A Carga

Agatha Christie · Capítulo 1 de 25

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A Carga

PARTE I/Laura — 1929

Índice

Prólogo

PARTE I/Laura — 1929

PARTE II/Shirley — 1946

PARTE III/Llewellyn — 1956

PARTE IV/Como era no passado — 1956

Prólogo

 

Como ainda era outubro não haviam, ainda, ligado a calefação e por isso a igreja estava fria. Fora, o sol prometia calor e alegria, mas dentro das geladas paredes cinza só se sentia umidade e a chegada próxima do inverno.

Laura estava entre a ama magnífica, no seu uniforme de rendas e babados, e do reverendo Henson, o pároco. O vigário-geral estava acamado, com uma forte gripe. O Sr. Henson era jovem e magro, com um enorme pomo-de-adão, uma voz alta e nasal.

A Sra. Franklyn, frágil e bela, apoiava-se no braço do marido que, ao seu lado, apresentava-se sério e imponente. O nascimento da segunda filha não fora consolo bastante para compensar a morte do primogênito Charles. Ele desejara um filho... e ainda por cima o médico dissera que não poderiam mais ter outros filhos.

O Sr. Franklyn voltou os olhos para Laura e em seguida para o bebê aninhado nos braços da governanta.

Duas filhas... era verdade que Laura era uma boa menina, uma criança adorável e que a recém-nascida era sadia e forte, mas mesmo assim, ele preferiria que tivesse sido um filho!

Charles! Charles! Com os cabelos louros, o balanço da cabeça quando ria, o sorriso encantador, a beleza, a inteligência; enfim, um menino excepcional. Se tivesse que perder um filho poderiam ter levado Laura.

Os olhos do pai encontraram-se com os da filha — grandes e trágicos olhos cravados num rosto pálido — e Franklyn ruborizou-se envergonhado. Como poderia desejar uma coisa destas?, pensou, ele que adorava Laura. Mas, mas... ela não era Charles.

Apoiando-se no marido, com os olhos semicerrados, Angela Franklyn murmurava:

— Meu filho... meu lindo filho... meu querido... não posso me conformar. Por que não foi Laura em seu lugar?

Ela não sentiu culpa pelo que disse; era mais voluntariosa, mais honesta do que o marido, mais primitiva como pessoa. Para ela, uma filha nunca poderia significar o mesmo que o primogênito. Comparada a Charles, Laura era um verdadeiro anticlímax: uma criança quieta, obediente, mas sem... sem? Personalidade.

— Ninguém poderia tomar o lugar de Charles, pensou Angela Franklyn.

Sentiu o marido apertar seu braço; abriu os olhos e concentrou a atenção na cerimônia. Que voz irritante tem o Sr. Henson!

Angela olhou com certa indulgência para o bebê nos braços da ama — palavras tão pomposas para um tico de gente!

A criança, que dormitava, piscou os olhinhos cor do céu — os olhos de Charles — e riu satisfeita.

— O sorriso de Charles — pensou Angela. Uma onda de calor maternal fremiu seu âmago. Sua filha, sua linda filha. Pela primeira vez desde a morte de Charles pensou na criança. Olhou para Laura e cismou: — Que será que esta menina está pensando?

— Tão quietinha — pensou a ama, olhando para Laura. — Quieta demais para meu gosto. Não é normal uma criança ser tão bem comportada. Talvez porque não liguem para ela... Será que é por isso?

O reverendo Eustace Henson via chegar o momento que mais temia. Não estava acostumado a batizar, se ao menos o vigário tivesse vindo! Olhou com prazer para Laura, que assistia à cerimônia com seriedade. Que menina boa! Em que será que ela está pensando? Ainda bem que nem ele, nem Angela, nem Arthur Franklyn sabiam.

Não era justo.

Não, não era justo.

A mãe gostava do bebê tanto quanto de Charles.

— Não, não era justo.

Ela odiava o bebê... odiava, odiava, odiava! Queria que a criança morresse!

Parada em frente à pia batismal, repetia para si mesma, baixinho:

— Queria que ela morresse!

Sentiu um leve toque no ombro. Era a ama lhe dando a criança.

— Cuidado, segure-a bem — murmurou a ama, — e passe-a ao pastor.

— Eu sei — sussurrou Laura.

O bebê estava no seu colo.

— E se eu abrisse os braços e a deixasse cair... neste chão de pedras. Será que ela morreria? — pensou Laura.

Nas pedras, negras e frias — mas o bebês viviam tão agasalhados. — Será que eu teria coragem? — pensou.

Hesitou um momento e entregou a criança aos braços nervosos do reverendo que não possuía a prática do vigário e que repetia os nomes de Shirley, Margaret, Evelyn... a água borrifou a testa da criança que, em vez de chorar, riu de prazer.

Canhestramente o reverendo beijou a testa da criança, pois este era o hábito do vigário. Com alívio devolveu a criança à ama.

O batizado estava encerrado.