 13, achou por demais clichê esta situação, mas ficou feliz, pois este é o seu número de sorte. Não acredita nisto na maioria das vezes, somente quando tem que recorrer a apoios externos para agir com mais segurança. Voltou para casa, não encontrou a lista telefônica, começou a crer que tudo aquilo era decididamente uma palhaçada. Pensou em desistir e ir para a aula, como se nada houvesse acontecido. E se esforçou para acreditar que o melhor era esquecê-lo, aquilo já estava consumindo muito as suas atenções. Deveria retornar à razão e voltar a levar sua vida, sem esta adrenalina apaixonada. Deitou-se por alguns minutos para pensar se era essa, realmente, a melhor solução. Tentou falar com Elisa, mas ninguém atendia na sua casa. Achou que isto era um sinal para que desistisse. Deitou-se novamente. O telefone tocou. Pensou ser Elisa, que devia estar no banho quando ligara anteriormente. Sentiu esperanças. Correu para atender, deu uma topada com o dedinho mindinho do pé numa mesa. Atendeu o aparelho quase em prantos. Era Jaime.
Acabou não indo à aula naquele dia – mas não porque queria evitar aquela que considerava sua rival. Não foi, para se encontrar com Jaime. Marcaram o encontro num pequeno restaurante, para um almoço tardio. Ainda era cedo para que Ana se arrumasse, mas ela estava muito ansiosa. Sentia-se tão feliz, estava elétrica com a ideia de rever aquele homem. Colocou um disco, sentou-se no sofá e ficou imaginando como seria tudo. Queria ser genial neste encontro, se esforçaria para ser engraçada e inteligente. Não que precise deste esforço, mas, naquele dia, Ana queria ser a melhor de todas as mulheres do mundo. A mais fascinante, a mais talentosa. Diria para ele que era escritora, falaria de suas conclusões filosóficas sobre o homem e suas vestes. Daria um jeito de contar que cozinha muito bem. Não aguentou ficar sentada por muito tempo e foi tomar banho. Achou de bom-tom raspar-se. Apesar de pretender não fazer sexo com ele naquele dia. Concluiu que, já que haviam trepado com tanta liberdade naqueles dois dias, seria mais charmoso que se mantivesse mais polida naquele encontro. Não cogitou a possibilidade de Jaime estar querendo vê-la por gentileza, para explicar-se e dizer que era comprometido. Por mais educado que um homem seja, nunca marcaria um encontro com estas intenções tão castas, principalmente com uma mulher com quem havia passado momentos tão prazerosos. E, caso esta fosse sua intenção, Ana estava preparada para conquistá-lo, mesmo que só tivesse cinco minutos para fazê-lo. Não perderia mais ninguém nesta vida. Estava animada e convicta da vitória.
Toda esta convicção quase se esvaiu, depois de umas dez trocas de roupa. Queria parecer casual, mas ao mesmo tempo literária e sedutora. Por fim, optou por uma camiseta preta, que, apesar de simples e velha, lhe deixava com os seios bonitos, e uma saia longa, azul com florzinhas vermelhas. Estava bela, prendeu os cabelos num coque baixo e usou um pó facial para disfarçar as olheiras. Nada de batom. Ana tem a boca delicada e levemente carnuda, e ela sabe que o batom constrange beijos.
Quando ficou pronta, ainda faltavam quarenta e cinco minutos, e, mesmo o restaurante não sendo perto, ainda era muito cedo para sair de casa. Receou que a espera ociosa a abatesse. Pegou um livro de poemas e leu os seus prediletos, estava tão desatenta que em alguns poucos minutos já havia acabado a leitura. Foi até a geladeira e tomou uma latinha de cerveja, que jazia esquecida há algumas semanas. Num só gole, eliminou a bebida. Quando saiu de casa, estava levemente alta. Sentiu-se bem, especial. No meio do caminho, foi tomada por uma enorme vontade de fazer xixi. Agradeceu aos céus quando chegou ao restaurante e notou que Jaime ainda não havia chegado. Correu para o banheiro. Estava tão feliz! Faltavam cinco minutos para o horário marcado, Ana achou melhor dar uma volta e fingir-se atrasada. Andou até uma rua paralela à do restaurante, lá parou diante de uma loja de luminárias. Reteve-se num lustre especialmente kitsch. Achou absurdo que uma mente fosse capaz de conceber uma peça daquela em plena sala de estar. O lustre era de cristal, com umas dez camadas que pendiam em cascatas e terminavam numa última série de pequenos pingos de cor azul. Não eram exatamente as gotas de cristal que chamavam a atenção de Ana, era o suporte de metal que sustentava todos os balangandãs do lustre. Havia uma circunferência dourada com brocados grosseiros na borda – esta era a parte que prendia o dantesco objeto ao teto. Desta circunferência, vinha uma corrente grossa que acompanhava o fio, ambos envoltos por uma espécie de arranjo de flores, de metal dourado fosco. As pétalas eram retorcidas, o que dava um triste aspecto ao que inicialmente deveriam ser antúrios. E para arrematar a cafonice, o nome do lustre exposto na vitrine: “Flores de Foz do Iguaçu.” Ana não se conteve e gargalhou, tão natural quanto apenas os jovens podem ser. Sua gargalhada pareceu uma canção, daquelas que invadem o ambiente com tanta força, vinda de algum lugar distante, e contaminam a todos que a escutam. Dentro da loja, havia um senhor e uma moça – ambos olharam para Ana. O mais velho, com rancor da juventude e da liberdade dela, a mais nova, com o cansaço de quem fica o dia inteiro em pé dentro de uma loja que nada vende. Ana sentiu-se constrangida e mesquinha. Mesquinha com os seus conceitos cultos do que é belo, feio, cafona, moderno, antigo... Sentiu-se boçal. Olhou no relógio, já haviam se passado dez minutos. Retornou ao restaurante. Jaime estava sentado em uma mesa tomando um drinque.
– O que você está bebendo? – perguntou, tentando parecer natural, enquanto sentava.
– Gim-tônica. Como vai?
– Bem. Desculpe pelo atraso, eu estava vendo umas luminárias.
Como são difíceis os primeiros encontros de um casal apaixonado.
– Vai beber o quê?
– Gim-tônica. Não sou nada autêntica.
Dois drinques foram pedidos ao garçom. No terceiro copo, Ana estava de novo confiante da conquista. Como fazem os que nunca bebem, nestes momentos?
– Não entendo as pessoas que não bebem. Inclusive, não confio nelas. Acho desagradável tê-las por perto numa festa. Sempre olham tudo, lembram das besteiras que fazemos. Um horror! Por que não ficam em casa, assistindo a um videocassete?
– Você é estranha.
– Eu? OK, talvez um pouquinho só. Mas por que você me diz isso?
– A primeira vez que vi você, te achei tão séria. Você estava sentada, sozinha, tomando vinho branco. Isso me parece um tanto ou quanto careta. Pra mim, quem toma vinho branco numa festa não bebe. Depois você tirou a roupa e tomou banho seminua na frente de dezenas de pessoas, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
– Eu achei normal.
– Não para quem estava tomando um cálice de vinho branco.
– A questão é que naquela noite não havia por que eu tomar um porre. Encher a cara sozinha, na véspera do ano-novo, é uma idiotice.
– Fiquei chateado de você ter ido embora.
– Mesmo?
Ana começava a ficar tímida e isto não é muito instigante para o seu raciocínio.
– Sim. Fiquei muito impressionado com você.
Duas pessoas se conquistando. A ninguém mais interessa aquele momento, somente para eles há um valor especial. O mundo, com suas diferenças mais profundas, parece ser o mesmo, quando duas pessoas tentam impressionar uma à outra. A cultura, o dinheiro, a religião: nada resta além da pieguice natural da paixão. Todas as pessoas apaixonadas são tão cafonas quanto o lustre “Flores de Foz do Iguaçu”.
– Eu pensei que você fosse namorado da...
– Vocês estudam juntas, não é?
– Numa matéria.
– Ela não tem mais nada a ver, nunca teve.
– Então vamos falar de outras coisas.
Ana se aproximou de Jaime e beijou-lhe a boca. Não havia por que se controlar, como tinha desejado antes. Estava tão excitada, não queria mais ouvir nada, dizer nada, apenas beijar e beijar e beijar. Poderia ficar uma hora beijando, feito uma adolescente. Queria se levantar, beijar de pé, sentir o pênis rijo daquele homem. Era como se tivesse quinze anos e desse o seu primeiro “amasso”. O pênis, duro dentro da calça jeans, era o mesmo de anos atrás. Naquele instante, sentia-se poderosa. O pau de Jaime era o prêmio merecido por ter seios, nádegas, vagina e, por isso, menstruar, usar sutiã e lutar contra a força da gravidade que tudo impulsiona para baixo, principalmente as bundas femininas. Era o troféu, por todas as centenas de anos sendo discriminada, pelo salário menor que sempre receberia, por ter que tomar pílula ou ter um ser em transformação durante nove meses dentro da barriga. Esse pau era a gratificação que meteria entre as pernas, colocaria na boca, comandaria o seu tamanho. O prêmio por ser inferior aos homens – não mentalmente, mas por deformação natural do Homo sapiens, que a fez mais frágil, em desvantagem física, como todas as mulheres.
– Garçom! Mais dois.
– Você tem certeza de que aguenta mais um? – perguntou Jaime, ainda estranhando a súbita retirada de Ana. Da mesma forma que ela quis seus lábios, de repente cansou-se deles.
– O que você acha? Que vou desmaiar? Pois saiba que eu sou descendente de piratas. Tenho o fígado de um marujo.
– OK.
– Espero que você não seja daqueles que não suportam uma mulher com resistência masculina.
– Espero que você não seja feminista.
– Eu? Jamais. Nunca queimei sutiã, sou totalmente a favor de ligas, meia taça, meia arrastão. Penhoar, baby-doll...
– É o que vocês sempre dizem.
– Não acredita em mim? Tenho horror de cheiro de lingerie queimada. Imagina se eu iria colocar fogo nas minhas peças francesas. Sabe de uma coisa, sou totalmente a favor dos homens pagarem as contas, carregarem as malas, trocarem os pneus...
– E das mulheres lavarem as louças, cuidarem das crianças...
– Alto lá! Eu não disse isso! Tsk, inclusive nem me lembro do que disse. O que eu disse?
– Que quer sair daqui e ir para um lugar mais sossegado.
– Nossa! Como você é cafajeste!
– Não, desculpe, você entendeu mal.
– Só estou brincando. Acho que estou meio alta. Que bom!
– Quer ir embora?
– Não. Sabe qual é o meu signo?
– Não.
– Não consegue imaginar? Tente!
– Não entendo nada de astrologia.
– Nem eu, mas tente. Todo mundo “saca” os astros. Vamos brincar que sabemos.
– Bom, acho que você é de gêmeos.
– Errou.
– OK. Você é libra com ascendente em leão e lua em peixes.
– Nossa, você é um gênio!
– Acertei?
– O ascendente.
– Sou um gênio por isso?
– Não, por tudo.
E beijou Jaime novamente. Desta vez, ele conseguiu conter um pouco a empolgação dela, para mandar fechar a conta. Ana estava decididamente bêbada. Quando o garçom trouxe o troco, pediu a ele um cigarro e fumou-o inteiro. Esta é a ação mais denunciante do estado etílico de Ana. Toda vez que se embriaga, fuma um cigarro. Elisa acha que é a pombagira Maria Mulambo da amiga que se pronuncia. Ana não acha nada, sempre que faz isso prefere se esquecer.
Já era noite e os dois ainda não haviam comido. Ana estava animada e propôs que fossem até uma praça próxima à universidade, mas antes teriam que comprar cervejas em lata. Queria encher a cara. Disse isso ao encantado Jaime, que acolheu a ideia com ardor. Aquela mulher, grande e forte, trouxe para ele uma agradável sensação de descanso. Pretendia se comportar como um cavalheiro e sabia que era o que Ana desejava, mas notava nela uma masculinidade singular. Algo que o deixava tranquilo para agir naturalmente. Como se estivesse com um amigo. As outras mulheres sempre tinham um “quê” de defesa do meio ambiente, defesa do aborto, defesa da bandeira nacional. Nunca sabia exatamente em que momento elas começariam a falar sobre as suas opiniões irredutíveis a respeito do socialismo francês ou da mística dos druidas. Com a maioria esmagadora das mulheres, Jaime precisava ponderar, medir palavras. Jaime as adorava, era um convicto apreciador das fêmeas. Mas nunca havia se sentido tão à vontade ao lado delas, como se sentia com Ana.
Compraram quatro latinhas bem geladas de cerveja. A temperatura havia caído e poderiam tomá-las sem pressa, pois não esquentariam tão cedo. Na praça, havia os usuais frequentadores: humildes namorados, um pequeno grupo de adolescentes e um ou dois mendigos estatelados nos bancos.
Ana gosta de praças, desde quando morava na sua cidade e ia com frequência até uma pracinha em frente ao velho cinema. Lá, escutou uma bela declaração de amor. E, na hora, Ana não notou a beleza das vulgares palavras do rapaz. Ele disse rápido e baixo: “Eu sou apaixonado por você.” Uma moto passava e Ana olhou para ela. Havia adquirido este hábito por causa do irmão de Elisa, que tinha uma barulhenta motocicleta. Durante anos, Ana pensou no moço sincero e decididamente apaixonado, que sussurrou alguma coisa no seu ouvido enquanto uma moto passava. “Por que não o amei?” Esta é uma pergunta tão sem resposta quanto “Por que não sou Greta Garbo?”.
– Você me acha parecida com a Greta Garbo?
– Não. Não acho.
– Nem um pouquinho?
– Deixa eu ver. Levante um pouco a cabeça.
– Olha, assim com as sobrancelhas arqueadas.
– É, talvez um pouquinho, o nariz.
– Por que eu não sou a Greta Garbo? Acho uma grande merda não ser ela.
– Você é muito mais bonita. E bem menos chata. Não gosto daquela mulher, muito cheia de empostações.
– Leave me alone!
– Nossa, ficou igualzinha. Só falta encapar os dentes. Você sabia que os dentes dela eram falsos? Não exatamente dentadura, mas algo similar.
– E daí, dane-se. É como se lembrar da plástica na testa de Rita Hayworth. Qual mulher não faria uma cirurgiazinha pra mudar um defeito qualquer? Mesmo que ele seja imperceptível. Inclusive os homens, duvido que, podendo, você não mudava algo.
– O quê? Você acha que preciso de uma plástica?
– Não. Eu não disse isso.
– Agora fala!
– Juro que não reparei em nada! Mas e eu? O que você acha de uma levantadinha aqui nos olhos? São caídos, sei lá...
– De jeito nenhum!
– Óbvio que não! É o que tenho de mais parecido com a Greta Garbo.
Levantou-se e, num gole grande e afetado, terminou sua cerveja.
– Leave me alone!
– Então tá. Adeus.
Jaime ameaçou ir embora. E foi andando para o outro lado da praça. Ana nada fez, sentando-se calmamente no banco e abrindo mais uma lata de cerveja. Jaime diminuiu os passos, percebendo que Ana não havia ido atrás dele. Parou e virou-se para se certificar. Ela estava sentada, plácida, com a latinha dourada na mão. Se Jaime naquele instante olhasse fixamente para aquela mulher, veria que, um dia, ela o faria sofrer. Da mesma maneira como fez com o jovem da praça da sua cidade. Mas ninguém congela um instante na memória tempo suficiente para compreendê-lo de fato. E o fato é que, brincando, Ana avisou a Jaime que não pretendia se cansar por mais nenhum amor. Seus esforços nunca seriam grandes em função de nenhum sentimento, pois se acostumara a esquecer aquilo que amava, caso fosse muito custoso se lembrar.
Ele voltou ao banco e tentou agir naturalmente ao desprezo sofrido. Por seu espírito pacífico, Ana o presenteou pegando em seu pênis. Esta imoral liberdade levou Jaime às alturas. Estava apaixonado.
No dia seguinte, Ana estava com uma enorme ressaca, mas nada que comprometesse a feliz sensação de estar enamorada. Pois mesmo ela sendo um antídoto contra a pieguice, é difícil não se deixar empolgar pelo começo de um namoro. O amor deveria ser somente o início. Haveria um alarme interno que lembrasse: acabou. Antes de virar rotina. Antes do tédio, este tumor moderno. Bem antes de se tornar uma areia movediça que deixa a todos com apenas o nariz de fora. “O reverso inevitável da paixão.” Fim. The end. Finito. Ou uma campainha aguda no cérebro, que acordasse da letargia irracional que a maioria dos amantes adquire com o passar do tempo. Tudo, porque o Homem deseja a eternidade. Ele não tem fé suficiente para acreditar em vida após a morte, por isso quer durabilidade. Prefere se agarrar ao eterno em vida. E, para a grande e extensa maioria, a eternidade não virá em forma de obra-prima. Por isso, o casamento. Por isso, centenas de leis, promessas, amarras, justificativas. Que levam os amantes para um só lugar, o umbral dos corações, o nada. Toda pessoa que amou sabe o que é isso, e suspira profundamente, tentando expelir este vazio pela boca. Mas já tem a alma como uma blusa de seda furada por um broche. Não há nada o que se fazer a respeito. Nada. Pois o vazio está tão presente quanto o oxigênio que os pulmões bombeiam. É o estado terminal alcançado pela desvalorização de um grande amor. Quando está morto feito um boneco suspenso por fios de náilon. E é deixado assim, com o cadáver à mostra, para que todos vejam. Permitindo e aguardando o final mais triste, quando a carniça tomba depois de ser mordida por centenas de urubus. A metáfora poderá parecer por demais exagerada, mas que seja. É essa a correta descrição de um amor carregado pela comodidade. E para ratificar a feiura deste costume tão humano, pode-se comparar o fim do amor com uma feira que começa cheia de flores e frutas perfumadas e termina com lama de restos de peixe a feder.
Mas, por quê? Por que não ensinam às pessoas, desde bem pequenas, que elas são indivíduos preciosos? Que devem amar não por carência, acreditando que desta forma a solidão de suas existências cessará. Mas amar com o coração em paz, com a ideia de que nem a pessoa mais íntima pode compartilhar a sua dor. A dor de não ser hermafrodita, de não ter com quem partilhar as suas entranhas.
O Homem deve cultivar a si mesmo com amor e cuidado. Acreditar-se eterno. Ser para si próprio eterno, afinal é certo que você será aquele quem mais tempo lhe fará companhia. E deixar o amor livre desta obrigação. Deve o Homem acreditar na durabilidade do amor, mas nunca forçá-lo a isso.
Era o desejo de “para sempre” que excitou as mentes de Ana e Jaime durante aqueles dias. Como todas as mulheres, com algumas exceções, é claro – será a exceção o senso de humor de Deus? –, Ana desejava encontrar alguém para viver, alguém que cuidasse dela e a fizesse descansar. Entrar de férias.
Na época em que começou a namorar Jaime, Ana ainda sustentava o sonho de ser escritora. Acreditava que, com determinação, acabaria por escrever bem. Não genialmente – nem há nos tempos atuais espaço para um gênio –, mas com suficiente eficiência para transcrever o que pensa. E, caso ela conseguisse, certamente escreveria coisas bastante interessantes. A cabeça de Ana é invadida compulsivamente por diversos pensamentos. Foi premiada com uma enorme capacidade de inventar histórias e ela tem prazer em se embrenhar na intimidade dos personagens. Sabe que qualquer pessoa poderia inspirar um livro – não há uma melhor ou pior história. Pode-se escrever sobre Lady Di com a mesma qualidade que sobre o Zé das Couves. Basta ser verdadeiro. A genuinidade – não a genialidade – é a condição para se fazer qualquer coisa que preste. E é o que falta às pessoas neste fim de século, onde, pela ausência de talento ou estímulo, todas resolveram ser artistas. Ana sabe disso, sabe que tem que ser honesta e única. Reconhece que esta é uma época em que a responsabilidade com o genial não mais existe, facilitando aqueles de boa-fé a cumprirem o seu papel.
Desde pequena se dizia escritora. Sabe-se lá de onde tirou esta ideia, mas antes mesmo de aprender a escrever, quando perguntavam a ela sobre os planos do futuro, Ana respondia: poetisa. Com a chegada da puberdade, notou que falar poetisa era cafona e diminuía a grandeza da ação. Passou a se dizer poeta. E escreveu belos poemas até o fim da adolescência. Versos que jorravam toda a sua tristeza. Gastou grande parte destes anos falando em morte, Caronte, Inferno e derivados. São indiscutivelmente bons, estes poemas. Mas nada que qualquer adolescente na situação adequada não pudesse escrever. Depois que amadureceu e que decidiu não mais se matar, foi-se embora a inspiração. Deixava, então, de ser uma sofredora diletante para tornar-se uma adulta.
Sendo boa para a arte do ócio, aproveitando com sabedoria o hábito de não fazer nada, Ana sempre gostou de ficar horas deitada, pensando. Este exercício resultou em vários cadernos com anotações. Textos sobre assuntos diversos, que em algum momento deveriam se transformar em livros de ensaios, partes de romances ou qualquer outra obra, enfim, findada. Mas sempre havia um desvio daquilo que pensava para aquilo que acabava indo para o papel. Ela domina com primor a língua portuguesa, conhece suficientemente bem os estilos literários, mas não consegue ser tão boa na escrita quanto o é nas ideias. Caso sua mente pudesse ser transcrita num papel sem qualquer interferência, seria uma escritora. Mas isso não acontece e, assim, Ana acabou por desistir de seu sonho. Talvez um dia ela entenda que há nela um talento que talvez nunca será compartilhado, mas que não deixa de ser arte. Ana escreve livros na mente, que somente ela pode ler.
Quando conheceu Jaime, ela ainda aguardava o dia em que uma frase perfeita a conduziria ao término de uma grande obra. Acreditava seguir os passos de seu escritor moderno preferido, Ernest Hemingway, que narra, no livro Paris é uma festa, o seu método de escrita durante a década de 1920. Para ele, a grande dificuldade era justamente o começo: deveria ser decisivo. Para Ana, seguir o mestre já seria ao menos um início, até descobrir suas próprias regras. Outro ensinamento é o momento de parar de escrever – isto deve ocorrer somente quando o escritor sabe exatamente o que irá se passar depois dali. Pode então fechar sua máquina até o dia seguinte, com a certeza de que retomará o fio da meada. Por fim, para Hemingway, era fundamental não levar o trabalho para casa. Ou seja, não tornar o livro o centro de suas atenções. Com estes conselhos, mais os livros que sempre consumira vorazmente, e umas tantas ideias originais, estava pronta para a criação. Mas não bastou tudo isso para a consumação da grande obra. É mais ou menos como assistir a um jogo de tênis a vida inteira, compreender cada jogada, mas, quando se pega na raquete, percebe-se que não é assim tão fácil. E que grande será a sorte de acertar uma vez sequer na bolinha.
A paixão por Jaime incentivou Ana a mais uma vez idealizar um romance. Haveria de ser um bestseller – queria poder se realizar comercialmente para, depois, ter a liberdade de criações menos adequadas aos meios editoriais. Passou a se dedicar integralmente à idealização do livro. Durante as aulas, simplesmente se ausentava mentalmente de tudo. Era capaz de sentar na primeira fila, olhar fixamente para o professor e conduzir seus pensamentos às tramas dos personagens. Vivia tão intensamente a história que em alguns momentos se emocionava e, caso estivesse em casa, chegava a chorar. Decerto este exercício sempre era um tanto perigoso, apesar de ter feito isso durante anos e anos. Ainda corria o risco de acabar se confundindo com essas emoções mentirosas. Ana é uma mulher desconfiada, odeia se sentir enganada. Ao tratar de sentimentos dramáticos, como a traição e o abandono, acabava por se transportar para estes acontecimentos. Não de forma direta e esquizofrênica, mas, ao lidar com essas dores, sofria também, ficando deprimida e agressiva com Jaime.
O nome do livro já estava decidido: Traição das sombras. A história era sobre uma mulher chamada Lívia, de trinta e quatro anos, casada com um famoso arquiteto, um ano mais velho que ela. Ambos eram cultos, belos e divertidos. Moravam numa casa desenhada por ele, em frente à praia. O nome do marido era Jonas e, apesar de ser ainda um homem novo, já havia alcançado status profissional. Era o principal arquiteto de uma famosa firma. Seu escritório ficava a quarenta minutos de casa, distância que o obrigava a dormir num hotel quando o trabalho era muito. Jonas tinha casos esporádicos com jovens mulheres. Jamais havia se envolvido emocionalmente com alguma e Lívia vivia sem ser atormentada por esta natureza infiel. Ela era formada em Belas-Artes e mantinha um pequeno ateliê de pintura, construído no mesmo terreno da casa. Ocasionalmente, fazia exposições e já tinha um certo nome no meio artístico. Mas não era uma mulher vaidosa pelas coisas fúteis, orgulhava-se de viver há dez anos com Jonas uma vida agradável e amorosa. Queriam ter filhos, mas Lívia não havia conseguido engravidar. Durante um tempo, isto foi um sofrimento para ela. Depois, Jonas convenceu a esposa de que o amor deles era grande o bastante para sobreviverem àquilo, e esqueceram.
Um dia, Lívia recebeu a ligação de uma mulher que dizia ser amante de seu marido. Ela tentou se manter calma e desligou o telefone. Só poderia ser uma brincadeira de mau gosto de alguma estagiária da firma. Mas era bem pior do que imaginava. De fato, tratava-se de uma jovem recém-contratada na empresa, mas não se tratava de brincadeira. A moça tinha apenas vinte anos, o caso com Jonas já durava três meses e o pior: estava grávida. Lívia tomou conhecimento de tudo através de uma carta, enviada a seguir pela moça. Dentro do envelope ainda havia fotografias do casal – aquela que mais aborreceu Lívia foi a que mostrava Jonas segurando uma caixa, com um colar de pérolas. Não exatamente pelo valor da peça, mas pelo valor que tem uma mulher para o homem que a presenteia com pérolas. A amante, de nome Alexandra, aproveitara que Jonas estava num congresso em outro estado para pôr tudo às claras com a esposa. Lívia passou o dia inteiro chorando, vendo aquilo que mais amava desmoronar e se sentindo não só traída, mas assassinada. Pois Jonas era tudo para sua vida e de repente não mais reconhecia o homem que amava. Não que ela não desconfiasse que ele poderia ter estado, uma ou outra noite, em companhia de uma jovem mulher. Mas jamais acreditou que ele poderia traí-la assim, de maneira tão vil. Com a chegada da noite, as coisas haviam serenado – não a sua tristeza – e decidiu que deveria manter-se calma. Analisou toda a sua vida. Seu pai morrera quando ela tinha três anos apenas e sua mãe, com o passar dos anos, havia perdido a razão. Conheceu Jonas aos dezessete anos e, desde o primeiro instante, o amou. Ele era um rapaz sem dinheiro, mas que se dedicava integralmente à ideia de tornar-se arquiteto. A mãe de Lívia era contra este namoro e enviou a filha para a Europa – lá passou seis anos e cursou a universidade. Foi no curso de Artes Plásticas que conheceu Mirna, sua mais íntima amiga. A pessoa em quem Lívia mais confiou em toda a sua vida e com quem manteve a relação mais pura e fiel. Quando Mirna abandonou o curso para viajar pelo mundo, com um cineasta francês que conhecera, Lívia quase enlouqueceu e cortou os pulsos. Mirna adiou a viagem até a recuperação completa da amiga. Antes de partir, jurou que estaria com ela nos momentos que precisasse. Lívia se formou e retornou ao Brasil, logo em seguida sua mãe faleceu, deixando para ela uma boa fortuna. Neste momento, Lívia reencontra Jonas, agora formado em Arquitetura, mas ainda sem ter conseguido um bom trabalho numa grande firma. Lívia se propõe a ajudá-lo, coisa que faz imediatamente. Começam a namorar e meses depois se casam. Agora, acontece isso – e Lívia se lembra da mãe, dizendo que aquele homem a faria sofrer, que era o seu dinheiro que ele queria. Terrível ter que concordar com a mãe. E não devia fazê-lo. Não podia jogar dez anos harmoniosos e felizes fora, por causa de umas fotos. OK, ele havia tido um caso, mas ela devia esperar o retorno de Jonas para escutá-lo. De qualquer maneira, estava se sentindo só, precisava de um ombro, um acalento solidário. E somente se lembrava de Mirna. Fazia anos que não se falavam. Depois que retornou ao Brasil, Lívia mandou para ela umas quatro cartas, mas só recebeu de volta um telegrama, parabenizando-a pelo casamento. Não era desinteresse – Lívia sabia que a amiga a amava, mas era a maneira de Mirna viver que a impedia de manter correspondência com ela. Estava sempre tão ocupada, havia se tornado uma cenógrafa conceituada e viajava muito por toda a Europa. Há três anos, quando teve o filho, enviou fotos para Lívia e prometeu que ela seria a madrinha da criança, mesmo que isso fosse demorar para acontecer.
Lívia e Jonas foram muitas vezes à Europa, mas nunca conseguiram encontrar Mirna. Um ano atrás, Lívia conseguiu com um amigo em comum o número do apart-hotel onde ela estava vivendo em Paris. Telefonou-lhe imediatamente, mas teve a triste notícia de que o filho de Mirna havia falecido, depois de cair do quinto andar do prédio em que morava, em Londres. Lívia queria imediatamente partir ao encontro da amiga, mas esta disse que não era necessário e que estava de malas prontas para ir até o Japão, realizar um curso de pintura de painéis. Achava que desta forma seria mais fácil se refazer da dor. Ficaram horas no telefone e juraram que sempre seriam amigas.
Agora, tudo o que precisava era ver Mirna. Aguentara todos esses anos a distância só por causa de Jonas – ele sempre havia demonstrado ciúmes da amiga de sua mulher. Não iria abandoná-lo. Estava disposta a conversar e tentar consertar toda esta terrível situação. Mas era certo: estava decidida a ir até onde Mirna estivesse. Foi ao seu gabinete e procurou desesperadamente a agenda que tinha o telefone de Paris. Talvez, com sorte, ela tivesse voltado a morar lá, pois tinha dito que Londres se tornara impossível para ela após a morte do menino. Conseguiu achar a agenda e ligou imediatamente. O telefone tocou com insistência até que uma voz afeminada atendeu – era tarde na França e o rapaz parecia aborrecido. Lívia explicou-se, no seu fluente francês. E teve, sim, uma certa sorte: a amiga havia emprestado sua casa para um ator desempregado. Ele deu o número de onde Mirna estava morando, em Nice. Antes de desligar, ela perguntou as horas – era tarde. Lívia resolveu esperar até o dia seguinte. Tomou um banho antes de dormir, foi para a cama e, mesmo deprimida, sentiu-se excitada o suficiente para se tocar. Gozou.
Logo que acordou, recebeu o recado que Jonas havia deixado com a criada. Ele dizia que estava com saudades e que chegaria à noite. Lívia ainda estava abatida, mas a ideia de rever Mirna era maior do que o seu cansaço. Caso pudesse, ela viajaria naquele dia mesmo. Queria agir impulsivamente e começou a apreciar a ideia de viajar sem Jonas. Correu para o telefone e discou ansiosa os números. Foi uma grata surpresa ouvir a voz de Mirna, não imaginava que seria tão fácil encontrar a misteriosa amiga. Ambas ficaram bastante emocionadas. Lívia contou sobre o desejo de vê-la, falou que faria qualquer coisa para estar ao seu lado. Mirna notou, em sua voz, a tristeza que estava vivendo. Lívia tentou disfarçar, mas a amiga a conhecia demais para se deixar enganar. Então, Lívia narrou parte da história. Mirna achou que seria covardia da amiga fugir a este problema, que mesmo ela não concordando com uma vida voltada para um casamento, achava que Lívia não podia jogar fora os anos bons que havia vivido. Prometeu que, assim que as coisas estivessem esclarecidas, ela iria ao Brasil passar um mês em companhia da amiga. Isso foi uma alegria para Lívia, era como se dali por diante ela devesse se esforçar para consertar aquela situação o mais rápido possível. Queria a amiga ao seu lado, clamava por isso.
À noite, quando Jonas chegou, trazia um presente para a esposa: uma caixa de madeira com dez pequenos potes de prata cheios de chá chinês.
“– Eu prefiria um colar de pérolas.
– Mas você já tem dois.
– E daí? Queria mais um.
Jonas beijou a testa da esposa.
– Menina mimada. Pode deixar que papai lhe dará outro.
– Eu quero o que você deu para aquela mulher.
Não era assim que Lívia gostaria de abordar o assunto. Ela era chique demais para agir com rancor. Mas isso estava além de suas possibilidades.
Jonas, por sua vez, não era burro o suficiente para agir feito um sonso. Sentou-se abatido em sua poltrona. Lívia ficou parada diante dele, olhando, silenciosa – ela estava linda nesta noite. Vestia um longo vestido pêssego que tinha uns dez anos. Esta era uma roupa especial, e Lívia a usava em raras ocasiões, exatamente por ser tão antiga.
– Você já sabe?
– Do quê? De sua safadeza e mau-caratismo?
– Por favor, vamos manter a calma.
– Diga-me, se você estivesse no meu lugar, você conseguiria estar calmo? Feche os olhos e me imagine trepando com outro homem.
Por alguns segundos, Jonas viu sua mulher de pernas abertas com um macho sobre ela fazendo movimentos bruscos. Arrepiou-se. Mal conseguia ouvir a palavra “trepando” dita por Lívia. Lívia, tão elegante, uma mulher que por educação nunca se permitiu trepar e, sim, fazer amor.
– Você tem razão para estar chateada. Mas tudo será contornado. Eu te amo.
– Porque você me ama, acha que nada disso terá consequência? Mas já tem. Não em mim, mas nela. Na vagabunda da sua amante.
Essas palavras não cabiam na imagem de Lívia. Uma mulher magra, branca, com cabelos louro-claros, acima dos ombros. Ainda era a mesma menina que cortara os pulsos, anos atrás.
– Não! Eu já falei com ela. Está tudo terminado. Inclusive ela não vai mais trabalhar na firma.
– Quer dizer que agora, depois de ter conseguido o que queria, vai despedir a menina? Você é pior do que eu pensava. Quantas outras você colocou no olho da rua depois de ter levado pra cama?
– Fique calma, não é isso que você está pensando. Não fui eu que a despedi. Nem fui o único com que ela se deitou.
– Que nojo! Você só está piorando as coisas. Quer dizer que vocês revezam putas. E de quem é o filho que ela está esperando?
– Filho?
– Não se faça de tonto. Por favor! Mais do que você, eu quero esclarecer tudo isso. – Pôs as mãos no rosto. – Tenho vontade de morrer.
Neste momento, Lívia tombou de joelhos no chão e começou a chorar. Quanta dor no coração, num coração traído. Jonas se levantou e pegou a mulher pelos ombros, tentando levantá-la.
– Me larga! Me larga, pelo amor de Deus! Você não sabe a dor que estou sentindo.
Jonas foi até o bar e serviu-se uma dose de uísque. Voltou a sentar na poltrona.
– Me dê um drinque.
Ele estendeu o dele para ela.
– Não! Quero puro.
Foi o que ele fez.
– Lívia, você está coberta de razão por estar magoada.
– Magoada? – Riu.
– Não seja irônica. Esta é uma situação difícil para todos nós. Você acha que estou feliz vendo você sofrer?
– Por que não pensou nisso antes?
– Eu pensei. Só Deus sabe como pensei.
– Não ponha Deus no meio de suas pernas!
– Você está descendo o nível.
– Filho da puta! Você quer que eu continue chique, dentro de uma roupa assinada, com um sorriso lexotan nos lábios, ouvindo você contar que se arrepende de ter engravidado uma puta qualquer?
– É mentira! Esta mulher não está grávida. Ela quer se vingar, por ter sido despedida.
– Você acha que ela mandou a mesma carta para cada esposa traída? Quantos colares de pérola ela deve ter ganhado?
– Eu não vou mais conversar enquanto você não tiver voltado ao normal.
Lívia virou o uísque num só gole e depois zuniu o copo numa parede, espatifando-o.
– Normal? Aquela otária traída. Vou lhe dizer uma coisa. – Levantou e serviu outro drinque. – Você acha que nestes anos todos nunca desejei ninguém? Que ninguém me desejou? Então presta atenção nesta história. – Sentou-se no sofá. – Um dia, eu estava aqui em casa e me deu uma enorme excitação. Sabe o que eu fiz? Não, não dei para o jardineiro. Eu meti um vibrador dentro de mim. E fiquei imaginando um homem sobre o meu corpo, um homem que eu já tinha visto algumas vezes. Um homem humilde, um segurança de banco que certa vez olhou para mim com tara. Jonas, você não tem ideia de como gozei. Gozei mais que em todas as vezes com você. Deve ter durado uns dez minutos, o meu orgasmo. No dia seguinte, fui ao banco, não para ver o rapaz, eu já havia esquecido. Mas ele estava lá e novamente me desejava. Por alguns segundos pensei em seduzi-lo e ir a qualquer motel barato que tivesse por perto. Eu o levaria em meu carro e ali mesmo botaria a minha mão dentro de sua calça de tergal azul-marinho. Sabe por que me lembro da cor da calça? Porque olhei para o pau dele no banco e ele percebeu. Eu podia ter dado para aquele estranho. Um sujeito qualquer beijaria o meu corpo refinado. Eu não fiz isso. Por quê? Me responde!
– Porque você não é uma puta.
– Sou, sim! Sou, porque o desejei. Desejei aqueles lábios grossos. Eu não fui para um motel com aquele homem por causa do meu amor por você.
Jonas estava petrificado com as confissões da mulher.
– Você está me olhando como se eu tivesse lhe confessado uma traição.
– O desejo já não é uma traição?
– Se fosse... Bom, não estou aqui para ser julgada. Não fui eu que mantive um caso de três meses com uma mulher que acusa você de ser o pai do filho que ela espera.
– Eu já lhe disse que ela fez isso para se vingar. Ela não está grávida.
– Como você sabe?
– Dois dias atrás, estive na cama com ela e ela estava menstruada.”
O telefone tocou, era Jaime, Ana atendeu mal-humorada. Estava debaixo dos cobertores olhando para o teto, compenetrada demais para ser interrompida. Tentou disfarçar a irritação. Jaime queria que ela fosse até a casa dele para tomarem uns drinques. Ana só havia ido até lá na festa de fim de ano. Estava curiosa para saber se a ex-namorada dele ainda morava no casarão, mas não queria dar bandeira, perguntando. Desligou o telefone, era cedo e ainda dava tempo para ficar um pouco mais na cama.
“Depois de ouvir esta revelação, Lívia achou melhor ir para o quarto. Antes, avisou ao marido que ele deveria providenciar um lugar para dormir, pois não o faria ao lado dela. Jonas perguntou se ele poderia ter esperanças de que ela o perdoasse. Lívia disse que sim, mas que não seria agora.”
O telefone tocou novamente. Era engano. Ana já estava impaciente, achou melhor ir tomar banho. Inventar histórias a esgotava fisicamente.
Após um mês dormindo no outro quarto, Lívia permitiu que Jonas voltasse ao leito comum. Neste momento, Ana transcreveria uma fantástica cena de sexo entre os dois. O casamento deles havia rejuvenescido depois da crise. Não que Lívia tivesse esquecido tudo, mas achava “o perdão a vingança mais refinada”. Enquanto Jonas não tirava da cabeça a ideia de que a mulher poderia traí-lo, se vingando da maneira mais humana. As mulheres e as bichas são muito vulgares quando querem se vingar.