Vergonha dos Pés
Capítulo 22
Pedro e Ana dormiram. Ela sonhou que era obrigada a ir para Seul. Numa viagem estranha, cheia de mistérios, que Ana não poderia negar de jeito nenhum. Acordou aborrecida. Não queria ir para Seul. Demorou mais alguns minutos, até que se tocasse que não teria que viajar. Tudo havia sido apenas um sonho. E, uma vez acordada, não tinha nada a fazer além de se vingar de Pedro. Passou a observá-lo. Não havia sofrido a mesma invasão? Então, sentou-se na beira da cama e ficou olhando o corpo e o rosto do homem dormindo. Ana não o achava bonito. Quer dizer, não realmente bonito. Talvez fosse o nariz. O nariz de Pedro é um pouco grande, com muita personalidade. E Ana acha que um nariz deve ser apenas um nariz. Se for belo, melhor, mas, senão, o ideal é que ele não represente nada. O rosto de Pedro, na opinião de Ana, não precisava daquele narigão. Lembrava um pouco o Steve Martin, com um nariz de plástico, interpretando Cyrano de Bergerac. Era isso: aquele nariz a impedia de desejar beijá-lo. Não saberia como desviar daquele “monumento”. “É muito viril. Um pau na cara. Fico assustada em imaginar o seu verdadeiro pênis.” Mas, fora o nariz, que atrapalhava todo o resto, Pedro era um homem atraente. Ou poderia ser, “caso sofresse uma pequena intervenção cirúrgica”. “Nossa, por que estou sendo tão má com ele? O cara está louco por mim. Custa eu ser mais generosa? Não seria a primeira vez em que eu daria, por pena.” Mas não era isso que desejava sentir por Pedro, pena. Não, não gostaria de guardá-lo na memória como um orgasmo simulado. Seria fácil demais e ele merecia mais. Merecia amor. E enquanto ele dormia, Ana – tentando não olhar para o nariz – se concentrava na ideia de amá-lo. Precisava de ajuda, e isso podia ser um grande impulso para o seu coração. Guiar o coração a fazer a coisa certa. Ana olhou para a boca de Pedro. Essa, sim, era bonita. Discreta, macia e viva. Podia beijá-la, meter a língua dentro dela e, se gostasse, talvez o amor viesse junto. Ana se preparou para cometer essa ousadia, tão esperada por Pedro. Mas ele perdeu a oportunidade, acordando antes que Ana se aproximasse.
Era tarde. A cama estava mais aconchegante naquela altura, quando os corpos, mesmo descansados, estavam ressentidos. Ana deu a ideia de tomarem leite batido com chocolate. Pedro disse que não tinha nem uma coisa nem outra, na casa. Ana animou o ambiente, informando ter comprado, quando foi ao supermercado. A alegria foi real. Pedro teve vontade de gritar. Ana disse que deveria gritar. Pedro gritou. Ana gritou. Depois tomaram o leite batido e voltaram para a cama. Viram tevê até de madrugada. Quando acordaram, no dia seguinte, a tevê ainda estava acesa. E, então, era hora de Ana partir.
– Você me liga?
– Ligo. Quando você volta pra França?
– Depende. Minha vida também está em mudanças.
– É difícil, não é?
– Muito.
Despediram-se. Pedro queria que ela ficasse e Ana não queria ir, nem ficar.
Tocou a campainha da porta. Nada. Tocou novamente. Nada. Apertou a campainha e manteve o dedo alguns segundos, fazendo com que um barulho estridente soasse por todo o andar. Jaime abriu a porta, estava com uma péssima aparência.
– Por que demorou tanto?
– Estava dormindo.
– Você nunca teve o sono pesado.
– Eu tomei um sonífero, que Sérgio me deu.
– Que Sérgio?
– O que odeia teatro e foi casado com uma atriz.
Aquela conversa tinha um tom meio nonsense. Lá estava um casal, no meio de uma decisiva crise conjugal, falando com uma certa naturalidade, que parecia forçada, mas não era. Quando Jaime abriu a porta e Ana viu o seu rosto, depois o seu corpo e, por fim, o apartamento, sentiu-se em casa. Poderia esquecer tudo o que aconteceu e ir tomar um banho e depois fazer o almoço. Ambos conseguiriam, tomados por uma certa esquizoidia, fingir estar tudo em seu lugar. “Tudo está em seu lugar, graças a Deus, graças a Deus.” O apartamento estava arrumado. Nada denunciava a festa que havia acontecido.
– Quem arrumou a casa?
– Antoine pagou uma faxineira, antes de partir.
– Até que ele não é tão ruim assim.
Os dois riram.
– Ele deixou um bilhete pra você. Está em cima da sua escrivaninha.
Ana foi até o quarto, Jaime a seguiu.
– Você não prefere conversar, antes de fazer qualquer coisa?
– Nós estamos conversando.
– Não sobre nós.
– Tudo bem. O que você quer saber?
– O que está passando por sua cabeça.
– Nada.
– Eu te conheço. Sei que você deve estar me odiando...
– Agora, menos.
– Eu não tenho o que dizer.
– Nem eu.
– Você ainda não quer conversar comigo?
– Não.
Ana se trancou no banheiro com o bilhete. E leu tudo, rápida e com interesse.
“Ana, uma pena a maneira que nos despedimos. Sei que você não gostou muito de mim. – De quem você gosta, afinal? – Venha me visitar um dia. Vou colocar na minha vitrola 1999 para você dançar. Um abraço. Antoine.”
Ana terminou de ler e começou a chorar. Compreendeu – não exatamente por causa do bilhete – que tinha que sair daquele apartamento. Tinha que acabar com aquela mentira toda, que partia mais dela, e por que ela sabia ser a responsável, mesmo tendo que acusar Jaime para conseguir ir embora. Saiu do banheiro e foi direto até o armário, buscar suas malas.
– O que é isso?
– Preciso ir embora daqui, Jaime.
– Não! Nós não podemos nos separar assim.
– Podemos... Eu posso.
– Você tem pra onde ir?
– Não... Vou para um hotel. Sei lá!
– Ana, pelo amor de Deus, me escuta: eu estava bêbado. Eu nunca tinha te traído antes.
– Todo mundo nunca traiu antes, até trair.
Jaime começou a chorar. E isso fez com que Ana ficasse com mais antipatia ainda por ele. Estava automática em sua rapidez, jogando as roupas dentro da mala de forma aleatória. Não poderia levar tudo e não tinha condições de escolher o que levar. Jaime olhava para a atitude da esposa e era invadido por um desespero sem fim.
– Eu não vou aguentar, Ana! Não faça isso comigo.
– Não piore as coisas... Eu não quero te magoar. Nem a você, nem a mim. Vamos deixar as coisas se acalmarem um pouco.
– Você vai pra onde?
– Eu já disse que não sei!
Ana largou as roupas e se sentou na cama. Começou a chorar. Não tinha para onde ir. Não naquela cidade estranha.
– Deixa eu ir embora, por favor.
Implorou, aos prantos.
– Você vai para a casa do Pedro?
– Esquece esse babaca, porra! Eu estou aqui, sofrendo... Eu só quero ficar longe! Por favor, me ajuda...
Diante da dor de Ana, Jaime acalmou a dele. Ficou realmente penalizado por ver o desespero da mulher. Queria ajudá-la. Notou que, de certa forma, ela estava pior do que ele. Ele poderia amar de novo, não que o desejasse naquele momento, mas sabia em seu íntimo que a vida dele era mais fácil.
– Você quer que eu saia?
– Não! Tudo aqui me faz mal.
– Quer ir para um hotel?
– Eu não tenho dinheiro...
Este fato, naquele instante, como em tantos outros, magoou Ana profundamente. Lembrou-se de sua família, que nunca havia feito nada para aliviar suas dores. Nem que fosse de forma material. Naquele momento, a última preocupação que Ana poderia ter – no caso, não ter – era dinheiro. É como perder um irmão e, além da dor, não ter dinheiro para enterrar.
– Eu te dou o suficiente para você ficar num hotel, até você se sentir melhor e voltar.
Ele não estava entendendo. Ana queria ir embora, definitivamente. Para sempre. Forever. Assim como quase acreditou num amor para sempre. Era para sempre que queria estar longe dali. Todo aquele lugar remetia Ana ao seu fracasso. Ao romance que não escreveu. Ao tempo que gastou, imaginando a história. Agora, era hora de partir.
– Não sei...
– Não se preocupe... Você volta quando quiser... Você vai voltar, não vai?
Como aceitar o dinheiro e dizer que não voltaria nunca mais?
– Não sei, já disse que não sei... Não quero o seu dinheiro.
Não queria, mas precisava. E Ana sabia que, em tal situação, não poderia medir certo e errado. Mesmo porque, ela achava que Jaime não merecia toda essa consideração.
– Não tem problema. Eu te espero...
– Então eu aceito. Mas eu não garanto que...
– Não se preocupe, meu amor.
Ainda não era a hora de mais uma vez recolher todas as suas coisas, dentro de sacolas, bolsas, envelopes... Naquele dia, Ana saiu do apartamento de Jaime com apenas duas pequenas malas. Cheias de coisas que nem sabia quais eram. Teve somente o cuidado de apanhar três pastas de papel. Elas continham toda a sua obra. Seus poemas, suas anotações, rascunhos, pequenos contos e ensaios. Jaime não assistiu a essa cena. Deu o dinheiro para ela, chamou um táxi e saiu de casa. Fez o melhor que podia. Essa poderia ser a qualificação de sua performance como marido de Ana: “fez o melhor que podia”.
Para poder alugar um apartamento, Ana teve que recorrer mais uma vez à mãe. Não era coisa fácil de fazer, preferia jamais precisar novamente de Helena, mas não tinha outro jeito. Helena, depois de escutar em silêncio a filha explicando que havia se separado, disse que ia depositar um dinheiro na conta dela. Quando desligou o telefone, Ana se sentiu um caco. Estava há quatro dias no hotel e não poderia mais manter as esperanças de Jaime. Nem sentia vontade de vê-lo. A cena que presenciou, a maneira que ele segurava a cabeça da mulher, enquanto ela beijava o seu pênis, deixou um certo nojo em sua boca. Que, na verdade, sempre inicialmente sente, quando faz sexo oral em algum homem. Pensa naquele pau como algo sujo de outras vaginas. Mas acaba por engolir essa fatalidade, pois não tem nenhuma pretensão de beijar pênis de crianças virgens e, fora isso, gosta desta ação.
Era o quarto dia que passava naquele hotel e o momento de acelerar sua retirada. Sentiu-se realmente muito mal depois do telefonema. Não somente por ter que pedir dinheiro à mãe, uma vez que fazia isso muito raramente, mas também por ter que pedir ajuda à faculdade. Era inevitável que tivesse que explicar os motivos de seu pedido. Não teria outra maneira de alugar um apartamento, sem que a Fundação assinasse como fiadora. E dentre todas as dificuldades práticas que teve que enfrentar com a sua separação, essa foi a pior. Prestar contas do seu casamento fracassado, ter suas provas vasculhadas, as listas de presença recontadas, tudo para que pudesse sair dali e ver alguns apartamentos simples, para morar. Era isso: queria simplesmente um lugar para deitar e dormir. Onde pudesse colocar as suas coisinhas. Sem ambições, sem ideais, sem nada. Entraria no apartamento, carregando consigo apenas as suas coisas e uma vontade enorme de descansar.
Depois de receber uma carta de Ana e um cheque, devolvendo o dinheiro do hotel, Jaime teve que assumir que ela havia ido embora. Para isso, precisou ler e reler a carta. E, enfim, tomou consciência de que a tinha perdido. Mas não que devia desistir de reconquistá-la.
Uma das coisas mais difíceis, para o Homem, é ele se dar conta de que não é mais amado. Um tipo estranho de amor-próprio o estimula a crer que tudo aquilo não passa de um grande mal-entendido. “Ela vai cair na real e ver que esse ódio vai passar. Porque ela ainda me ama. É só a poeira assentar. Ela não pode viver sem mim.” Quando o tempo vai passando, ele começa a perceber que, sim, ela pode viver sem ele. Ela quer viver sem ele. Ela não o ama mais. Esse é um processo comum, entre homens e mulheres, fazendo os dois, num rápido momento, alcançarem um tipo de igualdade qualquer. Todo mundo já passou por decepções amorosas. E de nada adianta saber disso, enquanto se está sofrendo. A dor sentida parece ser a única no Universo. E a dor vai se transformando em ódio, e em vontade de vingança, mas, a qualquer deslize, poderá voltar a ser simplesmente amor. Novamente amor, nada mais que amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor...