Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 4 de 23

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Vergonha dos Pés

Capítulo 4

Ana já está bem atrasada. Mesmo assim, suas pernas parecem pesadas demais para conduzi-la até Jaime. Um calor insuportável faz com que o seu corpo esteja molhado. Correm por ele discretos filetes de suor, que Ana enxuga com as costas da mão. Seus cabelos longos dão a sensação de estar vestida com um mantô peruano. São macios, os cabelos de Ana, mas neste calor estão pesados e piniquentos como lã. Nada pior que lã no calor, mais parece castigo. Ana pensa nisso, acha engraçado uma punição na qual o punido deve se vestir de lã em pleno sol quente. Dependendo da sua culpa, a pena poderá ser apenas segurar um pulôver de lã nas mãos. Arrepiou-se só em pensar. Lembrou-se novamente de seus cabelos, eles, neste instante, parecem uma imensa punição.

“Para que ter essa cabeleira toda sobre mim? Acho que, atualmente, cabelos longos não condizem com a vida de uma mulher. Por que devo eu ter essa cabelada grudando em minhas costas? Os homens gostam. Que se fodam os homens. Resolverei isso rapidamente. Essa porra pesa, um peso físico e metafísico, coisa morta na cabeça.” Riu, lembrando-se de um ensaio que lera sobre as mulheres – como são capazes de se empetecar e enganar, assim, os homens. Em certa parte, o autor diz que alguns penteados mais parecem perucas feitas com cabelos de cadáver chinês. “Quantas perucas meus cabelos dariam? Acho que pelo menos umas três. Três perucas de um cadáver de mulher jovem. Que nojo! Nossa, simplesmente estou enojada com estes restos mortos em minha cabeça. É como se nunca cortássemos as unhas. Enormes unhas. Quem é que tem enormes unhas mesmo? Porra, eu sei que existe alguém famoso que tem enormes unhas... Odeio quando não me lembro das coisas.”

Não que isso seja de alguma importância, mas são de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, as unhas enormes de que Ana tenta se lembrar. Ela teve um lapso de memória, fenômeno comum a todos, e que particularmente a irrita bastante. Nestes casos, ela remexe rapidamente as lembranças e empilha vários fatos que poderão conduzir ao nome esquecido. Agora, era o do tal cineasta, cultuado por Ana quando ela era adolescente. Antes, já foram de outros. Como sempre, Ana consegue se recordar primeiro do rosto. Mas ainda não se lembra do nome do dono das nojentas unhas imensas. Lapso dos grandes, esse. Afinal, além de cultuá-lo e obviamente assistir a todos os seus filmes, Ana chegou mesmo a ir a uma festa de aniversário feita para José Mojica, numa boate modernosa, não tantos anos atrás. Ela foi vestida de morta, com uns falsos olhos caídos entre os seios. Um broche, pendurado numa corrente que escorria pelo vasto decote.

José Mojica Marins, Ana finalmente se lembrou. Um absurdo ter se esquecido, ela desconfia seriamente que deve ter queimado todos os seus neurônios fumando maconha.

– Oi!

– Ui! Que susto! Nossa, eu estava distraída.

– Desculpe.

– Não, está tudo bem.

– Pensava na vida?

– Em Zé do Caixão.

– Ahn?

– Nada, nada. Estava pensando em nada.

– Você não tem assistido às minhas aulas. Anda sumida.

– É que estou de licença. Problemas de coluna, não posso ficar muito tempo sentada.

– Sei. Gostei muito do seu trabalho.

– Ai, desculpe, qual trabalho?

– A monografia sobre a culpa.

– Ah! Que bom, fico feliz.

– Você escreve bem.

– Em comparação ao resto da turma, talvez, mas não acho que eu escreva realmente bem.

– Escreve, sim. Você tem luz própria, não é como os receptores. Acho que você não assistiu à aula que eu dei sobre os camelos nietzschianos.

– Não, acho que não.

– Há os que refletem e os que receptam a luz.

– E os camelos?

– Ana! Estou há quase uma hora te esperando no refeitório!

– Jaime! Desculpe, é que estava conversando com o professor Paulo sobre umas aulas que perdi.

– Bom, Ana acho que já vou. Depois te explico a Teoria de Nietzsche.

– Sim, sim, os camelos...

– Você pode me dar o seu telefone, para que possamos conversar sobre as aulas que perdeu.

– OK. Deixa eu anotar.

– Não fique tanto tempo sentada.

– Ah, sim, aqui está. Obrigada.

– Tchau.

– Tchau.

– Poxa! Não dava para se livrar deste idiota?

– Que é isso, Jaime? Ele é meu professor.

– Esse cara está é com interesse em você.

– Acho muita grosseria sua, dizer isso. Inclusive acho muita grosseria alegarem que todo e qualquer homem que se aproxime de uma mulher é por interesse.

– Quase sempre é assim. Ou você acha que esse cara pegou o seu número por quê?

– Porque acha que escrevo bem, sei lá. Olha, é melhor trocarmos de assunto. Não é para me perturbar que você quis me ver, é?

– Não. Eu queria te ver porque... Toma, comprei pra você.

– Que é isso?

– Um ventilador.

– Um ventilador? Você comprou um ventilador pra mim?

Ana abaixa a cabeça, está comovida e triste. Este homem a ama. Não fez nada que desmerecesse o amor de Ana. Mas amor não é questão de merecimento. Só algumas pessoas muito avançadas emocionalmente conseguem compreender que é civilizado amar aqueles que merecem. O coração parece ser um órgão independente, às vezes age tão tolamente, que parece ser feito como nos desenhos infantis. Uma bundinha redonda para cima, fechada em “v” embaixo, de preferência com uma seta espetada dentro. São muitas as pessoas que têm no peito este coração infantil e desprovido de contato com a razão. Amar errado é tão comum! Então não é por merecimento que se é amado – caso fosse, Ana deveria amar Jaime. Ele não é perfeito, como todo mundo, mas a ama ternamente e tem um bom caráter. O que faltou para o coração de Ana aceitar um forte afeto por Jaime? Mesmo as qualidades mais fúteis, ele possui. Ela lembra que em algum momento acreditou amá-lo, amando-o então. Lembra de forma meio vaga deste sentimento. Ela recorda, mas não consegue sentir o que acredita ter sentido um dia. Porque “o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas”. Ana compreende que as lágrimas deste verso português não são falsas no sentido adjetivo da coisa. Ela pensa nas lágrimas como que de plástico. O passado é plástico, uma maquete acrílica. Fecham-se os olhos e vê-se tudo. Sabe-se ter vivido aquilo visto, mas não se vive mais nada. Sabe-se ter sentido, mas não se sente mais. Ana amou Jaime, acredita nisso e poderá dizer: eu amei este homem. Mas é tão distante falar que amou, odiou, sentiu algo, um dia. É como se a maquete de suas lembranças pudesse quebrar a qualquer momento e ela nem mais veria que amou, pois o sentimento é inexistente, resta-lhe apenas a memória dele.

– Não era preciso.

– Não?

– Quer dizer, não precisava se preocupar.

– Achei que você deve sentir muito calor naquele apartamento.

– Às vezes.

– Então...

– Olha, Jaime, realmente obrigada, mas eu preferia que você não se preocupasse se tenho sentido calor ou não.

O desamor é tão ingrato.

– Agora já comprei.

– Tão tá, era isso? Obrigada. Agora preciso ir, sinto dores nas costas.

– Vou levar você em casa, é pesado para carregar.

– Você está de carro?

– Estou.

Como Jaime se tornou um pequeno homem frágil, pensou Ana. “Ele me irrita com o seu amor rastejante. Não quero este amor, ele é como lã num dia quente.”

A universidade não é exatamente longe de onde Ana mora. Alguns dias, quando se sente animada, ela costuma fazer o trajeto a pé. O que é mais rápido do que ir de ônibus, mas requer realmente ânimo, devido às inúmeras ladeiras.

No carro, Ana e Jaime pouco conversaram. Ele perguntou sobre as dores na coluna, ela, acostumada a responder sobre o assunto, disse que se sentia melhor, apesar de não conseguir ficar muito tempo na mesma posição. Ele sugeriu shiatsu. Ana nada disse. Se dissesse, falaria que achava tudo isso uma grande palhaçada. “Essa mania cabeça de cultuar o Oriente. Logo você, que diz odiar os amarelos, na hora de ficar comendo aquelas gosmas de arroz com peixe cru em cima, não se lembra de quem faz a nojeirice. É porque é moderno comer em restaurante japonês, assim como é alternativo fazer tratamentos orientais” – pensou Ana, logo em seguida se lembrando de Elisa, que também tem esta mania engajada de achar que agulhinhas e movimentos imitando animais irão curá-la de todos os males. Certa vez, ela conheceu um homem que alegava ser filho de chinês com indiano. Ana, quando foi apresentada ao sujeito, avisou a amiga de que ele tinha cara de boliviano ou paraguaio. Elisa retrucou, dizendo que Ana era muito preconceituosa e que nada entendia de raças. Passou a fazer tudo que o sujeito dizia. Só comia beterrabas quando estava menstruada. Descobriu-se “yang”, por isso alimentava-se basicamente de alimentos “yin”. Todo dia, antes de se levantar da cama, ficava meia hora dizendo “om” e, ao deitar-se à noite, produzia uma série de ruídos, que variavam entre um porco sendo estripado e uma muda gozando. Ana alertou a amiga de que, se continuasse assim, perderia o que lhe restava de razão em tempo recorde. Disse também que pessoas como ela eram presas fáceis para falsos gurus, por isso deveria tomar cuidado, caso o homem tentasse induzi-la a coisas mais estranhas do que as que já estava fazendo.

Dito e feito: um dia, Ana estava em casa escrevendo um trabalho em grupo, quando Elisa iniciou o seu recado na secretária, que estava ligada para evitar interferências.

– Ana. Ana! Sou eu, Elisa. O cara queria que eu mijasse na cara dele, Ana. Imagina, estou assustadíssima...

Ana tentou ser mais rápida que a amiga e correu para atender, mas de nada adiantou, todos já haviam escutado. Mais tarde, quando retornou a ligação, curiosa para saber o desfecho da história, Elisa disse que eles acabaram trepando e que o oriental, em dado momento, pediu-lhe urina, dizendo ser este o líquido mais energético que existe – faz ficar mais forte e “iluminado”. Ana insistiu em saber se ela havia realizado o fetiche do cara, ela disse que não, mas Ana não acreditou. Era a cara de Elisa fazer esse tipo de coisa e depois se dar conta da gravidade da palhaçada.

Assim que chegou em casa, Ana foi tomada por uma imensa preguiça. Daquelas que fazem com que a pessoa se sinta um traste inútil e doente. Nos olhos, um peso de papel em cada pálpebra. A boca seca de sono e uma tontura de viagem de carro em estrada sinuosa. Ana quase que começa a acreditar que sente dores na coluna. Joga-se, esgotada, no sofá. Jaime só observa. Ela se esqueceu totalmente da presença dele. Quer apenas tirar os sapatos e o leve vestido, que agora parece pesar quinze quilos. Está morta! Jaime pergunta se ela quer que ele ligue o ventilador. Ana diz que sim, mas nem sabe o que está aceitando. Não consegue mais ouvir nada. Começa a se entreter com as imagens confusas da vigília. O melhor momento, aquele que antecede o sono profundo, quando os pensamentos são ordenados confusamente. Ana pensa em patos e no bebê de Elisa, precisa visitá-los. Acha graça, mas não tem forças para rir, dorme.