Vergonha dos Pés

Fernanda Young · Capítulo 12 de 23

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Vergonha dos Pés

Capítulo 13

Ela acabou de sair do prédio médico. A universidade é um complexo de edifícios feios, espalhados numa enorme área árida. Antes destes edifícios serem construídos, aquele gigantesco pedaço de terra parecia um deserto inabitado. O governo do estado iniciou as obras no começo dos anos 1940 e terminou na década seguinte. Ao redor dali, havia apenas pequenas comunidades esparsas, que com a universidade ganharam uma nova população: jovens universitários. Várias casas foram erguidas para moradia desses jovens, vindos da capital atrás do sonho de morar sozinhos, longe dos pais. Porque é extremamente atraente, esta ideia. Muitos estudantes mal sabem por que estudam Medicina, Veterinária, Filosofia etc. Só querem é fugir de suas famílias, seguindo em bandos para essas cidades, sonhando com todas as dificuldades de uma república e com o direito de se sentirem adultos ao acenderem os seus baseados.

Ana acabou de sair do edifício número quatro. Ainda não está muito certa de ter feito a melhor coisa, a respeito da sessão de fisioterapia. Deveria ter continuado aquela “palhaçada”? Mas “aquilo é tão triste e mentiroso” que não podia mais fingir-se doente. Acabaria por ficar realmente mal. Não achava justo perder seu tempo e o dos outros, com aquela farsa. Enquanto pessoas – o garotinho atrofiado –, verdadeiramente doentes, muitas vezes não tinham como se cuidar.

“Agora, foda-se. Foda-se!” Acabou de sair da universidade. Ela acha aquilo tudo muito feio. “Parece mesmo com a Alemanha Oriental.” Sente-se feliz por chegar à rua, animada por não ter absolutamente nada para fazer, ninguém para encontrar, nenhum trabalho estúpido sobre “a globalização da cultura” para pesquisar. Nada. Ela não tem nada para fazer. “Isso é maravilhoso! Estou me sentindo ótima... Tomaria um chope...” Lembrou-se de um ótimo lugar, um pequeno barzinho, bastante característico, que fica a cinco quadras do seu apartamento. O bar é totalmente genuíno, sem espírito de juventude universitária, sem dizeres revolucionários defasados. Lá, Ana não irá encontrar nenhum marxista gordo jogando xadrez. Apenas verá velhos conversando monossilabicamente, ovos pintados expostos no balcão e azulejos portugueses gordurosos. “Hum... Que delícia!” Pede um chope. Ele vem servido exatamente como Ana gosta: dois dedos de espuma, com “borbolhas” na superfície. Agradece ao garçom. Toma um longo gole e sente o líquido descer gelado e gentil. Está alegre por tomar este gole. Está alegre por não ter que ir nunca mais àquele lugar e aturar mulheres antipáticas, mexendo em seu corpo saudável. Quase que se propõe a brindar sozinha. Mas, tímida, contém esta manifestação. Sua mente, porém, conclui o texto: “À minha coluna saudável!” Termina de beber todo o chope, pede outro. O segundo não vem tão bem tirado, mas está sendo bebido com satisfação. O terceiro já deixa sua bexiga incomodada. Vai ao banheiro, olha-se no espelho. “Vou cortar o cabelo, e é agora!”

Ana pagou pela bebida e está indo até um cabeleireiro, próximo de sua casa. Nunca cortou o cabelo ali, mas não teme absolutamente nada. Causa um certo rebuliço ao dizer que quer o cabelo bem curto.

– Chanel?

– Não. Curto.

Pessoas se aglomeram para assistir. “Que coragem!”, “Um cabelo tão lindo”, “É uma pena” são alguns dos comentários que Ana é obrigada a escutar. “Menina, guarda esse cabelo, depois faz uma peruca ou vende.” Ana, pensa: “Depois mete esse cabelo todo no seu cu e vai para a puta que o pariu.”

O cabelo está quase pronto. Ana sente-se esquisita, mas não está nem um pouco arrependida. Sua cabeça parece mais leve, e sua aparência rejuvenesceu, como se depois de uma mágica. Gostou. Agradece ao cabeleireiro afeminado e vai embora. Sente-se decididamente bem. As pessoas olham para ela na rua. Os homens percebem nela a disponibilidade de ser solteira. Não que Ana deseje ter alguém ao seu lado, mas isso alegra seus pensamentos. E agora os seus passos estão naturalmente mais insinuantes. Ela sabe que é bela, sabe que atrai. Tem a juventude como aliada inseparável. Por enquanto. Por enquanto ela pode esnobar o rapaz que acaba de olhá-la nos olhos, pode esnobar Jaime e todos os homens do mundo. Ela é jovem. Quer ficar sozinha.

Ana se sente tão bem que acha uma pena voltar para casa. Já perto de seu apartamento, ela dá meia-volta e caminha na direção de um shopping. O único da região. A praça moderna, empoleirada de gente, feito “papagaios se bicando numa gaiola”. Ela sempre tem esta mesma visão de pessoas em grupo. “São papagaios. Não sabem o que fazem, nem o que falam. Mas estão ali, produzindo ações e ruídos.” Ana chega ao shopping. Está animada, talvez até compre alguma coisa para ela. Faz tempo que Ana não compra uma roupa nova, desde o seu aniversário. Ela vai direto ao segundo andar, ali estão algumas lojas de que gosta. Lojas caras. Ela para diante de uma delas. Olha a vitrine. Gosta de um casaco azul-petróleo. Entra e pergunta para uma moça excessivamente simpática: “Quanto é o casaco?” É caro. É muito caro.

– Por que é tão caro assim?

– É porque ele é forrado.

– É um absurdo! O preço desse casaco deve ser mais do que você ganha e você me diz com essa cara de paisagem, como se fosse normal um casaco de merda custar mais que o salário de milhões de pessoas?!

– Você pode dividir em três vezes.

Ana dá as costas para a moça. Está indignada. Tem vontade de pegar uma pedra e tacar na vitrine da loja. “Todo mundo aceita esse disparate. No Brasil, as pessoas aceitam tudo. Que merda! Tanta gente, tantos pais de família ganham a metade daquele casaco... Três vezes... Pra puta que o pariu, que eu caio nessa! E ninguém faz nada!” Ela queria pegar um megafone e denunciar, acordar as pessoas da letargia em que se encontram. Todas, dominadas por uma organizada política que cega. O brasileiro está cego. Convive há tanto tempo com essas coisas, que não percebe mais. Não percebe que está sendo ludibriado. Engole qualquer coisa. Perderam o sentido de realidade. Eles confundiram tanto, que só uma meia dúzia compreende o que se passa. Ana está chocada. Para diante de outra loja e fica estarrecida com os preços dos sapatos. Começa a se deprimir. Resolve sair dali e ir para o andar de alimentação. A ideia estimula Ana. “Um McDonald’s, é tudo o que quero.” Anda rápido, irá pedir um McBacon, uma McFritas e uma Diet Coke grande.

Com dificuldade, consegue uma mesa. O lugar está realmente cheio. Mas, agora, ela está mais animada. Morde o seu sanduíche. Ele está frio. A carne parece uma borracha sintética japonesa. Em compensação, as batatas estão fumegantes. Dá outra mordida no sanduíche. “Não admito isso. Um McDonald’s, que tem o mesmo controle de qualidade no mundo inteiro, estar assim. É uma esculhambação!”

Ana vai até o balcão. Observa primeiro, escolhendo para quem reclamar. Vê um rapaz com uniforme de supervisor.

– Ei!

Nada. O rapaz nem sequer olha para ela. Ana não quer se tornar uma mulher reclamona. Daquelas que não têm homem e passam o dia inteiro defendendo os direitos dos comedores de pipoca de panela, os direitos dos consumidores que preferem mata-barata em refil econômico, coisas do gênero. Mas não suporta esta naturalidade com que as coisas se encaminham para o errado, sem ninguém fazer nada. Ela, que nunca defendeu as focas, que não abraçou a Lagoa Rodrigo de Freitas, que não participa de mutirão de limpeza dos parques, se vê agora no dever de defender a qualidade internacional do McDonald’s. “Que pouca vergonha! Duvido que, se a sede soubesse desse descuido, permitiria que esses incompetentes tivessem a franquia McDonald’s.”

– Ei, moço!

O rapaz para com descaso e impaciência.

– Sim?

– Esse sanduíche está frio e duro.

Ele olha para o sanduíche mordido na mão de Ana.

– Ele esfriou porque você não comeu logo.

– Não, na primeira mordida ele já estava frio.

– Você quer outro?

– Sim. Outro McBacon.

O rapaz fez o pedido. Ana aguarda, já sem vontade alguma de comer o sanduíche. Ele chega. Ela se anima. Volta para a sua mesa. Suas batatas fumegantes já não estão tão apetitosas assim. Ana taca ketchup para disfarçar. Agora, ela se sente no dever de comer aquela gororoba. Morde o sanduíche. Não acredita. Está com o mesmo problema do anterior. Inclusive parece o mesmo, só que sem as primeiras mordidas. Fica enfurecida. Levanta, louca de ódio. Está decidida a lutar pelo seu direito de comer um genuíno McDonald’s.

– Ei! Esse sanduíche está uma porcaria.

O rapaz tenta disfarçar.

– Ouviu? Esse sanduíche está tão ruim quanto o outro.

– Você é a única que reclamou.

– Porque todos aqui são sonâmbulos.

Essa é uma típica frase de Ana.

– Qual é o problema agora, minha filha?

Pergunta uma moça vestida de supervisora.

– O problema é que esse sanduíche está com gosto de boceta!

E, analisando com imparcialidade, qualquer pessoa poderia notar que essa afirmativa beirava o correto. A carne do McDonald’s, quando fria, tem esse gosto. Mas, agora, Ana é o centro das atenções de toda a lanchonete. Alguns clientes olham para ela curiosos, outros indignados pela sua “falta de educação”. Ana já não quer comer mais nada. Joga o sanduíche no balcão e vai embora, largando as fritas, outrora apetitosas, em cima da mesa.