A Carga
Capítulo Dois · Baldock estava trabalhando no jardim quando Laura chegou.
1
Baldock estava trabalhando no jardim quando Laura chegou.
— Que acha das minhas begônias? Maravilhosas, não? — perguntou, grunhindo.
O Sr. Baldock era um péssimo jardineiro, sempre orgulhoso dos resultados duvidosos que obtinha, pois ignorava os fracassos que seus amigos não deviam comentar. Laura obedientemente olhou para as esparsas e murchas begônias e comentou que elas estavam muito bem.
— Bem? Estão magníficas! — gemeu o Sr. Baldock, que com a idade tinha engordado, enquanto se abaixava para arrancar algumas ervas daninhas.
— Este clima úmido — queixou-se o pobre velho. — Assim que você limpa o terreno elas voltam. Não sei como lutar contra elas... para mim são as próprias filhas do diabo.
Ofegante, enquanto arrancava um tufo ou outro, voltou-se para Laura.
— Então, o que houve? Algum problema? Fale logo.
— Sempre que venho procurá-lo é porque estou com algum problema, desde os seis anos de idade.
— Você era uma menina muito séria... com uns olhos enormes e um ar insolente.
— Gostaria de ter certeza das minhas decisões!
— Não se preocupe tanto — disse o Sr. Baldock, imprecando contra umas ervas. — Saia, sua estúpida! Não, não se preocupe — continuou, voltando-se para Laura. — Tem gente que sabe o que é certo e o que é errado, e gente que não sabe. é como ter ouvido para música.
— Não me refiro à certeza do certo e do errado do ponto de vista moral. Gostaria de saber se estou agindo direito.
— Neste caso é diferente. Geralmente se cometem mais besteiras do que acertos na vida. Qual é o problema?
— É Shirley.
— Claro que é Shirley. Você não tem outra preocupação na cabeça.
— Estou tentando conseguir um curso de secretária em Londres para ela.
— O que me parece uma grande besteira — disse o Sr. Baldock. — Shirley é uma boa menina, mas será uma das últimas pessoas que conheço capaz de se tornar uma boa secretária.
— Mesmo assim ela precisa ter alguma profissão.
— É o que todo mundo diz hoje em dia.
— Além do mais quero que ela conheça novas pessoas.
— Maldito espinho! — gritou o Sr. Baldock, sacudindo a mão. — Pessoas? Que pessoas? Na rua? No emprego? Outras secretárias? Alguns rapazes?
— Isso mesmo, alguns rapazes novos.
O Sr. Baldock riu.
— Mas, aqui ela já conheceu vários rapazes! Aquele filhinho da mamãe, o Robin, parece gostar dela, o Peter demonstra estar louco de paixão, e até Edward Westbury começou a passar brilhantina no pouco cabelo que tem. Você sentiu o cheiro na igreja? Eu pensei com meus botões, de quem será que ele anda atrás? Quando saímos, lá estava ele, sacudindo o rabo como um cachorrinho encabulado.
— Mas não creio que ela goste deles.
— E por que deveria gostar? Dê-lhe tempo... Shirley é muito jovem. Vamos, vamos... qual a verdadeira razão para mandá-la a Londres? Ou você também está pensando em se mudar para lá?
— Não, está aí todo o problema.
O Sr. Baldock endireitou as costas.
— O problema? — perguntou, olhando para Laura com curiosidade. — O que você está pretendendo na realidade?
Laura olhou para o jardim.
— Como o senhor sabe, Shirley é a única coisa que me interessa no mundo. Eu a amo tanto que tenho medo de magoá-la, ou de tentar amarrá-la às minhas saias.
— Ela tem dez anos menos que você — disse ele, com certa doçura na voz.
— No fundo ela é mais sua filha do que sua irmã.
— Isto é verdade.
— E você, sendo inteligente, já notou que o amor material é um amor possessivo.
— É verdade, você quer tirá-la do ninho? Ver se ela consegue se manter sozinha?
— Sim, mas tenho tantas dúvidas... será que devo agir desta maneira?
O Sr. Baldock esfregou o nariz com certa irritação.
— Ah! As mulheres... o problema das mulheres é que estão sempre criando problemas. Como é que se pode saber se as coisas vão dar certo ou não? Se Shirley for para Londres e encontrar um estudante egípcio e tiver um filho moreno, num apartamento em Bloomsbury, você vai dizer que é sua culpa, quando na verdade o problema é de Shirley e do egípcio. Caso ela faça o curso, consiga um emprego, case com o patrão, então você vai achar que estava com a razão! Tudo bobagem. Não se pode arranjar a vida das pessoas. Ou Shirley sabe o que quer ou não sabe! Só o tempo dirá! Se você acha que a mudança para Londres é boa idéia, vá em frente, mas não leve tudo tão a sério. Seu problema, Laura, é que você encara a vida como se fosse um drama... aliás, este é o problema da maioria das mulheres.
— O senhor não?
— Só levo a sério as ervas daninhas — disse o Sr. Baldock. olhando para um monte do chão. — Levo a sério meu estômago porque se não ele me dá problemas. Mas nem sonho em me preocupar com a vida das pessoas... para começar, eu as respeito muito.
— O senhor não compreende. Eu não suportaria ver Shirley infeliz.
— Bobagem — disse o Sr. Baldock, rudemente. — O que importa se ela for infeliz? Muita gente é... tem que se agüentar a infelicidade como tudo na vida. Para se viver é preciso coragem e um coração alegre.
— E você? — perguntou Baldock, voltando-se bruscamente Para Laura.
— Eu? — perguntou Laura, surpresa.
— Sim! Imagine se você for infeliz? Será capaz de suportar mais este embate da vida?
— Nunca pensei nisso — respondeu, Laura, sorrindo.
— E por que não? Pense um pouco em você também. Altruísmo numa mulher pode ser tão desastroso quanto uma torta mal feita. O que você pretende da vida? Está com 28 anos, na idade de se casar. Por que não caça um homem?
— Não seja absurdo Baldy!
— Está vendo? — berrou Baldock. — Você é uma mulher, não é? Uma moça interessante e normal. Ou não é normal? O que sente quando um homem tenta beijá-la?
— Eles não tentam tanto!
— E por que não? Por que você não age direito — disse ele, sacudindo o dedo indicador. — Passa o tempo todo pensando em outras coisas. Olhe para você! Sempre tão distinta e arrumada, o tipo da moça que minha mãe aprovaria. Por que não pinta a boca e as unhas de vermelho?
Laura olhou para ele espantada.
— Você sempre detestou baton e esmalte! — exclamou Laura.
— Claro que odeio... mas eu estou com 79 anos... O importante é usar os símbolos significativos para informar as pessoas que você está no mercado, pronta para jogar com a natureza. O que eles chamam a Selva. Preste atenção Laura, você não faz o tipo de todo o mundo, não é dessas mulheres que andam por aí, incapazes de conter o próprio sexo. O homem que viesse procurá-la teria que perceber que tipo de mulher você é na realidade! Mas, isto não acontece assim! Você tem que agir, lembrar-se de que é uma mulher e procurar um homem .
— Baldy, querido, adoro suas conferências, acontece que sou tão desprovida de sex-appeal!
— Resolveu ser uma solteirona?
Laura enrubesceu.
— Claro que não! Só que não creio que chegue a me casar...
— Derrotista! — gritou o Sr. Baldock.
— Não é derrotismo! Não creio que um homem possa se apaixonar por mim.
— Os homens se apaixonam por qualquer coisa — disse o Sr. Baldock, furioso. — Mulheres com lábios leporinos, com acne, com queixos prognatas, com cabeças em forma de ovo e até por cretinas! Pense nas mulheres casadas que você conhece! Não, Laura, você está fugindo para não sofrer. Você não quer ser amada, quer amar... e não está com a razão. Ser amada é carregar um fardo muito pesado.
— Você acha que eu amo Shirley demais? Ou que sou muito possessiva?
— Não, não acho... desse erro eu não a acuso.
— Mas... a gente pode amar demais?
— Claro que pode — respondeu, berrando, o Sr. Baldock. — Pode se fazer qualquer coisa demais: beber, comer, amar. Ouça:
Conheci mil formas de amar
E cada uma fazia a outra se retirar...
— Leve este versinho para casa, minha filha, e pense bem.