Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 3 de 23

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Vergonha dos Pés

Capítulo 3

Sobre o pai, Ana pouco sabe. Depois que ele partiu, voltaram a se encontrar mais umas cinco vezes. O suficiente para a filha admirar o pai e perdê-lo de vez. Parece que por desejo dele, nunca mais se viram. Por mais que Ana se sinta culpada de vez em quando, como se tivesse feito alguma coisa errada de que não se recorda, ela conscientemente afirma que tudo se trata de uma imensa incapacidade do seu pai de ser pai, e pronto. Não gosta de falar sobre o assunto. Mas é fácil reconhecer nela um traço marcante, herança de tudo isso. Uma certa sensação de desprezo, que faz Ana agir duramente. Já pensou bastante nos motivos que levaram seu pai a não a querer. Por quê? Por que, afinal de contas, uma pessoa não iria querer uma filha como ela? Tão bonitinha e inteligente. Qual seria o motivo vil para tanto descaso? Ana não sabe, mas seu pai é um doente mental. Nem ele próprio sabe, pois leva uma vida normal e isso encobre sua verdadeira personalidade deformada. Diferente de Helena, que age dentro dos seus princípios, mesmo que eles magoem os que estão próximos, o pai simplesmente se ausentou de todas as premissas. Vive emotivamente cercado apenas de seus próprios sentimentos. O mundo do pai de Ana é uma redoma de egoísmos. Ele quis partir e partiu, quis aparecer cinco vezes e o fez. Quando não mais se interessou em ter uma filha, ele sumiu. Não que tenha esquecido da existência de Ana, mas sua mente inverte toda a história. Para ele, foi Ana quem o deixou e não o quer como pai. A sua doença consiste em ter a necessidade de ser o sofrido e o rejeitado. Todos os fatos são, por ele, vistos de maneira inversa. Mas todos convergem para si, para o seu umbigo, pois ele apenas enxerga meio metro diante dos olhos, e meio metro para cada lado. Para trás, ele enxerga de memória – tudo de forma errada. O pai de Ana é um doente, ela até desconfia disso, mas teme aproximar-se.

 

O acaso fez com que Ana encontrasse Jaime novamente. Foi engraçado. Ela estava indo para a cidade de Elisa, passar alguns dias na casa da amiga. Elisa, nesta época, ainda não havia se casado e adorava noitadas. Dedicava-se a elas com verdadeiro furor e não poupava esforços para se divertir. Ana costumava dizer que Elisa era capaz de achar maravilhosa uma noite ao som de rádio de pilha, com muitas cervejas e um canto para dançar. Contanto que também houvesse, obviamente, rapazes. Elisa era uma verdadeira tarada. Homens e homens, era tudo em que pensava. As coisas mudaram para Elisa, principalmente o seu corpo, que, após a gravidez, nunca se recuperou totalmente.

Ela havia ligado para Ana quase quinze dias antes da bendita festa. Tudo para que a amiga não tivesse desculpas sobre a impossibilidade de ir.

– Sei lá. Acho que umas cinquenta pessoas.

– Então será um festão.

Pausa.

– Sim. Uma festa imperdível. Você vai ter que vir.

– Não sei. Tenho tanta coisa para estudar.

– Menina, você está decididamente se tornando uma chata.

– Sempre fui chata.

– Olha, eu não vou ficar gastando um telefonema inteiro para te convencer do óbvio: você não pode perder esta festa! Ana, você tem que abrir, ficar “open”, destampar este corpo. Nossa, uma tampa de cimento, que você colocou sobre si mesma. Está totalmente “closed”. Desse jeito, minha filha, daqui a pouco só com britadeira. Um horror!

– OK, OK, vou tentar ir. Não garanto. Depois volto a telefonar. Tchau.

– Tchau.

Elisa não conseguiu esperar nem dois dias para voltar a ligar.

– Ana, Elisa. Estou ligando para dizer que já sei que roupa você vai vestir na festa.

– Sei...

– O Vestido da Fornicação.

– Nossa! Que é isso?

– O nome da roupa, Ana. Um deslumbre.

Depois disso, Ana foi obrigada a dizer que iria ao seu encontro. Mesmo um pouco cansada para pegar um ônibus e ficar tanto tempo sacolejando numa estrada malconservada. No dia da viagem, Ana se sentiu inclusive um pouco abatida. Mas sabia que Elisa jamais a perdoaria se ela desistisse de viajar na última hora. Foi para a rodoviária, tentando se convencer de que tudo correria realmente às mil maravilhas. Sentou-se num banco e ficou aguardando a saída do ônibus. Folheou uma revista, passou os olhos num livro que estava lendo, e nada. Depois de quinze minutos de atraso, Ana resolveu ir até o guichê se informar do que estava acontecendo. Lá, soube que a estrada estava bloqueada devido a um terrível acidente com um caminhão que carregava produtos tóxicos. Ana achou engraçado. Para não se sentir culpada de ter desistido tão facilmente de viajar, perguntou se havia previsão para a liberação da estrada. O sujeito disse que possivelmente isso só aconteceria mais para a noite. O que impossibilitava Ana de chegar a tempo de se arrumar e ir à festa. Adorou. Dali mesmo ligou a cobrar para a amiga e desencavou toda uma encenação de como estava chateada e que sentia muito por não poder ir. Mal desligou o telefone e deu de cara com Jaime. Ele aguardava a vez de usar o aparelho público.

– Oi! Como vai?

Reagiu assustada pela surpresa de encontrá-lo ali, tão próximo.

– Um pouco aborrecido.

Jaime deu a sua vez na fila para conversar com Ana. Ana estava nervosa pelo acaso.

– Eu ia viajar e acabei de ficar sabendo que a estrada está bloqueada.

– O mesmo aconteceu comigo. Para onde você ia?

Jaime iria viajar para uma cidade um pouco depois da de Elisa. Provavelmente pegariam o mesmo ônibus.

– Muito chato, realmente. Mas o que fazer? – indagou Ana, fingindo-se aborrecida.

– Viajar para outro lugar.

– O quê?

– Sim. Aproveitar a mala e partir para uma outra cidade qualquer. Venha – puxou Ana pela mão, até um mapa que havia por ali. – Bom, vamos ver...

– Você está brincando?

– Não! Olha, aqui tem uma cidadezinha que pode ser agradável. Você conhece?

– Não. E acho que...

– Desculpe, devo estar assustando você. É que eu achei que poderia ser interessante uma aventura não programada.

– Então, tá. Vamos até o guichê e o primeiro ônibus que sair, a gente pega.

Jaime sorriu, satisfeito. Enquanto ele resolvia a questão das passagens, Ana foi tomar uma Coca-Cola. Estava um pouco arrependida, mas havia uma excitação que dominava seus sentidos e fazia com que ela se sentisse animada. Esperava que o açúcar do refrigerante a acalmasse, pois não queria demonstrar o quanto tudo aquilo a estava perturbando. Lembrou-se de que, possivelmente, ele nem sabia qual era o seu nome. Não recordava se havia dito na noite de fim de ano.

– Ana! Está tudo certo. Vamos para a serra.

– Como sabe o meu nome?

– Acho que alguém me disse. Bom, podemos nos apresentar formalmente, já que seremos companheiros de viagem – ele estendeu a mão. – Meu nome é Jaime.

– Prazer. O meu é Ana.

Apertaram as mãos. Ana temeu que ele percebesse que estava suando de nervosa e, para disfarçar, logo em seguida ofereceu a Coca-Cola.

No instante em que sentou na sua poltrona, ela concluiu ter agido precipitadamente. Para onde estava indo, afinal? Quem era aquele homem ao seu lado? Pensamentos desagradáveis frequentaram sua mente por uns dez minutos, até que o ônibus partiu. Ana decidiu, então, deixar pra lá – o que acontecesse era porque o destino assim queria. Tomou-se de uma coragem aventureira, teve vontade até de gritar. Estava ao lado do homem no qual pensara nos últimos dias, havia desejado rever este homem e agora estava tão próxima dele, indo para algum lugar que desconhecia. Se ele fosse um assassino, assim deveria ser: morta por aquele que desejou. Ao menos havia escolhido o seu assassino. Achou graça disso.

– De que está rindo?

– Da possibilidade de você ser um assassino.

– Tenho cara de assassino?

– Não. Mas acho que eles nunca têm exatamente uma cara, uma aparência específica.

– Sei. E se for você a assassina?

– Eu? – riu. – Imagina ...

– Não, para desencanto seu, nunca matei ninguém e nem pretendo.

– Também nunca matei, mas acho que se deve experimentar de tudo na vida.

Riram. Estavam começando a se divertir um com o outro. Era um bom sinal. Durante a viagem, não falaram sobre suas vidas. Ficaram imaginando a cidade que os aguardava. Primeiro, com uma boa expectativa – depois, seduzidos pelo humor negro, tornaram-na terrível. Sem nem uma pousada minimamente decente para se pernoitar. Apenas uma pensão horrorosa, com um único banheiro para mais de quinze pessoas. Além de ter percevejos, baratas e ratos por todos os cantos. E assim o tempo passou rapidamente. Quando avistaram a rodoviária, os dois pareciam não saber exatamente como agir. Ana sugeriu uma cerveja bem gelada, para melhorar os ânimos. Jaime pegou as bagagens e eles se encaminharam para a saída do pequeno galpão. Já estava anoitecendo e a cidade até que pareceu agradável. Não foi difícil encontrar um bar. Sentaram-se numa mesinha e pediram uma cerveja ao rapaz que estava no balcão.

– Pronto. Agora a gente bebe umas dez cervejas e depois pega o ônibus de volta.

– Sim. Viemos aqui só para tomar cervejas.

A bebida caiu maravilhosamente bem. Ana se sentiu bastante animada com o decorrer dos acontecimentos. Foi tomada por uma vontade enorme de beijar aquela boca. Desejou-a tanto e agora ela estava ali, falando coisas engraçadas e divertindo seus pensamentos. Queria muito aquela boca. Percebeu que estava estranhamente apaixonada. Demorara tanto para rever este sentimento. Havia sido, durante toda a sua vida, tão desconfiada e exigente. Agora, de forma rápida e juvenil, sentia-se tomada por um desejo enorme de beijar aquela boca. E o fez. Jaime pareceu se assustar com a volúpia impetuosa de Ana, mas retribuiu a sofreguidão da moça. Também estava desejando aquele beijo. Ela começou a sentir um forte calor, por dentro. Chegou a tremer, e suas mãos passaram a percorrer as costas de Jaime, até alcançar a nuca e os cabelos. Ana cravou os seus dedos nos cabelos crespos do rapaz, puxou-os com força. Ele gemeu. Ela queria sexo inadiavelmente, e o corpo de Jaime denunciava que ele concordava.

– Espera. Vou pagar a conta e vamos sair daqui.

Enquanto Jaime acertava com o garçom, Ana foi até o banheiro. Precisava fazer xixi urgentemente. Enquanto urinava, de novo sentiu um enorme desejo, quase gozou. Estava lívida e tonta. Enxugou-se e notou que a umidade que tinha em sua vagina não era líquida e, sim, pastosa. Estava louca para dar e insanamente o faria em qualquer lugar. Lavou o rosto e foi ao encontro daquele que fizera com que perdesse totalmente os pudores, pudores que nunca a largavam. Sua face estava vermelha e, logo que olhou para ele, ficou envergonhada, por saber estar divulgando publicamente os seus intuitos.

Jaime já havia se informado com um rapaz sobre um lugar que parecia ser razoavelmente agradável. E, Deus existe, realmente o era. Assim que chegaram, tomados pela sorte dos amantes incontroláveis – que não tropeçam, que acertam o lugar do interruptor –, conseguiram uma suíte. Entraram no quarto e cada um tirou sua própria roupa.

No dia seguinte, bem cedinho, Ana levantou e tomou banho. Estava com o corpo marcado em algumas partes. Acima do seio esquerdo, via-se um chupão de tom avermelhado, quase roxo. Com calma, lavou-se duas vezes. Não conseguia pensar sobre o ocorrido. Na verdade, tudo o que queria era comer. Pensou em uma dezena de coisas que comeria de bom grado. A maioria delas, certamente, não estaria disponível naquele momento. Assim que terminou o banho, voltou ao quarto cuidadosamente, para não acordar Jaime. Vestiu as meias de lã e uma camiseta larga. Olhou-se pelo espelho e percebeu que estava sendo observada por Jaime. Notou que ele estava excitado. Excitou-se. Não compreendia de onde vinha tanta vontade de transar. Mas não se dedicou muito ao assunto. Apenas tirou as meias e voltou para a cama.

Ana tinha uma tia, falecida já há alguns anos, que pedia a todos para rezarem para os inimigos invisíveis. Pois todos possuíam os seus. Para a tal tia, cada pessoa tinha um exército de malfeitores que, escondidos dos seus sentidos, a levavam a cometer atitudes ruins. Eram eles que guiavam aqueles que não recorriam a rezas e, assim, se protegiam do mal. Ana ficava horas tentando imaginar como eram os seus inimigos invisíveis. Seriam seres pequenininhos, como átomos, invisíveis a olho nu? Haveria algum aparelho ampliador que fizesse com que ela enxergasse os serezinhos? Costumava imaginá-los de forma bem humana. Eram minúsculos, mas tinham todos os orgãos iguais aos seus. Mulheres, homens e crianças, um bando deles infernizando os humanos normais.

Quando descobriu sentir-se excitada com as cenas de amor dos filmes a que assistia na tevê, percebeu que era a mesma sensação de quando se tocava na vagina. Notou, através dos beijos falsos dos atores, que existia no seu corpo uma excitação ainda sem nome. Essa ação ingênua, mas já sexual, com o tempo – talvez por repressões familiares ou por sua própria personalidade – passou a parecer coisa do mal. Não se continha em tocar-se, mas, logo que terminava de fazê-lo, se arrependia a ponto até de adoecer. Uma noite, sonhou com o Demônio, exatamente como eles são nos filmes de má qualidade: com chifre, vestidos de vermelho cetim e com um tridente na mão. Tudo pareceu muito claro e verdadeiro. No sonho, estava sentada no hall do prédio em que morava, quando Ele se aproximava lentamente e dizia coisas. Não de forma aterrorizante – simplesmente falava como se estivesse conversando com alguém íntimo. Ana não escutava o que o Demônio dizia para ela, apenas via a cena, de fora. Quando acordou, estava transtornada, como fica a maioria das pessoas quando tem pesadelos. Mas acabou esquecendo o ocorrido. Até que mais uma vez sonhou com Ele, e também mais uma vez não escutou o que Ele dizia. Assustou-se, acordou apavorada. Tinha certeza de que aquilo estava ligado à excitação que sentia quando se tocava. Era daquela forma que o exército estava lutando para destruí-la e conduzir seus atos ao caminho do mal e da desgraça. Tudo parecia muito claro para Ana. Só não entendia por que logo o Diabo é que estava avisando a ela que o que fazia era errado. Não deveria ser Deus? Ou, ao menos, o seu anjo da guarda?

Durante algum tempo, Ana tentou conter o seu desejo de se masturbar, mas acabou por desistir de seguir os conselhos do Diabo e por aceitar que estava inevitavelmente dominada pelos inimigos invisíveis.

Jaime e Ana foram tomados por uma fúria incontrolável. Durante os dois dias que passaram na cidade, quase não saíram do quarto. Nada foi dito sobre a vida particular de cada um – nada que os identificasse, como idade, sobrenome, amores, compromissos etc. Apenas falavam sobre coisas, coisas sem sentido, lembranças tolas e desejos esquecidos. Viraram crianças, mexiam com os seus sexos sem pudor. Mostraram os seus corpos. Ana falou sobre seus pés.

– Sim. Confesso. Eu sou decididamente uma pessoa cruel.

– Não acho – disse Ana, enquanto tentava abrir um vinho.

– Por exemplo: você está tentando abrir esta garrafa há já uns quinze minutos. E sou incapaz de ajudá-la.

– Esse exemplo não vale. Você está esperando que eu abra por delicadeza.

– Então, tá. E o que você acha do meu horror a japoneses e afins?

– Coreanos, chineses e vietnamitas?

– Sim. Eu tenho verdadeiro pavor dessa gente amarela. São feios, misteriosos e repugnantes. Recentemente, pude observar um espécime do gênero bem de perto. Na sauna, precisava ver os pés do sujeito, que nojo!

Já com a garrafa aberta, Ana serviu dois copos e, antes de entregar um para Jaime, beijou sua boca.

– O que tinham os pés dele?

– Eram feios, com os dedos esganiçados. Acho que nunca vi pés mais horrorosos.

– Não fale assim.

– Dos japoneses?

– Não, dos pés. Odeio os meus pés.

– O que têm os seus pés? – Jaime foi até a cadeira em que Ana estava e tentou pegá-los. Estavam calçados com meias grossas de lã.

– Não! Larga. Não gosto que ninguém olhe para eles.

– Que besteira! Deixa eu ver.

– Para! Não gosto. – Ana chutou Jaime, ele caiu no chão.

– Nossa! Tudo bem...

– Desculpa. Achei que você já tivesse notado.

– Estou morto de curiosidade.

– Eles são muito pequenos, é isso.

Jaime se aproximou e olhou para os pés cobertos de Ana.

– Quanto que você calça?

– Trinta e três. É pouco para o meu tamanho.

– Eles são queimados? Faltam dedos?

– Não. São apenas mínimos para o meu tamanho.

– Esse é o seu maior trauma?

– Acho que sim.

– Que existência fácil e maravilhosa! Queria que os meus problemas fossem tolos assim. – Bebeu todo o vinho de seu copo. – Quer casar comigo?

– Se eu aceitar, os meus pés crescerão?

– Não vai precisar mais deles. Você viverá de meias de lã e eu te carregarei no colo para todos os cantos.

– Então, aceito.

No dia de voltar, acordaram cedo. Jaime acertou a conta e comprou um suvenir para Ana, um chaveiro de madeira cravado com o nome da cidade. Ana achou graça e colocou as chaves de casa nele. Jaime disse que não era preciso, bastava que guardasse como lembrança dos ótimos dois dias que passaram juntos. Por alguns segundos, Ana tentou crer que o que acabara de ouvir não seria um adeus. Mas, como a sua natureza é triste e pessimista, acabou por achar que, decididamente, ele não iria querer revê-la. Obviamente era compromissado, e aquilo tudo não havia passado de uma aventura deliciosa para ele. Para ela, passava a ser uma vergonha, já que se entregara com tanta liberdade. Ficou triste. Calou-se. Jaime acreditou que ela estava apenas cansada e deixou Ana permanecer silenciosa durante toda a viagem. O que, para ela, era sinal do desprezo de seu fervoroso amante de dois dias. Pensou no quão grosseiros são os homens – deveriam ter a mínima consideração com as mulheres com quem trepam. Afinal, ela não era uma prostituta. Ou ele pensava que sim? Uma puta, certamente.

Quase chegando à rodoviária, Ana ainda estava de olhos fechados, fingindo dormir. Sentia-se realmente mal. Tudo o que desejava era voltar para casa e tentar esquecer o que se passou. Assim é Ana, sofre por antecipação. Acredita demais nas suas conclusões precipitadas, leva tudo muito a sério. Jaime, enquanto isso, descansava feliz, tinha muito no que pensar. Aquela mulher linda, ao seu lado. Com um corpo grande de camponesa, cabelos longos tão pesados e lisos. Poderia se lembrar de seu rosto para sempre, mesmo que nunca mais a visse. Mas veria. Jaime a desejava intensamente para si. Queria aquela mulher. Ana. Que nome lindo! Simples e forte. Esperava poder chamar muitas vezes por aquele nome. Ana. Assim que chegasse em casa, falaria para Alexandra que tudo estava terminado entre eles. Sem dor, nem culpa. Seria sincero, diria que estava apaixonado por outra pessoa. Difícil seria continuar morando no mesmo lugar. Mas daria um jeito, se mudaria caso fosse necessário. Jaime achava que sua namorada não sentiria tanto o rompimento. Era um namoro de poucos meses. Apenas tinham algumas afinidades, que poderiam ser mantidas com a amizade. Estes eram os pensamentos de Jaime, enquanto Ana se corroía de arrependimento e ódio.

O ônibus parou. Jaime perguntou se ela se sentia bem. Ana respondeu que estava um pouco cansada por causa da viagem, mas que estava tudo OK. Desceram do ônibus, pegaram suas malas. Sem jeito, Ana tentou aparentar normalidade.

– Bom. Foi um prazer conhecê-lo.

Jaime achou estranho a polidez da moça. Imaginou ser timidez, ou senso de humor, ou os dois juntos.

– Para mim também, senhorita.

– Então, até um dia.

– Até um dia.

Ao ouvir isso, Ana se deu por satisfeita e virou para ir embora.

– Ei – chamou Jaime. – Qual é o seu telefone?

Ana sorriu.

– Você não precisa ser gentil na hora da despedida.

E foi embora. Jaime novamente achou estranho, mas já estava apaixonado e o comportamento singular daquela mulher o intrigou.

Quantas vezes é possível perder algo ou alguém por um simples mal-entendido? Quantas e quantas vezes a palavra não serve para nada, ou pior, presta-se apenas para piorar o estado das coisas? Não que o silêncio seja esclarecedor. O silêncio, num rosto inexpressivo, é um túmulo.

Por uma fração de segundo, as coisas tomam rumos inexatos. Perde-se o fio da meada. Seria possível salvar vidas se esses “frames” pudessem ser revistos. O tempo não volta. Quanta obviedade!

O fato é que a compreensão dos fatos está sempre sujeita a erros tolos, que deformam o decorrer da história.

– Merda!

Por que tanto pessimismo? Ele nada fez, apenas deu para você uma lembrança do fim de semana. O que há de errado nisso?

– Merda! Sempre estrago tudo!

Ainda xingava quando se deitou no sofá. Ali, ficou por uns quinze minutos. Possivelmente, se presenciasse todo esse mau humor, Jaime acharia que Ana era louca. Uma mulher descacetada, que dá compulsivamente para um estranho e depois emburra a cara sem mais nem por quê. Simplesmente emburra a cara. Uma louca, desvairada, merecedora de uma solidão eterna. Assim sentia-se Ana. Deitada no sofá, pensou as maiores autopunições para sua atitude. Passados os quinze minutos, achou melhor reagir. Agora não adiantava chorar diante do leite derramado – foi até a secretária eletrônica e escutou os recados. Vários de Elisa, querendo saber do seu paradeiro, e um de sua mãe. A voz de Helena tinha aquele tom usual de descaso por algo perdido. Ana se indignou. Afinal, por que a mãe tem que telefonar, já que faz isso com tanto esforço?

– Merda de vida de merda.

Tirou a roupa e, sem tomar banho nem nada, dormiu. Um sono pesado de quem se forçou ao recolhimento.

Acordou com o telefone tocando. Por alguns segundos, não conseguiu entender muito bem o que ocorria. Quando deu pela situação, a secretária já havia sido acionada, era Elisa. Ana correu para interceptar o recado da amiga no aparelho.

– Elisa!

– Meu Deus! Enfim apareceu! Onde você estava?

– A história é longa. – Bocejou.

– Você estava dormindo?

– Sim. Olha, vou tomar uma ducha e depois te ligo. OK?

– OK.

Contou tudo para Elisa. A amiga ficou boquiaberta com a ousadia de Ana. E muito mais com suas maluquices e mania de perseguição. Mesmo com Elisa dizendo que certamente ele não havia reparado nisso, Ana sentia-se terrível. Tinha agido feito uma tonta. Ainda que ele realmente não quisesse mais vê-la, não a havia forçado a nada, e ela deveria se dar por satisfeita de ter tido um ótimo fim de semana. E como disse Elisa: “Enfim tinha dado, antes que voltasse a ser virgem.”

– Devia estar contentíssima, em vez de ficar inventando toda essa história para sofrer.

– Você acha? – indagou Ana, cética.

– Ana, pensa bem, há quanto tempo você não trepava?

– Sei lá, uns sete meses... Não sei, não costumo marcar no calendário quando essas coisas acontecem.

– Pois devia.

– Sei. Bom, vamos mudar de assunto, já estou com a cabeça fervendo. E você? Como foi a festa?

– Um estouro! Acho que estou apaixonada.

– Você acha isso todo sábado.

– Não, dessa vez é diferente. Ele é lindo, se chama José Maurício. Não é maravilhoso?

Definitivamente, Ana não conseguia enxergar nada de maravilhoso no simples fato de um cara se chamar José Maurício.

Elisa não se parece em nada com a amiga. É impressionante até o fato de serem amigas, afinal há um enorme antagonismo entre as duas. Mas, de alguma forma, são tão íntimas, se conhecem tão profundamente, que acabam por esquecer as diferenças e se comunicam feito irmãs. Basta um olhar para que saibam o que está acontecendo. Assim foi há dois anos, quando Elisa perdeu o irmão num acidente de carro. Ana tinha marcado de dormir na casa dela, e assim que Elisa abriu a porta, Ana viu em seus olhos que Vinícius estava morto. Imediatamente perguntou o que tinha acontecido com ele e Elisa a abraçou, chorando. Nada foi dito, apenas um olhar e muitas lágrimas. Ana sofreu, não só pela amiga, mas também porque um dia amara Vinícius. Havia sido ele o primeiro homem de sua vida, eram adolescentes quando se conheceram. Tinham a mesma idade e estudavam juntos. Um dia, Vinícius chamou Ana para passar o dia na praia, lá ela fumou maconha pela primeira vez e fez sexo. Achou incrível perder a virgindade ao ar livre, sua cabeça girava e sentia uma certa dor no ventre. Mas não se importou, gostou da ideia de ter aquele membro dentro de si. Sentiu-se poderosa e, mesmo não tendo gozado, percebeu que haveria de gostar bastante da coisa. Assim que tudo acabou, Vinícius beijou Ana ternamente e disse que desejava toda a felicidade do mundo para ela. Que ela tivesse muito prazer e que amasse muito, pois viver sem amar é muito ruim. Ana jamais se esquecerá disso. Vinícius beijou-a com carinho e desejou para ela uma vida com o coração amando. “Porque amar é mais importante até que ser amado, amar faz com que a gente tente ser melhor para conquistar o outro e acaba conquistando o mundo.” O que ele não conseguiu prever foi que aquela adolescente, um tanto desengonçada, o amaria desesperadamente. Mas Vinícius parecia saber que duraria pouco e não podia viver preso a uma só pessoa. Durante cinco anos, manteve uma complicada relação com Ana – ela se consumia de ciúmes dele, enquanto ele a aconselhava a conhecer outros homens, pois considerava monogamia uma grande estupidez. Ele nunca mentia para ela, mesmo que ela preferisse às vezes não saber de nada. Tentava educar-se à maneira dele, mas sua natureza possessiva fazia Ana agir de forma quase homicida quando o via com outras. Jurava que não mais queria Vinícius, porém seu amor era maior que sua autoestima. Adorava aquele rapaz, adorava o seu jeito de andar, os seus cabelos louros. Adorava principalmente a forma como Vinícius conduzia o sexo. Pois era ele que guiava, deixando Ana louca, a ponto de trepar em qualquer esquina, ou dentro da própria casa, com sua mãe dormindo no sofá da sala. Ele a chupava com tanta delícia, como se quisesse bebê-la por completo. E não era somente o sexo que a encantava, Ana gostava de dormir ao lado dele. Era tão bom abraçá-lo, era confortante e pacificador. Estes momentos de prazer e calma eram compensadores. Mesmo que ela soubesse que ele não era só dela, sabia que ele a amava. Quando Ana tentava conversar sobre a importância de um ser somente do outro, Vinícius dizia que ninguém era de ninguém, nem de si mesmo. “E de quem nós somos?”, Ana perguntava, tentando entender o seu amado. Então Vinícius tragava profundamente o seu baseado e dizia que as pessoas pertenciam ao destino, “o destino era dono de todos nós porque era ele que nos guiava”. O destino de Vinícius levou-o cedo. Ana tentava acreditar que ele pudesse estar num lugar lindo, como um campo verde cheio de borboletas. Mas ela é muito dura para acreditar em lugares lindos depois da morte, e acabou por achar que Vinícius afinal de contas era “um grande babaca, comedor compulsivo de mulheres e um hippie cafona”. Ana é assim, depois que o amor passa, ela costuma achar ridículo aquele que amou.

Depois de Vinícius, Ana se entregou ao amor feminino. Não que se sentisse de todo atraída pelas mulheres, mas achava que era natural experimentar. A geração de Ana é pós-sutiã-queimado, não sabe se defende, ou se quer ganhar joias. Ficou entre o “Avante, patota” e um cartão com rosas vermelhas. O que na verdade Ana sempre quis é descansar. De certa forma, ela se sente como se houvesse participado de mil passeatas e agora quisesse apenas ser bem tratada, porém sem abandonar os direitos conquistados. Mas se for preciso escolher entre uma carreira e um casamento, Ana não ficará com nenhum dos dois. E para disfarçar a sua total incapacidade para ambas as coisas, se dedica à vida universitária. Após graduar-se, Ana irá fazer mestrado, depois doutorado e depois... Depois não consegue enxergar.