Vergonha dos Pés
Capítulo 7
No começo do namoro, estavam sempre juntos. Jaime buscava Ana na universidade, para almoçar. Depois iam para o pequeno apartamento dela, ler trechos de algum livro ou fazer sexo, ou os dois. Quando ele terminava suas aulas, à noite, sempre dava um jeito de driblar a zeladora do edifício universitário onde morava Ana, que não permitia entrada de homens após as dez horas. Jaime insistia para que fossem à sua casa, mas Ana estava irredutível, não queria encontrar “aquela riponga”. Apesar de fazê-lo de vez em quando, dentro da classe. Mas ali era diferente, não passavam de duas conhecidas. Já no casarão, eram inimigas. Isso era a única coisa que a aborrecia naquele tempo – achava intolerável a presença daquela mulher, “sempre arrastando aquelas chinelas fedorentas”.
– Você não tem nojo?
– Para com isso, Ana.
– Não, não tô implicando. Quero apenas saber se você tem nojo. Porque qualquer pessoa normal teria. E preciso saber se você é normal.
– Coitadinha, ela não é suja.
– Com aqueles dentes cinza, com limo.
– Ela tem problema nos dentes, não é culpa dela.
– Eu conheço um monte de gente que tem dentes frágeis e não é por isso que não limpam eles direito.
– Tá bom. Vamos ficar falando dos dentes de uma pessoa que não me diz respeito?
– Mas que mora com você.
– Já morava antes de eu ir pra lá.
Pronto, estava feita a confusão. Ana fechava a cara e passava horas sem abrir a boca. Recolhia-se no mundo de Lívia, um mundo que dominava e onde não precisava conviver com repúblicas, hippies, universidades etc. Nesse universo de ficção, os problemas eram sofisticados. Havia punhos de rendas em pulsos cortados, e não simples ataduras. Nos pensamentos de Ana, tudo é poético. Os dramas criados por ela são permeados pelo lirismo. A vida de Lívia é a sua vida, em proporções variadas. Ela inventou uma outra possibilidade para si própria. Pode fechar os olhos e ressuscitar todos esses personagens, ou outros. Não importam o nome, a idade, onde vive. Não importa se é o homem ou mulher, mas sim que vai partir dela e nela vai se espelhar. Porque sempre bastará fechar os olhos para viver uma outra história.
“Lívia, uma jovem mulher. Passou a vida inteira sendo levada ao seu destino, sem se debater contra nada. Ela nasceu para ser aquela Lívia, frágil, educada. A mulher perfeita. Aquela que na segunda-feira já tem toda a semana agendada. Todos os seus hábitos são sagrados, apesar de conduzidos com discreta amenidade. Assim que acorda, faz a sua impecável higiene e, com cuidado, aplica no rosto uma série de produtos. Começa por lavar o rosto com uma pequena escova de cerdas macias e, com movimentos circulares, espalha o sabonete com glicerina, feito especialmente para ela. Depois da pele limpa, com um chumaço de algodão embebido em loção tônica sem álcool, retira as mais persistentes impurezas. Por fim, aplica creme hidratante, também em movimento circular. Isto é feito no início da manhã. De tarde, após uma hora de bicicleta ergométrica, Lívia toma outro banho. É quando se dedica a cuidar do corpo, passando um creme especial para o combate da gordura localizada e um óleo perfumado nos seios. No rosto, passa apenas uma loção com ácido glicólico, para eliminar possíveis manchas e sinais. Antes de dormir, repete os cremes da manhã, adicionando um outro, para as pálpebras.
Quem não conhece Lívia, poderá pensar que se trata de uma mulher tomada pela futilidade. Não é bem assim. Ela nasceu para os mimos restritos a poucos. Cuidar-se é uma regra da sua higiene. Ter a pele jovem, o cabelo sedoso e o corpo em forma é uma questão de educação social. Mas ao mesmo tempo que cultiva estes hábitos com disciplina, jamais veremos Lívia, entre mulheres, falando sobre tal e tal creme, sobre a última palavra em combate à celulite. Assim como é incapaz de frequentar clubes e academias. Prefere exercitar-se sozinha, não aguentaria ter que se vestir e se maquiar, para que a vissem fazendo bicicleta ergométrica sem despentear o topete. Isso fez com que Lívia se deslocasse das mulheres de sua classe social, tornando-se solitária.
Houve uma ocasião em que tentou se integrar às sócias de um clube, do qual possui um título. Intrigou-se com as conversas catárticas dessas mulheres. Todas tagarelando sobre suas desgraças, competindo pela posição dramática de ‘a mais fodida’. Viu desfilarem na sua frente cânceres, perdas de filhos, traições, vícios, tudo isso vestido de Cotton Lycra e perfumado com Poison. Mesmo assim, ousou experimentar uma aula de ginástica localizada. Durante o aquecimento, correndo em círculos dentro de uma sala ampla e iluminada, não se sentiu bem. Eram quinze mulheres vestidas com roupas coloridas, refletindo suas imagens nos vários espelhos espalhados pelo ambiente. Tornaram-se trinta, depois sessenta. O rosto de Lívia ficou vermelho, começou a sentir sua língua dormente, suas pernas bambas. Arrastou-se dali até o vestiário e se trancou num estreito banheiro. Ajoelhou no chão e vomitou. Uma ação que depende em todos os casos da total solidão, visto tratar-se de algo humilhante, devido à posição, o estrago e os ruídos que são produzidos. Ali, num cubículo de um banheiro de clube, Lívia expeliu tudo o que havia comido. Pensou em sua última refeição: salada e peixe, preparados com finas ervas e azeite. Agora estava ali, tudo transformado em gosma malcheirosa. Toda comida, seja ela light e sofisticada, ou uma marmita de operário, acaba por se transformar na mesma papa nojenta ao ser vomitada. Possivelmente, já dentro da barriga, sofrendo o processo de digestão, um raro caviar fique com a mesma aparência de língua de boi.”
Ela se levanta, impaciente.
– Jaime, como é que se diz quando as coisas têm a mesma forma, não, melhor, o mesmo corpo coloidal?
– O quê?
– Musse de chocolate tem a mesma... que purê de batatas.
– Não tô entendendo.
– Porra! Deixa pra lá.
“Um raro caviar fique com a mesma consistência...”
– Consistência!
– Uma musse de chocolate e um purê têm a mesma consistência?
– Talvez, depois de digeridos, quem sabe?
– Ana, muita gente sabe como fica a comida depois de digerida.
– Você sabe?
– Não.
– Então não me atrapalha, que estou pensando no meu romance.
“Vomitada, toda comida tem a mesma consistência. Lívia apertou a descarga. Merda fede igual no mundo inteiro e em qualquer latrina. Abriu a porta e neste instante se deu conta do público auditivo que teve o seu mal-estar. As mulheres tagarelavam, indagando o que havia acontecido. Algumas tentavam tocá-la. Lívia queria apenas lavar o rosto e, em silêncio, se recompor. Tolerou a barulheira, até que uma mulher flácida e esticada ousou molhar o seu cabelo. E ela não suporta que a toquem na cabeça, por mótivos vários, dentre eles os penteados repuxados que sua mãe fazia quando ainda era menina. Lívia se virou e empurrou a mulher flácida no chão. Ela berrou, com o apoio dos berros das outras catorze (ou vinte e oito) mulheres. Lívia, indignada com a infernal barulheira produzida pelas tagarelas, disse calma e fortemente:
– Isto aqui é uma gaiola de papagaios!
Pegou as suas coisas e saiu correndo, como uma jovem que foge do inspetor do colégio, pelas escadarias do clube. Depois disso, passou uma semana de cama, com febre. Nunca mais foi ao clube. Nunca mais foi a academia alguma.
Mas esta é uma história distante. Distante da época das descobertas, quando a fantasia rompeu a sua fina casca. Aquela bruma leve que envolvia a vida de Lívia, perfumada e repleta de sensações, que na verdade a sufocava. Porque a mentira é gentil, às vezes, mas não produz oxigênio. É coisa morta, como um cadáver maquiado. Enquanto Lívia vivia com a mentira, ela acreditava em Jonas, mas não em si mesma. Achava-se uma criminosa por desejar outra vida. Talvez existisse nela a famosa intuição feminina, fazendo Lívia perceber que era lindo, mas falso, tudo aquilo que a cercava. Mas se tivéssemos a condição de escolher – talvez tenhamos – para decidir entre a realidade dura e crua e a mentira envolta por brumas perfumadas, qual delas escolheríamos? Qual é a sua escolha? Jonas, durante anos, a protegeu. Escondendo a sua natureza infiel, fez Lívia feliz na mentira. Esta questão tem dois aspectos interessantes. A esquizofrenia que é viver algo irreal. E a presença de uma fidelidade totalmente inexistente em ambos os lados. Sendo que Jonas realizou os seus desejos, enquanto Lívia calou a sua natureza.
O Homem não é biologicamente monogâmico. Mas poderá vir a ser, caso tenha esta vontade. ‘Quero ser somente dela – ou dele.’ Desejar é determinar uma vontade, e isto nenhum outro animal, além do Homem, possui. (Porque, diferente dos outros animais, ele possui vontade.) A traição é uma necessidade, não intencionalmente, mas forçada pelo corpo primitivo e irracional. Como há níveis que diferenciam, formando indivíduos, uns sentem mais fome que outros. Intensificam sua natureza infiel, enquanto outros são determinados por seu espírito leal. A mulher, socialmente educada a rejeitar qualquer natureza não ligada à procriação, apegou-se à monogamia. A sua necessidade e vontade são de eternizar, seja pelo ventre ou pelo casamento fiel. Ela carrega no corpo o sentido das religiões. Por isso as igrejas estão lotadas de fêmeas. As tagarelas de Deus.”
– Eu gostaria de entender melhor os homens. Apesar de reconhecer que já sei bastante.
– O que você sabe?
– Muito. Bem mais do que você sabe sobre nós.
– “Nós”, essa mania feminina de ter sempre que sustentar as opiniões numa multidão em coro. “Nós, mulheres...” Você é muito mais bonita que Beth Friedman, não precisa destas coisas.
– Meu filho, tenho certeza de que eu sou a mulher menos feminista que você já namorou. Estes tipinhos ripongas que fazem questão de dividir a conta e, por isso, vendem bolsas de miçanga em praça pública: – mudando a voz, com ironia – são artistas, trabalham várias expressões diferentes de dizer “te amo”.
– Ana, não estou entendendo esse humor.
– Sabe o que eu quero, Jaime? Que as mulheres se fodam!
– Que é isso?
– E que você se foda junto!
– Para com isso, você se descontrola.
– Não, é que eu acho um absurdo tudo isso. Eu aqui, filosofando sobre um tema importantíssimo, e você dizendo que eu sou feminista.
– Desculpe, vai, fala.
– Não, não falo mais nada.
– Deixa disso, Ana. Poxa, tava gostando tanto do assunto.
– É, vai conversar com a sua ex-namorada sobre chá de camomila, vai.
– Por que você insiste tanto em falar sobre Alexandra? Chega, acabou.
– Acabou? Uma mulher que fica andando de calcinha no corredor, dormindo no quarto ao lado. O que você faz quando escuta ela se masturbando? Vai lá, dar uma mãozinha?
– Que é isso? – Jaime não tinha mais o que dizer, além daquilo que Ana queria ouvir. – Vou me mudar daqui, pronto. Essa semana procuro um apartamento. Satisfeita?
Estava. Mas não podia demonstrar. Fingiu não ligar para a decisão de Jaime. Por dentro, dançava – apesar de duvidar que ele fosse mesmo procurar um apartamento na semana seguinte.
– Agora conta sobre suas conclusões...
– Antropológicas!
– Sim, antropológicas. Vai!
– As mulheres sabem bem mais sobre os homens do que o contrário. E não digo isso para enaltecer as mulheres. Eu preferia ser uma “porta” com pênis a uma sábia do Tibete.
– Nossa!
– Deixa eu continuar. Vocês, homens, são uns bobos. Se fôssemos tão infiéis quanto os homens, a humanidade seria feita de cornos felizes. Porque ninguém saberia que é corneado.
– E então?
– Calma! O homem, quando trai, tem o apoio total da sociedade. Se um cara casado é visto entrando num motel de merda, com uma estagiária da empresa, todo mundo acha lindo. É um pau latejante comendo uma boceta disponível. O contrário, se for uma mulher casada entrando com o boy da empresa, “Ohhhh, que filha da puta, essa tem que apanhar na cara”. Por isso, a mulher sabe esconder suas traições. Enquanto o otário sai pra tomar um chopinho com a fulana antes de ir trepar, a esposa tem um encontro num estacionamento abandonado e ruma para um bairro distante, para foder com o office-boy.
– Sem-vergonha!
– Eu?
– Sim.
– Não estou me descrevendo. Há diferentes níveis de fome, a minha não é tanta assim. Gosto do que tenho, se faltar... E não é só sexo, não. É carinho, atenção, generosidade. Mulher é assim. A maioria delas só trai depois de se decepcionar e, às vezes, infelizmente, nem mesmo assim.
– E nós?
– “Nós”? Que coisa mais plural.
– OK, os homens, por que traem?
– Vocês não misturam amor com sexo e sempre estão esfomeados.
“Lívia e Jonas voltaram a dividir o mesmo quarto e as coisas naturalmente pareciam ter retornado aos seus lugares. Só que, agora, um desconfiava do outro, se esgueirando feito sombras. A normalidade havia voltado a casa, mas, caso pudessem se ver da sacada do segundo andar, não se reconheceriam. Estavam atentos como nunca às ações do outro e, assim, fizeram do casamento um tipo especial de prisão. Uma guerra fria entre russos e americanos em plenos anos 1980, ambos com os dedos apontados para os botões detonadores.”
Em meio a este clima, de dissimulada normalidade, Lívia procurou novamente a amiga. Mirna, sabendo que tudo tinha sido contornado e que Jonas não seria pai, nem mais mantinha nenhum relacionamento com Alexandra, teve que cumprir a promessa de fazer uma longa visita ao casal. – E enquanto a história se desenrolava inteira na cabeça de Ana, ela fazia apenas algumas anotações num pequeno caderno de capa azul. Durante aquelas semanas, que antecederam a mudança de Jaime para o seu novo apartamento, Ana estava iluminada pela certeza de que, depois de tudo resolvido, poderia se sentar e colocar suas ideias no papel. Definitivamente. Passava por uma ótima fase, alegre de ver Jaime cumprindo sua promessa de sair do casarão. Ana ajudou a encontrar o apartamento “perfeito” para ele e, depois de um mês fazendo pequenos ajustes no local, Jaime se mudou. Antes disso, comentou com Ana o seu desejo de que morassem juntos. Ela apenas sorriu, mas aguardava que este desejo fosse real. Também gostava da ideia de viver com ele.
Duas semanas após a mudança, o apartamento continuava praticamente vazio. Jaime tinha levado consigo apenas uma cama e a escrivaninha onde escrevia sua monografia de graduação. Em um dos dois quartos, ficaram suas roupas e livros. Ana ajudou na arrumação, colocando tudo sobre um lençol estendido no chão. Este foi um dia especial para ela – por enquanto, jamais o esquecerá. A beleza de não esquecer é o instante em que se acredita nisso.
– Que lindo! – exclamou, arrumando os sapatos.
– O quê? – perguntou Jaime, do outro quarto.
– Essas pantufas de urso. Onde você arranjou?
– Comprei quando fiz a viagem de navio cargueiro. Acho que na Coreia – disse, já no quarto.
– Fofíssimos.
Jaime se aproximou e beijou-a na boca. Ana se levantou para receber melhor o beijo. É igual gato: depois de tocada, quer mais e mais carinho. Enquanto ele beijava seu pescoço, Ana começou a rir, chegou a gargalhar.
– O que foi? Está sentido cócegas?
– Não – respondeu, às gargalhadas. – Me lembrei de Elisa. Você precisa conhecer.
– Conta. Por que você está rindo?
– Elisa namorou um cara que tinha acabado de se mudar pra um apartamento de três quartos – interrompeu para rir de novo.
– E daí? O que há de engraçado nisso?
– Elisa, superpantera-do-sexo, como ela mesmo costuma se denominar – riu mais um pouco –, fez questão de “fazer amor”, como ela diz de vez em quando, em todos os ambientes do apartamento. Para batizar, com “as secreções do sexo”, o local. – Riu. – Isso é decididamente a coisa mais ridícula que eu já escutei em toda a minha vida. Até hoje eu morro de rir com esta história.
Riram juntos. Jaime estava muito apaixonado, riria da história do Chapeuzinho Vermelho se Ana a contasse e assim o quisesse.
– Coitado do cara. Já imaginou?
– Se você vier morar comigo, eu te dou os pés de urso.
– O quê?
– Os chinelos de pelos de pelúcia. São seus, se você casar comigo.
– Eu aceito. Mesmo se não quisesse, aceitaria somente pela beleza do pedido. Mas eu quero. Te amo.
Era 20 de fevereiro, chamado por eles como “o dia dos pés de urso”. Dias depois, o apartamento recebia tevê, geladeira, fogão, sofá e Ana. Mais suas roupas e centenas de livros.