A Carga
Capítulo Cinco · — Você acha mesmo bom? — perguntou…
1
— Você acha mesmo bom? — perguntou Shirley nervosa como qualquer recém-casada.
Laura deu mais uma volta pelo apartamento (dois quartos, cozinha e banheiro).
— Acho que ficou ótimo — respondeu, sorrindo.
— Estava horrendo quando mudamos! Imundo! Tivemos que fazer tudo sozinhos, exceto os tetos. Até que foi divertido. Você gostou do banheiro vermelho? Devia ter sempre água corrente quente, mas nunca fica bastante quente. Henry achou que vermelho daria mais idéia de calor... como o inferno.
Laura riu.
— Vocês parece que se divertiram bastante.
— Tivemos muita sorte de encontrar um apartamento. Este foi passado por uns amigos de Henry. O único senão é que eles não pagavam as contas, de maneira que volta e meia aparecem leiteiros, furiosos, e quitandeiros irados nos cobrando contas que não podemos, nem temos por que pagar. Acho muito desagradável dar calote neste tipo de fornecedor. Henry, é claro, não concorda comigo.
— Vai dificultar para vocês conseguirem crédito — disse Laura.
— Pago todas as contas semanalmente — protestou Shirley.
— Você está bem de dinheiro? O nosso jardim está dando lucro... se precisar posso lhe dar mais uns cento e poucos...
— Você é um amor, Laura. Não, estamos muito bem. Guarde para o caso de surgir uma emergência. Quem sabe eu venha a ter uma doença grave?
— Com esta cara que você está me parece meio absurdo. Shirley riu.
— Laura, estou tão feliz!
— Que bom.
— Ouça, Henry está chegando.
Henry abriu a porta, entrou e cumprimentou Laura com afabilidade.
— Alô, Laura.
— Alô, Henry. Achei o apartamento uma graça.
— Henry, que tal o novo emprego?
— Novo emprego? — perguntou Laura.
— É. Ele se despediu daquele outro... era muito chato passar o dia colando selos e indo ao correio.
— Estou disposto a começar por baixo — interveio Henry —, mas, não tão por baixo.
— Conte sobre o novo emprego — insistiu Shirley.
— Parece interessante — disse Henry. — Mas ainda é cedo para dizer.
Sorriu com todo o encanto para Laura e protestou novamente a satisfação de encontrá-la em sua casa.
Laura voltou para casa, feliz, achando que tinha sido ridícula em ter tanto medo e incerteza sobre aquele casamento.
2
— Henry, como podemos estar devendo tanto? — perguntou Shirley perturbada.
Por esta altura já estavam casados há um ano.
— Eu sei — concordou Henry — que é demais mas infelizmente é a verdade.
— E como vamos pagar?
— A gente sempre arranja um jeito — respondeu Henry, evasivamente.
— Ainda bem que arranjei um emprego naquela loja de flores.
— É mesmo. Só não quero que você precise trabalhar para viver; quero que trabalhe para se divertir.
— Eu me divirto. Ficaria chateada o dia inteiro aqui em casa, sem ter nada que fazer. O resultado é que acabo saindo para fazer compras e nos endividamos ainda mais.
— Confesso que este negócio é bem deprimente — disse Henry, folheando uma série de cartas de cobrança. — Detesto o final do mês. Mal acaba o Natal já começa o imposto de renda. Este homem aqui, por exemplo, está nos cobrando as estantes, de uma maneira muito grosseira. Vou simplesmente jogar esta carta no lixo. — Depois de ter despachado este problema, Henry voltou-se para a próxima carta. — Já esta aqui está muito mais simpática. Coloca o problema de uma maneira mais gentil...
— Vai pagar, então?
— Não... exatamente. Vou simplesmente arquivá-la na lista de prestações.
Shirley riu.
— Henry, eu adoro você, mas o que vamos fazer?
— Não precisamos nos preocupar hoje à noite. Vamos jantar num restaurante bem caro.
— Isto vai resolver alguma coisa? — perguntou Shirley espantada.
— Não, não vai resolver coisa alguma — respondeu Henry. — Pelo contrário, mas pelo menos vai levantar nosso moral.
3
“Querida Laura
Será que você podia nos emprestar 100 libras? Estamos em apuros. Estou desempregado há dois meses, como você sabe (Laura não sabia), mas estou à beira de conseguir um negócio maravilhoso. Por enquanto, nos limitamos usar o elevador de serviço para evitar os credores. Desculpe ter que recorrer a você, mas prefiro evitar mais esta chateação a Shirley.
Seu cunhado,
Henry.”
4
— Não sabia que você tinha pedido dinheiro a Laura!
— Eu não lhe disse? — perguntou Henry, calmamente.
— Não, não disse! — retrucou Shirley, furiosa.
— Está bem, minha querida, não precisa me bater. Foi Laura quem lhe contou?
— Não, eu vi por acaso o talão de depósitos...
— Nossa querida Laura, sempre pronta a se sacrificar.
— Henry, por que pediu dinheiro a ela? Logo a ela? Eu preferia que tivesse me avisado.
Henry sorriu.
— Você não deixaria.
— Tem razão, não deixaria.
— A verdade, Shirley, é que estávamos em péssima situação. Tirei cinqüenta da velha Muriel, pedi cem a Berta, minha madrinha, que recusou, me devolvendo um sermão da montanha daqueles! Tentei uma ou duas fontes, mas não deu certo. No final só sobrou Laura.
Shirley encarou o marido com seriedade.
Estou casada há dois anos, pensou, e só agora conheço Henry realmente. Nunca vai parar num emprego, gastará sempre dinheiro como se fosse água...
Apesar de adorar o marido, Shirley compreendeu as desvantagens de estar casada com ele. Henry já tinha saído de quatro empregos — não custava a arranjar um emprego — mas não conseguia parar em nenhum: ou se cansava ou era despedido. Além de gastar como um louco e não ter o menor escrúpulo em conseguir crédito. Sempre que queria melhorar a situação financeira fazia um empréstimo sem se preocupar em ver se poderia pagá-lo. Shirley seria incapaz de fazer o mesmo.
— Será que vou conseguir mudá-lo? — perguntou Shirley, dando um suspiro.
— Mudar? Para quê? — perguntou Henry, espantado.
5
— Alô, Baldy!
— Alô, minha querida Shirley — respondeu, piscando o olho, o Sr. Baldock, mergulhado numa velha e confortável poltrona.
— Eu não estava dormindo — acrescentou Baldock, agressivamente.
— Eu sei — disse Shirley em tom apaziguador.
— Faz tempo que não aparece por aqui, pensei que tivesse esquecido da gente.
— Como seria possível esquecê-los?
— Seu marido veio também?
— Não desta vez.
— Sei, sei — murmurou Baldock, olhando para Shirley com curiosidade. — Você está mais magra, não está?
— Andei fazendo regime.
— As mulheres! — resmungou Baldock. — Está preocupada com alguma coisa?
— Claro que não — respondeu ela desafiadora.
— Está bem, está bem, só perguntei por perguntar. Ninguém me conta mais nada! Além do mais, estou ficando surdo. Não consigo ouvir mais atrás das portas, o que torna a vida muito chata.
— Pobre Baldy!
— O médico proibiu que eu fizesse jardinagem, nada de me debruçar sobre os canteiros porque o sangue acorre à cabeça ou coisa parecida. Um estúpido é o que ele é!
— Sinto muito, Baldy.
— Portanto, se quiser falar comigo pode se abrir. Eu não falaria com Laura.
Fez-se um pequeno silêncio.
— Para ser sincera eu vim aqui para conversar.
— Foi o que pensei.
— Queria que me desse um conselho.
— Isto já não sei. Acho muito perigoso dar conselhos.
Shirley não prestou atenção a este comentário.
— Não quero falar com Laura, ela não gosta de Henry. O senhor gosta dele, não gosta?
— Gosto dele — disse o Sr. Baldock. — É um rapaz muito divertido, que ouve com atenção um velho falastrão como eu. Gosto dele também porque nunca se preocupa com coisa alguma.
— Isto é verdade — disse Shirley, sorrindo.
— Uma raridade nos dias de hoje. Todo o mundo sofre de preocupação. Sim, Henry é muito simpático. Eu não me preocupo, como Laura, com o lado moral das pessoas. O que ele andou fazendo? — perguntou com brandura.
— Acha que sou tão tola de esbanjar meu capital?
— Anda economizando?
— Sim.
— Com o casamento sua herança passou a ser controlada por você. Pode dispor do dinheiro como quiser.
— Eu sei.
— Henry sugeriu-lhe algo?
— Não... para ser sincera, não. A culpa na realidade é minha. Não quis que ele falisse, apesar dele não se importar muito com isso. Mas eu não quis que isso acontecesse. Acha que agi mal?
— Sim e não — respondeu Baldy, pensativo.
— Explique-se.
— Bem, para início de conversa, você não tem muito dinheiro. Talvez precise de um certo capital no futuro. Se acha que pode depender do seu simpático marido é melhor tomar outras providências. De certa maneira você é bem ingênua...
— E?
— Por outro lado você comprou com o seu dinheiro a paz de espírito que é um bem precioso. Ainda ama seu marido?
— Sim.
— Ele é bom para você?
Shirley andou pela sala. Correu os dedos por uma mesa e pelo espaldar de uma cadeira, examinando a poeira, sem prestar atenção. Baldock a observava. Finalmente, ela pareceu chegar a uma decisão. De frente para a lareira sentenciou:
— Não exatamente.
— Como assim?
— Está tendo um caso com outra mulher — respondeu Shirley, num tom monocórdico.
— É sério?
— Não sei.
— Por isso veio para cá?
— Sim.
— Está zangada?
— Furiosa.
— Vai voltar para ele?
Shirley calou-se.
— Sim, vou — respondeu por fim.
— Bem — comentou Baldock —, a vida é sua.
Shirley foi para ele e beijou-o. Baldock grunhiu baixinho.
— Obrigada, Baldy.
— Não me agradeça, não fiz nada.
— Eu sei, por isso você é maravilhoso.