Vergonha dos Pés
Capítulo 11
“Lista da festa:
Elisa
José Maurício
Sérgio
Prof. Paulo
Sílvio
Janine
Carla (secretária)
Carla
Prof. Adélia
Prof. Rubens
Cristina
Aníbal
Sérgio Medeiros
Sarita e marido
Miltinho
Vera”
12
Para alegria e alívio de Ana, Elisa aceitou o convite. Não viu o menor inconveniente, aliás. “Porque, querida, gravidez não é doença, ao contrário do que você costuma pensar.” Chegado o dia, Ana estava realmente animada. Comprou um vestido azul-marinho muito bonito. Às sete da noite, já estava se arrumando. Queria estar pronta quando Elisa chegasse. Antes das oito, serviu o seu primeiro uísque. Eram oito e meia quando Elisa chegou. Fazia tempo que Jaime não via Ana tão alegre. E agradeceu a amiga pela feliz mudança de humor da esposa.
– Obrigado por vocês terem vindo.
– Ana, eu precisava te mostrar a minha barriga e o meu marido. Ela não é a cara dele? – perguntou, apontando para a barriga.
– Elisa, você não tem ideia de quanto Ana fala de você.
Jaime começou a servir três uísques.
– Querida, não acho que você devia beber.
– Zé, o meu bebê precisa de todos os elementos para se formar. Conheço muito bem este assunto.
– Desde quando?
– Ana, me admiro você duvidar de mim.
– Brincadeira. Elisa realmente entende muito sobre as necessidades de um bebê em formação. Tem uma tia dela, inclusive... Posso contar aquela história da tia Edinha?
– Não! – esperneou Elisa.
– Agora vai ter que contar.
– Elisa, que história é essa? Não conheci nenhuma tia Edinha no nosso casamento.
– Querido, você se lembra qual foi o trato para nos casarmos?
– Que eu me lembre, foi a barriga o nosso único e inesperado trato.
– Engraçadinho. Gente, meu marido é tão divertido, vocês não acham?
Ana procurou e conseguiu enxergar um certo clima de desarmonia entre Elisa e José Maurício. De início, achou que a amiga não estava tão feliz com a situação quanto devia. Observação duvidosa – mas, para Ana, aquele era decididamente um triste quadro a se assistir. Sua melhor amiga, a pessoa mais interessante que já conhecera, proprietária de uma enorme sabedoria a respeito de liberdade e coisas afins, estava ali, reluzentemente inchada, ao lado de um homem totalmente estranho. Não que Ana tenha achado José Maurício insuportavelmente chato, ou um grosseirão, ou terrivelmente feio. Mas era óbvio que Elisa havia se precipitado, com seu natural entusiasmo. Só que desta vez as consequências pareciam irremediáveis. Claro que Ana estava julgando o caso com os olhos parte ciumentos e parte invejosos. Não notava que, entre os dois, havia um amor verdadeiro.
– Qual era o trato, afinal? – quis saber Jaime.
– Que nos casaríamos num cartório, sem a presença indesejável de tios distantes com ternos mal cortados, Tias Cotinhas vindas de Sussuapé do Barro. Esses totens familiares que surgem sabe lá Deus de onde.
– E tia Edinha?
– Jaime! Chega de perguntas.
– Ah, sim. Bom, acho que os convidados já devem estar chegando.
– Foi uma pena vocês não terem ido, mas eu compreendo. Para tirar Ana de dentro de casa precisa de um reforço ancestral. Venha para os meus olhos – pediu Elisa, batendo com a mão no sofá.
“Reforço ancestral”, “venha para os meus olhos”, estes são alguns exemplos da linguagem peculiar de Elisa. Às vezes, Ana tem a impressão de estar conversando com um personagem proustiano e, em seguida, pode ser conduzida para uma periferia que, se Marcel Proust conheceu, preferiu amenizar em seus livros.
Enquanto Jaime costurava uma conversa com José Maurício, Ana se sentou ao lado da amiga para escutar algumas reclamações.
– A questão é que eu não posso xingar um homem com um nome desse.
– Como assim?
– “José Maurício, seu filho da puta!” Não cola, entendeu?
– Gente, mas vocês acabaram de se casar!
– E daí? Ai, Ana. Não que eu tenha me arrependido, mas...
– Que é isso, você tem me falado tão animadamente dessa gravidez, o que aconteceu?
– Se lembra de quando eu comprei um cachorro e depois entrei em pânico?
– O Chopp?
– É, então, é a mesma coisa. Fiquei louca de felicidade para ter o cachorro, depois quase que morri de arrependimento.
– Você adorava aquele cachorro!
– Sim. E eu adoro este bebê. Mas, bom, eu me arrependi. Quer dizer, eu adoro a ideia de ter o bebê, mas estou cansada deste primitivismo de ter que ficar gorda. Estou horrorosa!
– Não, não está.
– Estou sim, Ana, deixa de ser falsa. Estou uma porca Pig. Que horror! Não tenho nem vontade de trepar.
– Calma. Daqui a pouco isto passa.
– Ana, o que eu tenho não é cólica, não. Depois de nascer, vai ser pior que o Chopp. Chopp chegou com quatro meses. Isso, para um cachorro, é como se fosse dois anos e meio. Ele me irritava, mas eu trancava ele na área de serviço e pronto. Depois era só colocar dois tufos de algodão no nariz e limpar a merda que ele fazia. Quando eu queria brincar, eu ia e brincava, depois tacava um osso na boca do bicho e pronto.
Ana riu. Não tinha chegado nenhum outro convidado e ela já estava meio alta.
– “Depois tacava um osso na boca do bicho e pronto.” Menina, que sonoridade maravilhosa.
– Outra boa é: “Aquela caminhada acabou com meu cabelo.”
– E “mutuca na calcinha”? Eu amo “mutuca na calcinha”! Ou “tira o beise do bico”.
– Não, “tira o beise do bico” tem que falar com ênfase: “Tira o beise do bico!”
– Cara, se lembra daquela outra também...? Ai, uma que a gente inventou quando passamos uma tarde inteira na praia cantando Roberto Carlos e aqueles conjuntos de rock nacional que havia na década de 1980...
– Gente, tá confuso isso, hein?
– Não! Você vai se lembrar. A gente vivia falando, virou uma gíria na época...
– “Quicúcara”! Era isso: “quicúcara”!
Riram alto. Estavam juntas e era a mesma coisa de anos atrás. Uma grávida e a outra acreditando-se aidética, mas ainda as mesmas meninas que brincavam de Susie no corredor do prédio. O que diziam era “que cu, cara”. Unindo as palavras, achavam que ficava parecido com uma expressão indígena. Essas brincadeiras duravam tardes e tardes, passadas à beira de copos de cerveja, numa barraca de praia ou em qualquer boteco perto de casa. Centenas de horas dedicadas a besteiras, invenções, fofocas e sonhos.
– Ana, estão chegando os convidados.
Era Jaime, após atender o interfone.
– Os convidados! – repetiu Ana, irônica.
Sérgio entrou no apartamento, acompanhado de uma moça gorda, vestida com um enorme sobretudo. Ana recebeu os dois na porta e não conseguiu prender o riso quando viu a gorducha. Mas conseguiu disfarçar, dizendo que tinha se lembrado de Sérgio “outro dia, quando fui assistir a uma peça de um conhecido”.
– Era sobre o quê?
– Sobre um cachorro chamado Chopp.
– O quê?
– Era uma peça infantil, dessas que os atores se vestem de bichos.
– E o que você foi fazer lá?
– Rir. Querem beber o quê?
Ambos queriam cerveja. Ana os serviu, e aproveitou para colocar mais uma dose de uísque para ela.
Antes das onze, quase todos já tinham chegado e a aniversariante estava esfuziante. A excitação de estar com Elisa transformou Ana na mais simpática das anfitriãs, para surpresa de todos. Jaime olhava para ela curioso e apaixonado. O vestido que usava era azul-marinho e, apesar de longo, deixava Ana bastante sensual. Era uma noite fresca, não tão quente para as alças do vestido de Ana, nem tão fria para o sobretudo da acompanhante gorda de Sérgio. Lá pelas tantas, quando José Maurício já havia desistido de se importar com a bebedeira da mulher e Jaime começava a se preocupar com o estado de Ana, as duas amigas foram dançar. Todas as danças possíveis e imagináveis. Houve momentos de êxtase, como o passo “flashdance” relembrado por Elisa, ou a “guitarra imaginária” que Ana tocou, enquanto se sacudia ao som de “Cocaine”. Algumas pessoas assistiam à cena estupefatas, outras aderiam timidamente. Essas, mais corajosas, tiveram que enfrentar um batalhão de coreografias cretinas que Ana e Elisa foram inventando. Do tipo “um, dois, três, vira, um, dois, três, pro lado”. Mas nada superou o momento “chacrete” de Elisa. Ela levantou a barra da saia comprida, deixando à mostra as suas grossas pernas de grávida, deu um nó e disse: “Eu sou a Fátima Boa Viagem. Sou eu que guio as outras chacretes!” Dito e feito. Ela se posicionou na frente, enquanto o resto do grupo, induzido por Ana, ficou atrás imitando os passos. “Roda, roda, roda e avisa, um minuto de comercial.” José Maurício, sentado com um copo de uísque na mão, assistia a tudo, em parte constrangido pelos excessos da esposa, mas ao mesmo tempo achando aquilo muito engraçado. Uma grávida inchada conduzindo um bando de otários a dançar.
José Maurício, um homem ponderado, de aparência ponderada. Uma pessoa correta, que fez tudo na sua vida de maneira calma e calculada. Nunca perdeu um ano na escola, nunca chegou em casa bêbado. Seus pais jamais tiveram um motivo de aborrecimento e preocupação. O filho não se envolveu com drogas, não fez tatuagem, nem se meteu com pessoas estranhas. Um rapaz nota dez.
Daqueles que qualquer mãe gostaria de ter como genro. Formou-se em Odontologia. Especializou-se em tratamentos reparatórios e abriu um consultório bem localizado, num shopping center novinho. Rapidamente, conseguiu uma boa clientela. Arranjou uma namorada. Ótima menina. Estudante de Medicina. Nunca deu problema para os pais. Foram feitos um para o outro. A moça, ainda virgem. Uma graça. Tudo certo. As coisas devem ser assim: tudo certo. Nos lugares definidos. Ocupando espaços perfeitos. Cada coisa em seu lugar. Como peças de um quebra-cabeça. A harmonia da imagem só é possível com o encaixe perfeito das pecinhas. Cada pedaço encaixado num outro pedaço. Sem dúvidas, nem buracos. Nada fora do lugar. Os pais de José Maurício estavam montando um perfeito quebra-cabeça. Quase completo, faltando poucas peças para poder ser emoldurado. Um quadro de cinco mil peças, daqueles enormes, que mostram um mapa da Europa medieval. Uma belezura.
Quando José Maurício viu Elisa pela primeira vez, ficou atordoado. Seu entusiasmo pelas mulheres costumava se manifestar de forma morna e amena. E ele se descontrolou completamente por Elisa. Ela, com sua vulgaridade, desorganizou a mente do rapaz. Era a derrocada da vida perfeita do maravilhoso filho – o quão Freud é genial e óbvio. Uma peça estranha tinha se intrometido no quebra-cabeça. Faltava só um pedacinho para completar a Europa e encaixaram uma orelha de Mickey no lugar. Elisa era um ruído estridente que fugiu à orquestração. Uma disritmia. Um ataque epilético. Quando José Maurício rompeu com a estudante de Medicina, sua mãe quase teve um troço. Mas era tarde demais. Seu filho já havia feito sexo com a “máquina de prazeres”, Elisa. E a biologia cuidou do resto. Conduziu um espermatozoide incauto ao seu óvulo esfomeado. E nada mais determinado que um óvulo esfomeado de uma mulher de trinta anos. Cuidado!
Sem que percebesse, José Maurício cavou sua cova ou fez sua cama – Inferno ou Céu – na cavidade úmida e quente de Elisa. O quebra-cabeça ruiu. Ele se apaixonou por aquela mulher louca, que lhe aplicou o universal e secular “golpe do bucho”. E ele sabe disso. Mas homens como José Maurício pedem esta estratégia. Sua complacência só podia levá-lo a duas alternativas: um “casamento perfeito”, com uma virgem, ou um “casamento forçado”, com uma mulher cansada da vida pregressa.
Agora o Zé está afundado num sofá, com um uísque aguado na mão, observando a sua esposa, com o seu bebê dentro da barriga, imitando Fátima Boa Viagem. E isso o alegra. Isso é a melhor coisa que ele já viu na vida. Sabe que foi vítima de um golpe, talvez nem calculado, mas José Maurício ama Elisa. Aceitará todas as crianças que nascerem daquele corpo, agora não tão encantador quanto antes, mas ainda cheio de viço. Ele agradece a Deus por ter quebrado sua monotonia. Pois poderia estar até hoje vivendo a sua vida banal. O quadro que seria feito com o perfeito quebra-cabeça de cinco mil peças e depois pendurado na parede foi substituído pelo retrato de uma mulher. Que se veste com exuberância, rindo um sorriso safado. A mãe dele ainda chora. Ela não conhece uma antiga filosofia de sua nora: que, afinal de contas, “todo cachorro tem o cu pra cima”.
O dancing esmaeceu. Entre uma música e outra, as pessoas foram sendo tomadas pelo senso de autocrítica, que denuncia e reprime o ridículo. Elisa sossegou ao lado do marido. Enquanto Ana conversava com Sérgio, sob os olhares intrigados de uns e indignados de outros. O assunto era “o único possível a ser conversado com aquele velho idiota que bate palma para qualquer impropério que eu falar, feito uma foca gorda e amestrada”.
– Teatro é tão defasado quanto um curandeiro. A medicina evoluiu, as artes cênicas também: taí o cinema e a tevê. Mas esse pessoal de teatro insiste em viver no passado, encenando os mesmos textos há séculos.
A eloquência de Ana contava com o total apoio do seu interlocutor embriagado.
– Eu concordo.
– Sérgio, eu acho um absurdo um homem como você concordar com uma besteira como essa – disse a gorda, indignada. – Só pode ser louco alguém que fala mal dos textos clássicos. E Shakespeare?
– Shakespeare é um pentelho!
Ana matou a conversa e foi dançar Smiths sozinha. Elisa, tombada do sofá, chorava no ombro do marido. Os outros convidados começaram a se despedir de Jaime. Enquanto Ana dançou o lado inteiro de uma fita, Elisa parou de chorar e passou a divertir Jaime e José Maurício com uma história sobre pintos, hamsters e pombos. Não tinha mais ninguém na festa.
– Ih! Esqueci do bolo!
Eram cinco horas da manhã quando os quatro cantaram: “Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida.”
Será mesmo? Como seriam os próximos anos de vida de Ana? O que aguarda as pessoas no dia seguinte? Alegrias ou catástrofes? Vale a pena torcer por algo? Pessimismo? Não. Quando se dorme à noite, o amanhã parece razoavelmente seguro. Tanto, que se dorme. Mas, no entanto, ele é tão incerto, que talvez nem exista. Ana estava viva no dia seguinte ao seu aniversário – sabe-se lá como –, e ainda o está hoje. Hoje, ela sente muito calor, não tem Jaime ao seu lado na cama e finge ter lombalgia para não ir às aulas. Vive entre pessoas que não lhe importam muito. Leva a sua vida nada excepcional. A vida que lhe cabe viver.
No dia após a festa, Ana acordou junto com as dores da bebedeira. Ressaca. Nada além das reações naturais de seu corpo aos litros de álcool ingeridos. Justa resposta à teimosia humana de querer vencer suas impossibilidades. Ana bebeu oito copos de uísque e cinco latas de cerveja. Não caiu bêbada por ser decididamente forte. Poucas mulheres aguentam tanto, sem ao menos falar torto. Ana, não. Há nela uma resistência, digamos, masculina. Apesar de bêbada, somente Jaime foi capaz de julgá-la como tal. O que mudou em Ana depois de tanto uísque? Ela conversou simpaticamente com todos, dançou e dublou várias músicas, dissertou sobre a necessidade de bons cosméticos para o valor existencial das pessoas, disse amar Barbara Cartland e que daria tudo para escrever como ela. E ainda causou um terrível mal-estar, falando mal do teatro e seus derivados, pois havia pelo menos três convidados envolvidos com produções teatrais. Pequenos inconvenientes, que culminaram na hora da performance emotiva da melhor amiga. Elisa estava indo embora, chorosa. José Maurício abraçou a esposa e disse que a depressão é normal durante a gravidez. Ana não conseguiu se conter:
– É por isso que a vida é uma merda! Como podemos ser felizes se nascemos de uma crise depressiva?
Elisa abraçou a amiga.
– Feliz aniversário e vá à merda você!
Ninguém fica impune a tantas passagens delicadas e tantos uísques. Ainda mais, se misturados a uma natureza já complicada, devidamente alimentada pelo medo de estar com Aids. Ana acordou destruída. Sua vergonha era implacável e aumentava à medida que se lembrava das coisas que havia feito na festa. Um e outro detalhe afloravam a sua sensibilidade. Uivou quando se lembrou de ter abraçado todas as pessoas que chegavam. Quis morrer quando recordou as danças. “Que coisa horrorosa! Uma cena de cinema nacional!” De nada adiantava Jaime dizer que a festa tinha sido ótima, que ela estava maravilhosa e que não havia feito nada de errado. A cabeça dela girava, acelerada, em ciclos de raciocínios negativos. Jurou que nunca mais colocaria os pés na faculdade. Não poderia rever aquela gente. Lembrou da carteirinha de doadora de sangue. Mas, sobre isso, Ana prometera para si mesma não pensar mais. Ligou a tevê. Passava um programa sobre uma competição internacional de triátlon. Chorou ao ver aquela gente toda correndo. Chorou mais ainda quando viu uma velha de setenta anos ser desclassificada por causa de quinze segundos, depois de ter nadado e corrido durante três horas. E chegou a soluçar quando passou o atleta paraplégico, que gastou não sei quantos mil dólares para construir um triciclo especial para a corrida. Comparou-se a essas pessoas. Elas se dedicam a uma causa árdua, cheia de provações, e se dão por satisfeitas se completarem o percurso, mesmo que cheguem em último lugar. E ela ali, esculhambando Shakespeare. Queria morrer de vergonha. Sua cabeça doía, seu estômago se contorcia dentro da barriga – mas o pior era a ressaca moral, a inimiga número um dos boêmios.
Voltou a dormir. Jaime ficou ao seu lado, fazendo carinho na sua cabeça. Queria sossegar os pensamentos da mulher. A mãe dele sempre dizia que quem pensa muito desencapa os neurônios e, quando envelhece, fica esclerosado. Para comprovar sua opinião, havia a tia Divinha, que estudou tantas línguas que quando ficou velha não conseguia falar nenhuma. Só fazia babar.
Jaime fazia carinho nos cabelos longos de Ana, retornando sempre ao mesmo ponto da cabeça. O seu “vórtex energético”. Não queria que a esposa desencapasse seus neurônios. Achava incrível a capacidade dela de ficar pensando besteiras. Ele nunca perdeu tempo com inutilidades. Sempre foi um homem adaptado. Quando mais jovem, antes de entrar na faculdade, fez uma viagem de um mês e meio num navio cargueiro. E não tinha nada para fazer além de jogar cartas com os tripulantes e comer. Engordou dez quilos nesta aventura. Comia de quatro em quatro horas, nas refeições de cada mudança de turno. Nos intervalos entre elas, comia biscoito Maizena. O que ele pensava em todas essas semanas no meio do oceano? Nada. Simplesmente estava ali, viajando de graça, jogando carta e comendo. Simples, quase patético. Mas Jaime é assim: simples, adaptável. Tentou ler, mas logo percebeu que o balanço do navio o deixava tonto. Então largou os livros de lado e dedicou-se ao nada. Algumas horas se entediava, mas ficava olhando para o mar e se esquecia do tédio. Jaime é decididamente um sujeito simples. Diferente de Ana, não tem alma entediada. Isso seria complicado demais para ele. Viveu uma infância e uma juventude normais. Sem dramas, sem nenhuma grande falta. Tinha pais, irmãos, avós e cachorros. Podia comer biscoitos no almoço e ver tevê até tarde. Quando fez treze anos, ganhou uma vitrola e ficava o dia inteiro com os bojudos fones de ouvido escutando discoteca nas alturas. Uma vida comum, cercada de sentimentos ajustados. Claro que isso não garante a formação de um bom caráter. Verdadeiros monstros criminosos crescem no ventre das famílias mais ajustadas. Impossível prever se nascerá Caifás ou Cristo. Basta ver aquela foto de Adolf Hitler ainda bebê para desmoronar qualquer teoria de “bom berço” ou “mau berço”. Gordinho, com olhos grandes e puros. Ninguém podia imaginar o que aquele lindo nenenzinho iria aprontar. Porque o mal está a um passo do bem, ou a um cromossomo. É tão fácil alcançá-lo. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.” Amém. O Pai-nosso é tão lúcido e justo com os Homens. É como se dissesse: “Posso cair em desgraça, posso matar minha mãe, currar minha irmã e xingar o padre – então me livre deste mal, que não cairei em tentação, e estamos conversados.” O Homem pode tudo, todas as pessoas podem fazer aquilo que bem quiserem. Os limites, que impedem o Homem de cometer erros, são os mesmos que qualificam o que é errado, o que é impedido. Como é o próprio Homem quem cria essas leis, pode derrubá-las com a facilidade de quem muda de ideia ou de roupa. Não há regras naturais, há regras do jogo. E o grande perigo que corre a humanidade é perder o que resta do sentido maniqueísta de bem e mal. Os instintos humanos são selvagens. Uma vez despidos de limites morais, os Homens se esfolarão uns aos outros. Terão filhos de suas próprias mães e irmãs e se matarão sem remorsos. As leis não valem porque são públicas ou bíblicas. Os dez mandamentos de Moisés são metáforas a serem entendidas, não pecados a serem temidos. É – isso, sim – melhor crer nas leis do que viver num estado primitivo sem ter a essência para tal. Faz tempo que o Homem não é mais macaco e não pode viver dessa nostalgia. As chances estão sempre contra, mas por sorte nasce mais gente boa do que má. E, apesar de tudo, a maioria delas cresce e consegue continuar assim.
Jaime é um desses bons sujeitos. Amava aquela mulher que agora dormia e tentava acalmar os seus neurônios trêmulos e desencapados. “Dorme, Ana, eu te amo.” Permaneceu ao seu lado, na cama, fazendo carinho na cabeça dela e assistindo à tevê bem baixinho. Depois dormiu. E tudo parecia calmo para o casal. Um ao lado do outro, com suas respirações alternando entre o silêncio e ruídos fortuitos. Dormiam. Não existe momento mais puro que o sono profundo. E estavam lá, desprotegidos em sua pureza.
Quando chegou a madrugada, Ana acordou, após um sonho estranho. Sonhara que tinha engravidado e sentia muitas dores dentro da barriga. Eram como se fossem unhas tentando cravar suas entranhas. Depois, a criança aparecia – grande e com cara de demônio. Era o “Bebê de Rosemary”, enfim mostrado. E o bebê era de Ana. De alguma maneira, precisava se desfazer daquele ser horrível, e o faria, mesmo que viesse a ser acusada de matar o próprio filho. Mas não foi necessário. O bebê, notando que seria abandonado pela mãe, encheu-se de força e ódio. Avançou sobre ela, enquanto descansava deitada na cama. A mãe, para se defender, jogou-se ao chão, fazendo com que o bebê-monstro caísse em cima de um ferro pontudo, que adornava as laterais da cama antiga. Um final feliz num sonho assustador.
Ana acordou esbaforida. Teve medo. Queria acordar Jaime, mas ficou com pena. Tentou se convencer de que não era preciso ficar assustada. Ela não estava sozinha, ninguém iria levá-la dali. Mas sentia a mesma coisa de quando era pequena e tinha pesadelos. Mesmo estando ao lado de alguma colega de quarto, imaginava que ela poderia estar “tomada” pelo espírito de “Carrie, a estranha”, e dar com um machado na sua cabeça. Ficou virada para Jaime de olhos bem abertos. Aguardava a hora em que o seu marido, ou melhor, aquele corpo possuído por um espírito demoníaco, iria atacar. “Mas isso é uma besteira. Esse é o Jaime, que me ama e cuida de mim. Ele não vai me fazer mal.”
– Jaime! É você?
– Hum?
– Se for o Jaime que está aí, diga alguma coisa.
– Hum...
– Eu sei que você está aí, seu demônio maldito... Mas você não vai me pegar!
– O quê?... O que está acontecendo, Ana? Volta a dormir, amanhã cedo você tem aula.
Era Jaime, e lembrou Ana de um pesadelo pior que o anterior. Ir para a aula. Encarar as pessoas que vieram à festa. Fingir prestar atenção nas aulas. Mesmo assim, sentiu-se protegida por saber que era Jaime que estava ali, e não um mutante se fazendo passar por ele. Nenhum monstro visitaria as suas entranhas. Por enquanto. Mas ainda sentia medo. Medo de fantasmas. Sua bexiga estava cheia, quase estourando, precisava ir ao banheiro. Mas não moveria um dedo: o demônio podia estar debaixo da cama. Poderia ser pega no corredor, a caminho do banheiro. “Sabe-se lá.” Mas a sua vontade de fazer xixi era grande. “Tenho que deixar de ser boba, pensar em coisas amenas.” Levantou-se, era preciso fazer xixi, não tinha outro jeito. Andou até a metade do corredor com calma, depois acelerou os passos, quase correndo. Tremia de medo, medo infantil. Que a maioria dos adultos continuam sentindo, basta aparecer a situação certa, como assistir a um filme de terror sozinho. Quando Ana viu O iluminado, ficou uma semana morrendo de medo. Um elevador vazio deixava-a amedrontada. Um corredor comprido, então, era a certeza de que a qualquer momento Jack Nicholson apareceria com os olhos esbugalhados e trincando a dentadura. Até hoje ela tem medo de Jack Nicholson. Mas conseguiu chegar ao banheiro. Não teve coragem para fechar a porta, apenas encostou, faria xixi rapidamente e voltaria para a cama. Enquanto executava seu plano, Ana olhou-se no espelho. E bastaram alguns segundos para que seus olhos, transtornados pela ressaca e pelo medo, enxergassem uma imagem medonha. Olhou com mais afinco, enxugou-se e se aproximou do espelho. Era certo: “Estou com cabeça de aidético.” Acendeu a luz do espelho. “Não tenho mais dúvidas: pareço cinza, cabeçuda, com os olhos fincados. Estou doente.” Freddy Krueger poderia aparecer naquele instante, com as suas unhas de metal pingando sangue, que ela mal reagiria. Estava petrificada com sua própria imagem. Com sua realidade e destino. “Eu estou com Aids, é isso. Emagreci, estou cinza. Nada mais faz sentido.” Voltou para o quarto abalada e deitou ao lado de Jaime. Queria dormir, não queria mais nada. Dez mil mãos do além poderiam puxar o seu pé. A vergonha da festa sumiu. “Foda-se aquela gente horrorosa da faculdade.” Tinha agora que tentar ficar calma. Mas não estava conseguindo. Sua cabeça explodia em imagens desconexas e todas confirmavam as suas dúvidas. Mesmo que racionalmente não encontrasse uma chance lógica para estar com o vírus. Era muita má sorte mesmo. “Poxa. Eu não fiz por onde. Onde eu peguei essa merda? E agora? O que fazer? Como explicar isso para Jaime? Eu não tenho culpa. Não acredito. Tenho tanta coisa para fazer.” O desespero foi tomando conta de Ana, estava completamente descontrolada. Mudava de posição para posição, fazendo força para se concentrar e dormir. Dormir para esquecer a sua trágica vida. Ela viu, com os olhos da insônia, claramente a sua desgraça. Porque a insônia é uma jovem senhora rancorosa, que piora bastante o quadro das coisas. Ela viu claramente a sua desgraça. Não tinha mais o que conversar, para ela era certo. Ainda tentou desafiar esta certeza, com lógicas incertas. Tipo, “Fulaninho não pode ser, ele teve filho e é tão regrado; mas tem sicrano; não, seria muito difícil.” Mas a boa-fé não resistiu muito e novamente a sua visão escureceu. “Hoje em dia, a gente nem sabe. Basta não ser mais virgem para qualquer um estar doente. Talvez nem isso, não se sabe mais de nada, sei lá, basta estar vivo para ter Aids.” Começou a chorar. Primeiro, controladamente, depois, soluçando, a ponto de acordar Jaime.
– O que foi, meu amor?
– Essa porra dessa doação de sangue, Jaime. Acho que estou com Aids.
– Que que é isso? Que besteira. Para de pensar bobagem, Ana. Vem cá.
Ana se aconchegou em Jaime. Ainda chorava muito.
– Todo mundo já recebeu sua carteirinha, menos eu. Só pode ser isso.
– Você não acha que se você estivesse com alguma coisa eles não iam te avisar?
– Sei lá. Às vezes, não. Não sei, só sei que é estranho todo mundo receber e eu, não.
– Ana, quem é “todo mundo”?
– O povo lá da faculdade.
– Por que você não faz o exame e tira essa besteira da cabeça?
– Mas e se eu tiver...?
Ana caiu em prantos. Jaime a abraçou mais forte. Era um homem bom para ela.
– Tira isso da cabeça, meu amor. Tenta dormir agora.
Jaime voltou a fazer carinho em sua esposa. Ele tinha o poder de fazê-la sossegar. Ana ainda deu uns soluços, mas acabou voltando a dormir. Jaime amanheceu acordado.
No dia seguinte, ela foi para a faculdade. Não estava mais envergonhada. Na verdade, não estava nem aí para todas aquelas pessoas. Cumprimentou os conhecidos, e evitou conversas inúteis. Era o momento de pesar sua vida, olhar as coisas de frente, para poder se despedir e, de certa forma, aproveitar os últimos instantes. Era o que achava, que tinha pouco para viver e deveria ponderar sobre o que faria com este pouco. E assim passou sua manhã, calada, sem pensar no seu romance, sem se fingir concentrada na matéria, sem observar as pessoas “ridículas” ao seu lado. Inclusive, a respeito das pessoas, o seu coração parecia ter esmaecido. “As pessoas não são ruins. Elas não se aproximam de mim porque eu não dou confiança.” Uma moça sentada ao seu lado ofereceu chiclete, Ana aceitou e riu. “Se ela souber que estou com Aids, talvez nem queira sentar do meu lado. Coitados, são preconceituosos porque são ignorantes. Se bem que, coitados uma ova! Ser ignorante, tendo todas as possibilidades para aprender, é mau-caratismo. Burrice é preguiça. Se eu estiver com Aids, vou abraçar todo mundo, para eles deixarem de ser escrotos. Preconceituosos escrotos.” Era a mesma Ana de sempre, um pouco abalada, mas ainda com o seu imbatível julgamento sobre as coisas. Era Ana um pouco menos arrogante. Mas era Ana.
Quando chegou em casa, após as aulas, Jaime já havia arranjado uma clínica que fazia o teste.
– Não se preocupe, Ana. Tenta pensar em outras coisas, no seu livro...
– Nem sei se quero escrever livros nos meus últimos anos de vida.
– Que é isso? Olha, eu também vou fazer.
– Ah, coitado, eu te meti nessa encrenca. Estou me sentindo péssima.
– É claro que temos que fazer juntos.
Almoçaram, pegaram o carro e foram para a clínica. Ana estava um pouco mais calma. Agora era Jaime que começava a se preocupar.
– Seu eu tiver Aids, vou largar tudo e me drogar. Quero viver doidão. Gastar todo o meu dinheiro viajando...
– Eu, não. Vou tentar levar uma vida mais zen. Purificar a minha alma.
– Você? Falando em coisas zens?
– Exatamente. Quero viver de uma maneira que nunca vivi.
O assuntou morreu por alguns minutos. Estavam pensativos. Estavam em pânico.
– E se só eu estiver com Aids? Homem, é mais difícil de pegar com mulher.
– Aí, eu me corto e jogo o seu sangue em cima.
– Eu prefiro estar do que você. É triste ver a pessoa que a gente ama morrendo.
– Mas não é assim. Tem tempo pra morrer. De repente até descobrem a cura.
– Não acredito. Gripe é vírus e não tem cura.
– Não podemos pensar assim. Temos que ter esperança.
– Sabe, Jaime, eu gostei de viver com você.
– Para! Não estamos com isso.
Ana estava realmente comovida. Esperou que o carro parasse em um sinal fechado para abraçar o marido.
– Foi a melhor época da minha vida.
– Ana, não fica assim. É uma chance em um milhão.
– Mas se a gente não tivesse dúvidas, nem estaria fazendo o teste.
Isso fez Jaime pensar. Não havia sido um homem promíscuo. Nunca usara drogas injetáveis, nem tivera relações homossexuais. Mas essa é uma doença de todos, não de grupos distintos. Ele havia, sim, transado sem camisinha. E mesmo que suas relações tivessem sido relativamente longas, não poderia afirmar com todas as sílabas necessárias: “Tenho certeza de que não tenho agá-i-vê.” Estava realmente preocupado.
– É que eu realmente acho que as chances são poucas.
– Nessa situação, não existe estatística. Você pode ter trepado uma vez só, sem camisinha, e ter pegado.
Ficaram novamente em silêncio. As coisas pareciam realmente pretas.
A clínica era a melhor para tal circunstância. Além de isolada, era calma e discreta. Não que houvesse da parte deles algum constrangimento a respeito do teste que fariam, mas precisavam de silêncio: estavam pesando as suas vidas. Foram chamados e preferiram entrar juntos na sala de recolhimento do sangue. Primeiro, foi Ana.
– Dói mais do que doar sangue?
Ela achou que não doeu muito. Era a vez de Jaime, então. Ele parecia estar mais amedrontado com a seringa do que Ana. Quando a enfermeira enfiou a agulha, ele fechou os olhos. Ana teve vontade de chorar.
Diferente dela, ele ficou pior por ter feito o exame. Para Ana, não. Aquilo era um alívio, mesmo que desse positivo. Estava há dias com este fantasma na cabeça e era melhor colocar tudo às claras. Mas Jaime, que nunca havia pensado com pessimismo no assunto, depois que teve o seu sangue recolhido, olhou para o frasco com receio. Era como se aquele sangue pudesse decepcioná-lo. O corpo inteiro com um sangue contaminado. Um sangue que o mataria. Jaime estava triste e preocupado.
– Desculpa por fazer você passar por essa situação. É minha culpa.
– Não. Você só doou sangue, não fez nada de mau.
O resultado sairia no dia seguinte, o que era outro grande alívio. Elisa, quando fez o seu, teve que esperar uma semana, e, quando chegou para buscá-lo, a enfermeira disse que havia um probleminha e que ela teria que esperar até o dia seguinte. Ela quase que teve um ataque. Voltou para casa e ficou o dia inteiro deitada no escuro, sem querer falar com ninguém. Depois, disse para Ana que ficou recolhida fazendo cálculos, para ver se teria dinheiro suficiente para fugir do país. Porque se ela tinha HIV, metade da cidade estava contaminada. Mas não, o resultado foi negativo. E Elisa jurou que jamais voltaria a transar sem prevenção. “Um orgasmo não vale essa tensão. Ainda mais, porra é uma coisa muito inconveniente.” Alguns anos antes desta afirmativa, Elisa defendia a importância do esperma para uma boa pele, “porque tem proteínas”. Agora, era a vez de Ana experimentar a angústia que é fazer um teste de HIV. Quando chegaram em casa, ela se recolheu, enquanto Jaime tentou se concentrar nos estudos. Mas não conseguiu, sua cabeça girava. Começou até a encontrar um e outro sintoma da doença. Principalmente, as aftas que andava tendo. Mordeu levemente uma delas, ratificando o resultado positivo de seu exame.
À noite, resolveram que o melhor era dormirem cedo, para que o tempo passasse mais rápido. Estavam ternos um com o outro. Fizeram um pacto de amor eterno. E dormiram à base de calmantes. Mesmo amanhecendo, a angústia permaneceu. O resultado só sairia às seis da tarde. Até lá, Ana deveria ir para a aula, fazer dois trabalhos para nota e ainda cuidar da casa. Não reclamou dos seus deveres, era uma maneira de esquecer o seu penar. Jaime ficou o dia inteiro na faculdade – algumas linhas de sua monografia foram escritas. As horas se passaram em tom funesto. Antes de ir buscar o resultado, Ana tomou um longo banho e se arrumou com dedicação. Passou até um batom, coisa que não costuma fazer. Queria estar bela na hora de enfrentar o seu destino. Faltava ainda muito tempo. Sentou-se na sala e folheou uma revista. Teve uma enorme vontade de falar com Helena. A mãe de Ana é uma mulher dura: diria para a filha que tudo aquilo era uma besteira, que devia parar de ficar enchendo a cabeça de pensamentos pessimistas. Helena não tem tempo para coisas negativas. Não que ela seja exatamente uma otimista – ela simplesmente não se dá ao luxo de sofrer por antecedência. Tentou ligar para a mãe, não a encontrou. Resolveu então sair de casa mais cedo e em vez de pegar um táxi, como sugeriu Jaime, dando dinheiro e tudo, achou melhor pegar um ônibus. E assim o fez. Quando chegou à clínica, eram exatamente seis horas da tarde. “É a hora da ave-maria.” Mas Ana não rezou. Não adiantaria nada, naquele momento. A Virgem não iria mudar as letras daquele papel, que já continha o veredicto para os seus próximos anos. Foi para a fila buscar o envelope. Havia lido em algum lugar que, quando o resultado é positivo, os pacientes são enviados para conversar com um médico. Não foi o que aconteceu. Ana recebeu os dois envelopes na mão. Mesmo assim, tremia quando abriu o primeiro. Era o de Jaime. Negativo. Sentiu os seus olhos começarem a querer transbordar. Abriu o seu. Negativo. Chorou. Era a sua vida sendo devolvida.
Assim que pôde, correu até um telefone público. Jaime estaria na sala de seu orientador, esperando uma resposta. Ana tremia de emoção e mal conseguiu discar os números. Assim que a campanhia tocou, Jaime atendeu. Sabia que era a sua esposa, só não sabia o que ela iria dizer.
– Não! Meu amor, nós não estamos com Aids!
– Deu negativo?
– Sim. Negativo.
– Ai...
– Jaime, eu te amo!
– Eu te amo, também.
Esta foi a última vez que Ana disse para Jaime que o amava. E estava sendo sincera. Naquele minuto, ela amava o mundo inteiro. Sentia-se nova, leve como uma bailarina. Era capaz de sair dançando. Pegou um ônibus para voltar para casa. Teve vontade de beijar todas as pessoas que, cansadas, acabavam de largar o serviço. Pessoas que viviam as suas próprias dores, mas que defenderiam o direito de viver com unhas e dentes. Como fez Ana, segurando forte o seu exame negativo. Ela abaixou a cabeça e, como numa reza, falou: “Isso nunca vai acontecer comigo, nunca mais me permitirei viver esse medo.” Pois, de certa forma, ela havia tido HIV. Durante todos aqueles dias que se imaginou morrendo. E havia tido Aids, nas vinte e quatro horas que esperou pelo resultado do teste. Tinha provado a verdadeira face desta praga, que é, em algum momento, deixar a todos com a certeza de estar doente.
Quando Jaime chegou em casa, trazia champanhe. Os dois beberam até de madrugada. Abraçaram-se, colocaram os exames presos com ímãs na geladeira e dançaram “a dança dos não aidéticos”. Uma dança esquisita, criada por Jaime e pelo champanhe. Consistia em rodar os pulsos das mãos para um lado e depois para o outro, enquanto o corpo era movimentado para trás e para a frente, como que numa dança indígena da chuva. Acharam muita graça e prometeram dançar daquela maneira todo ano, em comemoração à saúde de seus sangues. “Fazia um dia espetacular. Estava fresco e o sol não incomodava a pele muito clara e sensível de Lívia. Ela vestia branco, seu vestido parecia uma nuvem, cobria o seu corpo com carinho e respeito. Estava leve e feliz, principalmente porque tinha ao seu lado Mirna e Jonas, as duas pessoas que mais amava no mundo. Nesta tarde, ambos tinham saído para fazer compras, enquanto Lívia ficara em casa terminando uma tela que se chamava ‘amor por dois’. Faltavam apenas alguns retoques. Nos últimos dias, enquanto Jonas fazia companhia para sua amiga, ela vinha se dedicando a esta obra, pois queria surpreender os dois. Foi durante estes dias que Jonas se aproximou de Mirna, com o intento de levar a cabo sua vingança. Era tão falso, que não demonstrou em um só minuto a sua verdadeira intenção. Enquanto maquinava seu plano, foi sendo tomado por um grande desejo por aquela mulher vulgar que, em sua mente, havia roubado a sua esposa. Este sentimento, de ciúme e ódio, começava a ser intensificado pela vontade de ‘comer’ Mirna. Mas não era ainda o momento. De noite, quando se recolhia com Lívia ao quarto, oferecia à mulher horas de luxúria. Estava especialmente viril. Muitas manhãs, Lívia acordava esgotada, depois de satisfazer os apetites sexuais do marido. Sem saber que toda aquela atividade se devia a um plano maldoso. Jonas estava determinado a terminar aquela amizade a qualquer preço. Um desejo quase animal que, nos homens, é despejado na hora do sexo. Se eles almejam uma promoção, eles vão ficar eretos para sustentar este sonho. No caso de Jonas, era a vingança que o deixava excitado naqueles dias. Houve muitas outras ereções, resultantes da vontade máscula de vencer, de ganhar o campeonato de squash, de conseguir fechar um grande negócio. Agora, era conseguir comer aquela mulher. Ter o seu corpo entre as pernas da melhor amiga de Lívia e acabar de vez com aquela amizade. Não que Jonas seja um homem bom, mas por detrás de sua crueldade, nesta situação, ele acredita estar fazendo um bem para Lívia. Estava salvando a esposa daquela vampira decadente.
Enquanto Lívia terminava sua declaração de amor pelo marido e por Mirna, os dois estavam dentro do conversível de Jonas, parados num distante ponto da praia. Onde o mar se misturava com um grande rio. Um lindo lugar, perfeito para se nadar e para se fazer coisas escondidas.
Jonas beijava Mirna. Havia naquele homem um magnetismo que estava tomando os sentidos daquela mulher. Seu beijo mexia com todo o corpo dela, deixando-a trêmula, quase sem controle.
– Jonas, você me enlouquece.
Para ele, esta era a pior frase que uma mulher poderia dizer – caso quisesse por ele ser amada. Esse tipo de mulher, que diz este tipo de coisa, significava, dentro da cabeça machista de Jonas, ‘apenas para dar umas e pronto’.
– Você me descontrola.
Mirna insistia, enquanto ele beijava seu pescoço, depois abrindo os botões de sua blusa. Era a primeira vez que Jonas via os seios dela. Assim como Lívia, sentiu-se repelido por aquelas mamas caídas. Mas não era homem de demonstrar a uma mulher suas preferências, e meteu um dos seios na boca. Ela gemia, estava tomada pelo desejo. Jonas sugou um peito, depois o outro. Fazia isso comparando-os aos de uma índia velha. Mesmo com desagrado, não poderia deixar de estar ereto. Afinal, Jonas não faria feio diante da ‘vaca’ que havia roubado sua esposa dos seus braços. Puxou a blusa fina de seda azul, deixando Mirna com o dorso nu. Largou os seios para se dedicar à barriga. Esta, sim, bela, rija e bem formada. Lambeu cada pedaço, dedicando-se ao umbigo e, ao mesmo tempo, abrindo o fecho de sua calça jeans. A mulher estava aos berros. Jonas notou dois pescadores assistindo à cena e não se importou em expor aquela mulher à masturbação alheia. Continuou a lamber, agora um pouco mais embaixo, no ventre. Ali permaneceu alguns instantes, descendo um pouco mais até o púbis. Neste instante, Mirna já não se aguentava mais. Empurrava a cabeça de Jonas para o ponto que desejava. Mas ele queria apenas deixá-la enlouquecida. Não era momento de dar-lhe um orgasmo. Apenas rodeou a parte que a faria gozar. Ela cravou as unhas no estofado, de tanto prazer e impaciência. Mas não gozaria. Ele, também não. Apenas os dois pescadores conseguiram se satisfazer naquela tarde.
Quando chegaram em casa, Jonas entregou as compras para a criada e foi encontrar Lívia em seu ateliê. Ela estava dormindo em uma cama de viúvo que havia por perto, para o seu descanso, após longas horas de pinceladas. Mirna subiu para o quarto, para se refazer num banho. Jonas, com a sua mente calculista, esperava surpreendê-la quando ela descesse para ver a amiga. Aguardou mais meia hora para acordar a esposa. E o fez, beijando sua nuca exposta. Depois, mordeu levemente sua orelha. Este carinho costumava deixar Lívia acesa. Ela acordou. Conhecia o marido, e sabia que ele queria sexo. Mas estava cansada e tentou dissuadi-lo. Não conseguiu. Jonas estava decidido. Levantou a esposa no colo e colocou-a sentada em uma mesa de madeira firme. Tirou sua calcinha, delicadamente, enquanto beijava a sua boca.
– E Mirna? Ela pode nos ver.
– Acalme-se, ela disse que iria dormir.
Depois abriu a calça, que, sendo de um tecido leve de verão, desceu até os tornozelos com facilidade. Chutou a roupa e, com as pernas livres, aprumou-se para penetrar a mulher. Lívia deu um leve gemido. Era assim que Jonas gostava. Como já tinha ficado muito tempo ereto, não demorou para que ejaculasse. Deixaria Lívia sem seu orgasmo, numa situação normal. Mas ele já tinha planejado tudo. Então, se ajoelhou e, mesmo sentindo o cheiro e o gosto de seu esperma, coisa que o desagradava, começou a beijar a vagina da esposa. Delicadamente, para que ela demorasse o máximo para atingir o orgasmo. Lívia mexia o seu corpo devagar, tentando acelerar o seu prazer. Mas Jonas não queria assim. Três vezes, a mulher quase gozou. Mas Jonas, assim que percebia, mudava de ritmo e de lugar, passando a lamber as coxas. Ficaram naquele vaivém durante uns vinte minutos. Lívia estava estrategicamente virada de costas para o janelão, que dava para o jardim e para a casa principal, e não viu quando a amiga se aproximou e assistiu, enfim, ao seu gozo. Jonas fez questão de enxugar os lábios, antes de fingir vê-la pela primeira vez, ali, espionando os dois em sua intimidade. Lívia se recompôs como pôde, chutando a calcinha para debaixo da mesa.
– Mirna! Que bom que você acordou.
– Eu não dormi. Apenas tomei um banho.
– Ah, sim. Venha, entre. Quero lhe mostrar uma coisa.
Mirna estava confusa com o que vira. Havia sentido ciúmes de Jonas. Por que ele fez Lívia gozar e não ela?
– Quero que você dois vejam uma coisa. Sentem-se.
Ambos sentaram-se num pequeno sofá.
– Trabalhei dias neste quadro. Quero a opinião de vocês. É muito importante pra mim.
Lívia virou o quadro para os dois. Jonas reagiu com esfuziantes adjetivos. Mirna, ainda chocada com o que vira, disse apenas ter gostado.
– Você não gostou, Mirna?
– Sim, gostei muito. É que estou com um pouco de dor de cabeça. O sol de hoje me deixou levemente abatida.
– Ah, vou pedir uma aspirina para você.
Lívia foi até o interfone para chamar uma criada.
– Está fora do gancho. Elas sempre esquecem de desligar o aparelho.
– Querida, por que você não vai buscar o analgésico, enquanto nós admiramos o seu quadro?
– Sim. Irei buscar. Não fique assim, em breve você estará bem.
Mirna mal esperou Lívia sair para indagar a Jonas o porquê daquela cena.
– Como? Mirna, ela é a minha esposa, tenho que lhe dar prazer. Cheguei aqui, Lívia me contou ter tido um sonho bastante excitante comigo, e me agarrou. Deixe de ser tonta.
– É, estou agindo feito uma tola. Não desejo nada de mau a ela. Eu a amo profundamente. Mas é que faz muito tempo que não sentia nada como sinto por você. Estou ficando louca. Agora, por exemplo, era capaz de arrancar sua roupa com os dentes.
Mirna beijou-lhe fortemente a boca. ‘Deve estar sentindo o gosto de Lívia. O gosto delicado de minha mulher, que ela lambeu descaradamente. Sua vaca escrota!’
– Calma, Lívia deve estar chegando. Não vamos estragar tudo.
Mal terminou a frase, e sua esposa apareceu na porta, segurando um copo d’água.
– Tome, querida. Não gosto de vê-la sofrendo.
– Já ficarei boa.
– E então? O quadro?
– Está maravilhoso! Você é muito talentosa – disse Mirna, depois de virar o copo com sofreguidão.
– Que bom que gostou! Porque ele é seu. Quer dizer, na verdade, ele é seu e de Jonas. Mas como Jonas nunca irá embora, deixo que você o leve quando partir.
– Mas não será breve, não é, Mirna?
– Não, é, ainda posso ficar mais uns dias. Talvez uns quinze.
– Mas e os seus compromissos em Paris?
– Lívia, assim ela vai acabar pensando que você quer que ela vá embora.
– Não! De jeito nenhum, só não quero que ela prejudique a sua carreira.
– É que... Bom, recebi um telefonema e a produção da peça, que eu ia fazer o cenário, achou que o meu preço é muito alto. E, você sabe, não posso ficar fazendo concessões, porque depois todos vão pechinchar o meu salário. Sendo assim, poderia ficar mais um pouco. Você se importa?
– Eu? Por nós, você ficaria para sempre, não é, Jonas?
– Lógico. E vamos ter que comemorar! Que tal sairmos para dançar?
Mirna vestiu-se de vermelho naquela noite, o que acentuou a sua sensualidade vulgar. Já Lívia, escolheu um vestido verde-musgo, justo ao corpo, mas sem deixá-lo por demais exposto. Antes de partirem para o Le Club 2, todos beberam algumas doses de uísque. As mulheres estavam animadíssimas. Jonas sentia-se levemente cansado. Enquanto elas foram retocar a maquiagem, ele cheirou duas fileiras de cocaína. Assim que voltaram para terminar a última dose, Jonas já estava mais animado com a ida para a boate. Quando chegaram lá, logo tirou Mirna para dançar. A esposa sorria, feliz pela amizade dos dois.
– Você está maravilhosa!
– Para você. Estou sem calcinha, sabia?
Aquilo fez com que Jonas tivesse vontade de chutar a cara daquela mulher. Falsa, como imaginava. Disposta a trair a melhor amiga, armando situações para seduzir seu marido.
– Não fale isso. Minhas calças vão me denunciar.
– Por mim... Não aguento mais de tanto desejo. Você me deixou louca, hoje.
– Mas não podemos magoar Lívia.
– Não, de jeito nenhum. Talvez ela não ligue, ela sempre foi tão generosa comigo.
‘É, sua vagabunda? E você faz o que com ela? Seduz o seu marido. Lógico que Lívia não aprovaria isso. Só quero mostrar para ela quem você é. Salvá-la de sua falsidade.’
– Talvez. Mas é melhor não deixá-la saber...
– Saber do quê? Nós não fizemos nada.
– Ainda.
– Estou apaixonada por você.
Terminada a música, voltaram para a mesa. Lívia estava tão contente que propôs um brinde.
– À amizade de vocês.
E ingenuamente uniu os lábios dos dois para um beijo.
– Quer dançar, querida?
– Sim.
Lívia e Jonas dançaram três músicas – o que deixou Mirna furiosa. Ela estava começando a perder a razão. Um homem se aproximou da mesa e a convidou para dançar. Mirna aceitou, imaginando que faria ciúmes em Jonas.
– Veja, acho que Mirna arranjou uma paixão.
– Tomara, porque assim poderemos ficar dançando a noite inteira juntos.
– Que é isso, Jonas? Não seja cruel. Você sabe que eu não sou possessiva. Vamos para a mesa, estou um pouco cansada.
Sentaram-se, voltados para a pista de dança. Mirna esperou a música terminar para também voltar à mesa, de braços dados com o seu novo amiguinho.
– Gente, quero apresentar o melhor dançarino que já conheci...
– Que é isso, gentileza sua.
– Lívia, Jonas, esse é o Raul.
– Prazer. Quer beber alguma coisa?
Todos queriam novos drinques, e o garçom foi chamado para trazer mais uma garrafa de uísque. Já estavam todos altos.
– Lívia, você tem que ir dançar com o Raul. Desculpe, Jonas, mas ela não pode passar pela vida sem experimentar este prazer.
– Se ela quiser ir, não tem problema.
Na verdade, não era o que Lívia queria, mas sua educação não permitiria que ela negasse uma dança para o sujeito.
– Caso você não prometa aparecer hoje no meu quarto, eu levo esse cara comigo.
– Mirna, não posso fazer isso dentro de minha própria casa. E Lívia?
– Ela vai estar tão alta que dormirá feito um anjo. Jonas, eu preciso de você. Estou louca! Só penso nisso.
– Se precisa tanto de sexo, eu não me importo que leve este homem para a sua cama.
– Você está brincando?
– Mirna, você não é a minha esposa. Pode fazer o que quiser.
– Você está falando isso, porque duvida que eu o leve para a minha cama.
– Não é da minha conta quem você leva ou não leva para a cama.
Raul conduziu Lívia até sua cadeira e convidou Mirna para a próxima dança. Ela aceitou.
– Não achei que ele dança bem. Acho que Mirna é que gamou.
Jonas disse que era melhor que fossem embora.
– Sem avisá-la?
– Talvez ela queira ficar com ele e esteja constrangida. Olha, estão se beijando. Vou deixar a conta paga e vamos embora.
Lívia, como previu Mirna, caiu num sono profundo após tomar um banho. Jonas ficou tomando um drinque, sentado na sala escura. Ouviu quando Mirna passou para o quarto, acompanhada pelo sujeito. Ela não o viu. Jonas esperou um tempo e depois subiu atrás do casal. Mirna havia deixado, de propósito, a porta aberta. Jonas pôde vê-la sendo sodomizada. Teve nojo daquela mulher, mas não conseguiu deixar de ficar excitado. E, assim como os pescadores, masturbou-se assistindo à cena.”
Ana não estava muito satisfeita com o livro. De uma forma ou de outra, começava a achar que aquilo que inicialmente seria um “livro aberto” começava a se transformar num romance à la Cassandra Rios. “Quando lerem, vão pensar que sou uma tarada. Um sapatão louco e desvairado. Ah, também não devo me explicar pra ninguém. Minha intenção é escrever um livro do tipo que ficaria ótimo se fosse roteirizado por Hollywood e estrelado por Sharon Stone. Ou será que está muito pesado para a moral norte-americana?”
“No dia seguinte, as duas acordaram tarde. Jonas teve que ir para a firma cedinho e só à noite ficou sabendo, por Lívia, que Mirna acordara com um terrível mau humor, chutando o homem da cama dela. Riu bastante, imaginando a cena. Quando o jantar foi servido, Mirna tentava disfarçar sua ressaca moral, conversando sobre temas amenos. É claro que ninguém tocou no assunto Raul. Apesar dos chupões em seu pescoço denunciarem sua aventura sexual.
Assim que terminou o jantar, Jonas sugeriu que fossem dar uma volta na praia, para fazer a digestão e, aproveitando, levar os cães num passeio. Lívia recusou. Queria terminar de ler um livro. Mirna achou que essa era a oportunidade para explicar-se com Jonas.
– Lívia deve ter lhe contado que Raul dormiu aqui.
– Ela comentou por alto.
– Bom, não significou nada. Eu estava bêbada e com ódio de você.
– Você não precisa se desculpar.
– Você não está com raiva?
– Mirna, você é uma mulher livre. Eu não tenho nada a ver com quem você se deita.
– Você não sente nada por mim?
– Em algum momento, eu senti uma forte atração. Mas já me curei. Assim é melhor para todos nós.
– Não! Por que seria melhor? Eu te quero muito. Estou ficando louca.
– Mas não deve. Pense em Lívia.
– Mas ela não ficaria sabendo.
– Eu prometi para minha esposa que não teria mais nenhuma outra amante.
– Eu nunca serei sua amante. Só quero passar uma noite com você. Depois, eu juro que vou embora.
– Impossível. O que diríamos para Lívia? Esqueça.
– Então, tá. Não precisa ser a noite inteira. Me beije. Estamos sozinhos aqui. Se você transar comigo uma só vez, eu juro que vou embora.
– Agora, não.
– Por quê?
– Estou cansado... e além do mais...
– O quê?
– Deixa pra lá.
– Não, o quê? Eu quero saber.
– Não quero trepar por tabela com aquele sujeito.
– Raul?
– Quem mais poderia ser? Teve outro, ontem à noite?
– Não fale assim comigo. Eu sei que agi feito uma adolescente tola. Mas era em você que eu pensava, quando estava com aquele otário.
‘Enquanto aquele otário comia o seu cu. Eu vi tudo, sua piranha.’
– Mas o que você espera de mim? Eu tenho princípios.
– Você está com ciúmes?
– Pense o que você quiser.
– Acho que você está com ciúmes. Então prestou para alguma coisa deitar com aquele porco suarento.
Jonas sentia muito nojo daquela mulher. Mas como era um homem com um grande apetite sexual, aquele nojo facilmente transformava-se em tesão. Enrijeceu. Mirna notou e colocou a mão no membro dele.
– Vamos. Não tem ninguém olhando. Depois eu juro que não vou querer mais nada. Juro que vou embora.
– Deixe de ser boba. Lívia ficaria magoada, se você não ficasse os dias que disse que ficaria. E eu já disse que estou cansado.
– E o que é isso dentro de suas calças, então?
– Isso é um pau duro. Eu costumo ficar assim até olhando para uma cadela vira-lata no cio.
Ele estava adorando magoar aquela mulher sem orgulho algum. Quanto mais ele a maltratava, mais desejo ela sentia por ele.
Voltaram para casa. Lívia havia terminado de ler o seu romance e, como sempre fazia, estava doida para contar a história para Jonas. Era um costume dos dois. Como ele nunca tinha tempo de ler, toda vez que Lívia terminava um livro, resumia para ele, enquanto bebericavam um vinho do Porto na varanda.
– ... foi quando Helena resolveu largar a sua vida miserável, ao lado do marido, e partir com o médico da família, que desde a infância era apaixonado por ela. Não é maravilhoso?
– Não sei como você aguenta ler essas porcarias estúpidas. Lívia, você ainda é aquela boboca que dividia o quarto comigo em Paris.
– Mas, Mirna...
– Deixe ela, meu amor. Mirna está um pouco amarga, por causa da noite de ontem. Parece que se arrependeu de ter trazido um homem que a gente nem conhece para dentro de nossa casa. Melhor dizendo, para cima de sua cama.
– Você não tem nada com isso, Jonas. Mirna é nossa convidada e pode fazer o que quiser nesta casa.
– Sim, querida. Você tem toda razão. Desculpe-me, Mirna. Hoje estou um pouco aborrecido, por causa de uns problemas no trabalho.
– Não tem problema. Com licença, vou me recolher. Boa-noite.
Mirna subiu para o quarto. Lívia o repreendeu mais uma vez.
– Já não basta a vergonha que ela deve estar sentindo? E você ainda diz isso?
– OK. Eu já pedi desculpas. Mas falei o que eu acho. Não é certo um desconhecido circular pela nossa casa, assim, sem mais nem ver. Também acho que uma mulher deve se dar ao respeito, e não sair dando para o primeiro que a tira para dançar.
– Você é muito machista. Se você fosse Raul, faria o mesmo.
– Talvez, se não fosse casado com uma mulher como você.
– Pois saiba que eu invejo a liberdade de Mirna.
– Você faria o mesmo que ela?
– Não. Você sabe que esta não é a minha natureza.
– É por isso que eu amo você e não ela.
A última coisa que Jonas queria era brigar de novo com Lívia por causa daquela mulher. Tinha que agir de uma vez por todas. Já havia feito Mirna ficar de quatro por ele. Agora, era levar a cabo seu plano. Ele se vingaria de Lívia e, ao mesmo tempo, salvaria a esposa daquela má influência. Era aguardar o dia em que ela fosse à cidade, ficar a sós com Mirna e fazê-la rastejar pelo seu corpo.
Esse dia não demorou a acontecer. Lívia precisava comprar algumas tintas e telas, e convidou Mirna para acompanhá-la. Mas a amiga, já com más intenções, disse que ficaria jogando cartas com Jonas. Bastou Lívia sair, para Mirna começar a se insinuar para ele. Jonas já tinha tudo preparado, havia escondido câmeras em lugares estratégicos...”
Ana parou por alguns minutos para pensar. “Será que ‘câmeras’ fica muito impossível? Ah, romance é romance, vale tudo.”
“... para filmar a humilhação de Mirna, implorando para ser comida por ele.
– Você não pensa coisas, agora que estamos sozinhos?
– É a sua vez de jogar.
– Vamos parar. Temos coisas melhores para fazer.
– Você não tem pudor mesmo. Basta Lívia sair para querer me seduzir.
– Lívia é uma boba, você vai ver o que é ter uma mulher de verdade.
– Como você fala isso da sua melhor amiga?
– Ela nunca vai saber. O que que tem eu dar umazinha com o marido da boboca?
– Não fale assim, ela gosta tanto de você.
– Eu gosto dela, mas não posso deixar de ter tesão por você. Eu quero você.
– Mas e Lívia?
– Foda-se Lívia. Por que tudo tem que ser dela, sempre? Sempre a mais chique, a mais culta, a mais rica, a mais isso e aquilo.
– Não sabia que você tinha tanto ódio dela.
– Eu não tenho ódio dela, eu apenas cansei do gênero boazinha que ela faz. Jonas, se você me experimentar, você nunca mais vai querer me deixar. Sou melhor do que Lívia mil vezes.
– Como você sabe?
– Uma mulher cheia de pudores não pode ser boa de cama.
Terminando esta frase, Mirna foi até a cadeira de Jonas, levantou o vestido e montou em cima dele.
– Estou nua por baixo. Dá para sentir o meu calor, não dá?
– Vamos lá pra cima. Algum empregado pode nos ver.
Jonas levou Mirna para o quarto dele e de Lívia. Também já havia lá outra câmera, estrategicamente escondida.”
Depois de gravar as duas fitas, Jonas se daria ao trabalho de alugar uma ilha de edição por um dia. Lá, Ana imaginava poder render algumas páginas descritivas. Onde narraria com imoral liberdade – para provar que as mulheres não são tão condescendentes com os seus personagens quanto dizem – a transa entre ele e Mirna. Para Ana, essa cena seria muito bem aproveitada por um cineasta americano, quando o seu editor conseguisse vender os direitos para Hollywood. Seria com vários monitores de tevê, cada um com imagens mais picantes que o outro. Enquanto isso, Richard Gere controlaria tudo de uma mesa cheia de botões, como um DJ drogado.
Ana começava a desconfiar de seus devaneios. Mas como voltar atrás, depois de sonhar tanto? Duvidar, depois de acreditar tão forte?
Quando, enfim, a fita editada estivesse pronta, Jonas esperaria o momento certo para mostrá-la a Lívia. E assim que o fizesse, contava que ela entendesse os seus propósitos, cúmplice e parceiro sexual da “cadela miserável”. Afinal, havia se proposto a tudo aquilo apenas para desmascarar Mirna.
Ana já estava cansada daqueles personagens ingratos, que não a ajudavam a cometer a grande frase inicial.
Lívia assistiria à fita inteira, reagindo de maneira catatônica. Sem nenhuma expressão, ela desceria as escadas de sua casa e passaria por Jonas, que estaria esperando a esposa na sala de estar.
“– Lívia?
– Me deixe sozinha.
– Espero que você entenda as minhas intenções.
– Eu entendo tudo.
– Você está bem?
– Estou.
– Você não quer me dizer nada?
– Eu vi muito mais que aquilo...
– O quê?
– Eu vi a sua sombra.
– Ahn?
– ... a sua e a de Mirna.
– Lívia, você está bem?
– Estou.
– Pra onde você está indo?
– Para o ateliê.
– Quer que eu fique com você?
– Não.”
Ana não sabia exatamente o que queria dizer com “Eu vi a sua sombra”. Mas como a ideia inicial para o título do livro não foi a que surgiu no decorrer da história, teve que encaixar esta frase dramática. É que, no início, quando ela teve a ideia do romance, Lívia assistiria à traição do marido com a sua melhor amiga de uma sacada que dava para a varanda. Ela não veria os corpos dos amantes – somente as suas sombras. E as sombras estariam se beijando.
Jonas deixaria Lívia ir, crendo que a mulher desejava apenas ficar sozinha. Não poderia imaginar o final trágico que seu plano estava por tomar. Lívia chega ao ateliê e tranca a porta com chave. Acende um cigarro e fica diante do quadro que havia pintado para os seus dois grandes amores. Fuma com calma, quase languidamente. Ela está bela. Pálida. Diáfana. Uma nuvem fumando. Termina o cigarro. Apaga cuidadosamente num cinzeiro próximo a ela. Depois, vai até uma prateleira e pega um vidro de álcool. Taca o líquido no quadro. Despeja o que resta da garrafa em seu vestido azul. Acende outro fósforo. Mas para alcançar o seu intento, precisará acender mais três. Para depois tudo se transformar em chamas. O fogo será verde.
Assim é o fim de Traição das sombras. Além do enigma da sombra, Ana também não iria esclarecer o que aconteceu com Jonas e Mirna. Estava esgotada, e não queria mais pensar uma linha sequer deste livro. Achava que os leitores acreditariam que foi proposital, aquele final trágico sem eira nem beira. Ninguém desconfiaria que, na verdade, estava cansada daquela baboseira de acreditar-se uma escritora, simplesmente porque passa horas dos seus dias pensando a respeito de um romance, que não terá nenhum registro sequer para a posteridade. Milhares de romances existiram em milhares de “cabeças escritoras”. Uma pena esses livros nunca terem se tornado concretos. Árvores mortas, impressas palavras, tinta, capa, contracapa, orelha, foto de orelha, epígrafe, resumo, resenha, críticos, editores, máquinas primitivas, noite de autógrafos, vinho ruim, homens fortes, tinta, tinta, livros que não existem. Uma pena.
Ana terminou seu romance. Tentou esboçar alguma felicidade ilusória. Comemorou. Era fim de dezembro. Assim que começasse o próximo ano, ela havia jurado que começaria a escrever. Jaime apoiou seus planos, precisava descansar antes de iniciar o longo trabalho. Ambos sabiam-se mentirosos. Mas a mentira é tão importante. Tão acalentadora, em alguns momentos. Não caberia a Jaime dizer, simples e honesto: “Ana, você é uma inútil, não faz porra nenhuma que preste.” Então ele disse: “Você tem que descansar, a sua cabeça está esgotada. Descansa e depois começa o livro.”
A última semana de dezembro foi especialmente deliciosa para Ana. Ela se deixou acalentar pela mentira de estar em descanso. Não se exigiu a realidade. Estava segura, mas controlando a sua razão íntima, que já sabia da verdade dura: Ana não escreveria livro algum. No dia de Natal, falou com Helena ao telefone. A mãe foi gentil com ela, quis falar com Jaime, desejou saúde e felicidade para a filha. Ana ficou feliz com aquela atitude, sorriu a noite inteira e foi dormir dizendo: “O Natal é o aniversário de todo o mundo. Parabéns, Jaime.”
– Parabéns, Ana querida.