A Carga

Agatha Christie · Capítulo 17 de 25

Páginas do PDF

A Carga

Capítulo Oito · O telefone tocou assim que Laura levantou-se…

 

1

O telefone tocou assim que Laura levantou-se da mesa, depois do almoço.

— Laura? Sou eu, Shirley.

— Shirley? O que há? Sua voz está estranha.

— É Henry, Laura. Está no hospital com poliomielite.

Como Charles, pensou Laura, lembrando-se do irmão. Como Charles.

A tragédia para ela, como era criança e não pudera entender tudo que acontecera, adquiriu um novo significado.

A angústia da voz de Shirley era igual a que a mãe sentira.

Charles morrera. Será que Henry morreria?

Meu Deus! Será que Henry morreria?

 

2

— Paralisia infantil é o mesmo que poliomielite, não é? — perguntou Laura ao Sr. Baldock.

— Novo nome para a mesma doença. Por quê?

— Henry.

— Coitado. E você está querendo saber se ele se recuperará?

— Bem... sim!

— Desejando que ele morra?

— Por favor... não me pinte como um monstro.

— Ora, Laura... não me diga que não pensou nisso.

— Os piores pensamentos me passam pela cabeça — disse Laura — mas não iria tão longe.

— Não — disse o Sr. Baldock, — hoje em dia, você não iria tão longe.

— Por que hoje em dia? Não está querendo se referir à Dama de Vermelho? — perguntou Laura, sorrindo da recordação. — O que eu vim dizer é que não vou poder vir visitá-lo todos os dias. Vou para Londres ficar com Shirley.

— Ela quer você?

— Claro que sim — respondeu Laura, indignada. — Henry está no hospital, ela está sozinha, precisa de alguém que lhe faça companhia.

— Provavelmente, provavelmente. É o mais lógico. Não tem importância você me abandonar aqui sozinho.

O Sr. Baldock como semi-inválido adorava sentir pena de si mesmo.

— Querido, sinto muito.

— Mas Shirley vem primeiro. Está bem, está bem, afinal quem sou eu? Um velho chato de oitenta anos, surdo, quase cego...

— Baldy!

O Sr. Baldock sorriu e fechou uma pálpebra.

— Laura, você adora tragédias. Qualquer pessoa que sinta pena de si mesma não precisa de você para coisa alguma. A autocompaixão é um trabalho muito absorvente.

 

3

— Não foi ótimo eu não ter vendido a casa? — perguntou Laura.

Haviam-se passado três meses. Henry não tinha morrido, mas escapara por milagre.

— Se ele não tivesse insistido em jogar tênis quando começou com os primeiros sintomas não teria sido tão grave... agora...

— É muito sério?

— É quase certo que ele ficará paralítico.

— Coitado.

— Os médicos ainda não disseram a ele, porque parece que há ainda esperança... mas eu creio que é conversa para não desanimar Shirley. De qualquer maneira foi ótimo não ter vendido a casa. Estranho, sempre tive um pressentimento de que não deveria vendê-la... eu vivia me dizendo que era ridículo ter uma casa deste tamanho; que já que eles não tinham filhos não iam precisar de uma casa de campo... além do mais eu estava inclinada a aceitar a direção de uma creche em Mulchester. Mas, já que a venda não se realizou a casa estará pronta para Shirley e Henry quando ele sair do hospital. Pelo visto ainda vai levar uns meses...

— Shirley acha uma boa idéia mudar para cá?

Laura pareceu zangada com a pergunta.

— Não, não sei por que ela me parece indecisa... acho que sei por quê! — disse Laura, olhando com raiva para o Sr. Baldock. — £ melhor que eu saiba — prosseguiu Laura, — ela pode ter-lhe contado o que não gostaria de me dizer. Ela não tem mais dinheiro, é isso?

— Ela não falou comigo — disse o Sr. Baldock, — mas creio que esta é a verdade. Henry deve ter esgotado todas as fontes, tanto a dele quanto a dela.

— Já ouvi muitas histórias — disse Laura. — Não só dos amigos deles como de outras pessoas. O casamento foi desastroso, ele gastou todo o dinheiro dela, passava as noites fora de casa, tem amantes. Mesmo agora, que está tão doente, não consigo perdoá-lo. Como é possível tratar Shirley tão mal? Ela que sempre foi tão cheia de vida, de energia e confiança. — Laura levantou-se e começou a andar pela sala. Tentou controlar a voz.

— Por que deixei-a se casar com Henry? Poderia ter impedido de alguma forma, adiado até que ela pudesse perceber como ele era na realidade. Mas ela estava com tanta pressa... queria casar e eu cedi.

— Ora, ora, Laura.

— O pior não é isso. Eu queria demonstrar que não era possessiva e para me experimentar deixei que ela mergulhasse nesse casamento infeliz...

— Já disse a você que não deve se preocupar tanto com a felicidade ou a infelicidade dos outros...

— Não suporto ver Shirley sofrer. Sei que você não se incomoda.

— Shirley, Shirley! Eu me preocupo com você, Laura, sempre me preocupei. Desde que a vi no jardim, vivendo num mundo de fadas, preocupada com a vida como se fosse um juiz. Você tem uma capacidade enorme para sofrer, mas não sabe minimizar isto, apelando para o bálsamo da autopiedade. Você simplesmente não pensa em si mesma!

— Mas o que tenho com isso? Não é meu marido que está com paralisia infantil.

— Parece que é, pelo carnaval que você está armando. Sabe o que quero para você, Laura? Uma felicidade cotidiana, um marido, umas crianças barulhentas. Você sempre foi tão trágica, desde pequena... precisa um pouco de comédia se quiser ser uma pessoa completa. Não carregue os sofrimentos do mundo nas costas. Jesus Cristo já fez isso por nós. Além do mais, não pode viver a vida dos outros, nem mesmo a de Shirley. Ajude-a, mas não se preocupe tanto.

— Você não compreende — exclamou Laura, pálida.

— Você é como todas as mulheres; uma tempestade num copo d'água.

Laura olhou para o amigo por um instante e em seguida virou as costas e saiu da sala.

— Estúpido que sou! — murmurou Baldock, em voz alta. — Como sempre falei de mais!

Baldock surpreendeu-se quando a porta se abriu e Laura encaminhou-se para ele.

— Você é terrível — disse ela, beijando-o.

Laura saiu novamente, deixando o pobre Sr. Baldock, piscando os olhos, envergonhado.

Como era hábito ultimamente, começou a falar sozinho.

— Por favor, Senhor! ajude-a — disse ele, olhando para o teto, formulando uma prece. — Eu não posso. Creio que já foi muita presunção de minha parte tentar ajudá-la.

Ao saber da doença de Henry, Richard Wilding escreveu uma carta a Shirley, expressando sua simpatia. Um mês depois, escreveu novamente, pedindo para vê-la.

— Não creio que devamos nos encontrar — escreveu ela. — Atualmente, minha única realidade é Henry. Creio que você pode compreender. Adeus.

A resposta dele chegou em seguida.

“Você respondeu como eu esperava que respondesse. Deus a abençoe, minha querida, agora e sempre...”

Isto pensou Shirley, era o ponto final daquela história.

Henry ia viver, e o que ela teria pela frente, de agora em diante, eram as dificuldades práticas da existência; ela e Henry estavam sem dinheiro; quando ele saísse do hospital seria um inválido e a primeira coisa que precisariam era uma casa para morar.

A única saída era Laura que, generosa, boa, os convidou para morar em Bellbury. Mas, por uma estranha razão, Shirley não queria ir.

Henry, que se tornara rebelde e amargo, não mais o despreocupado conquistador, chamou-a de louca.

— Não sei por que você se recusa. É a única solução. Graças a Deus, Laura não vendeu a casa. Lá tem muito lugar. Podemos ter um quarto enorme e um enfermeiro ou coisa parecida, se for necessário, para mim. Não sei por que você está tão indecisa.

— Não podemos ir morar com Muriel?

— Ela teve um derrame, você sabe disso muito bem. Deverá ter outro, em breve. Tem uma enfermeira, está quase arruinada, por causa dos impostos e está completamente gagá. Não tem condição. Por que não podemos morar com Laura? Ela nos ofereceu a casa, não foi?

— Claro que sim. Várias vezes.

— Então? Por que não? Laura adora você...

— Sei disso, mas...

— Está bem, adora você mas não gosta de mim. Melhor para ela! Pode se divertir vendo um aleijado...

— Não diga isso, Henry. Laura não faz este gênero.

— Que importa o gênero de Laura? Que me importa coisa alguma? Sabe o que eu estou passando? Sabe o que é ser incapaz, inerte, sem poder se mexer na cama? Que se importa você com isso?

— Não seja idiota.

— Amarrada a um inválido. Muito divertido.

— Não me incomodo com isso.

— Você é como todas as mulheres. Adora tratar de um homem como se ele fosse uma criança. Dependo de você e espero que se divirta muito com isso.

— Diga o que quiser — disse Shirley. — Sei o que está passando.

— Pensa que sabe. É impossível saber. Queria estar morto! Por que estes malditos médicos não me mataram? Era a melhor solução. Vamos, diga alguma daquelas frases bonitas e consoladoras que você decorou...

— Muito bem — disse Shirley. — Vou dizer algo que vai lhe deixar furioso. Foi pior para mim do que está sendo para você.

Henry olhou para ela furioso e então, sem querer, riu.

— Você percebeu que eu estava blefando, não é? — disse ele, por fim.

Shirley escreveu para Laura um mês depois.

“Querida Laura, é muita bondade sua nos receber. Você não deve se aborrecer com Henry e com o que ele diz, pois está inconformado Ele nunca precisou fazer coisa alguma que não desejasse, por isso atualmente tem ataques de ódio horríveis. É realmente terrível isto ter acontecido logo com ele”.

Uma carinhosa resposta de Laura, veio em seguida.

 

4

Duas semanas depois Shirley e o marido inválido vieram para a casa.

Por que, pensou Shirley, ao ser envolvida pelo carinho da irmã, eu não queria vir para esta casa? Sua própria casa, dentro de um círculo de proteção e cuidado? Sentiu-se criança outra vez.

— Laura — mentiu Shirley, — que bom estar de volta. Estou tão cansada, tão cansada.

Laura ficou horrorizada com o aspecto físico da irmã.

— Minha querida, você tem passado por uma grande provação... agora não se preocupe mais.

— Não se preocupe com Henry, isto sim — admoestou Shirley, ansiosa.

— É claro que não vou me incomodar com o que Henry diz. Como poderia? É horrível para um homem, especialmente um homem como Henry, ficar totalmente incapaz. Deixe-o desabafar à vontade...

— Laura, você compreende...

— Claro que compreendo.

Shirley suspirou aliviada. Até aquela manhã ela não tinha se dado conta da tensão nervosa em que estivera vivendo.