Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 9 de 23

Páginas do PDF

Vergonha dos Pés

Capítulo 9

“A convivência é, sem dúvida, um exercício árduo. Essa situação de bando é uma forçação de barra da herança primitiva do Homem. O Homem de hoje vive em sociedade por obrigação. Vai ao trabalho rezando pela hora de retornar para casa e se enfiar na cama. Agrupa-se, mais por medo que por prazer. Se tivesse mais pelos, como os ursos, talvez fosse capaz de andar mais solitário. É o frio que une as pessoas. O frio metafísico que gela os ossos e as almas. O Homem receia a solidão, sente-se desprotegido, precisa de alguém para alimentá-lo. Quer que lhe mastiguem a comida. Quer comida em forma de papa.” Ana se refugiava em seus pensamentos, enquanto assistia a mais uma aula de Linguística. Odeia esta matéria. Simplesmente não consegue entender como alguém ainda tem coragem de ficar “nesta punheta, de signo e significante, que diz e desdiz ao mesmo tempo, que é e não é nada”. “Ficam debatendo sobre essa lenga-lenga de Saussure, que não passava de um viajandão, que não tinha nada o que fazer e por isso ficava punhetando essa porcaria de merda. Porra! Não aguento essa aula.” Ela não entende e nem se esforça para tal. Considera estas horas as mais inúteis da semana. Tempo precioso jogado fora. Com o agravante de ser obrigada a olhar para a cara da ex-namorada de Jaime. “Petulante! Insiste em me cumprimentar, como se nada tivesse acontecido. Gente, eu roubei o namorado dela! Reaja, me odeie! Deve odiar, é que se faz de moderna. Odeio essa gente. Gente que se agrupa. Um horror!” A aula interminável terminou. Ana saiu da universidade e foi se encontrar com Jaime. Era um momento de rejúbilo. Costumavam comprar alguma coisa para comer no apartamento, que a cada semana se tornava mais aconchegante e adorado por ambos. Ana ainda não havia contado à mãe sobre sua última decisão. Sabia que a mudança não seria do agrado de Helena, mas não temia nenhuma represália. Afinal, de tudo o que aconteceu entre ela e seus pais, o melhor era a liberdade de não dever nada a eles. Poderia até dançar cancã nua, na praça da igreja, que ninguém tinha nada a ver com isso. Era livre! Desejava realizar sua devoção a Jaime, e o faria por vontade própria. Estava preparada para não se deixar dominar, caso não quisesse desta maneira.

Mais ou menos nesta mesma época, Ana recebeu a notícia da gravidez de Elisa. Demonstrou seu espanto com a novidade, falou sobre isso durante uma semana inteira. Elisa, grávida? Jamais chegaria a imaginar.

– Jaime, Elisa é totalmente porra-louca! Se bem que a notícia de eu estar morando com você deve ser, para ela, tão chocante quanto a gravidez dela, para mim.

– Por quê?

– Ah, não sei... Eu não sou exatamente uma pessoa com alma “casadoira”. Sempre gostei de ficar sozinha.

– Mas agora não vai ficar sozinha nunca mais.

 

Gargalhadas. A paixão, quando se cristaliza e se fortifica, perde qualquer constrangimento. Assume-se. Deslancha em situações quase ridículas, onde somente as duas pessoas em questão compreendem de fato o que se passa. E nada passa. O mundo inteiro pode se acabar lá fora, que nenhum estilhaço alcançará o universo da paixão. No caso de Ana, o apartamento que agora dividia com Jaime. Aquele lar, com cada detalhe escolhido a dois, era enfim uma caixa na qual Ana poderia se fechar. Trancou-se lá dentro e cada “não fazer nada” ao lado de Jaime era uma festa. Não queria saber de perder tempo diante de um livro, não queria ir a um cinema, não queria encontrar pessoas, visitar Elisa, conhecer ninguém. Para Ana, ela já tinha em casa a melhor opção no mundo, o seu marido. E, realmente, aqueles primeiros meses, mesmo pontuados por algumas demonstrações estranhas da complexa personalidade de Ana, podem se dizer perfeitos. Ana e Jaime. Mil gargalhadas. Estavam inspirados pela vontade de conquistar, cada dia mais. Cada frase, mais brilhante que a anterior. O exército de amantes de Platão não poderia ser mais forte, se eles fossem seus soldados. Eram corajosos, destemidos, sonhadores, crianças, adultos. Foram um para o outro mãe, pai, filho, filha, cachorro, amigo, marido, mulher. Estavam completos. Podiam ficar – como ficaram – horas sentados num banco de um shopping center acimentado, que não trocariam o lugar por toda a Manhattan.

Era domingo e, somente muito apaixonada, Ana aceitaria ir até um shopping assistir a um filme. Fila longa, gente estranha, cinema sem ar-condicionado.

– Vamos embora.

– O quê?

– Cinema sem ar-condicionado, fila... Olha esse casal atrás de você.

– Nossa.

– Eu, se pudesse, matava. Se me garantissem que eu não ia presa, dava um tiro na testa de cada um.

– Primeiro tiro, nela.

– Não. Primeiro, nele. Ninguém pode usar um cabelo desse em público.

– Tem razão. Primeiro, nele.

– Vamos sentar naquele banco?

– E aquela mulher ali. Eu matava aquela mulher.

– Merece. Cara de preconceituosa porca, daquelas que são ignorantes por preguiça.

– Piul! Matei. Com a minha arma metafísica de morte instantânea.

– Aquele ali, você mataria?

– Qual?

– O de pochete.

– Com uma bala no peito.

– Eu mataria aquela ali, com o cabelo repicado. Escrota, filha da puta!

– Por quê?

– Conheço aquele tipinho, sonsa, leva a vida na flauta.... Vai fazendo merda e depois diz que não percebeu.

– É. Você tem toda razão. Ela merece ser morta a chutes.

– Aquele velho ali?

– Não. Aquele eu deixo, deixo. Mas se vacilar, morre também.

– Ih, olha lá, olha lá! Aqueles moderninhos. Eu matava com choque. Que ridículos. Olha lá, eles leram em algum lugar que é moderno usar essas calças “caga na saca”.

– Eles são “clubbers”.

– Eles são “cybex”.

– É de dar porrada, não é não?

– Piullll! Matei, meu amor. Não se preocupe que eles não vão mais te incomodar.

Ana e Jaime se beijaram. Já não tinham mais nada a fazer naquele lugar e voltaram para a “caixa” deles, viver a certeza de um amor eterno.

“– Eu nunca irei deixá-la sozinha – disse Mirna, certa vez, para Lívia. E agora iria rever a sua amiga, que de alguma maneira sempre esteve ao seu lado. Estava nervosa enquanto aguardava sua chegada ao aeroporto. Jonas tentava disfarçar o mau humor. Perdeu um importante encontro com homens do governo, só para ir buscar a amiga de sua esposa. Mas não podia contrariá-la. Sabia que este era um momento que Lívia aguardava há muito tempo. Era um bom ator, sabia representar as emoções que fossem necessárias. Aprendeu esta arte com as dificuldades da vida. Até casar-se com Lívia, nunca havia sentido um afeto verdadeiro, experimentara somente o desprezo e a dureza. Assim que se formou, notou que não poderia carregar sua origem para sempre, demonstrando rancor ou tristeza. Para qualquer pessoa, Jonas é um homem de berço, que só viveu alegrias na vida. Ele encena um passado perfeito, pois sabe que, no meio em que vive, ninguém quer escutar lamentos de pobreza e abandono.

Agora, ali, estava vestido impecavelmente com seu terno cinza. Sabia utilizar-se de sua aparência. Era um homem decididamente bonito. Alto, esguio, com os cabelos negros que contrastavam com sua pele branca. Seus olhos eram castanhos bem claros – não esverdeados, mas mel.

Assim que desembarcou, Mirna procurou com os olhos a amiga. Encontrou-a, mas teve que esperar suas malas para poder, enfim, abraçá-la. Enquanto isso, Jonas pôde observá-la. Pelas suas roupas, gestos, cabelos e tudo o mais, ele esperava ter uma prévia sobre quem era essa mulher. Sabia que a opinião de Lívia estava sobrecarregada de lembranças juvenis, e que a adolescência não é exatamente a melhor época para conhecer o esqueleto emocional de uma pessoa. Lá estava uma mulher de aparência incomum, apesar de vulgar, mas não no sentido da mediocridade e, sim, de uma certa sexualidade aparente. ‘Uma putinha’, constatou Jonas nos quinze minutos que pôde vê-la sem que ela estivesse preparada para isso. ‘Uma putinha mimada, metida a besta.’ Pronto, estava feita a sua análise profunda. Dificilmente Mirna conseguiria desfazer esta imagem na cabeça dele. Jonas é um homem observador e tem um alto número de acertos em suas primeiras opiniões. Aprendeu a ganhar no jogo desta forma, analisando detalhes do adversário.

Enfim, Mirna conseguiu livrar-se da fila que a conduzia para o salão onde se encontrava o casal. Estava esfuziante por ver Lívia. Assim que se aproximou dela, largou seu casaco e bolsa no chão, abraçando-a fortemente. Jonas achou tudo aquilo ‘ridículo, sem a menor compostura, uma original novela mexicana’. Depois de um abraço de pelo menos cinco minutos, Jonas enfim foi apresentado a ela. Mirna o beijou carinhosamente no rosto. Jonas disse estar comovido por conhecê-la, depois de tantos anos de expectativa. Era um falso, mas não demoraria por deixar claro a sua antipatia por Mirna.”

Ana não mais anotava a matéria, nem sequer escutava o que os professores falavam. Odiava ter que estar ali, achava tudo aquilo completamente inútil. Sua implicância com o curso fazia com que se sentisse realmente ultrajada ao ter que acordar para ir às aulas. Quando ingressou na universidade, ela pensava que estudar Literatura seria algo bem diferente do que na verdade se revelou ser. Preparou-se com animação para o vestibular. Seu maior desejo era cursar Letras, e exatamente naquela faculdade. Passou em quinto lugar. Depois de fazer a matrícula, inscreveu-se para ganhar uma bolsa. Teve que atravessar longas entrevistas até provar que não tinha meios de financiar o curso. Alegou ser filha única de mãe solteira – que não apoiava a mudança de cidade. Sua única fonte de renda era o aluguel de duas pequenas salas, que o avô passou para o nome dela antes de morrer. Conseguiu uma bolsa integral. Começou a assistir às aulas com algum entusiasmo. Mas rapidamente notou que o seu grande sonho era, na verdade, um grande fiasco. Achou um crime o que os professores falavam sobre poesia. Tudo tão cheio de regras e nomenclaturas burocráticas. Sentiu o desprezo dos professores por seus alunos. Como se todos fossem um bando de iletrados, que estavam neste curso porque ele tinha mais vagas que as outras profissões. “Um curso para moças normalistas e bichas de subúrbio.”

Já no primeiro semestre, Ana estabeleceu para ela mesma uma rígida disciplina que ajudaria a cumprir aquele “castigo”. Saiu-se bem, até que foi morar com Jaime. Ele, um bom e aplicado aluno, ao contrário do que se podia esperar, fez com que Ana sentisse ainda mais antipatia pelas aulas. Acordava, como agora, às seis horas da manhã. As aulas começam às sete – e ela costuma ser exageradamente pontual. Mas o faz tomada de ódio e convencida de que nada vai aprender além de regras antiquadas, conceitos socialistas defasados e ideias equivocadas sobre o que é literatura. Quando ainda se dedicava ao romance, era mais fácil aguentar as cinco horas que passa dentro da sala de aula. Pois se o professor era maçante, sua mente se encarregava de distraí-la. Hoje, não mais. Hoje, é aproveitar a licença e depois voltar ao seu tédio, à sua tristeza e solidão. Voltar aos salgadinhos da cantina, à Coca-Cola, aos banheiros. Sentar-se no pátio, olhar as roupas vulgares das mulheres paulistas, todas vestidas iguais e sem se importar de se parecer umas com as outras. “Milhares de fuscas brancos.” Daqui a alguns dias, quando a mentira tiver cumprido seu intento, Ana terá que se sentar novamente na sua carteira, abrir seu caderno vazio e tirar várias xerox de textos que não lerá. Vai voltar a estar sozinha entre milhares de fuscas, silenciosa, como um carro velho abandonado no estacionamento. Não anda mais, não buzina, só fica ali, esperando que o tempo seja clemente e acabe corroendo logo sua lataria.

Enquanto Jaime preparava sua tese sobre Nelson Rodrigues, Ana tentava acordar diariamente sem experimentar um terrível mau humor. Despediam-se, e ela ia automaticamente para a aula. Foi numa dessas manhãs que aconteceu o pior: o professor de Grécia Antiga resolveu ousar e dar suas aulas de forma aristotélica. Ou seja, “fazer uma releitura do estilo peripatético de ensinar”. Ana chegou na sala e havia um enorme rebuliço. Pessoas arrumando os cadernos, excitadas, com caneta em punho. Ela nada fez – sentou-se e ficou calada, observando. Até que alguém solidário e simpático se aproximou, esclarecendo o que ocorria.

“Não! Não estou acreditando. Eu vou ter que me expor com essa gente horrorosa, pelos pátios da universidade. Que vergonha! De jeito nenhum.” Já estava se preparando para ir embora, quando o professor informou que “os mais espertinhos que ousassem partir” teriam os nomes anotados em sua lista negra. “Cacete! Esse merda leu meus pensamentos.” E lá foi ela, entre outros quarenta alunos e o mestre, perambular pelo campus. O sujeito, realizado por ter o poder de controlar o seu exército de alunos, esbravejava o Mito da caverna, A poética, A república, O banquete, com a boca cheia. Enquanto isso, os mais eufóricos faziam perguntas tolas, enaltecendo o ego do patético professor. Ana, esgueirando-se no meio da pequena multidão, tinha vontade de morrer. Sinceramente clamava pela justiça de Deus – que a levasse dali para uma outra realidade. Que a carregasse para uma dimensão qualquer, até o Inferno servia, pois achava impossível que fosse pior do que aquilo. Fazia um dia quente e sua pele branca ia se tornando cada vez mais vermelha, enquanto grossos filetes de suor corriam-lhe pelo corpo. Não conseguia mais ouvir direito, apenas um burburinho insistente, que magoava os seus ouvidos. Aquelas mulheres de “calça bailarina, babucha, camisões e bolsas tipo sacola da Victor Hugo” começaram a ficar maiores do que ela, crescendo por todos os lados. Suas bocas já eram bocarras pintadas de vermelho e seus cabelos “repicados com luzes” tornaram-se serpentes, como na cabeça de Medusa. Lembrou-se de Monteiro Lobato, lembrou-se da Cuca, do Visconde de Sabugosa e da Emília. Lembrou-se de tia Marta, uma amiga de sua mãe, que a chamava de Narizinho quando criança. “Tia Marta morreu de câncer.” Lembrou-se da morte. Desmaiou.

Quando recobrou a consciência, estava na enfermaria de mãos dadas com Alexandra, a “riponga”. Tentou fingir que continuava desmaiada, mas a moça percebeu que Ana havia acordado.

– Está melhor?

– Estou ótima.

– Ótimo.

– Como é que eu cheguei aqui?

– Seu Carlos.

– Ah.

– Eu liguei para Jaime. Ele está vindo.

“Como essa escrota sabe o nosso telefone?”

– Não era preciso – largou a mão de Alexandra. – Estou ótima. Preciso ir embora.

Levantou-se com pressa. Sua cabeça girava, sentiu-se fraca, mas manteve a postura. Queria ir para casa. Talvez, com sorte, ainda encontrasse Jaime. Queria vê-lo. Sentia medo.

– Você devia esperar por ele.

– Não. Já disse que estou bem.

– Você que sabe.

– Tudo bem, obrigada, mas preciso ir.

Pegou sua bolsa e saiu do ambulatório. Já no corredor, teve a nítida impressão de que todos estavam olhando para ela. Uns cochichavam, outros apontavam para ela. Mas tudo isso realmente não passava de impressão. As pessoas sempre acham que todos em volta estão reparando nelas o tempo inteiro. Que o seu problema é o maior de todos – na verdade, o único, e que o mundo está atento a ele. Naquele instante, Ana teve a certeza de que toda a universidade estava comentando o show que tinha dado. Cada um, no entanto, cuidava da própria vida, preocupado com suas próprias gafes, tentando esconder suas próprias fragilidades. Ana tinha tentado o mesmo, diante da sua “rival”. Era a última pessoa no mundo a quem gostaria de dever um favor. “Ela fez de propósito.”

Pegou um táxi, desceu correndo e, ao entrar no prédio, perguntou ao porteiro por Jaime.

– Ele saiu faz um tempinho.

“Merda! Está tudo errado. Que dia horrível. Por quê? Por quê?” Porque era outubro. Ana ainda não havia se dado conta de que o mês mais cruel de todos já tinha começado. Estes são, para ela, os trinta dias mais difíceis do ano. Sempre foi assim. Depois que cresceu, disseram que tudo não passava de “inferno astral”. Mas ela não acreditou, pois não acredita em muitas coisas. Prefere imaginar que, por ser outubro o mês de início da terrível expectativa do final do ano letivo, há um “cansaço colegial” que invade o corpo das pessoas. “Março é a largada e outubro é a reta de chegada.” Mas não é nada disso. Na verdade, Ana teme a chegada da data do seu aniversário – quando o telefone ora toca e ora não. Até que o dia acaba, e Ana conclui mais uma vez que poucas pessoas se lembraram dela. E que seu pai novamente se esqueceu.

Assim que chegou em casa, Ana tirou a roupa que vestia e jogou dentro do tanque. Era um vestido leve, de tecido vagabundo. Teve ódio daquela estamparia cretina. “Florzinhas.” Lembrou-se do seu Carlos, o supervisor do prédio quatro. “Agora, veja que ridículo: eu carregada, sabe-se lá como, pelo seu Carlos.” Olhou para a sua calcinha, era branca, já velha. Daquelas que ela jamais vestiria se soubesse que seria exposta em público. “Bem que minha mãe diz que, se eu sofrer um acidente na rua, é melhor eu morrer, pois minhas calcinhas são tão vergonhosas que até uma enfermeira de hospital público repararia.” Ana tirou também a calcinha e jogou em seguida no tanque, junto ao vestido. Depois se sentou num banquinho na área de serviço, diante das duas peças de roupa. “Estou tão triste. Não entendo por que essas coisas acontecem comigo. Devo ser má, devo ter sido horrível na minha outra encarnação. Acho que fui Hitler, ou aquele cara que matou a Sharon Tate. Não, esse não, o cara ainda está vivo. Devo ter sido Herodes. Porra! Que vergonha. E, além de tudo, ainda sou traída. Por que Jaime deu o nosso número para aquela mulher? Quando esteve com ela? Ai, que tristeza!”

Pronto: todas as dúvidas e pensamentos negativos começaram a vagar pela cabeça confusa de Ana. Sentada ali, nua, diante de suas roupas velhas, ficou com uma enorme raiva de Jaime. Queria matá-lo. Naquele instante, ela tinha certeza de que Jaime estaria tomando um chope com “aquela cretina”, no bar em frente da universidade. “Mas isso não vai ficar assim. As pessoas pensam que eu sou uma idiota, mas elas vão ver uma coisa. Cansei dessa vida miserável! Quero que todo mundo se foda.” Ana se levantou do banco, pegou a garrafa de álcool e esguichou o líquido dentro do tanque. “Quero ver o circo pegar fogo!” Acendeu um fósforo e jogou. Acendeu outro, e outro. Ficou diante do fogo, sentindo um calor gentil em seu púbis nu. Esqueceu de tudo, olhando as labaredas. “Tão lindo é o fogo. O fogo é verde.”

– Ei! Maluca! Quer botar fogo no edifício?

Ana olhou pela janela. Era o velho sem dentes do andar da frente. Ficou com nojo daquela boca. O velho atrapalhou a beleza da cena. A vida trouxe um personagem vulgar e sujo para lembrá-la de onde estava. Estava no seu pequeno apartamento, queimando sua roupa velha, depois de ter desmaiado diante de toda sua turma e ser carregada por seu Carlos. E fogo não é verde. Abriu a bica e deixou a água correr, apagando o fogo, até que sobraram apenas restos de tecido chamuscado e fumaça.

Quando Jaime chegou, após sua aula, encontrou Ana deitada nua no sofá. Estava dormindo. Jaime não quis acordá-la, pois a achou tão linda e calma. Colocou sobre ela um lençol e fechou as cortinas. Ana despertou de madrugada, sem saber ao certo onde estava. Percebeu que Jaime já havia chegado pelo lençol. E, para ela, o fato de ele não tê-la acordado era uma confissão de sua traição. Não existia nada que pudesse provar o contrário. Ana foi até o quarto e sufocou Jaime com um travesseiro. Ele acordou assustado, empurrou o travesseiro com força, Ana caiu no chão e bateu com a cabeça na mesinha de cabeceira.

– Ana! O que é isso?

– Você me machucou!

Gritou, mostrando o sangue que havia em sua cabeça.

– Mas você estava tentando me matar.

– É lógico que não! Olha o que você fez, seu monstro!

– Calma, meu amor. Deixa eu ver.

– Não toque em mim. Eu te odeio.

Jaime foi até a cozinha e pegou um copo de água com açúcar.

– Toma. Agora fique calma. O que aconteceu hoje?

– Aconteceram milhares de coisas, mas você estava muito ocupado com a sua amante.

– Ana, o que é isso?

– Isso é falta de caráter.

– Você está falando da Alexandra?

– Tem mais alguém?

– Pare com isso, eu já te disse que não existe nada entre mim e aquela figura.

– Jaime, eu já tenho uma vida muito difícil para ficar sofrendo por causa de um homem. Eu vou deixar de te amar.

Coitado. Havia sido um dia difícil também para Jaime. Quando chegou esbaforido na universidade e não encontrou Ana, tentou telefonar para casa – mas só dava ocupado. O destino, esta máquina de pequenas felicidades e grandes equívocos, fez com que Jaime deixasse o fone fora do gancho, depois da ligação de Alexandra. Procurou a ex-namorada e foi informado de que Ana tinha passado mal e desmaiado, mas que não quis esperar por ele. Alexandra alertou que, possivelmente, a “sua esposa” não estava atravessando uma boa fase.

– É perceptível. Ela não fala com ninguém, vive quieta num canto. Sua aparência anda estranha. Desculpe, mas acho que ela tem sérios problemas emocionais.

– Quem é você para dizer isso? Ana é uma pessoa mais sensível, só isso. Parece que o mundo não consegue compreender quando aparece alguém tão delicado quanto ela.

Jaime passou horas no telefone, sem conseguir falar com a sua adorada Ana. Pensou em voltar para casa, mas a maquineta do destino já estava fora de controle: fez com que tivesse uma reunião marcada com o seu orientador. E essas coisas são inadiáveis. O encontro durou horas, pois era um dia importante para Jaime decidir os caminhos de sua tese. Assim que conseguiu se desvencilhar do professor, correu de novo para o telefone. Ainda estava fora do gancho. E o destino... Teve que ir para a aula, havia uma prova – onde, inclusive, não se saiu nada bem, devido ao seu nervosismo. Assim que pôde, foi embora. E agora, isso: Ana, descontrolada, tentando sufocar sua respiração com um travesseiro. Não era justo, embora compreensível. Ana entendeu tudo errado. Na cabeça dela, Jaime chegou na universidade e a “riponga” correu para contar de seu desmaio – “exagerando, claro”. “Talvez tenha dito até que eu tive convulsões, ataques epiléticos.” Aí Jaime sentiu saudades da ex-namorada, comparou as duas e decidiu optar pela outra. Convidou-a imediatamente para uma cervejinha no bar. Chegou em casa de cara cheia, e preferiu não acordá-la, para evitar brigas. Pronto. Um mal-entendido puxa outro, que puxa outro. E duas pessoas acabam sofrendo. Duas pessoas que se amam e sofrem por nada.

– Ana, pelo amor de Deus!

Jaime abaixou a cabeça e começou a chorar. Ana nunca tinha visto sequer uma lágrima sair dos seus olhos. Pensava até que jamais veria, pois assim é com os homens. E agora ele estava ali, de cabeça baixa, chorando. Tinha sido acordado pela mulher que ama, em pleno ataque de loucura. Machucou-a para se defender, e agora chorava. Para ele, era uma vergonha se mostrar tão frágil. Mas amava Ana e ela não estava entendendo nada, estragando tudo com sua desconfiança. Jaime compreendia que Ana não tinha os seus sentimentos em ordem, como a maioria das pessoas que ele conhecia. Ela é diferente. Ele sabia disso. Entendia seus temores e que ela faria tudo para se defender dos sofrimentos de um abandono. Jaime conheceu Ana profundamente enquanto estavam juntos. Sabia o porquê dessa fobia neurótica por qualquer tipo de traição.

– Eu te amo! Não faça isso comigo – ele disse.

Ana sentia-se pior, nesse momento. Não podia fazer tão mal assim a um homem, a ponto de fazê-lo chorar feito uma criança. Não é cultural, o choro masculino. E é tão triste vê-los assim, sabendo o quanto custa para eles, para seus orgulhos, chorar. Ela se sentiu um monstro, ruim, perverso. Era por isso que não tinha ninguém. Só mesmo a louca da Elisa era sua amiga. E a única pessoa que realmente a amava, ela fazia chorar.

Pegou a cabeça de Jaime e a segurou entre os seus seios nus. Sentiu suas lágrimas quentes correrem até a sua barriga. Imaginou uma delas caindo dentro de seu umbigo.

Dormiram abraçados. Quando Ana se levantou, de manhã, encontrou a mesa posta e uma rosa sobre ela. Jaime tinha saído para a universidade, andava às voltas com a formatura. Mas antes preparou uma bela surpresa. Com frutas, pães, queijo e iogurte. Ana adora iogurte. Ficou emocionada, chorou. Mal começou o dia e já estava chorando. Havia algo de errado com ela. Talvez pressentisse o fim de seu amor, e estivesse sofrendo por esta incapacidade de ser feliz. Porque alguém que decididamente foge da ideia de felicidade precisa ser muito ruim, muito miserável. Este não é o caso de Ana. Ela gostaria de viver feliz, se houvesse uma felicidade diferente das que ela conhece. Ana olha, de fora, e não entende o que significa ser feliz – o que é isso lá por dentro, o que acontece com os órgãos de uma pessoa que vive com as cores, com o vento no rosto, que fica olhando um céu estrelado. Ela não sabe o que é ter sido uma criança leve, com sua pequenina existência livre para assistir à tevê até tarde, e comer um saco de biscoitos na hora do almoço. Ela não sabe o que é ser amada, não por não ter sido, mas porque não conseguiu aproveitar amor algum. Sua mãe a ama, mas ela não sente este amor. Elisa a ama, mas ela não valoriza este amor. Vinícius? Ela não sabia mais se queria este tipo de amor. O que leva Ana a ser assim? O mesmo que leva as outras pessoas a serem como são. Um misto de coisas, a sua natureza, o seu passado, uma certa falta de talento para conviver com os outros. O inverso dessas coisas é o que faz Jaime ser tão espontâneo, tão feliz. E isso começou a perturbar Ana. Chegou a invejá-lo, ao mesmo tempo ficava entediada com toda essa alegria. Olhava Jaime, enquanto ele conversava com os amigos do curso, impressionada com a sua capacidade de gostar daquilo tudo. Ana achava tudo “uma grande merda sacal”. Ao vê-lo satisfeito, graduando-se com tanto aproveitamento, cogitou que talvez fosse ela a “merda sacal”. E antes que começasse a acreditar decididamente nisso, passou a crer que Jaime é que era um idiota. Todo dia, quando acordava e ia para a aula, com um cansaço imenso, lembrava de Jaime, sorridente, animado com cada “livro estúpido” que tinha que ler. Adorado pelos professores, sem bajulá-los. Suas críticas eram ouvidas e respeitadas. Quando ele, incentivado por Ana, fez um seminário sobre Semiótica – no qual metia o pau na linha seguida pelo corpo docente da universidade –, foi aplaudido. É certo que Jaime já estava trilhando uma brilhante carreira catedrática. Enquanto Ana estava cada vez mais distante de tudo aquilo, e de Jaime também. Depois daquela noite, quando tentou sufocá-lo com o travesseiro, passou a agir de forma extremamente carinhosa e compreensiva. Jaime deveria ter desconfiado daquelas atitudes não genuínas. Pois era “o reverso inevitável da paixão” de Ana. Ela percebeu que o seu coração estava endurecendo e, com medo de perder Jaime, passou a tratá-lo como um rei. Quando acordou naquele dia e viu o amor de Jaime tão bem representado por aquele café da manhã, imediatamente tratou de se alimentar dele. Sorveu amor com açúcar, farináceos, leite e derivados de vaca em geral. Comeu amor no iogurte com sucrilhos. E sentiu-se gorda. Teve vontade de meter o dedo na boca e se forçar a vomitar. Voltou para a cama.

“É compreensível que, com o tempo, as pessoas deixem de me amar. Eu as afugento. Acho que, primeiro, eu é que não gosto mais delas, e faço essas coisas ruins, grosseiras. Sou uma chata. Perco as coisas porque quero. Devo ter um espírito de porco qualquer dentro de mim. Não posso ser assim. Não posso ser de novo assim. Vou salvar Jaime do desamor por mim.”

Levantou-se. Tinha que fazer algo para demonstrar que o amava. Ele tinha que acreditar nela de qualquer maneira. Arrumou a casa. Depois, foi até o supermercado e fez compras. Comprou as comidas prediletas de Jaime. Seu sabonete, sua pasta de dentes e Neve, o seu papel higiênico preferido. Não gostou de se lembrar do papel preferido de Jaime – não gosta dessas intimidades. Mas lutou bravamente contra os pensamentos cruéis e continuou a empurrar o carrinho. Comprou vinho, amendoins. Chegou em casa e preparou-lhe uma massa. Jaime adora comida italiana. Teve o cuidado de bater no liquidificador a cebola, pois Jaime é capaz de morrer se morder um pedaço. Ele não suporta a textura da cebola, o barulho que faz ao ser mordida. É a coisa que mais odeia na vida. Ana cuidou para que nenhum pedaço sobrasse. Fez uma papa de cebola e a dourou na manteiga, do jeito que ele gosta. Quando terminou, ainda era cedo. Jaime chegaria tarde para o almoço. Guardou o prato no forno. “Depois é só gratinar com queijo ralado.” Ana foi tomar banho. Debaixo do chuveiro, pensou que toda aquela confusão do dia anterior se devia à sua demora em começar a escrever o livro. “Mas é melhor que eu me dedique primeiro a idealizar a história. Depois, é só sentar à máquina e mãos à obra. Jaime vai se orgulhar de mim. Vou dedicar o romance para ele. ‘Este livro é teu.’ Vou dedicar para ele, ele irá me amar para sempre. Afinal, sou uma ótima escritora. Para um mestre em Literatura, ser casado comigo é um orgulho. Sou uma tonta em imaginar coisas erradas a seu respeito. Fico atrás de sarna para me coçar.”

Vestiu-se com um pijama de seda, presente de Jaime. “Preciso mostrar a ele como sou talentosa. Para que me servirá a faculdade depois de publicado o meu livro? Nada.” Pegou um bloco de anotações e sentou-se à escrivaninha. Não se sentiu confortável, largou o bloco e foi se deitar no sofá.

“Logo na primeira semana, Jonas começou a demonstrar o seu verdadeiro sentimento por Mirna. Com pequenas implicâncias, passou a deixar bem claro que ela não era bem-vinda. Mirna se fez de tonta, enquanto Lívia tentava disfarçar o mal-estar, alegando que Jonas andava aborrecido com todo mundo, devido a um projeto que tinha sido engavetado.

As duas aproveitavam as horas em que ele não estava para lembrar das histórias do passado. Durante este período, começou a acontecer uma coisa intrigante: o tempo que passaram longe uma da outra tornou-se como que inexistente. Uma vez que tudo estava sendo contado, era como se tivessem ficado juntas desde então.”

Ali estava Ana, deitada, pensando na morte do filho de Mirna. O menino conhecia Lívia por fotos, e era uma criança tão adorável que já a chamava de tia Lívia. Choraram juntas e beberam vários copos de vinho – desde a chegada da amiga, Lívia passou a beber muito mais. Algumas vezes, Jaime, quer dizer, Jonas as acompanhava. Foi numa dessas tardes, quando estavam os três no jardim, que pingou enfim a gota d’água entre Jonas e Mirna. Mas, antes disso, é bom lembrar que o sentimento de Lívia pela amiga havia começado a se transformar num amor mais intenso. Passou a existir desejo pelo corpo de Mirna. E Jonas, “gato escaldado que era”, percebeu tudo. Desenvolveu, assim, ainda mais ódio por aquela amizade. No dia fatídico, a polêmica girava em torno das crendices telúricas de Mirna. Em um dado momento, ela disse acreditar em duendes. Jonas retrucou imediatamente, dizendo acreditar em anões. Lívia, já conhecedora daquele humor ferino, acusou o marido de ser um brutamontes.

“– Um brutamontes sem nenhum senso poético!”

Jonas, incomodado pela defesa cega de Lívia pela amiga, saiu furioso de casa. Mirna tentou acalmá-la e sugeriu uma vodca, para animar os sentidos. Quando Ana pensou em “vodca para animar os sentidos”, imaginava as duas fazendo sexo. Mas, com o decorrer da bebida, notou que isso seria óbvio demais. E preferiu que elas apenas se embriagassem com o líquido gelado, imaginando uma enorme conversa sobre o quanto os homens são cruéis e tal e tal.

“... Lívia, você ainda tem a sorte de ter conhecido poucos.

– Não sei, dedicar toda uma vida a um só escroto machista é terrível.

– Bom, isso, chérie, lá é verdade. São todos uns brutais. Nos acusam de sermos histéricas. Não compreendem a menstruação. Pensam que é fácil ter um corpo tão cíclico, que muda de temperatura, de peso, de ânimo para o sexo. Tudo em função do aparelho reprodutor.

– Eu é que sei. Porque tenho que estar sempre à disposição. Eu o odeio! Quero a separação. Quero cantar em boates e fazer topless em Ipanema.”

Ana pretendia dar a este diálogo um tom patético e, enquanto pensava nele, divertiu-se bastante.

A frase sobre o topless em Ipanema emociona Mirna, por sua poesia. As duas se beijam na boca. Lívia, tomada pela bebida, toca nos seios da amiga – sem deixar de notar que eles estavam flácidos demais para a pouca idade dela. “É essa vida desregrada da Europa. Muito sexo faz os peitos caírem.” Mirna a leva pela mão até seu quarto, tira a sua roupa e depois a de Lívia. “Nossa!” Lívia perde a excitação, parte por estar embriagada e com sono, parte por causa dos seios caídos da outra. Deita-se na cama e em minutos cai em sono profundo. Mirna a abraça carinhosamente e dorme também. Jonas chega em casa bêbado e vai para o seu quarto. Quando não encontra a esposa, pressente que algo aconteceu. Vai até a última gaveta de sua cabeceira, abrindo-a. Dentro dela há um revólver. Mas ele não pega a arma, apenas olha para ela. Fecha a gaveta. Cambaleante, entra no quarto de Mirna e vê as duas nuas, dormindo abraçadas.

A partir da manhã seguinte, Jonas muda completamente a maneira de tratar Mirna. Torna-se mais afável e envolvente. “Elas, idiotas como todas mulheres, caem na sua encenação. Acreditam-no mudado por causa da briga do duende versus anão.” Há um instante em que os três parecem estar platonicamente apaixonados uns pelos outros. Mas Jonas, crendo-se traído, não quer apenas ser um voyeur da situação. “Deseja comer Mirna, meter-lhe o pau na boceta, no cu, na boca. Esporrar-lhe o rosto. Para que ela sinta o que na verdade é: uma putinha mimada e engajada, que lê Paulo Coelho em francês.” E os dias transcorrem. Eles vão a boates, bebem, dançam e falam mil besteiras espirituosas, do tipo “A Era do Jazz”. Leem poemas no fim das tardes. Nadam nus no mar. Falam sobre cinema, comidas e todos aqueles assuntos, para preencher com charme páginas brancas. Pois Ana pretendia escrever um livro grande.

Achava que neste romance poderia falar sobre coisas em que acredita e sobre outras em que nem tanto. Durante aqueles vários dias em que se dedicou à Traição das sombras, sentiu-se especialmente ligada em tudo à sua volta. Era como se qualquer acontecimento, por mais corriqueiro e vulgar, pudesse se transformar em páginas de sensatez e, por que não dizer, poesia. Ela gostaria de poder escrever com liberdade e dizer tudo o que pensa sobre bichas, sutiãs de ombreira, Klimt, crianças, felicidade, morte, linguística... A história de Lívia era uma desculpa para falar o que bem quisesse sobre qualquer assunto, sem que fosse exatamente ela, ou a sua biografia. Não, aquele romance não era sobre Ana. Não tinha nada a ver com a sua infância, seus sofrimentos e suas alegrias. Simplesmente porque ela não acha que a sua vida em especial mereça ser narrada. Mesmo consciente de que todas as vidas são curiosas, e que um romance é um livro fofoqueiro que trata de esmiuçar a intimidade dos outros, para ela sua vida é chata. Ana acha-se chata, ou sabe-se chata. No romance, ela poderia ser outra pessoa e ainda manter algo dela. Os pés de Lívia eram pequenos. Não que Ana admire seus pés minúsculos, mas, em Lívia, ela consegue enxergá-los. Falando desta forma, poderá parecer que os pés de Ana são microscópicos. São e não são. Não são, pois um pé trinta e três é visível a olho nu. E são, pois, para Ana, vistos de onde ela os vê, é como se não tivessem crescido. Ela olha para baixo e vê os seus pezinhos, os mesmos da infância, lá embaixo. Parecem avisar que Ana ainda é a mesma do colégio interno. Aquela menina sem nenhuma característica marcante, uma mocinha de cabelos longos, que senta na sexta fila da sala de aula e que nunca tirou uma nota maior do que sete. E, depois, aquela adolescente que adorava Fernando Pessoa e escrevia como ele, falando sobre a casa da infância, mesmo que esta casa não fosse nada marcante, e até mesmo fossem vários apartamentos pequeninos e vulgares. Sua vida não tinha nada de especial, ainda não tem, talvez nunca tenha. É quase certo que Ana continue a mesma pessoa comum, que apenas tem os pés menores que a maioria dos seres humanos de seu tamanho. Ela não anda mais com um livro do poeta português dentro da bolsa, ela já não gosta mais de Caetano Veloso, mas continua olhando para baixo e vendo aquela Ana que um dia gostou. Por isso, Lívia também tem os pés pequenos. Ana então pode enxergá-los de longe, passeando por Paris, dançando em boates, descansando, pousados numa cadeira de praia. Lívia também tem os pés pequenos, mas compra lindas sandálias numa loja especial em Nova York. E Ana adora sandálias, embora tenha imensa dificuldade de encontrar um par que lhe caiba e não seja infantil.