A Carga

Agatha Christie · Capítulo 16 de 25

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A Carga

Capítulo Sete · Mona Adams estava em seu elemento. Estava…

 

1

Mona Adams estava em seu elemento. Estava dando uma festa. Geralmente, quem se divertia mais nestas ocasiões era ela mesma, ficando sempre rouca de tanto gritar para ser ouvida pelos convidados. Mais um sucesso social da temporada!

— Richard! Que bom que você voltou do Saara, ou foi do Gobi? — gritou ela, recebendo um convidado atrasado.

— Nenhum dos dois lugares, estou chegando de Fezzan.

— Nunca ouvi falar. Que bom vê-lo! Está com uma cor maravilhosa. Com quem está com vontade de conversar? Com Pam, com Pam... ela é divina. Ouça Pam, este aqui é Sir Richard Wilding, o explorador... camelos, caçadas e desertos. Lembra-se dos livros dele? Ele está chegando de um desses lugares como o Tibete, eu acho...

Mona virou-se para o lado e deu outro berro em direção a outro convidado.

— Eu o vi ontem na televisão — disse Pam, encantada. — Que maravilha conhecê-lo pessoalmente.

Richard não teve muito tempo para ouvi-la com atenção, pois seus olhos pousaram numa pessoa que não via há anos. Depois de um certo tempo, conseguiu finalmente encaminhar-se para o lado da maravilhosa criatura.

— Shirley, este aqui é Richard Wilding.

Richard sentou-se no sofá.

— Estes lugares são impossíveis de conversar. Você não gostaria de escapar comigo, para tomarmos um drinque num lugar calmo?

— Adoraria. Isto aqui parece mais um jardim zoológico. Com uma agradável sensação de fuga os dois escaparam da festa.

Wilding chamou um táxi.

— Acho que está um pouco tarde para beber — disse ele, olhando o relógio. — Que tal se fôssemos jantar?

Deu ao chofer o nome de um restaurante. Depois que pediram os pratos, Richard sorriu para Shirley.

— Este é o momento mais agradável que estou tendo desde que voltei da selva. Já tinha me esquecido o que era um coquetel na Inglaterra. Por que será que continuamos a insistir?

— Espírito de imitação, eu acho — disse Shirley.

O ar de aventura nos olhos dela eram inesquecíveis: Shirley olhou para o atraente e bronzeado cavalheiro à sua frente e sorriu satisfeita por ter conquistado o prêmio máximo da festa.

— Já sei toda a sua vida — continuou ela —, e já li seus livros.

— Eu não sei nada sobre você, a não ser que se chama Shirley. Shirley de quê?

— Glyn-Edwards.

— E é casada — comentou ele, olhando para o anel no dedo da moça.

— Sim e moro em Londres e trabalho numa loja de flores.

— Gosta de morar em Londres, trabalhar numa florista e ir a festas?

— Não muito.

— Que gostaria de fazer... de ser?

— Deixe-me ver — respondeu Shirley, semicerrando os olhos. — Gostaria de morar numa ilha... bem longe da civilização, numa casa branca, com venezianas verdes e não fazer absolutamente nada o dia inteiro. Na ilha teria frutas e cascatas de flores... cor e cheiro... um luar maravilhoso... e à noite o mar pareceria roxo...

Ela suspirou e abriu os olhos.

— Não sei por que pensei numa ilha. Vai ver não seria tão bom assim.

— Estranho o que você disse — murmurou Richard.

— Por quê?

— Porque eu podia dar a você uma ilha.

— É dono de uma ilha?

— Uma boa parte pelo menos. É muito parecida com sua descrição. O mar parece vinho escuro à noite, minha vila é branca com venezianas verdes, as flores caem em cascatas, existe uma grande mistura de cheiro e ninguém vive apressado...

— Que lindo. Parece uma ilha de sonho...

— Mas é verdadeira.

— Como consegue sair de lá?

— Não tenho escolha. Um dia, quem sabe, me instalo de vez e nunca mais saio de lá.

— No que fará muito bem.

O garçom trouxe o primeiro prato e o encanto foi quebrado. A conversa tornou-se mais trivial.

Mais tarde, Richard levou Shirley para casa. Ela não o convidou para entrar.

— Espero vê-la breve — disse Richard.

Apertou a mão dela mais do que o necessário e ela corou. Para disfarçar o pequeno momento de intimidade, Shirley saiu correndo.

Aquela noite ela sonhou com a ilha.

 

2

— Shirley?

— Sim.

— Você sabe que estou apaixonado por você, não sabe?

Ela assentiu com a cabeça vagarosamente, pensando como seria difícil explicar o que acontecera nas três últimas semanas; tudo mudara, parecia uma fantasia e ela vagando num permanente estado de abstração.

Shirley sabia que estava cansada, muito cansada, e que por causa disso vinha sentindo um delicioso sentimento de torpor como se estivesse pairando nas nuvens. Neste estado os seus valores íntimos foram revistos e mudaram, como se Henry e tudo que lhe dissesse respeito tivesse se tornado longínquo e distante; ao passo que Richard Wilding ocupava o primeiro plano — uma figura romântica maior do que sua própria imaginação sonhara.

Shirley olhou para ele com seriedade.

— Você me ama? — perguntou Richard.

— Não sei...

O que ela sentia na realidade? Sabia que diariamente este homem ocupava mais e mais seus pensamentos; que sua Proximidade a excitava. Sabia também que estava se arriscando num jogo perigoso que poderia arrastá-la num torvelinho de paixões. Mas, além de tudo, tinha certeza de que não queria deixar de vê-lo.

— Você é muito leal, Shirley, nunca me disse coisa alguma sobre seu marido.

— Por que deveria falar no meu marido?

— Já ouvi falar dele.

— Falam demais — comentou Shirley.

— Além de ser infiel, parece que não a trata muito bem.

— Isto é verdade.

— Também não lhe dá o que você merece: amor, cuidado, ternura.

— Henry me ama à sua maneira...

— Talvez, mas você deseja muito mais.. .

— Nem sempre desejei.

— Mas agora deseja. Você quer... sua ilha, Shirley.

— Ah, a ilha... foi apenas um sonho...

— Um sonho que pode tornar-se realidade.

— Talvez, mas não creio.

— Pode tornar-se realidade, eu disse.

Uma brisa fria, vinda do rio, soprou pelo terraço. Shirley levantou-se, puxando o casaco.

— Não devemos falar assim — disse ela —, estamos nos comportando como crianças. O que nós estamos fazendo é infantil e perigoso.

— Talvez, mas você não ama seu marido. Você me ama.

— Sou a esposa de Henry.

— Você me ama.

— Sou a esposa de Henry — repetiu Shirley como se fosse uma profissão de fé.

 

3

Ao chegar em casa, encontrou Henry estirado no sofá ainda vestido nas suas roupas de tênis.

— Acho que estirei um músculo — queixou-se ele, fazendo uma careta de dor.

— O que andou fazendo?

— Jogando tênis em Roehampton.

— Você e Stephen? Pensei que fossem jogar golfe.

— Mudamos de idéia. Stephen trouxe Mary. Para completar a quadra chamamos Jessica Sandys.

— Jessica? Aquela morena que nós vimos no Archer aquela noite?

— Ah!... sim... é...

— Sua última conquista?

— Shirley já lhe disse que eu prometi...

— Eu sei Henry, mas que são promessas? Ela é sua última amante... está estampado no seu rosto.

— É claro que você vai imaginar coisas — disse Henry emburrado.

— Se eu fosse de imaginar coisas — murmurou Shirley, — imaginaria uma ilha.

— Por que uma ilha? — perguntou Henry, sentando-se no sofá. — Sinto-me todo dolorido.

— É melhor descansar. Um domingo de descanso não lhe fará mal.

— É, talvez seja uma boa idéia.

Na manhã seguinte Henry anunciou que estava melhor.

— Além do mais, prometi que daríamos uma revanche...

— Você, Stephen, Mary e Jessica?

— Sim.

— Ou só você e Jessica?

— Não, nós quatro — respondeu Henry com presteza.

— Que grande mentiroso você é... — disse Shirley, calmamente, quase sorrindo. Lembrou-se do jovem que conhecera quatro anos atrás, num jogo de tênis e como se sentira atraída pelo seu desembaraçado. Ele nunca perdera esta qualidade...

O rapaz tímido que viera procurá-la, no dia seguinte, e que esperou pacientemente com Laura até que ela voltasse e que agora perseguia com a mesma determinação essa pobre Jessica.

Henry, pensou ela, não mudou nada. Não quer me magoar mas não pode mudar. Precisa fazer o que tem vontade.

Notou que Henry estava mancando ligeiramente.

— Não creio que você devia jogar tênis — disse ela, impulsivamente. — Deve ter luxado algum músculo. Por que não deixa para o próximo fim de semana?

Mas Henry queria ir e acabou indo.

Voltou às seis horas da tarde e caiu na cama, tão doente que Shirley se assustou. Apesar dos protestos do marido ela chamou um médico.