Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 20 de 23

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Vergonha dos Pés

Capítulo 21

É momento de decidir. Chato, não? É momento de Ana se levantar e ir até a faculdade, avaliar os estragos que fez. Bastante chato. Faz calor e ficar deitada ainda é a coisa mais fresca a se fazer. Mas não pode mais ficar ali, tem que tomar alguma atitude a respeito da sua vida. É isso que está tentando, tomar uma atitude, jogada na cama, desde que acordou. “Preciso tomar tenência. Que merda!” Se ao menos conseguisse um emprego. Mas só a ideia de ter que lidar com pessoas, falar, pedir, sorrir, e a vontade de trabalhar se derrete em sua mente feito gelo em cima da pia. “Preferia carregar sacos o dia inteiro, a ter que falar com alguém.” O que fazer, então? “Posso trabalhar como faxineira. Não vejo nenhum problema.”

Levanta, Ana! Ana está levantando. Passa pela porta aberta de um armário e se vê no espelho. Está bonita, mais magra, e esse novo cabelo caiu realmente bem, apesar de ela ter a cabeça um pouco pequena. Vai para o banheiro, tira a camiseta e a calcinha. Olha-se no espelho mais uma vez, agora com calma e má vontade. “Estou ficando velha.” Sim, está. Todos estão. Uns, melhor do que outros. Ana, apesar de todo o cansaço, se encaminha para um amadurecimento gentil à sua aparência. Ela entra no boxe. A água cai sobre o seu corpo, morna e amiga, como um lençol líquido. O desânimo vai sumindo, dando espaço a um certo alento. Foi bom ter revisto a mãe. Helena, percebendo as dificuldades da filha, deixou um cheque em cima da mesa da cozinha. Ana não o tinha visto e, quando encontrou, pensou em rasgá-lo, mas percebeu que seria tolice. Realmente as coisas não andam fáceis. Enquanto morava com Jaime, não tinha quase gasto algum. Ou até mesmo antes, pois morava num lugar menos agradável porém mais acessível. Agora, com a pendência da bolsa, não era hora de ter orgulho. Aquele cheque caiu como uma luva na situação. Ana termina o banho e se enxuga com animação. O telefone toca, é Jaime.

– Oi.

– Oi.

– Eu só estou ligando para avisar que chegou uma carta pra você, da faculdade.

– Merda!

– Quer que eu leia?

– Sim.

– “Ana para-parará-para...”

– O que é “Ana parará-parará”?

– Seu nome inteiro, número de matrícula, essas coisas. Quer que eu leia tudo?

– Não.

– Bom, aqui diz que sua situação foi regularizada e que sua licença acaba segunda-feira.

– Não! Não acredito! Eu tava indo pra lá agora, imaginando o pior.

– O que significa “situação regularizada”?

– Sei lá, e nem quero saber.

– Alguém deve ter te ajudado, Ana. Pelo que eu saiba, você estava fodida.

– É, deve ter sido um anjo. Foi você?

– Não.

– Sei lá, então. Como você está?

– Bem.

– Quer sair para almoçar?

– Não posso.

– Que pena.

– Ana... Eu estou namorando uma pessoa...

– Legal.

– Você não conhece...

– Então tá, Jaime. Era isso?

– Sim.

– Então um beijo. Tchau.

– Tchau.

Ana desligou o aparelho e se sentou no sofá. Duas notícias: conseguiu manter a sua bolsa e Jaime estava namorando. “Outro dia estava aqui, gemendo em cima de mim e chorando. Agora já está namorando. É deprimente.” Levanta e vai para o quarto. Ainda está nua, apenas enrolada na toalha. Deixa a toalha cair no chão e para diante do espelho do armário. Olha para o seu corpo. Vira de costas e olha as nádegas, redondas e roliças. Vira de novo de frente, toca em seu púbis. Quase se excita, mas sente preguiça de se masturbar. “Eu queria ser uma puta devassa e dar para o primeiro homem que aparecesse na rua.” Tem sentido falta de sexo. Mas logo esquece isso. Veste outra camiseta velha e deita de novo na cama. “Hoje ainda é quinta. Tenho três dias antes de voltar às aulas. Foram umas férias e tanto.”