A Carga
Capítulo Nove · Antes de viajar para o exterior, Sir…
1
Antes de viajar para o exterior, Sir Richard Wilding foi a Bellbury.
Shirley leu a carta que ele enviou certa manhã, mostrando-a em seguida para Laura,
— Richard Wilding, o famoso explorador?
— Sim.
— Não sabia que era seu amigo.
— É... você vai gostar dele.
— Devemos convidá-lo para almoçar. Você o conhece bem?
— Durante uma época — respondeu Shirley, — pensei que estivesse apaixonada por ele.
— Oh! — exclamou Laura, espantada com a revelação.
Richard chegou mais cedo do que se esperava. Shirley estava com Henry e Laura recebeu-o, levando-o para dar uma volta pelos jardins.
É o homem com quem Shirley deveria ter-se casado, pensou Laura, imediatamente. Gostou da calma, do calor, da simpatia e da autoridade que ele transmitia.
Se ao menos Shirley nunca tivesse encontrado Henry! Henry, com seu charme, sua instabilidade e sua falta de escrúpulos!
Richard perguntou, por educação, sobre o doente. Depois das respostas convencionais, voltou-se para Laura.
— Eu o conheci ligeiramente. Não gostei dele.
Em seguida, perguntou abertamente:
— Por que não impediu esse casamento?
— Como?
— Poderia ter arranjado um jeito.
— Será? Não sei...
Os dois não estranharam o tom de intimidade da conversa.
— É melhor dizer — prosseguiu ele — caso não saiba ainda. Estou apaixonado por Shirley.
— Foi o que eu pensei.
— Sei que não adianta. Ela não vai abandoná-lo jamais!
— E o senhor acharia isto possível? — perguntou Laura, secamente.
— Não, não seria Shirley se agisse desta maneira. Acha que ela ainda gosta dele?
— Não sei. Naturalmente morre de pena do marido.
— E ele, como vive?
— Não vive — disse Laura, severa. — Não possui a menor contenção ou dignidade. Desabafa em cima dela.
— Miserável.
— Nós devíamos ter pena dele.
— Não deixo de ter. Mas, ele sempre a tratou mal. Todo o mundo sabe disso. A senhorita sabia?
— Ela nunca me disse coisa alguma, mas é claro que eu ouvi comentários.
— Shirley é leal, leal até o fim.
— Sim.
Depois de um pequeno silêncio, Laura desabafou.
— O senhor tem toda a razão. Eu deveria ter impedido o casamento de qualquer maneira. Ela era tão jovem, tão inexperiente! Eu fui a culpada.
— A senhorita tomará conta dela, não é? — perguntou Richard, emocionado.
— Shirley é a única pessoa no mundo para mim.
— Aí vem ela — avisou Richard.
Ambos olharam para Shirley, que caminhava pelo gramado, dirigindo-se para eles.
— Como está pálida e magra — murmurou Richard. — Minha pobre e corajosa menina. ..
2
Depois do almoço Shirley levou Richard para passear perto do ribeirão.
— Henry está dormindo. Posso passear um pouco.
— Ele sabe que estou aqui?
— Eu não contei.
— Você está sofrendo muito?
— Estou... bastante. Nada que eu diga ou faça parece agradá-lo. Isto é que é o pior.
— Você achou ruim eu ter vindo?
— Não, se foi para se despedir.
— Vim para me despedir mesmo. Você nunca o deixará...
— Não, nunca.
Richard parou e tomou as mãos da moça.
— Só uma coisa, minha querida. Se precisar de mim... a qualquer hora... mande me dizer. Basta uma palavra: “Senha”. Virei não importa onde estiver.
— Meu caro Richard.
— Adeus então, Shirley.
Ele tomou-a nos braços. O corpo dela cansado e combalido pareceu ressurgir para a vida. Ela beijou-o com fúria e desespero.
— Eu amo você, Richard, amo, amo...
Em seguida, ela murmurou:
— Adeus. Não, não volte comigo.
Desprendeu-se dele e correu para casa.
Richard Wilding praguejou baixinho. Amaldiçoou Henry Glyn-Edwards e a paralisia infantil.
3
O Sr. Baldock estava definitivamente acamado. Duas enfermeiras a quem ele detestava indistintamente, se ocupavam dele. O único saldo positivo era a visita diária de Laura.
A enfermeira que estava de serviço, ao ver Laura, retirou-se diplomaticamente, enquanto o Sr. Baldock descrevia como era vítima da incompetência dessas mulheres.
— É tão altiva — gritou ele, em falsete. — Como vamos, hoje de manhã? Porque vamos, se estou sozinho, perguntei a ela. A outra é uma maldita gorda, sem graça, que quando ri parece um orangotango.
— Não seja grosseiro, Baldy.
— Bah! Elas não se importam, não ligam. Me apontam com o dedo, dizendo: “Travesso! Travesso!” Como eu gostaria de ferver estas mulheres no óleo.
— Não se excite tanto, isto não lhe faz bem.
— Como vai Henry? Ainda representando?
— Está realmente insuportável. Tento ter pena dele, mas não consigo.
— É difícil compreender as mulheres. No fundo, elas tem um coração de pedra. Morrem por um pássaro ferido, mas não ligam quando um homem passa pelas agonias do inferno!
— Quem está passando por um inferno é Shirley... e por causa dele.
— Claro, ela serve de bode expiatório. Para que serve uma mulher se não para um sujeito se desabafar?
— Tenho medo de que ela tenha uma estafa.
— Não tem perigo — gritou Baldock, com desprezo. — Ela! Hum, é forte e tem muita coragem.
— Vive sob uma tremenda tensão.
— O que era de se esperar. Afinal ela casou-se com ele!
— Também não podia adivinhar que ele fosse ter pólio...
— Teria feito as mesmas besteiras. Que história é esta que me contaram sobre um romântico espadachim que veio visitá-las?
— Baldy, como é que você consegue estas informações?
— Mantenho os ouvidos abertos. Para que serve uma enfermeira, se não para contar maledicências?
— Era Sir Richard Wilding, o explorador.
— Dizem que é um homem formidável... fez um péssimo casamento, antes da guerra, com uma prostituta. Depois da guerra teve que mandá-la embora. Parece que ficou muito chocado com a história... Também que estupidez casar com um uma mulher dessas... Ah! esses idealistas...
— Ele é muito simpático.
— Gostou dele?
— É o homem com quem Shirley deveria ter-se casado.
— Ora, pensei que você é que estivesse apaixonada por ele. Que pena!
— Não pretendo me casar.
— Ah, ah, ah, ah! — riu o Sr. Baldock, grosseiramente.
4
— A senhora precisa tomar umas férias, Sra. Glyn-Edwards — disse o jovem doutor. — Descansar, mudar de ar, por uns tempos...
— Não posso sair daqui — disse Shirley, indignada.
— Está muito abatida, estou lhe prevenindo — retrucou o Dr. Graves, num tom sério. — Vai acabar tendo uma estafa se não tomar cuidado!
Shirley riu.
— Estou muito bem.
— O Sr. Glyn-Edwards é um paciente muito difícil — continuou o Dr. Graves, sacudindo a cabeça.
— Se ao menos ele se resignasse, um pouco... — disse Shirley.
— Na verdade ele não se conforma.
— O senhor acha que eu o prejudico? Que o irrito?
— A senhora tornou-se uma válvula de escape. É um papel muito difícil. Mas, a senhora está se desincumbindo muito bem...
— Obrigada.
— Continue com as pílulas para dormir. É uma dose forte, mas ele precisa descansar à noite, principalmente porque se excita tanto durante o dia. Só precisa tomar cuidado em não deixar as pílulas perto dele...
Shirley empalideceu.
— O senhor não acha que...
— Não, não — interrompeu o médico, rapidamente. — Ele não é absolutamente o tipo do suicida, apesar de dizer, às vezes, que gostaria de se matar. É somente uma reação histérica. Não, o perigo é ele acordar, no meio da noite, meio drogado, esquecer que já tomou as pílulas e repetir a dose. Por isso precisamos ter cuidado.
— É claro.
Ela despediu-se do médico e voltou para junto do marido, que estava num dos seus piores dias...
— Bem, o que disse, o médico? Que eu estou apenas um pouco irritado... mas que não há razão para se preocupar...
— Oh! Henry — disse Shirley, afundando numa cadeira, — será que não poderia ser um pouco mais gentil?
— Gentil, com você?
— Sim, eu estou tão cansada... se ao menos você fosse um pouco delicado.
— Não sei do que você se queixa! Não é você que se tornou um feixe de ossos inúteis... goza de ótima saúde ao que me consta...
— Você acha que eu estou bem? — perguntou Shirley.
— O médico convenceu-a a tomar umas férias?
— Ele sugeriu que eu descansasse um pouco.
— E naturalmente você vai passear por umas semanas em Bournemouth.
— Não, não vou.
— Por que não?
— Não quero deixar você.
— Não me importo se você for ou ficar. Você para mim não serve para nada, ouviu?
— Parece que não — disse Shirley, calmamente.
Henry sacudiu a cabeça nervoso.
— Onde estão minhas pílulas para dormir? Você esqueceu de me dar, ontem à noite...
— Não esqueci.
— Esqueceu sim. Acordei, pedi à enfermeira, mas ela fez de conta que eu já tinha tomado minha dose.
— Era verdade... você deve ter esquecido.
— Vai à casa do pároco, hoje à noite?
— A não ser que você não queira.
— Vá, senão vão dizer que sou um grande egoísta. Eu disse à enfermeira que fosse também.
— Eu fico.
— Não há necessidade. Laura pode tomar conta de mim. Engraçado... nunca gostei de Laura, mas agora que estou doente reconheço que ela pode ser uma pessoa reconfortante. Ela tem uma força interior que me acalma...
— É verdade, Laura sempre foi assim. Dá sempre alguma coisa para a gente... é melhor do que eu, que só sirvo para irritá-lo.
— Você é muito chata, às vezes...
— Henry?
— Sim?
— Nada.
Antes de sair, Shirley passou pelo quarto e pensou que Henry estivesse dormindo. Debruçou-se sobre ele, e seus olhos se encheram de lágrimas; ao se voltar, ele tocou na manga do vestido dela.
— Shirley...
— Sim, querido?
— Shirley, não me odeie.
— Odiar você? Como posso odiá-lo?
— Você está tão pálida, tão magra — resmungou Henry. — Eu a esgotei, mas não consigo me controlar... não consigo. Sempre odiei qualquer doença ou dor. Na guerra, eu não me preocupava em morrer mas não conseguia entender como os outros podiam suportar, quando ficavam aleijados ou disformes. — Eu sei, compreendo...
— Sim, sou um egoísta, eu sei. Mas vou melhorar... pelo menos minha cabeça vai melhorar, já que meu corpo não dá mais nada. Nós talvez consigamos vencer esta fase... basta você ter paciência e não me abandonar.
— Não vou abandoná-lo.
— Eu a amo Shirley... é verdade, sempre a amei. Nunca houve outra a não ser você... nunca haverá outra. Nestes últimos meses você tem sido tão boa e eu sei que tenho sido um canalha. Diga que me perdoa...
— Não há o que perdoar. Eu amo você.
— Mesmo sendo aleijado um homem pode aproveitar a vida. — Nós vamos aproveitar a vida.
— Não vejo como.
— Bem, pode cultivar o gosto pela comida — disse Shirley, com um tremor na voz.
— E pela bebida — disse Henry, com um ligeiro sorriso.
— Dedicar-se à Matemática.
— Para mim seria melhor as palavras cruzadas. Amanhã, na certa estarei com o mesmo humor de sempre.
— Mesmo assim, não me importarei...
— Onde estão minhas pílulas...
— Vou trazê-las.
Ele as engoliu obedientemente.
— Pobre Muriel — disse Henry, de repente.
— Por que se lembrou dela, agora?
— Lembrei-me da primeira vez que levei você à casa dela. Você estava com um vestido de listras amarelas. Devia ter ido visitá-la mais vezes, mas ela era tão chata... eu sempre detestei os chatos... e agora também sou um deles.
— Não, não é.
No andar debaixo ouviu-se a voz de Laura.
— Shirley!
Ela beijou o marido e desceu as escadas triunfante.
Laura informou que a enfermeira já tinha ido na frente.
— Estou atrasada? Vou correndo.
Ao sair, apressada, Shirley lembrou-se de uma última recomendação. Voltou a cabeça e gritou:
— Já dei as pílulas ao Henry.
Mas Laura já tinha entrado e estava fechando a porta.