A Carga

Agatha Christie · Capítulo 2 de 25

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A Carga

parte I

 

LAURA - 1929

Capítulo Um

 

1

Sob o manto da calma aninhava-se na criança um ressentimento crescente. Desde a morte de Charles tinha ela esperanças...

Ela que sofrera tanto com a morte dele, pois o adorava, passou a nutrir esperanças. É claro que com Charles perto, lindo, alegre, travesso, os pais tinham que amá-lo. Laura achava que eles tinham razão, ela sempre fora quieta, sem graça, a típica segunda filha não desejada que viera logo após o nascimento do primogênito. Os pais eram bons com ela, carinhoso até, mas só amavam verdadeiramente Charles.

— Laura é um encanto — disse, um dia, a Sra. Franklyn, para uma visita. — Mas é tão sem graça. . .

Ela aceitara a justiça deste julgamento com a honestidade dos desesperançados. Era uma criança sem graça, pequena, pálida, de cabelos lisos; não dizia coisas engraçadas como Charles. Era boa, obediente, não dava trabalho; enfim era, e sempre seria, uma pessoa insignificante.

— Mamãe gosta mais de Charles do que de mim — murmurou ela, um dia, para a ama.

— Não diga bobagens — retrucou a ama, — e não seja injusta! Sua mãe gosta tanto de um quanto do outro... ela é como todas as mães, gosta igualmente dos filhos.

— As gatas não são assim — disse Laura, lembrando-se dos gatinhos recém-nascidos.

— Os gatos são animais — disse a ama. — E de qualquer maneira lembre-se de que Deus ama você — acrescentou, minimizando a simplicidade da sua assertiva.

Laura aceitou mais esta verdade, acreditando que, no fundo, talvez Deus gostasse mais de Charles do que dela. Afinal ele era muito mais bonito!

— Além do mais — pensou Laura — eu posso gostar de mim, mais do que Charles, mamãe e papai juntos!

Foi então que Laura se tornou mais pálida, mais silenciosa, mais bem comportada, o que fazia até a ama sentir-se mal e comentar com a arrumadeira que tinha medo de que Deus levasse a menina mais cedo para o Céu.

Mas foi Charles quem morreu e não Laura.

 

2

— Por que não arranja um cachorro para esta menina? — perguntou o Sr. Baldock, amigo e confidente do pai de Laura.

Arthur Franklyn pareceu surpreso com a pergunta, ainda mais, porque estavam discutindo calorosamente as conseqüências da Reforma na política inglesa.

— Que menina? — perguntou, surpreso.

O Sr. Baldock apontou com a cabeça para Laura, que se balançava silenciosamente no parque.

— Ora, para quê? — perguntou o Sr. Franklyn. — Os cachorros só dão trabalho, com as patas eternamente enlameadas em cima dos tapetes e das poltronas.

— Um cachorro — explicou o Sr. Baldock, no tom de conferencista, que conseguia irritar qualquer ouvinte, — possui uma extraordinária capacidade de levantar o ego de um homem. Para um cachorro, o dono é um deus idolatrado, e no atual estado de decadência em que vivemos, não só idolatrado como também amado. Possuir um cachorro faz com que as pessoas se sintam importantes, poderosas.

— Hum — sussurrou o Sr. Franklyn, — e isso é bom?

— Nem sempre — retrucou Baldock — mas eu tenho uma fraqueza na vida! Gosto de ver as pessoas felizes. Gostaria de ver Laura feliz!

— Ela é feliz. E além do mais já tem um gatinho.

— Bah! — exclamou Baldock, — não é a mesma coisa. Se você se desse ao trabalho de pensar um pouco, veria que não é a mesma coisa. É seu mal, você não usa a cabeça para pensar. Veja por exemplo suas teorias sobre a Reforma. Acha que...

Voltaram a discutir com vigor e, como sempre, o Sr. Baldock aproveitou para fazer as declarações mais descabidas, disparatadas e absurdas.

Mas um sentimento um tanto incômodo se apossou da mente de Arthur.

À noite, ao entrar no quarto da mulher, que se vestia para o jantar, ele resolveu abordar o assunto.

— Laura vai bem? Bem disposta, feliz etc... não vai?

A mulher voltou os olhos azuis, da cor dos olhos de Charles, para o marido, espantada.

— Querido! É claro que vai. Laura está sempre bem. Nunca tem ataques histéricos, como outras crianças, não me dá o mínimo trabalho. É uma santa!

Ela fechou o clipe do colar de pérolas, em volta do pescoço.

— Por quê? — perguntou ela, depois de uma ligeira pausa. — Por que esta súbita preocupação com Laura?

— Por causa de Baldy, ele foi quem perguntou — respondeu Franklyn.

— Ora, Baldy! — a Sr. Franklyn sorriu. — Você sabe como ele é! Gosta de agitação...

Uns dias depois, quando acabavam de almoçar e a Sra. Franklyn se retirava da mesa com os convidados, entre eles, o Sr. Baldock, encontraram com a ama no corredor.

— Não há nada de errado com Laura, não é mesmo? — perguntou Angela Franklyn, bem alto e deliberadamente. — Ela anda bem e está muito feliz, não é?

— Sim, senhora — respondeu a ama, espantada com a súbita curiosidade da Sra. Franklyn. — É uma menina de ouro, que não me dá o menor trabalho. Completamente diferente de Charles.

— Ah! Por que Charles lhe dá trabalho? — perguntou o Sr. Baldock.

— É como todos os meninos — respondeu a ama, voltando-se para Baldock, com um tom de deferência na voz. — Mas vai muito bem, também. Daqui a pouco vai para o colégio. Por enquanto comporta-se como todos os meninos da sua idade. Come doces demais, o que lhe prejudica a digestão.

Sorrindo com indulgência a ama se retirou.

— Ela adora Charles — disse Angela Franklyn, enquanto entravam na sala de visitas:

— Isto é óbvio — começou Baldock, — sempre achei as mulheres umas tolas — acrescentou pensativo.

— Mas a ama não é uma tola, antes pelo contrário!

— Eu não estava pensando nela.

— Em quem estava pensando então? — perguntou a Sra. Franklyn com uma rispidez calculada, pois afinal de Baldy, por ser excêntrico e crítico, podia-se esperar qualquer comentário.

— Estava pensando em escrever um livro sobre os segundos filhos — respondeu Baldock.

— É mesmo? Não vai me dizer que é a favor dos filhos únicos? Pensei que todo o mundo fosse contrário a isso, por todos os pontos de vista!

— Não, pelo contrário, vejo até certas vantagens numa família com dez filhos, se souberem educar estas crianças, responsabilizando-as pelas obrigações da casa, pelo cuidado com os irmãos menores etc. Todos como peças na engrenagem familiar, úteis à sociedade, não fingindo ser úteis! Hoje em dia, dividimos as crianças em grupos de idade! A isto chamam educação!

— Você e suas teorias — replicou Angela, sorrindo, — E qual é sua teoria sobre os segundos filhos?

— O problema do segundo filho — respondeu Baldock, em tom didático, — é que é sempre um anticlímax. O primogênito é uma aventura, assustadora, dolorosa, onde a mãe pensa que vai morrer e o marido (como Arthur aqui presente) pensa também que vai ficar viúvo. Quando a criança nasce e começa a gritar, os pais justificam este filho pelo trabalho que ele deu! E aí, às vezes pouco tempo depois, surge o segundo filho... dando todo aquele trabalho... mas causando menos apreensão, menos medo e muito mais aborrecimento! Enfim, chega a criança que também é nossa mas não é mais novidade, e como não deu tanto trabalho não é tão maravilhosa.

Angela deu de ombros.

— Os homens solteiros sabem tudo — murmurou com ironia. — Esta regra se aplica ao terceiro e ao quarto filho?

— Não — respondeu Baldock. — Notei que sempre existe um intervalo maior até a chegada do número três. Este filho é conseqüência da independização crescente dos dois irmãos mais velhos. Seria tão bom termos um bebê novamente! Que idéia! Umas criaturinhas nojentas, orientadas somente pelo instinto! Por isso continuam copulando e tendo filhos, mas nunca mais terão a mesma emoção do primeiro filho.

— O que você diz é muito injusto.

— Eu sei. Mas a própria vida é injusta.

— Que se pode fazer, então?

— Nada.

— Ora, Baldy... então por que estamos aqui discutindo?

— É como eu disse a Arthur outro dia, sou um moleirão. Gosto de ver as pessoas felizes, compensá-las pelo que lhes falta, reparar certas arestas. Por que senão o fizerem poderão ter sérios problemas...