Vergonha dos Pés
Capítulo 14
Durante as férias da faculdade, Ana se matriculou na natação. Era um desejo antigo, mas nunca encontrava tempo ou disposição para realizá-lo. Na verdade, mal sabia nadar. No primeiro dia, estava especialmente tensa. Parecia uma atriz em dia de estreia. Cuidou para que o equipamento estivesse perfeito. Comprou óculos, touca e tapadores de ouvidos. Estava ansiosa. Nadar sempre foi, para ela, algo literário. Havia neste esporte um “quê” de Milan Kundera. Ana romanceou sua ida para a natação, acreditando-se Teresa, de A insustentável leveza do ser. Aquela coisa de piscina pública europeia. A realidade não era tão encantadora assim, mas estava disposta a se concentrar em seus movimentos. Quem sabe, se tornaria uma boa nadadora. E, enlevada nesse espírito, foi para sua primeira aula. O lugar era um clube da década de 1950. Bastante amplo e maltratado. Na área reservada à piscina, havia um espaço coberto, com mesas e cadeiras e uma lanchonete mal equipada, mas simpática. Ana, por ter chegado cedo, foi tomar um suco de laranja. Dali, podia olhar as duas piscinas, uma olímpica e outra menor. A segunda era destinada às crianças ou às pessoas que não sabiam nadar. Ana não contava que seria aquela a piscina em que treinaria. Na hora marcada, ela se aproximou de um rapaz de sunga, que estava perto da piscina olímpica. Ele pediu que Ana nadasse, para avaliar em qual nível ela se encontrava. Depois de sair da água, roxa de frio, ela foi encaminhada para a menor. Realmente, o que Ana considerava braçadas de estilo crawl, não passavam de movimentos desconexos e sem o menor sinal de técnica. Estava, então, no nível um. E nadaria junto com as crianças e os velhos.
As férias quase passaram despercebidas para Jaime. Envolvido com o seu trabalho final, gastava boa parte dos seus dias ainda na faculdade, ou na casa de seu orientador. Para Ana, aquilo era um exagero, uma obsessão universitária sem sentido. Sem perceber, começou a implicar com essa postura do marido. Inclusive, não somente implicava com isso, mas também com a maioria das coisas que ele fazia. Começava a fase da impaciência, quando qualquer detalhe é motivo para uma cadeia de ironia e má vontade. Desculpava-se intimamente, alegando para si mesma que era desagradável não tê-lo ao seu lado. Tentava acreditar que a ausência de Jaime, sempre ocupado, seria o único motivo da sua antipatia. Na verdade, achava toda aquela ideologia uma grande palhaçada. Qualquer som que Jaime emitisse a respeito de Semiótica – área envolvida com a sua monografia – fazia com que Ana tremesse de enjoo. Ele mal atentava para isso, para a esposa, e ia perdendo pouco a pouco seu interesse no casamento.
Assim que acordava, por volta das sete horas da manhã, Jaime fazia uma rápida refeição e se dedicava à leitura de textos sobre o assunto, até a hora do almoço. Depois, comia o que Ana preparava, descansava um pouco e partia para a faculdade ou para uma biblioteca. Era uma dedicação quase fanática, levando-se em conta que aquele trabalho não passava de uma pequena monografia de fim de curso. Ana reclamava com Jaime por causa disso, alertando que, quando chegasse a tese de mestrado, ele acabaria por ter um troço. O doutorado, Ana preferia nem imaginar a fúria que seria. E então passou a sonhar em estar longe dali, longe dos livros largados próximos à sua cama, longe o suficiente para não escutar os longos telefonemas de Jaime com seu orientador, longe da Semiótica. Ela queria estar só. Ainda restava um forte sentimento por aquele homem, mas começava a desejar que ele sumisse com aquela “baboseira” toda. Odiava ter que receber o orientador de seu marido. Achava o professor uma bicha enrustida, acostumou-se a implicar com Jaime a respeito disso também. Passou a odiar aquele homenzinho, principalmente depois que escutou uma conversa entre ele e Jaime. Os dois tinham acabado de chegar e não sabiam que Ana estava em casa, deitada no quarto.
– Jaime, você tem que se dedicar à Língua Portuguesa como se ela fosse a sua esposa.
– Já é difícil me dedicar a uma mulher somente.
– Pois abra mão dela. Ame a sua língua, sabendo que ela jamais o trairá. Jamais irá lhe dar filhos barulhentos. Sinto que você poderia se dedicar mais. Você é um rapaz brilhante, poderá ter um futuro acadêmico esplendoroso. Não deve perder tempo com mimos femininos.
Ana teve vontade de sair do quarto com um pau na mão e bater naquela “bicha enfadonha e rancorosa”. Mas conteve-se. Silenciosa. Assim que o professor foi embora, ela foi até a sala.
– E aí? Beijaram-se na boca na despedida?
– Ana?
– É, a sua mulher mimada, que lhe dará filhos melequentos.
– Deixa disso, ele só exagera um pouco nas coisas.
– Estou cansada dessa palhaçada.
– Que palhaçada?
– Essa porcaria de monografia, Jaime. Parece que você está desvendando a morte de John Kennedy, bancado pelo governo americano, para depois ser considerado um herói internacional.
– Não entendi essa comparação sem nexo.
– Não entendeu?
– Não.
– O que eu quero dizer é que essa merda dessa monografia, que não serve pra porra nenhuma, está me enchendo a paciência!
– Ana, eu não preciso te dizer o quanto isso é importante para mim e acho que você deveria se empolgar também, já que estuda esta mesma área.
– Me empolgar? É uma piada.
– Eu acho uma piada é esse seu livro que não existe e nunca vai existir. Essa sua vida inútil, calcada num sonho estúpido. Eu, pelo menos, faço alguma coisa de real.
Antes de finalizar a frase, Jaime já estava arrependido do que acabara de falar. Mas já não havia mais jeito. Não poderia abraçar a esposa e dizer “Não, não é nada disso, você é uma ótima escritora”. Simplesmente porque não aguentava mais deixar Ana viver esta ilusão. Começava a se sentir culpado, por permitir esta perda de tempo e compactuar com ela. Amava Ana, esperava que ela percebesse naturalmente sua incapacidade literária. Mas estava esgotado. Esgotado pelo excesso de estudo e também pelo mau humor e falta de compreensão de Ana.
Ela ficou ali, parada. Estava com muito ódio, mas não sabia como reagir. Sua cabeça girava, sentia uma leve dormência na boca. A adrenalina havia tomado conta do seu corpo.
– Sai daqui.
– Ana, essa é a minha casa.
– Você quer que eu vá embora?
– Não. Eu...
– Então, por favor, sai daqui.
Jaime pegou um casaco, a carteira, e deixou Ana sozinha no apartamento. Ela se sentou no sofá e começou a chorar. Um choro forte e crescente, que rapidamente deixou suas feições inchadas. Estava chorando por vários motivos e, caso tivesse que dizer um, diria que chorava pela dor de sua solidão. Como outras vezes, estava acompanhada e sozinha. Prefere estar somente sozinha, pois a solidão ao lado de outra pessoa é, para Ana, mais dolorosa. Seu choro era uma tormenta de lágrimas por tudo aquilo que sempre viveu. Sua tristeza não era só pelo livro, ou por Jaime. O que estava acontecendo com ela era resultado de muitas outras coisas. Era por causa do seu pai, da sua mãe, por causa dos seus sonhos, que escorriam pelos seus dedos feito água. Seus sonhos perdidos, sua falta de esperança, sua falta de fé. Chorava, também, por seu coração, que mais uma vez tornava-se frio, inabitado. Um aposento úmido, vazio, que expulsa qualquer um que ali tente ficar. Ana estava chorando profundamente. Agora, por pena de Jaime. Culpa, por não apoiá-lo. Queria voltar no tempo e fazer tudo diferente. Sentar-se diante da máquina de escrever e redigir as anotações do marido, trazer um misto-quente para ele, de surpresa. Ser gentil.
Ana passou a noite inteira acordada, esperando Jaime chegar. Assim que amanheceu, resolveu que devia procurar por ele. E depois de permanecer sentada alguns minutos diante da tevê ligada, lembrou-se do orientador. Decidiu falar com o orientador, primeiro. O número do seu telefone estava anotado num bloco em cima da escrivaninha, Ana não teve dificuldades para encontrar. Discou, pensando no que iria dizer para Jaime. “Meu querido, desculpa. Você tem toda razão de estar magoado comigo.” O telefone deu sinal de chamada, mas ninguém atendeu. Ana discou novamente os números. E novamente chamou e ninguém atendeu. “Eles devem ter ido para a universidade.” Ela largou o telefone e foi se arrumar. Precisava encontrar o marido.
A caminho da faculdade, Ana deixou de se sentir mal e passou a imaginar a liberdade que seria não ter mais nenhum amor para se preocupar. A manutenção das relações é delicada, requer boa vontade e cuidado. Qualquer casamento está sempre a um passo de entrar em declínio, é necessário um senso de equilíbrio digno de malabaristas. Um pequeno tropeção em falso e o amor cai corda bamba abaixo. São palavras que devem ser pensadas, pesadas, medidas. Tratar o outro como uma pilha de cristais finos. Pois o ser humano é um amontoado de traumas. E cada um desses traumas merece atenção e tato, quase tratamento especial. Daí se faz a intimidade máxima: um conhece os problemas emocionais do outro, muito mais do que as suas mães ou os seus analistas jamais conheceram. É, no final das contas, essa sabedoria que sustenta os alicerces de um casamento. Mas mantê-los é tão cansativo que, às vezes, os casais duvidam se aquilo vale a pena. Se não seria melhor viver sozinho, do que ter que estar atento a tudo o tempo todo. Estar ligado às variações de humor do outro, às faltas de interesse físico, ao desânimo com a própria higiene. Estar acompanhado é um trabalho árduo, disfarçado de aconchego.
Ana não pensava mais em pedir desculpas, ou talvez sim, mas não da maneira que antes pensara. Agora queria falar somente: “Jaime, desculpa, não quero mais viver com você.” Simples. Apenas: “Quero ficar sozinha, cansei de dividir meu banheiro com um homem.” E finito. Mas é tão difícil terminar um relacionamento. Tão complicado chegar para o outro e dizer chega. São poucas as ocasiões em que isso ocorre sem drama, sem dor. Na maioria das vezes, são necessários uma desculpa, um deslize do outro para servir de álibi, para vencer a sua própria covardia em não assumir o desejo de separação. Há aqueles que arranjam outras pessoas, para fingirem-se de apaixonados. “Aconteceu. Não tenho culpa.” Mas, nesse casos, é certo que o amor já não mais existia, porque senão nada aconteceria. Quando um amor está latente, não há tentações que valham o sacrifício. Quando uma pessoa ama em estado profundo, os seus sentidos estão bloqueados, o seu corpo está fechado. É preciso ser muito frio para amar e trair. Isso ocorre, principalmente com os homens. Mas somente em homens com fraca formação de caráter.
Os casais deveriam ter mais cuidado com as coisas que fazem no calor da raiva. Durante a certeza do rompimento, uma estranha segurança norteia o coração magoado. E as pessoas cometem imensas besteiras, às vezes irremediáveis. É importante a lembrança das tolices passadas, para silenciar as tolices presentes e evitar que o coração aja de novo em lugar da razão. Deve-se milimetrar todas as palavras enquanto se está imbuído de sentimentos negativos. Isso não é fácil, mas é necessário, uma vez que o corpo está tomado por adrenalina e a mente, pela pior química: os pensamentos incertos. Medir palavras. Quem consegue, tem por mérito o direito de ser um vencedor.
Ana não pensava em mais nada quando chegou ao edifício da faculdade de Letras. Caminhou em direção à sala do orientador de Jaime. Olhou pelo basculante e não encontrou ninguém. Sentia fome. Foi para a cantina, sabia o que queria comer: misto-quente e Coca-Cola. O mesmo lanche que fazia no internato e, depois, em todos os colégios que frequentou. Era a mesma Ana de sempre, que adorava misto-quente de chapa. Somente o refrigerante tinha mudado, era diet. Comeu satisfeita seu lanche. Estava aborrecida de ter que procurar Jaime, não queria que nada daquilo tivesse acontecido, porque não queria magoá-lo. Gostaria de voltar o tempo, mudar suas palavras rudes por outras mais gentis. Não faria nada para aborrecer Jaime naquele momento. Esqueceu-se de seus desejos de liberdade. Voltou a pensar que ainda queria Jaime ao seu lado, mais por compaixão e constrangimento do que por verdadeira vontade. Levantou-se e subiu as escadas que dão na biblioteca. Jaime estava lá, sozinho, diante de um livro. Ana se aproximou e sentou diante dele. Jaime assustou-se de ver Ana ali, como que vinda do nada. Sorriu.
– Vim perguntar se você vai querer que eu faça o almoço.
– Se não der trabalho...
– Não. Não é trabalho algum.
Sorriram, Jaime pegou na mão de Ana.
– Desculpe.
Ela se sentiu culpada de novo. Porque não aguentava mais. Na realidade, não se aguentava mais. Queria dar um tiro na cabeça. Desde pequena, lutou para disfarçar sua insatisfação consigo mesma. Até convenceu-se, em certos momentos. Convenceu outras pessoas também. Lutou para ser amada, mas não se suporta o suficiente, então luta para perder quem a ama. Nunca conseguiu acreditar piamente no amor alheio. Nunca achou que merecesse. Queria, naquele momento, sentada diante de Jaime, dar um tiro na cabeça. Acabar com tudo. Dar um tiro na têmpora. “Dar um tiro debaixo da axila esquerda.” Ana pensava que este era o tiro da morte certa. Uma vez escutou um policial falando isso, quando foi dar parte de um assalto que sofrera. Queria atingir sua axila com um tiro redentor. Colocar fim à sua inútil existência. Pois Jaime descobrira, e todo mundo deveria saber, que ela não presta para nada, além de infernizar a vida daqueles que dela gostam. Sua mãe já lhe havia dito várias vezes que ela era uma “merda mesmo”. Era como ela se sentia, enquanto Jaime segurava sua mão. Uma merda.
A briga entre Ana e Jaime acabou ali, na biblioteca. Ela se sentiu verdadeiramente triste em ser tão instável e emocionalmente malformada. Ele, apesar de todo o seu amor, começava a temer pelo futuro, ficando ao lado de uma mulher tão incompreensiva. Mas estava disposto a tudo por ela e, ali na biblioteca, jurou mais uma vez o seu amor eterno. Ana apenas escutou. E mais tarde fez um almoço delicioso para o homem que tentava fazê-la se sentir, enfim, amada e protegida.
Antes das pazes, antes mesmo de Ana ir atrás de Jaime na biblioteca, e até antes de ela comer o seu “misto-quente do passado”, Jaime havia feito algo que, se não houvesse ocorrido a briga, ele jamais teria pensado: inscreveu-se num intercâmbio universitário. Estava tão irritado com sua mulher, por ela não entender a sua dedicação ao mundo acadêmico e às suas obrigações, que preencheu o formulário na Secretaria. Afirmou estar disposto a receber um estudante estrangeiro por quatro semanas. Em troca, teria o mesmo tratamento quando se formasse, para um rápido curso no país eleito.
Foi a segunda grande precipitação de Jaime em apenas dois dias. Havia falado para Ana que ela era uma inútil. Uma maneira mais rápida de dizer: “Você não sabe fazer nada que preste, não tem talento algum, não escreverá o romance, pois não sabe como fazê-lo.” Diante da gravidade do que ouvira – “... sua vida inútil...” –, de certa forma, Ana reagiu bem. Ficou irritada, mas não exatamente por ter escutado a verdade nua e crua. Ela estava muito mais aborrecida e enciumada do que magoada. Era a natureza possessiva de Ana se manifestando. Ela é ciumenta. Decididamente ciumenta. Mesmo que o seu amor por Jaime já estivesse esmaecido, Ana não suportava o domínio que o tal professor tinha junto a ele. Sim, isso era uma tolice. Assim como também é sentir ciúmes de amigos, de carros, de hobbies ou da profissão. Há, neste sentimento descontrolado, uma reação substitutiva. O ciúme existe, e, quando não existe um motivo real – no caso de Ana e Jaime, uma amante –, ele pode aflorar até diante de uma ingênua aquisição material. Por exemplo, um CD. Uma vez, Jaime comprou um disco de João Gilberto. Assim que chegou em casa, colocou o CD no aparelho de som e sentou-se no sofá. Escutou a primeira música, escutou a segunda e serviu-se um uísque. Pronto, estava feita a confusão: uma tormenta de pensamentos invadiu a cabeça de Ana. “Um cantinho, um violão. Este amor e uma canção, pra fazer feliz a quem se ama” foi o suficiente para que ela assistisse mentalmente à cena de Jaime com outra mulher. Não uma mulher daquele presente, mas uma que ele tenha amado no passado. O fato de ele ter amado outras mulheres era apavorante e certo. Afinal, dificilmente um homem naquela idade não teria amado. E amou: amou Lúcia, uma jovem com quem estudara no ensino médio. Amou Aline, uma moça rica, com quem chegou a noivar. Amou Clara, Paula, e outras de que nem mais se lembra. Desde pequeno era inclinado a amar. E poderá amar uma médica com tanta intensidade quanto ama uma cantora. Ele é assim e, mesmo agora, sofrendo por Ana, seu coração já começa a se recuperar, esperando um novo amor. Amará Sílvia, Cláudia, Raquel... Amará, acreditando que aquela é a mulher de sua vida. E que nunca amou tanto quanto naquele momento. E que nem Sandra, nem Bel, nem Carla eram merecedoras de seu amor. “Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada.” E seu coração acreditará novamente naquelas verdades que ele próprio inventa.
Assim que Jaime se sentou, pela segunda vez, para beber o seu uísque e escutar o seu disco, Ana teve vontade de jogar o aparelho de som pela janela. Possivelmente, Jaime nem se lembrava de nenhuma ex-namorada. Talvez até ouvisse, nas letras, o seu amor por Ana. Mas ela traduziu aquilo como uma traição. Para os ciumentos, lembrança é traição. E, então, passou para lá e para cá, pisando com força. Lavou com uma fúria barulhenta algumas louças na pia da cozinha. Jaime continuou distraído, cantando junto com João Gilberto. Fez, involuntariamente, com que Ana transformasse seu ódio numa profunda tristeza. Largou as louças, algumas ainda ensaboadas, para se sentar numa cadeira da cozinha. Ali, pensou no amor. Percebeu que o amor se repete sem pudor. Ele é sempre o mesmo. Mudam-se os personagens, os textos. Ou até não, se diz: “Te amo como nunca amei na minha vida”, “Você é o meu grande amor”, “Te amarei sempre”, para todos que se ama. Uma música romântica serve para vários amores. Exatamente esta foi a questão que aborreceu Ana. Ela queria inventar músicas para Jaime escutar e lembrar-se somente dela. Ela gostaria de ir a lugares que ambos nunca tivessem ido, para assim criar “lembranças limpas”.
Levantou-se da cadeira, empurrou as louças na pia da cozinha, passou por Jaime na sala, ele a chamou:
– Ana!
– O quê?
– Gostou do disco?
– Eu odeio João Gilberto.
Mentira. Se fosse Milton Nascimento, ela diria, assim que Jaime colocasse o disco: “Tira essa merda!” E nada teria acontecido de mais doloroso. A questão é que João Gilberto deixa Ana comovida. Possivelmente, até tenha escutado suas músicas enquanto amava Vinícius. Mas não era a imagem de Vinícius que aparecia na cabeça de Ana. Era Jaime amando outra.
Com o tempo e a convivência, Jaime passou a compreender quase todas as idiossincrasias da esposa. Para evitar aborrecimentos, por exemplo, ele deixou de ouvir João Gilberto. Mas nunca esteve disposto a abrir mão de sua relação com o seu orientador e, principalmente, com a universidade. Por isso, naquela noite, depois de ter dito para Ana que a vida dela era uma inutilidade, Jaime foi dormir na casa de um colega de turma e, assim que acordou, foi para o campus, fazer umas pesquisas na biblioteca. E também por isso, no instante em que entrou no prédio de Letras, parou diante do cartaz que anunciava o intercâmbio universitário.
“O fedor é uma punição para os bem asseados. É dele que fogem todos aqueles que não se limitam a uma higiene básica: água nas axilas, ânus, pés e genitais – as partes do corpo humano mais sujeitas a expansões atmosféricas. Para o bem asseado, qualquer chance de mau cheiro é eliminada com precisão por desodorantes, perfumes e outros produtos de limpeza íntima. Os franceses são grandes produtores desse universo ilimitado, que são os cosméticos e afins, principalmente as loções. Perfume francês talvez seja uma das maiores invenções de todos os tempos. São milhares de fragrâncias, centenas e centenas de misturas mágicas, que fazem com que homens e mulheres vivam mais felizes, exalando de seus corpos odores que atraem e dissimulam. Pode parecer ironia mas, no caso dos franceses, mestres da perfumaria, possivelmente nem toda a química do mundo conseguisse dissimular sua vocação odorífica.
Uma carniça ou um esgoto podem feder, é compreensível e admissível dentro de alguns aspectos. Mas permitir que o corpo cheire mal é algo que alcança os limites do intolerável. Porque é dever do ser humano a autocrítica do corpo. E esse cuidado permanente revela-se de fácil manutenção, uma vez se tendo fartura de água à mão. O resto – águas-de-colônia, talcos, extratos de qualquer qualidade – é firula, perto da primordial água. O Homem poderá, então, finalmente feder, caso se encontre no deserto. Mesmo assim, sozinho. Deve se recolher a alguns metros de solidão e feder. O exercício do fedor deve ser solitário, por respeito e amor-próprio.
A ideia de que a questão ‘feder ou não feder’ é de cunho antropológico mostra-se, aliás, discutível. Poderá ser cultuado o mau cheiro em tribos primitivas, no meio de uma mata virgem, em plenos quarenta graus. Fora isso, não. Não é explicável um francês se deixar feder.”
Durante o tempo que antecedeu a chegada de Antoine ao apartamento de Ana e Jaime, ela estava radiante com a sua nova grande descoberta: a natação. Sua súbita dedicação ao esporte fez com que aprendesse rapidamente a nadar corretamente e passasse para a piscina olímpica. Havia dois inconvenientes nesta mudança: a piscina olímpica não tinha aquecimento e era totalmente descoberta. Ana saía da água com as mãos e os pés roxos, como os de um cadáver. Mas, aquilo passou a ser a sua grande alegria e nada poderia comprometer a confiança de que se tornaria uma grande nadadora. Talvez, até, ser uma campeã veterana. E, desta forma, esmaeceu, mais uma vez, em Ana, a certeza de sua incapacidade de realizar o romance. Nessa época, ela e Jaime deixaram de tocar no assunto. Era estranho, pois, de alguma maneira, aquele silêncio denunciava a falta de intimidade real entre os dois. Ou não, melhor ainda, o tato que tinham a respeito daquilo que era sensível a eles. Jaime sabia que a mulher havia passado os últimos meses dedicada ao romance, tinha conhecido Ana como uma escritora. Com o decorrer do tempo, acabou por perceber que ela não tinha nenhuma obra para apresentar. Havia, sim, lido alguns poemas, algumas prosas e pequenos ensaios. Vislumbrava na esposa um certo talento, mas isso é comum nas pessoas apaixonadas: ver aquilo que muitas vezes não existe. Mesmo porque, talento é coisa para bordadeiras e não para escritores. Tal arte, para ser bem-feita, precisa de gênio. Afinal de contas, eles não estavam falando de livros sobre anjos, estavam à espera de um grande livro. Calaram-se. Passaram os dias, este assunto morreu. Ana se ocupava da casa e da natação, enquanto as aulas da faculdade não começavam. E Jaime terminava a sua monografia, totalmente ausente daquilo que o aguardava. O francês.
No auge do calor sufocante de verão, Antoine apareceu no apartamento do casal. Ana só foi avisada desta “invasão” uma semana antes da chegada do rapaz. Brigaram. Desde o dia em que o marido tinha preenchido o formulário, declarando-se apto a receber um estrangeiro, que não discutiam. E este segundo desentendimento teve um sentido terminal para Ana. A partir dali, ela somente estaria aguardando um “motivo maior” para acabar seu casamento com Jaime.
– Eu não acredito! Não acredito!
– Ana, não tem o menor cabimento este espanto. É um estudante, vai ser bom este intercâmbio.
– Que coisa ridícula! Ele vai nos chamar de “tio” e “tia”, por acaso?
– Não seja tão irracional... É importante pra gente ter uma chance de um curso na França, isso nos abre uma porta.
– Eu? Eu vou fazer o que na França? Jaime, você está louco, você está completamente fora de si.
– OK. Eu pensei em mim quando aceitei isso. Porra, você não entende, né, Ana? Você não compreende que, por mais que você me ache pequeno e medíocre, eu pretendo ter uma vida acadêmica segmentada. Isso, pra mim... Bom, foi naquele dia... Eu pensei que a gente ia terminar e... Sei lá, porra!
– “Sei lá”? Você se alistou para receber um estranho em nossa casa. Pensava que eu estaria onde? Na puta que o pariu, por acaso?
– Não adianta baixar o nível, agora.
– O que adianta, agora? Um tiro na minha cabeça?
– Para de dramatizar! É só um cara que vai ficar aqui em casa uma semana, mais nada.
– “Mais nada”. Você acha pouco? Queria que fosse o quê? Um paquistanês? Um terrorista sérvio? Já não basta eu ter que aguentar um sujeito estranho, dormindo na minha casa? Falando uma língua que eu não entendo e... E... Porra! Não, não e não!
– Agora não tem mais jeito.
Ana cogitou ir para a casa de Elisa, unindo a necessidade de fuga a uma visita ao bebê, que ela ainda não conhecia. Mas achou muita “petulância” ter que sair de sua própria casa, para que Jaime pudesse hospedar um “idiota qualquer”.
O tipo de pessoa que tira o chapéu da cabeça dos outros. Aquele que não tem a menor ideia da quantidade de coragem e raciocínio que foram gastos por quem vestiu o chapéu. Simplesmente vai até lá e arranca a peça da sua cabeça. Rindo. Achando engraçado. “Maneiro.” “Legal pacas.” Assim era Antoine. Um rapaz de vinte e sete anos, que achava “legal” conhecer o Terceiro Mundo, a “literatura latino-americana, aquela coisa surreal de personagem criar asas e expelir formigas pelo nariz”. Ele dizia sempre que podia que “a literatura daqui tem um Fellini louco desenhando filmes”. Quando Ana ouviu isso pela segunda vez, comprovou a sua dúvida: “Seria melhor que esse panaca não falasse português.” Mas falava. E falava. Havia aprendido com “uma pessoa com que eu me relacionei”, que era de Portugal. Ana desconfiava que essa “pessoa” fosse um homem, um gay. E essa relação rendeu ao francês a paixão pela Língua Portuguesa. Então fazia questão de sobrecarregar, falando feito um papagaio de português. Ana tinha síncopes internas.
No dia em que comemorava uma semana de Brasil, Antoine, num ímpeto de gentileza, comprou algumas garrafas de vinho. “Para compensar o fedor”, alegou Ana, que rapidamente deu cabo das garrafas. Concluiu que a melhor coisa a fazer era ficar bêbada. Levemente. Fazia frio e, pelo menos dessa maneira, era capaz de aguentar “aquele chato”. Ficou ouvindo o que ele dizia com um cálice na mão, rindo, também levemente. Mas pouco ouvia de fato. Só quando o assunto era um enorme disparate engajado. Do contrário, lembrava de coisas. Algumas lembranças que nunca a deixam. Um repertório de memórias, ao qual Ana recorre quando precisa se abstrair. Como uma matéria que um dia leu num jornal. Dizia que havia sido feita uma limpeza no canal de esgoto do Leblon e que tinham descoberto pés de tomates vivos no fundo da podridão. E que isso se devia aos caroços da fruta, que mais parece legume, vindos dos intestinos humanos. Os caroços do tomate não são digeridos. Ana ficou com aquilo na cabeça. Regularmente se recorda da notícia. Imagina que todos os Homens conseguem reproduzir com as suas entranhas pés de tomates. E, como odeia a ideia de reproduzir, nunca mais comeu tomates sem tirar cuidadosamente os caroços.
Coisas que Ana pensa sempre. Uma centena delas. Algumas aparecem com maior frequência, outras só de vez em quando. Um dia disseram para Ana que antigamente as aeromoças eram obrigatoriamente bonitas. Mas que, com o tempo, perceberam que aquilo não era um boa coisa – afinal, as mulheres bonitas têm mais chances de casar. Péssimo negócio, porque logo as companhias aéreas perdiam suas funcionárias. Tendo que pagar licença de maternidade, rescisão de contrato e outras burocracias que somam quantias enormes. Agora, Ana repara que, de fato, as aeromoças andam bastante feias. Muitas dentuças fazem parte dessa profissão, antes tão encantadoramente representada por belas senhoritas. Quando Ana era pequena, ficava sonhando com a ideia de ser aeromoça. Mas não com afinco. Apenas pensava como deveria ser maravilhosa a vida daquelas mulheres, que pareciam livres, repletas de aventura e belos homens de terno italiano.
Gafes. Ana também adora lembrar-se de gafes. Algumas dela mesma, outras que contaram para ela, ou que até presenciou. Celina, uma amiga de Elisa, contou uma gafe que havia cometido, e que volta e meia faz Ana morrer de rir – ela sente um prazer mórbido em imaginar essas situações, nervosas e engraçadas. Uma noite, Celina tinha saído com uns amigos e, como sempre, ficou um pouco alta. Seguia o processo que já se tornara tradicional: beber rapidamente, com uma sofreguidão de náufrago, ficar engraçadíssima e depois entrar em rápido declínio, causando mal-estar e caindo de sono. Justamente entre o estágio “engraçadíssima” e o do mal-estar, ela confundiu Enoli Lara com Sandra Bréa, demonstrando pesar à primeira pela doença da segunda, e oferecendo seu apoio à boquiaberta – tanto na bunda quanto na boca – Enoli, que nada entendeu.
Outra que Ana gosta é da própria Elisa. Mas, neste caso, nem gafe é, e sim uma das muitas histórias que sua melhor amiga simplesmente inventa, com notável talento. Disse Elisa que, no início da década de 1980, havia conhecido Ney Matogrosso. Nesta época, Fagner começava a fazer sucesso e Elisa havia arranjado um emprego de repórter cultural para um jornaleco nordestino – armação do amante, editor do tal jornal, que arrumou um encontro com Ney Matogrosso, num quarto de hotel. O que Fagner tem a ver com isso? Ele estava no quarto, como acompanhante do ex-Secos e Molhados, vestindo um roupão e sem cuecas.
E enquanto isso, enquanto Ana se lembra de tolices que lhe cobrem a mente feito um velho edredom, Antoine despejava na sua frente toda a sua “leprosa cultura europeia”. Ana olhava para aquela cara cheia de marcas de espinhas, de uma cor leitosa, bege, como um café com leite bem fraquinho, e ainda pouco escutava. Apenas se desviava de seus pensamentos para notar que os óculos do palestrante estavam cobertos por uma camada de gordura e impressões digitais. Deixou de lado as mentiras de Elisa e pensou sobre a existência dos óculos em geral, detendo-se naquele em particular. “São tão nojentos, parece que conheço sua cueca amarelada de mijo. Olho para esses óculos e imagino os seus genitais. Vou vomitar.” Mas não vomitou, pelo menos não naquela hora. Abriu outra garrafa de vinho tinto. Serviu-se, somente. Jaime percebeu a má vontade da mulher e serviu o convidado e a si próprio. Ana olhou para Jaime, com os seus olhos vermelhos. Estava toda vermelha. A bebida tinha deixado sua aparência especialmente diabólica. Jaime retribuiu o olhar de Ana, teve vontade de rir, afinal também achava o estrangeiro um idiota. Não com a convicção da esposa. Não tem o fervor de Ana para odiar tanto uma pessoa. Odiar, na verdade, nem seria o termo certo. Desprezar. Jaime não tem a urgência emocional de Ana. Uma urgência que necessita de diagnósticos. E, para ela, Antoine era decididamente “um porcaria”, “que arrasta essas sandálias porcalhonas de couro e ama MPB”. Nascido em Lyon, mas com postura de parisiense, Antoine já havia publicado um livro. E estava quase convencendo Jaime a traduzir o texto para o português. Ideia que Ana, assim que pôde – enquanto Antoine foi ao banheiro – dissuadiu da cabeça do marido. “De jeito nenhum! Você estará comprometendo a sua inteligência fazendo isso.” Jaime concordou mais uma vez com Ana, mas não estava disposto a ser mal-educado com o rapaz. Passou a fazer “cara de paisagem”, escutando com paciência e falsidade todo o blá-blá-blá a respeito do tal livro. Era algo que envolvia informática: um romance entre quatro pessoas via internet. Mais tarde, Ana resumiria assim toda a história para o marido: “Essa punheta de internet pra lá e internet pra cá.” Porém o romance não parava apenas nisso, tinha também um crime e uma sessão de regressão coletiva por computador, onde todos os personagens descreviam o que haviam sido em outras vidas. Um tinha sido um alquimista na França do século XIV, outro um nobre da corte vitoriana, uma teria passado o pão que o diabo amassou como corista e, por último – talvez em homenagem ao seu amante português –, um poeta dândi lisboense. “Só faltava ele dizer que é a reencarnação de Gérard de Nerval” – ironizou Ana, logo após afirmando que “Isso não seria possível, pois Paulo Coelho já recebe esse santo”.
Antoine retornou do banheiro com a mesma expressão impávida de intelectual, que havia adotado desde que começara a beber naquela noite. Ana estava tentando escolher um CD para escutar. O francês sugeriu “algo baiano”. Ana colocou Prince. 1999. Deixou de lado o seu cálice de vinho e começou a dançar. Dançou e cantou. Cantou tudo errado e bem alto. Jaime se controlou para não rir e puxou um assunto qualquer com Antoine, para disfarçar. Mas Ana cantou mais alto: “Night, night, night.” O sujeito olhou para ela, intrigado. Então foi a vez de Jaime, inspirado na esposa, cometer a sua maldade: insistiu que Antoine dançasse um pouquinho. De início, ele relutou, depois teve que sucumbir timidamente. Ana segurou o hóspede pelas mãos e o fez girar, pateticamente, como se brincassem de “atirei o pau no gato”. Jaime se contorcia na cozinha, abafando os risos com falsas tosses. Precisou tomar um copo d’água sem respirar para conter as gargalhadas. Quando voltou para a sala, Antoine estava sozinho, próximo à janela. Havia em seu rosto um sorriso meio estranho. Jaime somente entendeu de que o sorriso se tratava quando notou que Ana tinha vomitado em cima dele. Neste instante, ela retornou à sala, com o rosto e os cabelos molhados. Vestia uma camiseta velha de Jaime, deixando suas pernas longas de fora. Ana trazia na mão um pano de chão. Jaime ficou em silêncio, encantado e curioso com aquela aparição. Foi rápida, a limpeza que ela fez no chão. Antoine aguardou sua vez de ter o pano e tentou em vão limpar a calça e a blusa. Foi quando, para surpresa de todos, Ana disse que “Faço questão de lavar o que eu sujei”. Não adiantou o “Não, não é preciso”, do desconcertado rapaz. Jaime interveio, tentando convencê-la de que “Amanhã você leva para lavar no Lave-Self”. Nada feito. Ana abriu o cinto de Antoine, depois abriu a braguilha e começou a descer as calças jeans. Ele segurou as calças com força e determinação, enquanto Jaime tentava erguer a mulher, que estava ajoelhada para melhor puxar a fétida roupa. Essa cena embriagada só teve fim alguns minutos depois, com o rapaz cedendo e entregando as calças, depois a blusa. Ana levou as peças imediatamente para a lavadora automática. Colocou sobre elas um copo de água sanitária. E assim amanheceu: a roupa de Antoine, manchada e ainda suja, dentro de uma máquina de lavar desligada.
Jaime e Ana mal conseguiam encarar a visita. Durante o dia, ainda era mais fácil, pois Antoine passava horas enfurnado na faculdade. Ou passeando pela cidade. Mas à noite a coisa piorava, o rapaz deitava no sofá da sala e lia durante horas. Livros e mais livros, todos da biblioteca do casal anfitrião. Ana e Jaime. Ambos aborrecidíssimos com aquela presença desinteressante, cada qual buscando mais e mais motivos para odiá-lo. A sua escova de dentes velha, os chás amargos que tomava, a sua curiosidade por tudo que fosse tropical etc. O que mais incomodava Ana era o fato de ele não demonstrar a menor noção de que estava sendo malquisto. Ela jurava que aquilo era encenação, “Pão-duro como todo francês, jamais aceitaria o fato de ir para um hotel”. Jaime era de opinião contrária, “Ele não percebe, essa gente não se toca de jeito nenhum”.
– Então o que devemos fazer? Cuspir na cara dele?
– Você já vomitou e não adiantou nada.
Riam, essa história acabou por se tornar bastante divertida para os dois. Obrigados a fugir de Antoine, Jaime e Ana voltaram a sair à noite. Numa quinta-feira, quando o francês recebeu um casal compatriota, Ana propôs ao marido que fossem a uma boate. Arrumaram-se, enquanto bebiam duas doses de uísque. Estavam realmente animados. Ana vestiu um minivestido que deixou seu corpo voluptuoso. Era um vestido simples, antigo, mas que a deixava muito bem. Aquelas peças do vestuário a que as pessoas se apegam, devido à sua honestidade. Coisas à toa, que valorizam o corpo e dão segurança a quem usa. O minivestido preto de malha, comprado num grande magazine por uma mixaria. Ana amava aquele vestido velho. Perdeu-o na mudança, após separar-se de Jaime.
Naquela noite, a última vez em que usou o vestido preto, Ana estava disposta a dançar até a boate fechar. Fazia tempo que não dançava, exatamente desde o seu aniversário, e queria se “arrebentar” na pista de dança. Maquiou-se com simplicidade, mas fez questão de colocar com cuidado o batom vermelho-escuro. Depois de pronta, achou a cor um pouco excessiva mas, apoiada por Jaime, manteve os lábios como estavam. Prontos, os dois resolveram tomar uma última dose na sala, com os “convidados”. Ana apareceu, causando um certo rebuliço, e foi direto para o aparelho de som. Não poupou esforços: colocou Madonna. Somente aí, cumprimentou a todos.
– Não, eu não gosto dela.
Afirmou a francesa sobre Madonna, depois que Ana disse-se apaixonada pela cantora.
– Não gosto. Acho-a vulgar.
– Mas aí é que está. Ela é vulgar, e isso é maravilhoso.
Ana estava excitada pelo uísque e danou-se a falar sobre Madonna.
– A mulher é do caralho! A maior feminista de todos os tempos. Ela fez muito bem para as mulheres: colocou cinta-liga, sutiã meia taça, meia arrastão e começou a chupar pau, na cara de todo mundo. Não ficou gritando pelos direitos das mulheres. Fez o que bem quis e mostrou que toda mulher pode fazer o mesmo.
– Você tem fantasias com Madonna?
“Que pergunta estúpida!”, pensou Ana.
– Que pergunta estúpida!
Mal-estar geral. Ana disse o que havia pensado, em resposta à pergunta estúpida da francesa.
– Por que “estúpida”? Te incomoda assumir que deseja uma mulher?
– Eu? Hum, eu acho até engraçado esse assunto tão antigo. Mas se você quer saber, eu já trepei com mulheres, e concluí que o melhor a se fazer com elas ainda é ir ao shopping. Eu adoraria fazer compras com a Madonna. Isso, para mim, seria bastante excitante.
Ana aumentou a música “Like a Virgin”, terminou seu drinque e convocou Jaime a partir. No carro, riram a valer da cara da fulana. A mesma que, dias mais tarde, viria a ser flagrada por Ana vulgarmente felando o pênis de Jaime.
Na boate, Ana cumpriu o que havia prometido: dançou a noite inteira. E, a cada música, ela sentia que mais se aproximava do seu passado, dos seus passos queridos. Seus ouvidos recebiam a música, deixando Ana envolvida por uma onda de ritmo, que conduzia seus movimentos. Não estava interessada em mais ninguém. Nada conseguiria chamar sua atenção. Poderia ocorrer um assassinato na pista de dança que ela não teria nada a contar. Não serviria de testemunha para nada. Dançava. Numa particular leitura das músicas, num tom diferente das outras pessoas ao seu redor. E isso fazia dela a mais bela dançarina dali ou de qualquer outro lugar onde estivesse. Sentia-se a mesma Ana do porão infecto que frequentava na adolescência. Quando fingia ter mais idade do que na verdade tinha. Dançava sozinha, sem enxergar nada, nem ninguém. Os vários olhares que a seguiam não a distraíam de seu transe. Estava repleta.
Jaime ora dançava, ora assistia à beleza da esposa, ora observava o efeito que a sua dança causava nos outros observadores. Em alguns momentos, entre uma música e outra, ele ia até ela e lhe servia um gole de sua bebida. Era o seu guardião. Jaime adorava aquela mulher e se apenas tivesse que fazer isso – servi-la –, para o resto de sua vida, ele estaria satisfeito. Pelo menos, naquela hora, achava que sim. Assim é a vida: você acha alguma coisa, com muita certeza, em determinado momento, e vaticina como verdade. A vida é feita de verdades fugazes. Como a de Jaime, naquele momento. A vaidade dele começava e terminava em Ana. Ana era um sonho realizado. Pessoas como Jaime podem ser consideradas felizes, pois são volúveis e crédulas de seus amores. Jaime acreditará muitas vezes ter se realizado em muitas mulheres. E, naquele instante, quando Ana dançava com o seu vestidinho roto, ele teve certeza de que aquela mulher era um sonho realizado. Ia até o seu sonho a cada intervalo, para dar-lhe o que beber e ganhar em troca um sorriso ou um beijo. Ele tinha, para si, a mulher mais linda da noite em qualquer lugar do mundo.