Vergonha dos Pés
Capítulo 6
Estava tomada de curiosidade quando rumou para a casa em que Jaime morava. Tinha certeza de que a menina iria estar lá. Os homens são assim, acham tudo normal. E algumas mulheres assumem esta normalidade por acharem “cabeça” serem civilizadas. Ana não é deste tipo de mulher. Nada mais desagradável para ela do que essa civilidade entre dois ex-namorados. Acabou, acabou, não tem mais papo. Mas, não: eles querem agir racionalmente, afinal viveram uma história juntos “e isso não pode acabar assim, de repente”. A questão é que nada acaba assim, de repente. Sempre estão envolvidos interesses frustrados, sentimentos disfarçados. E, além do mais, duas pessoas que treparam não podem fingir que está tudo normal depois que terminam. “Nós somos amigos.” Amigo não vê xoxota nem peru do outro. Quanta palhaçada a cultura leva os homens a cometerem. Isso é um advento moderno que surge junto com o cinema francês.
Envolvida nestes pensamentos, Ana chegou à casa de número 13. Estava bem-vestida, com seu velho vestido pêssego que havia comprado há dois anos, num brechó. Tinha os cabelos soltos e pouca maquiagem. Jaime atendeu a porta e beijou levemente seus lábios. Vozes vinham da sala, e tocava uma versão decadente de Chet Baker cantando “My Funny Valentine”. Antes de entrarem, Jaime chamou Ana de “minha Valentine”. Estranhamente, ela se sentiu enciumada. Pensou que Jaime certamente já havia colocado esta música para dezenas de mulheres e chamado todas de “minha Valentine”. Assim que chegou à sala, deu de cara com a sua colega de turma, a tal ex-namorada. Tentou, num esforço sobre-humano, parecer natural, mas não se saiu lá muito bem. Jaime apresentou Ana ao resto do grupo, tratando-a como sua namorada. Mas de nada adiantava, pois para ela a situação estava irremediavelmente insustentável. Precisava beber. Não era sua intenção, afinal Jaime só a vira em estado de leve ou total embriaguez. Mas não tinha outra solução. Sentia-se travada, excluída daquele universo, que imediatamente deduziu ser “cabeça”. Pessoas letradas, gente da universidade. Pelo amor de Deus! Ana não suportava o meio universitário. Não era apenas uma estudantezinha de Letras, era uma escritora. Estava agora trabalhando num romance que seria traduzido em vários países – era o fim da picada ter que ficar ouvindo um bando de idiotas fazendo considerações sobre Proust e os seus biscoitinhos amanteigados.
Tentou conversar com um senhor que parecia, de longe, ser a pessoa mais interessante dali. E, naquelas circunstâncias, Ana fez tudo para acreditar que ele era decididamente interessante. Desatou a tomar uísque com água e a dissertar sobre a inferioridade dos atores, um dos seus temas prediletos.
– Não, fale a verdade. Você não concorda que esse povo de teatro é um bando de gente que não tem nada pra fazer, e fica se chafurdando no chão e grunhindo, experimentando novas formas de expressão?
O tom de Ana fica especialmente jocoso quando resolve falar mal dos atores. Torna-se intolerável para quem não tem um grande senso de humor. Mas, nesta noite, ela havia encontrado o ouvinte certo para o seu discurso. O sujeito havia sido casado oito anos com uma atriz e compartilhava da mesma opinião de Ana: atores são definitivamente uma gente de qualidade inferior.
– E só gostam de porcaria – lembrou, animado, Sérgio. – Todos, são todos iguais. Adoram ficar agachados naquelas mesinhas ridículas de restaurante japonês.
– Nossa! Mas enfim encontrei alguém que pensa como eu. Sérgio, você é o máximo!
Nisso, Ana já estava com a mente vertiginosamente acelerada pelo uísque. As outras pessoas tentavam não dar ouvidos para a conversa dos dois, algumas outras riam. Jaime oscilava entre achar Ana decididamente genial ou uma nazista inconveniente.
– Vamos falar mais. Há anos eu aguardo o momento de dizer tudo sobre esta ralé.
– São pessoas afetuosas, é claro. Inclusive, as mais afetuosas que eu conheço. Se abraçam, se beijam na boca, deitam um no colo do outro...
– Esta é a parte que mais me incomoda. Gente grudenta. Tudo suado. No final das peças, ficam beijando quem vai no camarim.
– Mas também vai quem quer. Eu fujo disso como o diabo da santíssima trindade. E como você aguentou todos esses anos?
– O amor tem dessas coisas. É lógico que tudo isso já me incomodava, mas tinha também uma certa vaidade.
– Vaidade? Ficar olhando sua mulher fazendo macaquices na frente dos outros?
– É. Era amor, só. Até hoje fico tentando encontrar desculpas para esse lapso.
– Relaxa. O pior já passou. Por exemplo: as festas. Existe coisa mais cafona do que festa de gente que faz teatro? Eu já assisti a cenas vergonhosas. Gente cantando e encenando música de Rita Lee. Sabe aquela que fala da Torre de Babel?
– Não me lembro.
– Eles cantavam e fingiam que estavam subindo uma torre, ou algo parecido.
– Pior, pra mim, é ter que comentar alguma coisa depois da estreia. Depois destes anos, descobri que a melhor coisa a dizer é: “Estou impressionado.”
– Não, perfeito!
– É. Porque você não está mentindo. Estou impressionado com a merda a que acabei de assistir. Estou impressionado como você é péssima atriz...
– Estou impressionada como você tem coragem de pagar mico. Ótimo! Agora não vou mais passar aperto.
– Aperto eu passei uma vez que um conhecido meu disse que só se sentiria “estreado” quando, enfim, eu fosse assistir à peça. Lá fui eu, constrangidíssimo. Porque eu acho constrangedor todo o ritual do teatro.
– Eu também.
– Então. Só uns minutos antes de terminar é que eu consegui descobrir qual dos mascarados era o tal cara. E mesmo assim estava sujeito a erros.
– E aí?
– E aí que eu tive que ir falar com ele no final. Estava disposto a dizer o de sempre, mas o cara insistiu. Então eu disse que ele havia me remetido ao poema “O Corvo”, de Edgar Allan Poe. O sujeito urrou de alegria. Chegou a me dar um beijo na boca. Disse que enfim alguém conseguia definir corretamente sua encenação.
– Ótimo. Mas de onde você tirou a ideia do corvo?
– Da roupa, que era preta.
A ex-namorada de Jaime estava conversando com ele num sofá de três lugares, mas ela fazia questão de se sentar bem próxima. Os dois fumavam um baseado e conversavam animados a respeito de uma “viagem” qualquer. Ana começou a se desinteressar pelo assunto com Sérgio. E o tempo passou a contar como numa bomba-relógio. Porque quando Ana fica com ciúmes, sua mente vai sendo lentamente inundada pela emoção irracional. E a qualquer momento ela pode cometer as mais estranhas atitudes. Foi o que aconteceu. Afinal, achava um desrespeito Jaime tê-la abandonado ali, “com aquele velho escroto”.
– Bom, desculpe incomodar. Jaime, eu já vou embora.
– Mas como?
– É. Estou cansada e vou embora. Tchau.
Estava se dirigindo para a saída. Jaime foi atrás dela.
– Mas por quê? Nós nem ficamos a sós, esta noite. Queria tanto ver você.
– Pois já viu. Tchau.
Ele segurou o braço dela.
– Larga o meu braço, por favor.
– Que é isso? Você está aborrecida com alguma coisa?
– Não tenho motivo?
– Acho que não.
– Então volta para aquele sofá ridículo para fumar maconha com a sua namoradinha.
– Você é minha namoradinha.
– Sua namoradinha, o cacete. Me deixa ir embora.
– Não, por favor. Vamos até meu quarto.
– Você não divide ele com ninguém?
– Não.
– Porque isso parece mais uma gaiola de papagaios.
Ana não compreendeu por que disse aquilo, mas tinha que manter sua pose. Foram para o quarto.
– Não fica assim. Não estou te entendendo.
– Poxa, eu venho para cá sem saber que encontraria milhares de pessoas. Não dava para me avisar?
– Desculpe. Eles são amigos dos caras que moram aqui.
– Você não acha que está velho demais para morar em república?
– Isso aqui não é república. É uma casa grande que as pessoas dividem.
– O que você acabou de me descrever é uma república.
– Pensei que você estivesse se divertindo com o Sérgio. Todos acham ele meio chato.
– Eu achei a pessoa mais divertida desta noite. O resto é um bando de porcarias.
– Não fale assim. Me dá um beijo.
Jaime abraçou Ana, ela continuou firme e emburrada. Por que os homens são tão tolos?
– Vem, me dá um beijo.
Beijaram-se. Era estranhamente arrebatador o poder físico de Jaime sobre Ana. Ele abriu os botões do vestido dela, deixando seus seios à mostra. Começou a beijá-los com calma. Ana olhou para ele – achou-o tão belo chupando seus seios. Estava de olhos fechados, parecia bastante compenetrado e feliz em fazer aquilo. Ela também fechou os olhos e relaxou o corpo, para aproveitar melhor a sensação. Jaime abriu o resto dos botões, fazendo com que o vestido caísse no chão. Ana puxou seu rosto e beijou-o na boca. O beijo na boca é, para ela, o ingresso para o resto. Só a partir dele é que poderão vir ou não a ocorrer mais coisas. Quase um vestibular. Já havia se desinteressado por muitas pessoas somente por causa do beijo. O que definitivamente não era o caso de Jaime. Deitaram-se na cama, ele ainda estava vestido. Tirou então a camisa e, antes que tirasse as calças, Ana o impediu. Queria que Jaime a comesse de calça jeans, como nos filmes americanos. Quando terminaram, Ana estava satisfeita, apesar de não ter chegado a gozar. Para ela, o orgasmo nem sempre é necessário. Gosta da ação em si, da movimentação. Depois que o homem ejacula, é como se tivesse recebido a sua cota de proteínas. Acha que aquele líquido faz bem à pele dela. Faz bem a todas as mulheres, dando-lhes viço.
Ana se vestiu e, contra a vontade dele, quis ir embora.
– Eu te levo, então.
– Não. Eu chamo um táxi.
– Mas eu quero levar você.
– Não. Prefiro ir sozinha.
Ana contava em ter que esperar o táxi na sala e cruzar novamente com “aquela riponga”. Queria mostrar para ela quem era a poderosa e quem tinha Jaime nas mãos e em outros lugares. Quando foi fazer sua higiene, fez questão de molhar um pouco os cabelos. Desta forma, diria para aquele bando de otários quem era ela, afinal. Hoje em dia, Ana acha tudo isso ridículo e preferiria mil vezes que ninguém a tivesse visto naquela noite, com “cara de trepei”. As pessoas fazem tantas coisas de que se arrependem que, se tivessem vergonha na cara, não fariam mais nada na vida.
No caso de Ana, conforme os anos vão passando, tudo que fez, aos seus olhos, parece ridículo. Quando se lembra das cartas de amor que já escreveu, tem vontade de se jogar do mais alto prédio da cidade. Dos ataques de ciúmes, ela comprime a cabeça com as mãos, tentando massacrá-la. Odeia lavar louça, pois este é o momento das piores lembranças. Costuma uivar para tampar a própria memória. Assim como quando se lembra das passagens tristes, aperta um gatilho imaginário no meio da testa.
Gostaria de esquecer muita coisa. Não se esquece nem do que deveria ir para o lixo. Acontecimentos que o cérebro, com toda a sua sofisticação, deve tacar na latrina. Por isso, quando está sem fazer nada, mesmo seu estado de intenso ócio criativo nem sempre consegue sossegar Ana. Ocorrem, nessas ocasiões, “visitas”. Mais ou menos como os inimigos imaginários de sua tia esquizofrênica. São pensamentos realmente depressivos, que a conduzem a se imaginar nas piores situações. Pode ser desde estabacar-se em festas, até ser assassinada com torturas mirabolantes. Não há nenhuma satisfação mórbida nisso, apenas foge ao seu controle. Quantas e quantas vezes imaginou Jaime com outra. Ou que ele um dia diria para ela: não quero mais ver você, não te amo. Uma espécie de masoquismo sem prazer, que ainda por cima faz Ana reagir com doenças crônicas, que nunca a abandonam. Muitas foram as noites tomadas por insônias e hipocondrias inteiramente descabidas, mas verdadeiramente sofridas – sintomas imaginários que, por fim, a levavam sempre para uma crise asmática.
Jaime sempre disse para Ana que ela gasta muito tempo pensando besteiras. Ele tem razão. Quando não inventa histórias ou se imagina morta num acidente de ônibus, Ana pensa em vestidos. É como se fosse a hora do recreio mental. Quando precisa de um mirabel de chocolate com guaraná. Aí, ela se esbalda: vestido de canutilho preto e vinho, vestido longo com um decote esplendoroso atrás, vestido de seda azul-petróleo, vestido...
“Quero me levantar. Será que estou fadada a continuar fingindo que durmo para o resto de minha vida? O que ele ainda está fazendo aqui? OK, queria me ver. Comprou um ventilador para mim. Quanta gentileza! Mas tá bom. Vai embora. Se quer conversar, eu não quero. Que merda! Serei forçada a tratá-lo mal, dizer coisas que irão magoá-lo. Coitado. Ele acha que me perdeu por ter me traído. Para mim, é melhor que continue pensando assim. Bem feito. Esses filhos da puta são todos iguais. Menos ou mais escrotos, nada mais. Há aqueles que armam descaradamente e os que a ocasião faz o ladrão. Jaime é um escroto de ocasião. Não faz o gênero de passar bilhetes debaixo da mesa, mas jamais negará uma fellatio de uma loura vulgar. A mulher tava ali, naquela hora, ele, bêbado, e pronto. É só um orgasmo, sem amor, sem beijo na boca. Coisa de caminhoneiro solitário, na estrada há quinze dias, longe da mulher que ama e dos filhinhos. Na hora da justificativa, são todos caminhoneiros. Por que pensei nisso, agora? Foda-se. Eu acho muito engraçado, tudo isso. Depois que peguei o escroto sendo chupado por aquela mulher sem classe, cheguei a me sentir culpada. Afinal eu não tinha nada a ver com aquilo, não me dizia respeito se o cara tava ou não sentindo prazer, se depois ele ficaria se sentindo bem ou uma merda. O meu ciúme dura o mesmo tempo que o amor, talvez até menos. Naquela noite, agi muito mais por agressividade natural e vontade de meter a mão na cara de alguém, do que por ciúmes. Coitado. Era o motivo que eu precisava, para dar fim ao nosso casamento. Sou uma atriz do caralho. Se eu fosse americana, seria atriz de cinema. Do estilo Scorsese ou David Lynch. No Brasil, jamais. No Brasil, cinema é beijar cavalo nua, pintar a cara de vermelho e comer barro. Deus me livre e guarde! Mas que eu sou boa, sou. Bem feito! Quem mandou cair em tentação? Que nojo! Imagina se eu iria deixar um estranho se meter entre as minhas pernas?
Peguei ele com a boca na botija, ou melhor, com a botija na boca da puta. Ridículo! Não tenho que ter consideração nenhuma com este escroto traidor.”
– O que você ainda está fazendo aqui?
– Esperando você acordar. Precisamos conversar...
– Não temos mais nada pra conversar. Vai embora.
– Você tem razão de estar chateada. Eu entendo que você queira ficar sozinha. Estou achando até legal morarmos em casas separadas. De certa maneira, é a primeira vez que moro realmente sozinho. Estou me acostumando, acho que vou acabar gostando... Mas preciso te ver, te beijar...
– Jaime, acabou. Você não consegue perceber?
– Você disse que apenas daríamos um tempo.
– É o que se diz quando tentamos ser gentis com aqueles que não queremos mais.
A cara de Jaime está inchada, cinza e brilhosa.
– Você tem que entender que aquela mulher, naquela noite, não significou nada. Eu estava bêbado.
– E cu de bêbado não tem dono. Sei. Sabe de uma coisa, Jaime? Foda-se. Você e quem mais você tiver trepado.
– Eu não te traí nenhuma outra vez. Você tem que me perdoar.
Ele está sendo sincero. Coitado. Sente-se culpado, mas a culpa não é dele.
– A culpa é sua! Não fui eu quem colocou o seu pau na boca daquela francesa fedorenta.
Ele não merece, mas vai escutar o que Ana quiser dizer. Agora ela quer magoá-lo.
– Sabe o que aconteceu? Você é um índio sul-americano. Um latino vestido de linho braspérola e com sapatos brancos. Você é um espécime em extinção. Um tipo excêntrico para gringo ver. Para esta puta mon amour, felar você é o mesmo que visitar a Amazônia. É como abraçar uma árvore centenária que será derrubada para virar gibi. Ela saiu do seu país, onde vive entre louros, olhos azuis, museus e romances no original, para oferecer colares de miçangas para otários como você. Ela poderá dizer que, no Brasil, viu o Cristo Redentor, bebeu água de coco e meteu dezoito centímetros de um latino-americano na boca. E ainda levou como cartão-postal um olho roxo que ganhou de uma terceiro-mundista ignorante. Eu! Uma louca paraguaia, que assiste novela mexicana o dia inteiro. Uma boliviana do cartel de Medellín, uma vendedora de cuscuz. Foi nisso que você nos transformou. Eu, numa histérica sangue quente, e você, num aborígine com uma pena no cu.
Jaime se contorce para não rir. Sabe que Ana odeia quando está dizendo algo sério e alguém ri. A questão é a maneira como diz as coisas, quando está com raiva. Suas metáforas vão do hilário ao devaneio total. Jaime adora Ana por isso, por sua sagacidade. Quer beijá-la. Vai tentar fazê-lo.
– Me larga!
– Só quero um beijo.
– Não!
Ela se sente agoniada com aquele corpo, exigindo o seu. Jaime mete a língua dentro da boca de Ana. Ela tenta expulsá-lo, mordê-lo, mas não consegue. Sente-se sufocada, quer cuspir essa saliva invasora, vomitar. Ele agarra com mais força, está com o pênis duro. Ana não sente isso como um gracejo. Agora, acha tudo muito grosseiro. Não quer excitar ninguém e muito menos se excitar. Tenta afastá-lo novamente. Empurra o seu tronco, mas está presa pela cintura.
– Para! Por favor.
– Eu te amo, Ana. E você também me quer.
“Será que ele acredita realmente que é isso que eu quero?” Jaime deita Ana no sofá. Ela se debate, mas receia fazer barulho. “Neste prédio velho, tudo se ouve.”
– Jaime, eu não quero.
Ele mete novamente a língua na boca de Ana. Jaime está tomado pelo seu desejo. Tira a calcinha de Ana. Ela não acredita no que está acontecendo. É por demais clichê, isso não acontece na vida real. Não na vida de Ana. Isso é literatura, é coisa para Lívia viver, ou outra personagem qualquer inventada por ela. Mas não com Ana. Não Jaime.
– Você está me machucando!
– Quero te dar prazer. Sei que você também quer.
– Não!
Agora Jaime está dentro dela. Estava sem cueca, bastou descer a calça comprida. “Será que ele veio preparado para isso?” Ana fecha os olhos, ele beija seu pescoço enquanto se movimenta. Vai e volta. Ela não sente mais nada, nem dor, nem prazer. Apenas deseja que ele acabe, por isso tenta distrair a mente. Queria lembrar uma música qualquer, bem idiota. Não consegue. “Pelo menos ele não é gordo. Homens gordos não estupram.” Jaime diz coisas no ouvido de Ana, diz que ela é gostosa, quente, e que ele a ama. Calou-se. Somente a sua respiração e o barulho do sofá denunciam a ação. Ana, também calada, pensa num quadro de humor que Jô Soares fazia há alguns anos, a Bo Francineide. Tem vontade de rir, Bo estaria adorando esta situação. Ana não sente nada. Jaime goza.
– Agora vai embora.
Jaime ainda está em cima de Ana. Ela o empurra, não com agressividade, apenas precisa respirar. Consegue sair do sofá.
– Por favor, quero ficar sozinha. Você entende?
Sente a sua vagina molhada, latejante, o esperma começa a descer pela perna direita. Acha estranho a escolha do líquido por esta e não a outra perna. “The other.” Precisa se lavar.
– Você não gostou.
Jaime está sentado no sofá, catatônico. Parece que acabou de acordar e não sabe onde.
– Você não gostou, não é?
– Deixa isso pra lá. Vai embora, por favor.
Ela não está aborrecida. Tem pena dele. Do desespero que o levou a isso. Algumas vezes, é mais difícil abandonar que ser abandonado.
– Estou envergonhado.
– Esquece.
Ana não está sendo falsa, nem compreensiva. Ela quer que ele a deixe em paz e siga sua vida da melhor maneira possível. Não lhe deseja mal.
– Já vou. Desculpe.
Ela vai com ele até a porta. Coitado.
– Vá com Deus.
Por que ela disse isso? Não é um hábito, nunca havia desejado a ninguém a companhia de Deus. Cada um sabe com quem deve andar. Mas deseja verdadeiramente que Jaime esteja com Deus. Não quer que ele faça mais nenhuma besteira.