A Carga
Capítulo Dois · Laura, no seu pequeno apartamento, sentou-se diante…
1
Laura, no seu pequeno apartamento, sentou-se diante do espelho. Um estranho sorriso aflorou nos seus lábios enquanto estudava o rosto. Na mão direita segurava um batom, enquanto com a outra colocava a tampa diante dos olhos e lia atentamente o nome gravado no estojo dourado: A Maçã Fatal.
Ela perguntou-se que estranho impulso a fizera entrar na luxuosa loja de perfumes que ficava perto do seu trabalho.
A moça mostrara-lhe uma coleção de batons, experimentando-os nas costas da mão enfeitada com enormes unhas cor de vinho. Pequenas manchas rosa, cereja, vermelho, castanho e cíclame, alguns tons quase iguais aos outros, exceto pelos nomes... que nomes fantásticos, pensara Laura.
Raio Rosa, Rum Amanteigado, Coral Nebuloso, Rosa Calmo, Maçã Fatal...
Laura sentira-se atraída pelo nome e não pela cor... Maçã Fatal, uma sugestão de Eva, de tentação, de feminilidade. Em frente do espelho ela cuidadosamente pintou os lábios.
Baldy! Pensou em Baldy, mexendo no jardim e dando-lhe conselhos tantos anos atrás: “mostre que é mulher, desfralde as bandeiras, agarre seu homem”... e coisas parecidas. Não era isto que ela estava fazendo neste momento?
Sim, exatamente isto, pensou ela. “Só por esta noite quero ser uma mulher como as outras, feminina, pintada e preparada para atrair os homens. Jamais quis fazer isto antes, achei que não era este tipo de mulher. Mas vejo hoje que sou igual às outras, só que não sabia.”
Teve a sensação de que Baldy estava com ela no quarto, sentado, observando-a e aprovando com a cabeça, enquanto murmurava: “isto, Laura... nunca é tarde para se aprender!”
Querido, amado Baldy. O amigo eterno, sempre presente. O único e fiel amigo que tivera. Lembrou-se da sua morte há dois anos. Mandaram chamá-la, mas quando chegou o médico avisou que talvez fosse tarde demais e que possivelmente ele não a reconheceria. Estava piorando a cada momento e quase entrando em coma.
Laura sentou-se ao lado dele, Segurando-lhe as mãos nodosas.
Baldy, muito quieto, gemendo e grunhindo de vez em quando, como se estivesse irritado com alguma coisa. Palavras esparsas afluíam aos seus lábios.
De repente, ele abriu os olhos e viu Laura, mas não pareceu reconhecê-la.
— Onde está a menina? Mande chamá-la, por favor. Não me venha com a conversa de que criança não deve ver gente morrendo. O que conta na vida é a experiência... além do mais as crianças aceitam a morte melhor do que nós...
— Eu estou aqui — disse Laura.
Fechando os olhos ele murmurou indignado:
— Morrendo, não é? Não estou morrendo. Os médicos são todos iguais, uns abutres. Vou mostrar a eles...
Em seguida caiu num estado de torpor, murmurando, de vez em quando, trechos sobre o passado.
— Um estúpido... sem o menor sentido histórico... — um gemido... — O velho Curtis e seus jardins. Minhas rosas sempre foram mais bonitas.
Em seguida Baldock começou a falar sobre Laura.
— Laura, precisamos arranjar um cachorro para ela...
— Um cachorro? — perguntou Laura, espantada. Ela teve a impressão de que ele estava falando com a governanta dele.
— ... e tira estas guloseimas da minha frente, são nojentas... podem agradar às crianças, mas me dão nojo só de olhar.
Era lógico que ele estava falando dos chás magníficos que oferecia para ela. Quanto trabalho em preparar aqueles maravilhosos éclairs, merengues, balas e biscoitos.
Ás lágrimas vieram aos olhos de Laura.
De repente, ele abriu os olhos, olhou para ela, reconheceu-a e começou a conversar normalmente.
— Não devia ter feito isto, Laura — disse ele num tom de reprovação. — Você sabe que não devia. Só vai lhe trazer confusão e problemas.
E com o ar mais natural do mundo, virou a cabeça sobre o travesseiro e morreu.
Seu amigo.
Seu único amigo.
Laura olhou-se novamente no espelho. Assustou-se com a imagem refletida. Seria a linha vermelha escura desenhada em volta da boca que lhe dava aquele aspecto tão diferente? Lábios carnudos, não mais insípidos ou ríspidos. Aquele ar antisséptico e bem comportado tinha desaparecido.
— Por que não tentar ficar bonita? Só por esta vez? Só por esta vez? Sei que é tarde demais, mas pelo menos terei esta recordação...
2
— O que aconteceu com você? — perguntou ele, imediatamente.
Ela olhou para ele, com timidez, mas tentou disfarçar o mal-estar que sentia. Controlou-se e o examinou com severidade.
Gostou dele. Não era jovem demais —, na verdade parecia mais velho do que era na realidade (pelas informações dos jornais) — com um ar meio juvenil que ela considerou estranho e cativante.
Ele aliava uma ansiedade com uma timidez curiosa e expressiva, como se tudo no mundo fosse novidade para ele.
— Não aconteceu nada comigo — disse ela, enquanto lhe entregava o casaco.
— Como não? Você está diferente... tão diferente de hoje de manhã!
— Batom e ruge, é tudo — respondeu ela, rispidamente.
Llewelly aceitou a resposta.
— Ah! Compreendo. Achei seus lábios mais claros do que os das outras mulheres. Você hoje de manhã parecia uma freira.
— Sim, sim, eu suponho que parecia.
— Então é isso. Devo lhe dizer que está linda, realmente linda... Não se importa que eu lhe diga isto?
— Não, absolutamente.
Pode dizer sempre, pensou ela, repita sempre, pois sei que nunca mais ouvirei isto outra vez.
— Vamos jantar aqui, na salinha de visitas. Achei que você gostaria. Você não se importa? — perguntou Llewellyn, ansioso.
— Eu acho ótimo.
— Espero também que o jantar esteja bom, nem sempre está. Até hoje, nunca me preocupei muito com comida, mas gostaria de que fosse um bom jantar.
Ela sentou-se enquanto ele chamava o garçom. Laura sentia--se como se estivesse fazendo parte de um sonho.
Pois ele não era o mesmo homem que viera vê-la, de manhã, na Fundação. Era outra pessoa, jovem, agressivo, ansioso, inseguro, tentando agradá-la de qualquer maneira. Ele devia ser assim, quando tinha vinte anos, pensou ela, e agora estava tentando recuperar este tempo perdido.
Por um instante, Laura sentiu-se invadida pela tristeza e pelo desespero. Não era uma realidade e sim o que poderia ter sido o que eles dois estavam tentando recapturar. O jovem Llewellyn e a jovem Laura. Era ridículo, patético, insubstancial em tempo e extremamente melancólico.
Jantaram uma comida medíocre mas da qual nenhum dos dois pareceu tomar conhecimento. Juntos, exploravam o Pays du Tendre: falando, rindo, libertos da própria inconsciência.. .
Finalmente, quando o garçom saiu, deixando o café na mesa, Laura resolveu saber algo mais sobre aquele homem.
— Você já sabe muito da minha vida e eu não sei nada da sua — disse ela. — Conte-me.
Ele falou da sua juventude, dos pais, da sua educação.
— Ainda vivem?
— Meu pai morreu há dez anos, minha mãe no ano passado.
— Eles tinham... ela tinha... muito orgulho de você?
— Meu pai, eu creio, não gostava da forma que a missão tomou. A religião emocional o irritava, mas ele aceitou que para mim talvez não poderia ter sido de outra forma. Minha mãe compreendia melhor e tinha orgulho do meu sucesso mundial, como todas as mães. Mas ela era uma mulher triste.
— Triste?
— Por causa da parte humana que eu estava perdendo. Porque, sem eles, eu vivia isolado do convívio humano e, é claro, dela.
— Ah! Entendo.
Ela meditou sobre o que ele disse. Llewellyn continuou sua história, que pareceu fantástica a Laura, pois era uma experiência tão diferente da dela que, por momentos, até a irritava.
— É tão horrivelmente comercial.
— A engrenagem? É sim.
— Se ao menos eu pudesse entender melhor. Quero entender. Você acha... achou... que valia mesmo a pena?
— Para Deus?
Ela surpreendeu-se.
— Não, não quis dizer isto. Valia a pena para você?
Ele suspirou.
— É tão difícil explicar. Tentei explicar para Richard Wilding. A questão de validade nunca me interessou. Eu tinha uma missão a cumprir.
— Então, se você pregasse num deserto teria o mesmo efeito?
— Para mim, sim. Mas então eu não pregaria tão bem — disse ele, sorrindo. — Um ator não representa bem para uma casa vazia. Um autor necessita de público para ler seus livros. Um pintor faz exposições...
— Parece como se os resultados não lhe interessassem.
— Não posso saber quais foram os resultados.
— Mas os dados, as estatísticas, os seguidores... tudo isto devia ser anotado e processado.
— Eu sei, mas isto faz parte da engrenagem, dos cálculos humanos. Não sei que resultados Deus esperava ou conseguiu. Entenda, Laura, se de todos os milhões que me procuraram, Deus quisesse apenas um, apenas uma alma, e fosse esta a maneira de conquistá-la, já seria o bastante.
— É como se usasse um serrote para abrir uma noz!
— Para os valores humanos, sim. É a nossa dificuldade... aplicar nosso código de valores humanos... de justiça ou injustiça... e achar que Deus faz o mesmo. Não temos, não podemos ter a menor noção do que Deus quer do homem, exceto que parece provável que Ele quer que o homem se torne algo. que ainda não se tornou.
— E você? O que Deus quer de você agora? — perguntou Laura.
— Ser apenas um homem comum. Casar, ter filhos, sustentar uma casa, amar o próximo.
— E você ficará satisfeito com isso?
— Que mais posso desejar? Que mais pode alguém querer? Já perdi quinze anos da minha vida, por isso você tem que me ajudar.
— Eu?
— Você sabe que eu quero casar-me com você, não sabe? Deve saber que eu a amo.
Ela ficou quieta, muito pálida, olhando para Llewellyn. A irrealidade do jantar festivo acabara. Agora eles eram eles mesmos, de volta ao aqui e ao agora, criado pelo próprio momento.
— É impossível — disse ela.
— É? Por quê? — perguntou ele, sem parecer preocupado com a resposta.
— Não posso casar-me com você.
— Eu lhe darei tempo para se acostumar com a idéia.
— O tempo não fará diferença.
— Você está querendo dizer que não poderia me amar? Desculpe, Laura, mas não creio que seja verdade. Eu acho que você já me ama um pouco.
A emoção invadiu-a como uma chama.
— Sim, eu poderia amá-lo. Eu o amo...
— Isto é maravilhoso Laura. Minha querida, amada Laura.
Ela colocou a mão para a frente como para impedi-lo de se aproximar.
— Não posso me casar com você, nem com ninguém.
Llewellyn olhou para ela com seriedade.
— Como assim? O que é isto?
— Sim, existe uma razão.
— Jurou dedicar-se à filantropia? Ao celibato?
— Não, não, não.
— Desculpe-me se falei como um idiota. Diga-me o que é, meu amor.
— Sim, preciso contar. É uma coisa que eu pensei que nunca diria a ninguém.
— Talvez não, mas você sabe que precisa me contar.
Ela levantou-se e foi até a lareira. Sem olhar para ele começou a falar num tom monocórdico.
— O primeiro marido de Shirley morreu na minha casa.
— Eu sei. Ela me contou.
— Shirley saíra aquela noite. Eu fiquei sozinha com Henry. Ele tomava pílulas para dormir, em grande quantidade, todas às noites. Shirley tinha-me avisado ao sair que ele já havia tomado a dose, mas nesta altura eu já havia fechado a porta da rua. Quando fui vê-lo, às dez horas, ele me disse que não tinha tomado as pílulas. Eu fui buscá-las. Na verdade ele havia tomado a dose, mas como estava adormecido e confuso, o que é muito natural, quando se tomam esses soporíferos, imaginou que ainda não tivesse tomado o remédio. A dose dupla o matou.
— E você se sente responsável?
— Tecnicamente, sim. Mais do que isso, eu sabia, por Shirley, que ele já havia tomado o remédio
— Sabia que uma dose dupla o mataria?
— Sabia que era possível, e esperava que isto acontecesse — acrescentou ela, com firmeza.
— Compreendo — disse Llewellyn, num tom calmo e seguro. — Ele não tinha cura? Seria sempre um inválido?
— Não cometi eutanásia, se é isto que está querendo dizer.
— O que aconteceu depois?
— Assumi inteira responsabilidade e não fui considerada culpada. Levantou-se a suspeita de que seria suicídio... isto é, que Henry teria tentado me enganar para obter outra dose. Afinal ele não tinha acesso aos remédios devido a depressões de fúria e desespero, que de vez em quando o atacavam.
— O que você respondeu a isso?
— Que não achava provável. Henry nunca pensaria nisso. Viveria anos a fio... com Shirley ao seu lado, agüentando seu egoísmo, seu mau humor, sacrificando-se por ele. Eu queria que ela fosse feliz, que vivesse a vida. Ela conhecera Richard Wilding, um pouco antes, e eles estavam apaixonados.
— Sim, ela me contou.
— Se Henry não tivesse ficado aleijado e inválido, ela o teria abandonado com o correr do tempo... mas com a doença dele, isto se tornou impossível. Mesmo não gostando mais do marido, ela nunca o abandonaria, porque Shirley era leal, talvez fosse a pessoa mais leal que eu já conheci na vida. Você compreende que eu não podia suportar a idéia de vê-la arruinar a vida daquela maneira. Não me importei com o que pudesse acontecer comigo.
— Mas na realidade não aconteceu nada com você.
— Não, e às vezes eu desejaria que fosse ao contrário.
— Sim, posso entender que tenha pensado nisso. Mas, na verdade, ninguém poderia ter feito coisa alguma. Mesmo que fosse um erro, se o médico suspeitasse que por algum impulso piedoso ou mesmo ímpio, nem assim ele poderia ou desejaria acusá-la. Se as suspeitas recaíssem sobre Shirley, aí sim, a história seria outra.
— Mas nunca poderiam suspeitar dela. Além do mais, a criada ouviu Henry dizer que não tinha tomado o remédio e pedir para eu lhe dar as pílulas.
— Sim, foi tudo facilitado para você... facilitado demais. Como se sente em relação a esse fato, agora?
— Eu queria libertar Shirley.
— Deixe Shirley de lado. Isto é entre nós dois. Como se sente em relação a Henry? Acha que encontrou a melhor solução?
— Não.
— Graças a Deus você disse isso.
— Henry não queria morrer: Eu o matei.
— Sente remorsos?
— Se está querendo saber se eu o faria outra vez, a resposta é sim.
— Sem remorsos?
— Remorsos? Não sei. Foi um pecado, disso estou certa. Tenho vivido com este peso e não posso esquecê-lo.
— Por isso criou a Fundação? Por filantropia? Como dever para corrigir seu erro?
— Foi tudo o que pude fazer,
— E serviu.
— Como assim? Se valeu a pena?
— Não me refiro ao bem que fez aos outros. Quero saber se a ajudou.
— Não sei...
— Você quer ser castigada?
— Quero fazer uma reparação.
— Para quem? Henry? Está morto. Pelo que pude saber Henry nunca se interessaria por crianças excepcionais. Você precisa enfrentar a realidade, Laura, não se pode fazer reparações.
Ela ficou imóvel como se tivesse levado um choque. Em seguida, jogou a cabeça para trás e a cor voltou ao seu rosto. Olhou para ele desafiadoramente.
— É verdade — disse ela —, tenho tentado fugir a esta realidade que você provou ser impossível. Já disse que não acredito em Deus, mas é mentira. Sei que cometi um pecado e no fundo do meu coração sei que não serei perdoada. Fiz o que fiz, sabendo das conseqüências. A não ser que eu me arrependesse e eu não posso me arrepender. Quis que Shirley fosse feliz, tivesse uma oportunidade e consegui. Sei que durou pouco... só três anos. Mas, se ela foi feliz nestes três anos, mesmo que tenha morrido tão jovem, valeu a pena.
Ao olhar para ela, Llewelly sentiu-se tentado a calar-se, a esconder a verdade. Deixá-la na ilusão, pois afinal era tudo o que lhe restava. Ele a amava e, por isso, como poderia pulverizar a imensa coragem de Laura? Ela não precisaria saber a verdade.
Llewelly foi para a janela, abriu as cortinas e olhou para a rua distraído. Finalmente, voltou-se para ela e falou num tom ríspido.
— Laura, você sabe como sua irmã morreu?
— Ela foi atropelada.
— Sim, mas por que foi atropelada, você não sabe... ela estava bêbada.
— Bêbada? — repetiu Laura, como se não tivesse entendido. — Você quer dizer que houve uma festa?
— Não houve festa alguma. Ela saiu de casa sem ser vista e foi para a cidade. Costumava fazer isto, de vez em quando, porque nem sempre gostava de beber em casa. E sabe o quê? Bebia lavanda e água-de-colônia, até desmaiar. Os empregados sabiam, só Wilding não. Shirley bebia porque achava a vida insuportável e precisava fugir.
— Não acredito.
— É verdade. Ela mesma me contou. Quando Henry morreu ela perdeu o rumo. Tornou-se uma criança assustada e só no mundo.
— Mas ela gostava de Richard... e ele gostava dela.
— Ele a amava, mas será que ela lhe correspondia? Uma paixão fugaz... fora tudo que ela sentira por ele. Depois, enfraquecida pelo sofrimento e pela tensão de tomar conta de um inválido deprimido, ela casou com Richard.
— E não foi feliz. Não posso acreditar.
— Será que você conhecia sua própria irmã? Será que uma pessoa é igual para todo o mundo? Para você, Shirley sempre foi um bebê que você salvou de um incêndio, uma criatura fraca, desprotegida, necessitada de amor e carinho. Mas, eu a via diferentemente, embora também pudesse estar errado. Para mim, ela era uma jovem corajosa, capaz de suportar os embates da vida, usando as dificuldades para realçar toda a força do seu espírito. Ela estava cansada e tensa, mas estava vencendo a batalha de trazer Henry de volta do desespero para a luz. Amava Henry e era Henry quem ela queria. Tinha uma vida difícil mas que para ela valia a pena. Aí, Henry morreu e ela foi jogada no ninho de algodão e seda, amor ansioso e protetor. Ela lutou mas não conseguiu se desvencilhar. Encontrou a bebida, que diminuía a realidade. E você sabe como a bebida toma conta de uma mulher e que não é fácil se largar um vício desses...
— Ela nunca me disse que estava infeliz... nunca.
— Ela não queria que você soubesse.
— E fui eu quem provocou tudo isso... eu!
— Sim, minha querida.
— Baldy sabia — disse Laura. — Pelo que disse ao morrer: “você não devia ter feito isso!” Há muitos anos ele tinha me dito que não interferisse, que nós não sabíamos o que era melhor para os outros! — Laura voltou-se para Llewellyn. — Ela não tentou suicidar-se?
— Pode ser. Ela atravessou a rua bem em frente do caminhão. Wilding, no fundo, crê que foi suicídio.
— Não, não.
— Mas, eu não acredito. Acho que Shirley seria incapaz disso. É verdade que vivia deprimida, mas não creio que fosse capaz de chegar a esse ponto, pois basicamente era uma lutadora. Acontece que não se larga a bebida com um estalar de dedos. Vive-se tendo recaídas. Para mim, ela atravessou a rua sem saber o que estava fazendo ou para onde estava indo.
Laura afundou-se num sofá.
— O que farei? O que farei?
Llewellyn aproximou-se dela e abraçou-a.
— Você vai se casar comigo, e recomeçar a vida.
— Não, não, isto seria impossível.
— Por que não? Você precisa de amor.
— Você não compreende? Tenho que pagar pelo crime que cometi. Todos nós pagamos pelos nossos erros.
— Como você vive obcecada pela noção de pagamento!
— Mas todos temos que pagar — repetiu Laura.
— Acho que é verdade, mas será que você não compreende, minha querida — disse Llewellyn, fazendo uma pausa antes de emitir uma verdade mais cruel, ainda — que pelo que você fez, alguém já pagou? E esse alguém foi Shirley.
Ela olhou para ele horrorizada.
— Shirley pagou?
Llewellyn concordou com a cabeça.
— Ouça, infelizmente, você precisa ouvir. Shirley pagou e morreu, cancelando a dívida. Você precisa continuar, Laura. Você precisa, não de esquecer o passado, mas mantê-lo no seu devido lugar, na sua memória e não na sua vida diária. Precisa aceitar a felicidade e não só o castigo. Sim, aceitar a felicidade. Precisa parar de dar e aprender a receber. Deus age conosco de uma maneira estranha. Ele está lhe concedendo, eu creio, o amor e a felicidade. Aceite isto com humildade.
— Não posso, não posso.
— Você deve e precisa aceitar — disse Llewellyn, colocando-a de pé. — Eu te amo, Laura, e você me ama, não tanto quanto eu, mas também me ama.
— Sim, eu te amo.
Trocaram um beijo longo e faminto. Ao se separarem ela riu baixinho.
— Queria que Baldy soubesse, ele ficaria satisfeito.
Ao afastar-se, ela tropeçou e quase caiu. Llewellyn apanhou-a no ar.
— Cuidado... machucou-se? Você poderia ter partido a cabeça no mármore da lareira.
— Que bobagem!
— Pode ser, mas para mim você é muito preciosa.
Ela sorriu para ele, sentindo seu amor e sua ansiedade. Finalmente era querida, como sempre desejara ser na infância.
De repente, sentiu-se como liberada de um enorme peso nos ombros e ficou leve como uma pluma.
Pela primeira vez na vida Laura sentiu e compreendeu o peso do amor.