A Carga

Agatha Christie · Capítulo 20 de 25

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A Carga

Capítulo Quatro · O anfitrião recebeu Llewellyn numa sala espaçosa…

 

O anfitrião recebeu Llewellyn numa sala espaçosa e baixa, cheia de livros até o teto. As janelas estavam abertas e podia-se ouvir ao longe o murmúrio do mar. As bebidas estavam colocadas numa mesinha baixa perto do sofá.

Wilding recebeu o convidado com prazer e desculpou-se pela ausência da esposa.

— Ela sofre de enxaquecas e eu esperava que com a paz e a tranqüilidade daqui ela pudesse melhorar, mas não foi o que aconteceu. E os médicos, como o senhor sabe, não têm solução para esta doença...

Llewellyn expressou pesar pelo fato.

— Ela passou por uma crise muito séria — disse Wilding. — Mais do que qualquer mulher merecesse suportar. Era muito jovem, aliás ainda o é.

Lendo nos olhos do anfitrião Llewellyn perguntou:

— O senhor a ama muito, não é?

— Demais — suspirou Wilding. — Creio que isto é que me prejudica.

— Prejudica também a ela?

— Nenhum amor do mundo poderia apagar o que ela passou — disse Wilding com veemência.

Entre os dois já existia um curioso senso de intimidade que se formou na primeira vez que se encontraram. Era como se, embora nenhum deles tivesse nada em comum com o outro, nacionalidade, educação, maneira de viver, filosofia, isto facilitasse a aceitação mais completa, sem as usuais barreiras de reticência ou convenção social. Eram como dois homens isolados numa ilha deserta, ou boiando num barco no meio de um oceano. Podiam falar francamente, quase que com a simplicidade das crianças.

Foram jantar, em seguida. Um excelente repasto, muito bem servido, mas de grande simplicidade. Llewellyn recusou-se a beber vinho.

— Prefere uísque?

O convidado sacudiu a cabeça negativamente.

— Obrigado, apenas água.

— É por questão de princípio?

— Não. Uma maneira de viver que aliás não preciso mais seguir. Não há razão agora para eu não beber vinho, exceto que não estou acostumado.

Quando Llewellyn pronunciou a palavra “agora”, Wilding levantou a cabeça com interesse. Quase falou mas controlou-se e mudou de assunto.

Sir Wilding era um excelente conversador, capaz de abranger uma grande variedade de assuntos, pois não só tinha viajado bastante, por vários países estranhos, como também possuía o dom de tornar real tudo o que tinha visto e sentido.

Se desejássemos ir ao deserto do Góbi, ou a Fezzan, ou Samarkand, ao conversar com ele, era como se estivéssemos fazendo a viagem. Não havia, na sua conversa, o tom de conferência ou aula, simplesmente uma prova natural e espontânea. Além de divertir-se com a conversa de Richard, Llewellyn mostrava-se mais e mais curioso em relação à personalidade do anfitrião. Um inegável charme e magnetismo, exercido de uma forma totalmente inconsciente o caracterizava. Wilding não fazia força para agradar, era sua maneira de ser. Ao mesmo tempo era um homem de várias facetas, esperto, intelectual sem arrogância, um homem interessado nas idéias, nas pessoas e nos lugares; como nunca tivesse escolhido um campo de especialização — talvez este fosse seu segredo, o de nunca ter escolhido — isso o tornava humano, cativante e fácil de tratar.

Mas, mesmo assim, pareceu a Llewellyn que não tinha podido responder uma pergunta bastante simples, quase infantil: por que gostara tanto daquele homem?

A resposta não podia ser encontrada nos dons de Wilding e sim no próprio homem. De repente, Llewellyn sentiu que havia encontrado a chave do mistério: apesar dos seus dons, Wilding era falível. Enfim, um homem que poderia cometer o mesmo erro várias vezes. Era dessas naturezas emocionais, bondosa, que invariavelmente ensejam a rejeição pela confiança que depositam nos próprios julgamentos. Era obviamente um homem que não julgava as pessoas com clareza, lógica ou frieza e sim por impulso, o que fatalmente incorreria num desastre porque seus valores baseavam se na bondade e não nos fatos. Sim, era um homem falível e por isso mesmo encantador. Llewellyn pensou que detestaria ter que magoar um homem como aquele.

Voltaram para a biblioteca, depois do jantar, e se espicharam nas espreguiçadeiras. Uma lareira tinha sido acesa, mais para dar a sensação de aconchego do que por necessidade. O mar, lá fora, murmurava e o odor de uma flor noturna silvestre perfumava o ar.

— Sou muito interessado nas pessoas — disse Wilding —, sempre fui, aliás. Quero sempre saber o que as motiva, embora isto possa parecer um raciocínio frio e analítico.

— Não, não parece. O senhor quer entender os homens porque os ama...

— É verdade — concordou Richard, fazendo uma pausa. — Ajudar aos outros me parece uma missão sublime.

— Sim — disse Llewellyn.

O anfitrião olhou-o espantado.

— É um comentário muito cético!

— Não, apenas o reconhecimento da enormidade que esta missão acarreta.

— É tão difícil assim? As pessoas sempre querem ser ajudadas...

— É verdade que tendemos a acreditar que, de uma maneira mágica, os outros podem obter para nós o que não podemos ou queremos obter.

— Empatia... e crença — disse Wilding, sinceramente. E prosseguiu depois de uma pausa: — Acreditar no melhor de alguém é fazer o melhor para alguém. As pessoas respondem à nossa fé; já tive várias provas...

— Por quanto tempo?

Wilding fez uma careta como se tivessem tocado num nervo sensível.

— Podemos guiar a mão de uma criança sobre um papel, mas quando tiramos nossa mão ela, ainda assim, terá que aprender a escrever sozinha. Sua inteligência poderá até atrapalhar um processo natural.

— O senhor está tentando destruir minha crença na natureza humana?

Llewellyn sorriu, antes de responder.

— Acho que estou pedindo para o senhor ter pena da natureza humana.

— Encorajando as pessoas a darem o melhor de si...

— É o mesmo que forçá-las a viver numa altitude muito elevada. Esperar que uma pessoa se mantenha sendo como desejaríamos que ela fosse, pode ser uma tensão muito forte que poderá levá-la até o colapso.

— Devemos então esperar o pior nas pessoas? — perguntou Wilding, caçoando.

— Devemos aceitar esta possibilidade.

— E o senhor se diz religioso.

Llewellyn sorriu novamente.

— Cristo disse a Pedro que, antes do galo cantar, ele o negaria três vezes. Ele conhecia a fraqueza de caráter de Pedro, melhor do que o próprio, mas nem por isso amou-o menos.

— Não — disse Wilding, com vigor. — Não posso concordar com o senhor. No meu primeiro casamento — ele pausou, mas por pouco tempo — minha mulher era... poderia ter sido... uma pessoa de bom caráter. Andava em péssimas companhias. Tudo que ela precisava era de amor, confiança e fé. Se não fosse pela guerra, bem... foi uma das pequenas tragédias da guerra... eu estava longe, ela sozinha e exposta às más influências...

— Não a culpo — continuou Wilding, depois de um curto silêncio. — Faço concessões porque sei que ela foi uma vítima das circunstâncias. Fiquei arrasado na época, pensei que nunca me refaria, que nunca mais seria o mesmo homem, mas o tempo cicatriza...

Wilding fez um gesto com a mão.

— Por que estou lhe contando a história da minha vida? Não sei. Gostaria tanto de ouvir a sua, pois para mim o senhor é uma coisa inteiramente nova. Quero saber o “porquê” e o “como” da sua vida. Fiquei impressionado quando assisti a seu espetáculo... não porque o senhor tenha dominado o público (Lloyd George e Hitler também sabiam fazer isso) como todos os políticos, líderes religiosos e atores fazem de certa forma, mas pelo efeito que causou. Isto é que me interessa. Por que era tão importante para o senhor causar este efeito?

Llewellyn sacudiu a cabeça lentamente.

— Está me perguntando, uma coisa que nem eu sei responder.

— É claro que existe uma forte convicção religiosa — disse Wilding, um tanto embaraçado, o que divertiu Llewellyn.

— O senhor se refere à crença em Deus? É muito fácil como resposta e não atende à sua pergunta. A crença em Deus pode me levar a ajoelhar num quarto religioso, mas não explica o que o senhor está me perguntando. Por que um púlpito público?

— Penso que desta forma o senhor acreditava que estava atingindo mais gente — disse Wilding, em tom de dúvida.

Llewellyn olhou para ele com curiosidade.

— Pelo que o senhor está dizendo devo acreditar que é ateu?

— Não sei, simplesmente não sei. De certa forma eu acredito, quero acreditar... certamente acredito nas virtudes positivas — bondade, ajudar os que caem, franqueza, perdão...

Llewellyn olhou para Wilding por um instante.

— A Boa Vida — disse —, O Bom Homem. Sim, é mais fácil do que tentar reconhecer Deus, pois isto é que é difícil e assustador. É mais assustador ainda é erguer-se e esperar que Ele o reconheça.

— Assustador?

— Ele assustou Jó — disse Llewellyn, sorrindo. — Pois o pobre homem não compreendia a situação. Num mundo de regras e regulamentos, recompensas e castigos, dados pelo Todo-Poderoso aos homens, de acordo com seus méritos, Jó foi escolhido. (Por quê? Não se sabe. Talvez alguma qualidade superior à sua geração? Algum poder de percepção herdado?.) De qualquer maneira os outros continuariam a ser recompensados ou punidos, mas Jó teve que entrar num mundo que deveria lhe parecer uma nova dimensão; depois de uma vida honesta, ele não recebeu como recompensa rebanhos e pastos, e sim teve que sofrer uma dor insustentável: perder sua crença e ver-se abandonado pelos amigos. Quando, segundo Hollywood, estava preparado para o estrelato, pôde ouvir a voz de Deus. E tudo, por quê? Para poder reconhecer o que Deus era na realidade: “Fique quieto e sabia que eu sou Deus.” Uma experiência terrível. O ponto mais alto que um homem já atingiu. É claro que não durou muito, nem poderia durar, pois certamente Jô fez uma grande confusão, tentando explicar o que lhe acontecera, sem possuir um vocabulário específico e pela impossibilidade de descrever, em termos temporais, uma experiência espiritual. E seja lá quem foi que compilou o Livro de Jó não tinha também idéia do que se tratava, pois deu-lhe um final feliz, moral, de acordo com as luzes do tempo, o que afinal não deixou de ser uma solução inteligente.

Llewellyn calou-se.

— Portanto — prosseguiu —, quando o senhor diz que talvez eu tenha escolhido a plataforma porque desta maneira eu seria mais útil e atingiria um maior número de pessoas, está enganado. Não existe valor numérico algum em atingir mais pessoas e “fazer o bem” é um termo que não possui realidade alguma. O que é fazer o bem? Queimar as pessoas na fogueira para salvar-lhes a alma? Talvez. Queimar as feiticeiras vivas por serem o mal personificado? Pode ser uma boa solução.Elevar o nível de vida dos pobres? Hoje em dia é o que se considera importante. Lutar contra a crueldade e a injustiça?

— Mas o senhor certamente também pensa assim.

— Estou tentando dizer que esses problemas referem-se ao comportamento humano. O que o bem deve fazer? O que é o certo? O que é o errado? Somos seres humanos e temos que responder estas perguntas o melhor possível. Temos que viver nossa vida, neste mundo, mas isto nada tem a ver com a experiência espiritual.

— Ah! — exclamou Wilding —, começo a compreender. Creio que o senhor mesmo passou por esta experiência. O que lhe aconteceu? Como foi? O senhor sempre soube, mesmo quando era criança?

Wilding calou-se, e pareceu querer reformular sua pergunta.

— Ou o senhor não tinha idéia? — concluiu vagarosamente.

— Eu não tinha a menor idéia — disse Llewellyn.