A Carga

Agatha Christie · Capítulo 9 de 25

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A Carga

parte II

 

 

SHIRLEY - 1946

Capítulo Um

 

1

Shirley caminhou rapidamente pela alameda, balançando a cesta com os sapatos pendurados pelos cordões; sorria e estava quase sem fôlego. Precisava andar depressa, pois estava atrasada para o jantar. Na verdade, não deveria ter jogado aquela última partida de tênis. Aliás tinha sido uma péssima partida. Pam correndo como um coelho, de um lado para outro, tendo como parceiro Gordon... não eram adversários para ela e nem para... como era mesmo o nome daquele rapaz? Henry! Mas, Henry de quê? — pensou ela.

Ao pensar em Henry, Shirley diminuiu o passo. Era uma novidade para ela aquele rapaz; não se parecia com os homens que conhecia; não era como Robin, o filho do pastor, que era educado, simpático, a adorava, e tinha uns modos tão bonitos; além do mais ia se tornar uma raridade intelectual, estava de partida para a Universidade onde ia estudar línguas orientais. Shirley lembrou-se também de Peter — tão jovem e impulsivo; de Edward Westbury que era bem mais velho que os outros, trabalhava num banco e dedicava-se à política. Mas eram todos homens de Bellbury enquanto Henry era um estranho que viera para lá visitar uma tia. Com ele, Shirley sentia-se livre e despreocupada, pensou, saboreando o último adjetivo. Era uma qualidade que ela apreciava.

Em Bellbury não havia despreocupação, pois as pessoas viviam emaranhadas na vida dos outros; havia solidariedade demais, raízes, compromissos, para que uma pessoa pudesse se sentir livre. Shirley sentia-se confusa com estes pensamentos, pois eles expressavam exatamente o que sentia na realidade.

Henry não pertencia a coisa alguma, a não ser remotamente a uma tia, que nem deveria ser carnal e sim por afinidade.

— Ridículo, é claro — pensou Shirley —, pois afinal ele deve ter pai e mãe como todo o mundo. Mas, no entanto, ela gostaria de fantasiar que os pais dele tinham morrido em alguma remota parte do mundo, deixando-o órfão. Ou quem sabe a mãe dele fosse uma daquelas mulheres que viviam na Riviera, colecionando maridos?

— Bobagem! — exclamou Shirley, baixinho. — Eu não sei coisa alguma sobre ele, nem mesmo seu sobrenome... não sei quem o levou ao clube.

Uma atitude típica de um homem como Henry, pensou Shirley, aparecer nos lugares desta maneira — difuso, sem pertencer — e ir embora sem as pessoas saberem seu sobrenome ou de quem, afinal das contas, ele era sobrinho. Era apenas um rapaz jovem, atraente, com um belo sorriso, que jogava tênis muito bem. Shirley gostou da maneira como ele decidiu, quando Mary Coofton perguntou: — Como vamos jogar? — Eu e Shirley contra vocês dois, respondeu ele. sacudindo a raquete. Ele, concluiu Shirley, faz sempre o que quer.

— Vai ficar muito tempo por aqui? — perguntou Shirley, curiosa.

— Não creio — respondeu Henry com um ar vago.

Também não fez o menor esforço para tornar a vê-la, o que a desagradou bastante. No fundo ela gostaria de revê-lo!

Olhou para o relógio e apressou o passo, ia chegar tão tarde! Sabia que Laura não se importaria, aliás Laura não se importava com coisa alguma, era um verdadeiro anjo. Viu a casa ao longe, banhada de luz com sua fachada georgiana, ligeiramente irregular devido ao incêndio que destruíra uma ala.

Shirley diminuiu o passo. Não queria voltar para casa, entrar naquela atmosfera confortável, onde os últimos raios de sol se filtravam pelas janelas laterais, indo descansar nos móveis; Laura com seu sorriso bondoso e olhar protetor, e Ethel pondo a mesa. Amor, proteção, lar... as coisas mais caras e preciosas do mundo, não era mesmo? No entanto, foram legadas a ela, sem o menor esforço, sem que ela tivesse pedido.

Estranho, não é mesmo? — pensou Shirley. Como me sinto oprimida pelo conforto. Por que será?

Era exatamente isto que estava sentindo. Pressionada — uma pressão definida e contínua. Como o peso da mochila quando fazia excursões. No começo tinha sido imperceptível, mas aos poucos, insidiosamente, aquele peso nos ombros, impedindo-a de mover-se, foi se fazendo sentir. Um fardo...

— Eu realmente tenho muita imaginação — concluiu, correndo para casa.

O hall estava semi-iluminado. No andar de cima a voz de Laura, suave e ligeiramente rouca.

— É você, Shirley?

— Sim, desculpe o atraso, Laura.

— Não tem a menor importância. Temos macarrão ao gratin, que Ethel colocou no forno.

Laura Franklyn apareceu no alto da escada, uma moça frágil, com um rosto descolorido e profundos olhos castanhos que davam ao seu semblante um olhar trágico.

— Divertiu-se? — perguntou sorrindo, encaminhando-se para Shirley.

— Muito — respondeu Shirley.

— Boa partida?

— Mais ou menos.

— Alguém de fora no clube? Ou só o pessoal de Bellbury?

— O pessoal daqui mesmo.

Engraçado que sempre que fazem perguntas a gente não quer responder. Afinal o que custava dizer a verdade; e nada mais natural do que Laura perguntar se tinha se divertido.

Quando as pessoas gostam da gente querem saber de tudo...

Será que faziam estas perguntas a Henry? Shirley tentou imaginar Henry em casa, mas não conseguiu. Parecia impossível imaginá-lo numa casa... e mesmo assim ele devia ter uma casa!

Um quadro nebuloso formou-se em sua mente. Henry entrando numa sala onde a mãe, uma loura platinada, recém-chegada do Sul da França, pintava os lábios de vermelho vivo.

— Alô, mamãe, já de volta?

— Sim. E você, esteve jogando tênis?

— Sim.

Nenhuma curiosidade, quase nenhum interesse. Henry e a mãe quase indiferentes em relação ao outro.

— O que você está pensando, Shirley? — perguntou Laura, curiosa. — Está falando sozinha?

Shirley riu.

— Estava fazendo uma conversa imaginária.

Laura levantou as sobrancelhas delicadamente.

— Você parecia muito contente.

— No fundo, era uma grande bobagem.

A boa Ethel apareceu na porta da sala de jantar.

— O jantar está servido.

— Preciso me lavar — gritou Shirley, correndo escada acima.

Depois do jantar, quando se sentaram na sala de visitas para o café, Laura resolveu abandonar um assunto que a preocupava.

— Chegaram os prospectos da escola de secretariado Santa Catarina. Ouvi dizer que é uma das melhores. Que acha, Shirley?

Como resposta Shirley fez uma careta.

— Aprender taquigrafia e datilografia e arranjar um emprego?

— Por que não?

Shirley suspirou e em seguida deu uma risada.

— Por que eu sou preguiçosa. Prefiro ficar em casa, sem fazer coisa alguma. Meu amor, eu já estive na escola anos a fio, será que não posso descansar um pouco?

— Eu gostaria de que você se interessasse por alguma coisa — protestou Laura, franzindo o cenho.

— Sou um fracasso — disse Shirley; — só quero ficar em casa, imaginando as mesadas que vou receber...

Laura não respondeu; parecia preocupada.

— Se fizer um curso nesta escola vai precisar morar em Londres. Poderia pagar uma mensalidade e ficar com a prima Angela...

— Com ela não, pelo amor de Deus!

— Então com outra família qualquer. Numa pensão talvez? Mais tarde alugaria um quarto ou um apartamento com uma amiga...

— Por que não posso alugar um apartamento com você? — perguntou Shirley.

— Por que eu vou ficar aqui.

— Ficar? Não vai para Londres comigo? — perguntou Shirley incrédula e indignada.

— Não quero prejudicá-la, meu bem.

— Como, me prejudicar?

— Tornando-me possessiva demais.

— Como uma mãe que come os filhos? Laura, você não é possessiva!

— Espero que não — disse Laura, em tom de dúvida. — No fundo a gente se conhece tão pouco...

— Não creio que você deva se preocupar com isso... você não é o tipo dominador... pelo menos comigo. Não me manda fazer isto ou aquilo e nem procura dirigir minha vida.

— Mas é exatamente isto que eu estou fazendo! Mandando você para uma escola de secretariado em Londres que não está lhe interessando de modo algum.

As duas irmãs começaram a rir.