A Carga

Agatha Christie · Capítulo 21 de 25

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A Carga

Capítulo Cinco · A menor idéia... a pergunta de Wilding…

 

1

A menor idéia... a pergunta de Wilding levou Llewellyn ao passado. As primeiras lembranças... Llewellyn quando era criança.

O ar puro das montanhas penetrando em suas narinas, os invernos frios e os verões áridos e quentes. A pequena e fechada comunidade. O pai, um escocês alto e magro, austero, quase bravo; um homem temente a Deus, reto, inteligente, que podia ser justo e inflexível e cujo afeto, embora profundo e sincero, não era facilmente demonstrável. A mãe, galesa de cabelos escuros, com sua vozinha suave que transformava as palavras mais simples em música.

Às vezes, à noite, ela recitava, em galês, um poema que o pai havia composto há muitos anos. Apesar de as crianças só entenderem a língua parcialmente, a música da poesia levava Llewellyn a sensações vagas indizíveis. Era como se tivesse herdado a estranha sabedoria intuitiva da mãe, que não era intelectual como o pai; um conhecimento natural das coisas que escapavam ao frio racionalismo do pai.

Os olhos castanhos da mãe passariam vagarosamente pelos filhos e pousariam sobre Llewellyn, o primogênito, e refletiriam um reconhecimento, uma dúvida, qualquer coisa próxima do medo.

Esse olhar inquietava o menino.

— O que é, mamãe? — perguntava ele, apreensivo. — O que foi que eu fiz?

Ela sorria, e com voz carinhosa responderia:

— Nada, filho. Estou só olhando para você.

E Angus Knox viraria o rosto e olharia primeiro para a mulher e depois para o filho.

A infância fora feliz e normal. Nada de luxo, até um pouco espartana, dada a rigidez dos pais. Todos os filhos tinham tarefas caseiras determinadas, os menores algumas responsabilidades, e todos participavam das atividades da comunidade. Uma vida estreita mas honesta, que Llewellyn aceitava sem questionar.

Mas ele queria estudar e o pai o apoiava por ter o respeito que todo escocês tem pela cultura e a ambição de que o filho mais velho se tornasse alguém mais do que um trabalhador da terra.

— Farei o possível para ajudá-lo, Llewellyn, mas sabe que não conto com muito. Você vai ter que se esforçar muito.

E ele se esforçou. Com a ajuda do professor, conseguiu entrar para a universidade; nas férias trabalhava em hotéis e auditórios e de noite como lavador de pratos.

Com o pai discutia o futuro. Estava indeciso entre a Medicina e a magistratura. Não possuía uma verdadeira vocação, mas estas duas carreiras lhe pareciam as mais interessantes. Finalmente, escolheu a Medicina.

Nestes anos todos, pensou, nenhum sinal de dedicação, de sentimento de uma missão especial? Ele tentou lembrar-se. Sim... hoje em dia, recordando-se, tinha havido algo... que na época ele não compreendera. Uma espécie de medo — se é que pudesse definir assim; atrás da vida rotineira normal, um medo, um temor de algo que não compreendia. Esta sensação tornava--se mais consciente quando estava só. Portanto, refugiou-se mais e mais na vida comunitária.

Nesta época ele começou a tomar conhecimento de Carol, que conhecia desde criança. Juntos foram à escola; ela, com dois anos menos que ele, era uma criança de boa índole, desajeitada, com aparelho nos dentes e uma timidez excessiva. Os pais eram amigos e Carol vivia na casa dos Knox.

No último ano da universidade, Llewellyn voltou para casa e viu Carol com outros olhos. Não tinha mais aparelho nos dentes, nem era mais desajeitada; tinha-se tornado uma bela moça, que os rapazes da cidade passaram a disputar.

Até então, as mulheres não tinham representado um papel preponderante na vida de Llewellyn, que fora um rapaz trabalhador e emocionalmente tímido. De repente, surgiu na sua vida a consciência da masculinidade; começou a preocupar-se com a aparência, a gastar dinheiro demais com roupas e a comprar bombons para Carol. A mãe sorriu e suspirou, como todas as mães, ao ver o aparecimento daqueles conhecidos sintomas! Chegara a hora de perdê-lo para outra mulher; ainda era cedo para pensar em casamento, mas se ele tivesse que se casar, Carol seria a escolha acertada: boa família, bem educada, de ótimo humor e saudável — melhor do que qualquer estranha da cidade que ela não conhecia. “Mas, não é o ideal para o meu filho”, palpitou seu coração de mãe, sorrindo ao perceber que era isto que todas as mães diziam desde que o mundo era mundo. Resolveu falar com Angus sobre o assunto.

— Ainda é cedo — disse o marido. — O menino ainda tem que cavar a vida. Mesmo assim não escolheu mal, ela é boa moça, embora não seja um prodígio de inteligência.

Carol, além de bonita, era popular e divertia-se com isto; tinha namorados, mas deixava bem claro que Llewellyn era o seu favorito. Embora não demonstrasse, sentia-se ligeiramente desconcertada com o ar distraído do rapaz e sua aparente falta de ambição.

— Ora, Lew,você deve ter algum plano para quando se formar...

— É claro que vou arranjar um emprego. Já tive várias ofertas.

— Mas não vai precisar se especializar em alguma matéria?

— Não é necessário.

— Mas, Llewellyn, você não quer progredir na vida?

— Progredir como? — disse ele, brincando.

— Bem... na vida!

— Mas, isto é a vida, não é, Carol? Daqui para lá — disse ele, traçando uma linha com o dedo, na areia. — Nascer, crescer, ir à escola, carreira, casamento, crianças, trabalho, aposentadoria, velhice e morte. Da fronteira de um país para outro.

— Não é disso que estou falando, Lew, e você sabe muito bem. Estou me referindo a progredir, fazer um nome, ganhar dinheiro, ter fama, ser alguém na vida.

— Será que isto faz alguma diferença? — perguntou Llewellyn distraído.

— Acho que sim!

— O que importa é o caminho que percorremos e não para onde ele nos conduz.

— Nunca ouvi falar tanta bobagem. Você não quer ter nome?

— Não sei, creio que não.

De repente, Carol estava longe dele e Llewellyn sentiu-se só e consciente do próprio medo. Um arrepio agudo e forte. “Outra pessoa, não eu!” — quase gritou.

— Lew, Llewellyn — chamou, de longe, timidamente, a voz de Carol, como se estivesse atravessando uma floresta para poder chegar até ele. — O que aconteceu? Você está tão estranho!

Ele voltou para junto de Carol, que o olhava com medo e espanto. Teve consciência da onda de ternura que o invadia em relação a Carol, que chamando-o tinha-o trazido de volta ao mundo. Tomou-lhe a mão.

— Você é tão boa — disse, beijando-a quase timidamente. Ela correspondeu ao beijo.

Posso falar agora, pensou ele, que a amo, que quando estiver empregado podemos ficar noivos. Posso pedir a ela para esperar por mim. Com Carol estarei seguro.

Mas não conseguiu dizer coisa alguma. Sentiu-se quase como se uma mão tivesse pousado no seu peito e o impedisse de falar. Esta realidade também o assustou.

— Um dia, Carol — disse ele, levantando-se. — Preciso conversar com você.

Ela olhou para ele satisfeita e riu. Não tinha pressa em ser pedida em casamento, talvez fosse melhor que as coisas ficassem assim por alguns anos, pois na sua feliz inocência ela se divertia com o cortejo de admiradores; um dia, ela e Llewellyn se casariam; ela, quando o beijou, sentiu o quanto ele a amava. Tinha certeza deste amor.

Quanto à estranha falta de ambição, isto não a preocupava. As mulheres do seu país tinham confiança no poder que exerciam sobre os homens, ajudadas pelas crianças, pois ela e Llewellyn iriam querer o máximo para os filhos e isto daria forças e incentivo para ele trabalhar, produzir e criar.

Quanto a Llewellyn foi para casa perturbado.

Que estranha experiência tivera! Andava com a cabeça cheia de conferências sobre psicologia e tentou analisar-se com pessimismo. Seria uma resistência ao sexo? E por que haveria esta resistência? Durante o jantar, mal comeu, examinando a mãe e se perguntando se não seria vítima de um complexo de Édipo.

Contudo, ele recorreu à mãe, antes de voltar para a universidade .

— A senhora gosta de Carol, não é? — perguntou abruptamente.

Ela sentiu um aperto no coração, diante da pergunta.

— Ela é muito boa, tanto eu como seu pai gostamos muito dela — respondeu a mãe.

— Outro dia, quis falar com ela...

— Que a ama?

— Sim, e que esperasse por mim.

— Não precisa pedir se ela o ama.....

— Mas, não consegui falar... as palavras não vieram.

— Não se preocupe — disse ela, sorrindo. — Os homens não sabem se expressar nestas ocasiões. Lembro-me do seu pai me fuzilando com os olhos como se me odiasse, em vez de me amar, dias a fio, sem conseguir dizer nada mais além de bom dia ou como vai...

— Mas foi muito mais que isso. Era como se uma mãe estivesse me empurrando. Como se fosse... proibido.

Ela sentiu a urgência e a força do problema.

—Talvez ela não seja a mulher ideal para você — disse ela, lentamente, impedindo com um gesto que ele protestasse. — É difícil saber-se quando se é jovem e o sangue é quente. Mas você tem algo, como se fosse um verdadeiro eu, que talvez saiba o que deve ser feito e que o salvará dos impulsos negativos .

Algo em mim, pensou Llewellyn, olhando para a mãe com desespero.

— Mas eu ainda não sei nada sobre mim! — concluiu ele, quase chorando.

 

2

Quando voltou à universidade, Llewellyn ocupou-se inteiramente com os estudos ou com os colegas. O medo desapareceu e ele sentiu-se seguro outra vez. Para se entender melhor leu vários livros sobre a manifestação sexual dos adolescentes.

Formou-se com honrarias, o que lhe deu mais confiança em si mesmo. Voltou para casa decidido em relação ao futuro: pediria Carol em casamento e discutiria com ela as várias oportunidades que lhe foram oferecidas.

Sentiu-se aliviado em relação ao futuro, pois à sua frente o caminho se descortinava numa seqüência lógica: um bom trabalho para o qual se sentia competente e uma moça que amava e que seria a mãe dos seus filhos.

Ao voltar para casa passou a aceitar todos os convites para festas. Saía em grupo, mas sempre com Carol, e todos aceitavam o par como um casal de noivos. Raramente ficava só e à noite sonhava com Carol, sonhos eróticos, o que não o desagradava. Tudo corria normalmente, como era de se esperar .

Seguro desta sua nova vida, Llewellyn espantou-se quando o pai perguntou, um dia:

— O que há, filho?

— Como? — perguntou, surpreso.

— Você não está bem.

— Como assim? Nunca me senti melhor!

— Fisicamente, talvez...

Llewellyn olhou espantado para o pai. O velho, altivo, de olhos brilhantes, balançou a cabeça lentamente.

— Há ocasiões — disse ele — em que um homem precisa ficar sozinho.

Calou-se e saiu, enquanto Llewellyn foi novamente invadido pela onda de medo. Não queria ficar sozinho, era insuportável ficar sozinho.

Três dias mais tarde, ele procurou o pai.

— Vou acampar nas montanhas. Sozinho.

— Sim — disse o pai, com um olhar místico, olhando para o filho com compreensão.

Herdei alguma coisa dele, pensou Llewellyn, alguma coisa que ele conhece e que eu preciso descobrir.

 

3

Ele ficou só no deserto por quase três semanas. Estranhas coisas começaram a lhe acontecer. Logo, porém, ele descobriu que podia tolerar a solidão e se perguntou por que lutara tanto contra esta idéia.

Para começar, pensou muito em si mesmo, no futuro e em Carol. Tudo se desenrolou com muita clareza e lógica e não levou muito tempo para que ele percebesse que estava encarando a vida “por fora”, como um espectador e não como um participante, por que sua existência esquemática não era verdadeira. Podia ser lógica e coerente, mas na realidade não existia; amava Carol, desejava-a, mas não casaria com ela, pois tinha outra tarefa a cumprir, embora ainda não soubesse qual. Ao perceber isto, veio uma outra fase — uma fase que ele poderia descrever como oca, um grande vácuo sonoro! Não era nada, e não continha alguma. Não tinha mais medo, pois aceitando o vazio ele expulsara este sentimento.

Durante essa fase, ele quase não bebeu ou comeu; às vezes sentia a cabeça leve como uma pluma. Como uma miragem desfilavam à sua frente cenas e pessoas.

Uma ou duas vezes, viu um rosto muito claramente. Um rosto de mulher que o inquietou muito: um rosto frágil, de bela ossatura, grande testa e cabelos negros despontando da testa, olhos profundos e trágicos. Atrás dela, um fundo de chamas. Numa outra vez, um esboço de igreja, embora pudesse perceber que ela era uma criança. Durante essas duas aparições, ele teve consciência do profundo sofrimento dessa criatura.

Se. ao menos eu pudesse ajudar, pensou, embora tivesse consciência de que não adiantava ajudar, pois isto seria errado e falso.

Numa outra visão, Llewellyn viu uma enorme escrivaninha feita de madeira clara e brilhante, e um homem de queixo forte e profundos olhos azuis, que se debruçou sobre a mesa como se fosse falar e, para dar ênfase às palavras, pegou uma pequena régua e gesticulou com ela.

Numa outra ocasião, viu um canto de sala, num estranho ângulo. Havia uma janela e, por ela, viu um pinheiro coberto de neve. Entre ele e a janela, um rosto estranho examinava-o; era um homem corado, de óculos, mas antes que Llewellyn pudesse vê-lo bem, a visão desapareceu.

Todas estas visões, pensou Llewellyn, devem ser fragmentos da minha imaginação. Tinham tão pouco nexo ou significado e eram rostos e lugares desconhecidos. Em seguida suas visões não foram mais figurativas. O vazio que ele conscientizou não era mais total e absoluto, pois passou a ter sentido e propósito. Llewellyn não vagava a esmo e sim incorporava o vazio dentro de si mesmo. Percebeu que estava esperando alguma coisa.

A tempestade de vento veio de repente — uma destas tormentas inesperadas que descem das montanhas. Veio rodopiando e gritando em nuvens vermelhas de pó como se fosse uma entidade e desapareceu tão repentinamente quanto tinha vindo.

O silêncio que se seguiu era quase palpável.

Todo o equipamento de Llewellyn tinha sido varrido pelo vento e ao longe ele via a aba de sua barraca, acenando furiosamente no fundo do vale. Estava sem nada, só no mundo, em paz como se tivesse nascido naquele momento.

Sabia agora que o que ele esperara sempre estava para acontecer. Sentiu medo outra vez, não aquele pavor antigo, que tinha sido apenas uma forma de resistência. Desta vez, estava preparado para aceitar — havia dentro dele um vazio, um despojamento que o tornava capaz de receber uma Presença. Sentia medo porque, com humildade, percebia como era pequeno e insignificante.

Não foi fácil explicar a Wilding o que aconteceu em seguida.

— Pois não há palavras para descrever. Mas, estou certo do que senti... uma espécie de reconhecimento de Deus. Posso expressar melhor, comparando o que um cego sente em relação ao sol, baseado num conhecimento intelectual e pelo calor que sente em seu corpo. De repente, ele abre os olhos e vê o céu!

— Eu acreditava em Deus, mas naquele momento tive certeza. Era um conhecimento direto, inexplicável. É uma experiência terrível. Pude perceber também porque quando Deus se aproxima do homem o faz encarnado num Corpo Humano.

— Mais tarde, só durou alguns segundos, voltei para casa a pé. Levei uns dois ou três dias e eu estava exausto quando cheguei.

Llewellyn calou-se por um momento.

— Minha mãe estava muito preocupada comigo! Não podia perceber o que me acontecera. Meu pai, eu penso, tinha uma idéia. Sabia, pelo menos, que eu passara por uma grande experiência espiritual. Eu disse à minha mãe que tivera estranhas visões, ao que ela respondeu: “eles têm este dom na família do seu pai. A avó dele e uma irmã também sentiram isto”...

— Depois de uns dias de descanso e boa alimentação senti-me forte outra vez. Quando as pessoas falavam no meu futuro, eu ficava quieto. Sabia que não tinha mais com que me preocupar, bastava aceitar — e já não havia outro jeito — embora eu ainda não pudesse definir em que consistia esta aceitação.

— Uma semana depois houve uma grande missa na redondeza. Minha mãe queria ir e meu pai concordou, embora não estivesse muito interessado. Fui com eles...

Llewellyn sorriu para Wilding.

— Era um espetáculo cru, um tanto melodramático, que não me comoveu e até me desapontou um pouco. Várias pessoas levantaram-se para testemunhar em público e então senti um comando dentro de mim. Levantei-me e lembro-me bem dos rostos olhando para mim.

— Não sabia o que iria dizer... não pensei, também não expus minhas crenças. As palavras saíram colocadas na minha cabeça e às vezes pareciam se atropelar na pressa que tinham de sair. Tive que correr para alcançá-las com medo de as perder. Não posso descrever o que senti... mas se eu dissesse que era como uma labareda e como um mel, ao mesmo tempo, o senhor entenderia? A chama me queimava, mas o doce me acalmava; era a doçura e o fogo da obediência. Ser um mensageiro de Deus é uma experiência terrível e maravilhosa ao mesmo tempo.

— Terrível como um exército com bandeiras — disse Wilding.

— Sim, o pastor sabia do que estava falando.

— E depois?

Llewellyn Knox abriu os braços.

— Exaustão, completa exaustão. Devo ter falado uns três quartos de hora. Quando cheguei em casa, sentei-me ao lado do fogo, tremendo, tão cansado que não podia me mover. Minha mãe compreendeu. É como meu pai ficava, depois da Semana Santa, disse ela. Mais tarde me serviu um prato de sopa e colocou garrafas de água quente na minha cama.

— O senhor possuía a herança necessária — disse Wilding. — O lado místico escocês e a criatividade e a poesia galesas. O dom da palavra, também. Aliás, o que o senhor descreveu não podia ser mais criativo: o medo, a frustração, o vazio e de repente a torrente de poder e, em seguida, o cansaço.

— Quer prosseguir? — perguntou Wilding, depois de uma ligeira pausa.

— Não há muito mais que contar. Fui ver Carol, no dia seguinte, e contei que não iria mais ser médico e sim pregador, que eu até então esperava poder casar com ela, mas que agora isto seria impossível. Ela não compreendeu. Um médico pode praticar o bem tanto quanto um pastor, disse-me ela. Eu respondi que não se tratava de praticar o bem... eu estava apenas obedecendo uma ordem. Carol achou tolice não nos casarmos, afinal eu não era católico romano, era?

— Tudo que sou — respondi — emana de Deus. Mas, é claro, ela não podia compreender. Não eram palavras do seu vocabulário. Fui para casa, falei com minha mãe, pedi que fosse boa com Carol e que procurasse entender a situação.

— Entendo muito bem — disse ela. — Você não tem mais nada para oferecer a uma mulher.

Em seguida começou a chorar.

— Eu sabia, sempre soube que havia alguma coisa — continuou ela. — Acredite, é bem duro para as mulheres e para as mãe! Se eu o perdesse para uma outra mulher, seria como a vida é! Eu teria a compensação de segurar seus filhos no meu colo. Mas, desta maneira, eu o perco inteiramente.

Assegurei-lhe que não era verdade, mas sabíamos que no fundo ela estava com a razão. Os laços humanos seriam partidos .

Wilding mexeu-se com impaciência.

— Desculpe mas não posso aceitar isso como uma maneira de viver. Existe o amor, a simpatia, o calor humano...

— Não estou me referindo a esta forma de vida! Estou falando de um homem escolhido, um homem que não é comum — e que é menor do que os outros — tão menor que não pode jamais esquecer esta condição.

— Não posso entender.

Llewellyn falou baixo, como se estivesse sozinho.

— É este o perigo, quando a gente se esquece. Agora, percebo que Deus teve pena de mim e me salvou em tempo.

Capítulo Seis

 

1

Wilding espantou-se com as palavras de Llewellyn.

— Foi muita bondade sua me contar tudo — disse Richard, um pouco embaraçado. — Por favor, acredite que não quis saber sua história por mera bisbilhotice.

— Sei disso. O senhor é um homem que se interessa pelas pessoas.

— E o senhor é um homem raro. Já li nos jornais muitas histórias a seu respeito, mas não era isso que eu desejava saber, pois são detalhes factuais.

Llewellyn concordou, pensando ainda no passado.

Lembrou-se de quando foi levado para o 34.° andar de um prédio e foi recebido por uma recepcionista loura e por um rapaz forte que o conduziu até o escritório do poderoso magnata. Reviu a escrivaninha brilhante, o homem que se levantou para recebê-lo, oferecendo-lhe a mão. O mesmo queixo forte e decidido, os pequenos olhos azuis penetrantes. Exatamente a mesma figura daquela visão do deserto.

— ... muito prazer em conhecê-lo, Dr. Knox. Como vê o país está pronto para receber Deus de volta... precisamos promover isto em grande estilo... e para tanto precisamos investir dinheiro... já estive em duas das suas reuniões... e fiquei impressionado... o senhor segura a platéia na palma da mão... maravilhoso... maravilhoso...

Deus e os grandes negócios. Seria uma incongruência? Mas, por que não? Se o poder de negociar era um dom de Deus dado ao homem, por que não empregá-lo ao Seu serviço?

Llewellyn não teve dúvidas ou incertezas, pois este homem e esta sala já haviam aparecido antes. Faziam parte do seu destino. Haveria sinceridade naquele homem, uma sinceridade crua que mais se assemelhava aos desenhos de uma caverna pré-histórica? Ou seria apenas um oportunismo comerciai grosseiro? O reconhecimento de uma situação em que se poderia aproveitar de Deus?

Llewellyn não soube e nem se preocupou em descobrir. Fazia parte do seu destino ser apenas um mensageiro, nada mais, um homem nascido para obedecer.

Quinze anos... começara em barracas, depois salas de aula, salas de conferência, auditórios e agora estádios. Rostos... uma massa gigantesca de rosto colocados à distância em filas. Esperando... ansiando...

E ele? Sempre o mesmo.

O frio, a volta do medo, o vazio, a espera. E então o Dr. Llewellyn Knox se levantava e... as palavras vinham, como torrentes, saindo dos seus lábios. Não suas palavras, nunca suas palavras, mas a glória, o êxtase de dizê-las como se fossem suas.

(Era nisto que estava o perigo. Estranho que até nunca se dera conta.)

E depois o debacle, as mulheres histéricas, os homens generosos, a sensação de semicolapso, de intensa náusea, de hospitalidade exagerada, de adulação e de histeria.

E ele, respondendo como podia, não mais um mensageiro de Deus, mas um ser humano, menor ainda do que os que o olhavam com tanta adoração.

Pois ele perdera a pureza, tinha sido esvaziado de tudo que confere dignidade ao homem, e se tornara uma criatura exausta, cheia de desespero, de dúvidas negras e sem esperança.

— Pobre Dr. Knox — diziam, — está com um ar tão cansado...

Cansado... muito mais do que cansado...

Llewellyn tinha sido saudável, mas não tão forte que pudesse agüentar estes últimos quinze anos. A náusea, a tontura, a taquicardia, a dificuldade de respirar, os desmaios tinham minado seu corpo combalido.

Foi para um sanatório nas montanhas: deitado, imóvel, olhando pela janela para a sombra recortada de um pinheiro, enquanto um médico vermelho e gordo o examinava.

— Vai levar muito tempo, o senhor terá que ter muita paciência .

— Sim, doutor.

— Graças a Deus o senhor é bastante forte, mas abusou demais. Coração, pulmão, todos os órgãos estão afetados.

— O senhor está tentando me dizer que vou morrer? — perguntou Llewellyn, quase sem curiosidade.

— Claro que não; vai ficar bom novamente, mas como já disse, vai demorar muito tempo. Garanto que sairá daqui novo em folha. Só que...

O médico hesitou.

— Só que o quê?

— O senhor precisa compreender, Dr. Knox, que vai ter que levar uma vida calma no futuro. Terá que se afastar da vida pública... nada de plataforma, discursos, rezas...

— Depois do descanso...

— Não, Dr. Knox, não importa quanto tempo descanse, minha opinião é esta.

— Percebo. Estou esgotado.

— Isto mesmo.

Esgotado. Usado por Deus para Seu propósito mas como o instrumento era humano e frágil não podia durar muito. Sua utilidade acabara. Esgotado, descartado, pronto para ser jogado fora.

E agora?

Eis a questão. E agora?

Pois afinal quem era Llewellyn Knox?

Era o que ele teria que descobrir.

 

2

— Posso perguntar quais são seus planos? — disse Wilding, tentando ler os pensamentos de Llewellyn.

— Não tenho planos.

— É mesmo? Talvez espere poder voltar...

— Não há possibilidade — interrompeu Llewellyn, agressivo.

— Talvez um outro tipo de atividade correlata?

— Não... está tudo acabado. É assim que tem que ser.

— Eles disseram isto?

— Não, claramente. A vida pública está encerrada, foi o que os médicos enfatizaram. Não posso mais subir a uma plataforma. Isto significa o fim.

— Talvez uma vida calma em algum lugar? Sei que não é sua vocação, mas quem sabe alguma igreja?

— Eu era evangelista, Sir Richard. É uma coisa bem diferente.

— Desculpe, acho que entendo. O senhor vai ter que começar outra vida.

— Sim, uma vida particular, como qualquer homem.

— E isto o assusta e o confunde?

Llewellyn discordou com a cabeça.

— Absolutamente, percebi isto nestas últimas semanas em que estive aqui. A verdade é que escapei de um grande perigo.

— Que perigo?

— Não se deve dar poder a um homem. Apodrece o indivíduo, corrói o ser humano por dentro. Quanto tempo eu poderia continuar naquela vida, sem acabar me pervertendo? Na verdade creio que já fui maculado, principalmente naqueles momentos em que falei com a multidão — será que eu não estaria imaginando que era eu quem falava, eu quem estava trazendo a mensagem? Eu que saberia o que eles deviam ou não deviam fazer, eu que não era mais o mensageiro de Deus, mas seu legítimo representante? Isto mesmo, promovido a vizir, exaltado, um homem superior aos demais! Deus, na sua infinita sabedoria, decidiu me salvar em tempo.

— Quer dizer que sua fé não diminuiu com o que lhe aconteceu?

Llewellyn riu.

— Fé? Me parece uma estranha palavra. Nós acreditamos no sol, na lua, na cadeira em que sentamos, no chão em que pisamos? Se temos conhecimento por que precisamos acreditar? Tire da cabeça, por favor, a idéia de que eu sofri uma tragédia. Não foi isto o que aconteceu. O que se passou é que eu segui meu destino — e ainda o estou seguindo Foi certo eu ter vindo para esta ilha e sei que irei embora quando chegar o momento.

— O senhor acha que receberá outro... como foi que o senhor disse... outro comando?

— Oh! Não, nada tão definitivo. Mas aos poucos aparecerá um caminho que será não só convidativo como inevitável. E eu o Seguirei. Minha mente ficará clara, eu saberei que terei que ir e o que terei que fazer.

— É tão fácil assim?

— Penso que sim. Para explicar melhor, creio que é uma questão de harmonia. Quando se toma um caminho errado, não quero me referir a errado no sentido de mal, mas sim de engano, sabe-se logo. É como errar o compasso quando se dança ou cantar fora do tom. — Como se tivesse lembrado de alguma coisa acrescentou: — Se eu fosse mulher diria que é como dar um ponto errado no tricô.

— E o que me diz das mulheres? Será que vai voltar para casa? Reencontrar o antigo amor?

— Um final feliz? Não creio. Além do mais — disse Llewellyn, sorrindo, — Carol já está casada, há muitos anos, tem três filhos e o marido vai muito bem, fazendo corretagem em grande escala. Carol e eu não fomos feitos um para o outro, éramos apenas duas crianças brincando com o amor.

— Não apareceu outra mulher em sua vida?

— Graças a Deus, não. Se tivesse e se eu encontrasse...

Llewellyn calou-se, o que surpreendeu Wilding, pois este não conhecia a visão que o pastor tinha tido da mulher de cabelos negros, de testa larga e olhos trágicos. Um dia, Llewellyn sabia que a encontraria, pois ela era tão real quanto o escritório do magnata e o sanatório. Ela era uma realidade. Se ele a tivesse encontrado antes, teria sido obrigado a abandoná-la, pois trabalhava a serviço de Deus. A mulher de cabelos negros não era Carol, não fazia parte de um namoro primaveril, nem de uma excitação da juventude. Porém, não foi obrigado a mais este sacrifício... e agora, que estava livre, quando a encontrasse... pois ele não tinha dúvida de que a encontraria, embora não soubesse em que circunstâncias, em que lugar, em que momento — isto ainda era um mistério.

Uma lápide em frente a uma igreja, labaredas de fogo eram os únicos indícios que possuía, apesar de sentir que estava se aproximando do momento de encontrá-la.

A porta da biblioteca se abriu com violência, o que os espantou. Wilding virou a cabeça e levantou-se.

— Querida, eu não sabia...

Ela não estava de xale ou de preto. Usava um leve vestido de malva claro, o que fez Llewellyn lembrar-se do aroma de lavanda. A mulher parou no meio da sala quando o viu e encarou Llewellyn com um olhar tão estranho e esgazeado, tão despojado de emoção ou reconhecimento, que o médico sentiu-se chocado.

— Meu amor, está melhor da dor de cabeça? Este é o Dr. Knox, minha esposa.

Llewellyn aproximou-se, apertou a frágil mão e disse formalmente:

— Muito prazer em conhecê-la, Lady Wilding.

O olhar humanizou-se e pareceu aliviar-se. Ela sentou-se numa cadeira que Wilding trouxe para perto e começou a falar com certa irritação.

— O senhor é o Dr. Knox? Já li muito a seu respeito. Estranho ter vindo para cá... por que veio? Isto é, o que o fez vir? Não é um lugar tão procurado, não é mesmo Richard? — Virou o rosto para o marido e sem esperar resposta, prosseguiu: — As pessoas geralmente não ficam aqui... vêm e voltam, em seguida. E para onde vão? Não sei. Compram frutas, bonecas de pano, chapéus de palha, voltam para o navio e desaparecem. Para onde será que vão? Manchester? Liverpool? Chichester? Talvez para visitar a catedral, usando o chapéu de palha. O que seria engraçado, não é mesmo? As pessoas dizem: “não sei se estou indo ou vindo”. Era o que dizia minha velha babá. E é verdade. É a vida. Será que a gente está indo ou vindo? Não sei.

Ela sacudiu a cabeça e riu. Ao sentar-se, pareceu que ia cair. Llewellyn pensou: “daqui a pouco ela vai desmaiar. Será que ele sabe?”

Mas, ao olhar para Wilding, Llewellyn percebeu que o marido, apesar de ser um homem experiente, não percebia coisa alguma, preocupado que estava apenas em amar e idolatrar a mulher.

— Querida — disse Wilding —, você está febril, não devia ter se levantado.

— Sinto-me melhor, depois daquela batelada de pílulas. Acabou com a dor mas me deixou embriagada — disse ela, com um riso inseguro, empurrando os cabelos para trás, com as mãos brancas e frágeis. — Não se preocupe tanto comigo, Richard. Sirva um drinque ao Dr. Knox.

— E você? Quer um pouco de brandy? Talvez a reanime...

Ela fez uma careta.

— Não, só um pouco de limonada com soda — respondeu agradecendo ao marido com um sorriso.

— Se for por causa de bebida você nunca morrerá — disse Richard aereamente.

— Quem sabe? — respondeu ela, com um sorriso que parecia petrificado em seus lábios.

— Eu sei. Dr. Knox quer algo? Um refrigerante, ou um uísque?

— Um brandy com soda, por favor.

— Podíamos partir — disse ela, de repente. — Vamos partir, Richard?

— Para onde? Fora daqui?

— Sim, exatamente.

Wilding serviu-se de uísque e pôs-se atrás da esposa.

— Vamos para onde você quiser, meu bem. Pode escolher o lugar. Podemos até ir hoje à noite.

Ela deu um longo e profundo suspiro.

— Você é tão bom para mim. É claro que não quero sair daqui. De qualquer maneira, como seria possível? Você precisa administrar a propriedade, que, afinal, depois de tantos anos, pela primeira vez está dando lucro.

— Mas isto não tem importância. Você é mais importante.

— Talvez eu faça uma viagem, sozinha...

— Não, devemos ir juntos. Quero que você se sinta protegida, que saiba que existe alguém ao seu lado que se preocupa com você...

— Acha que eu preciso de um guardião? — perguntou ela, rindo quase sem se controlar e pondo a mão na boca.

— Quero que saiba que estou sempre ao seu lado — disse Wilding;

— Mas eu sei disso, sei disso muito bem.

— Vamos para a Itália ou para a Inglaterra, se você quiser. Talvez esteja com saudades da Inglaterra.

— Não, não iremos a lugar algum. Ficaremos aqui — disse ela. — Não faz diferença alguma viajar.

Ela pareceu afundar um pouco na cadeira. Olhou, em seguida, o horizonte com tristeza. De repente, virou-se para Wilding, que a observava atônito.

— Querido Richard — disse ela —, você é tão bom para mim, tão paciente!

— Contanto que você compreenda que nada mais tem importância para mim a não ser você — disse Richard baixinho.

— Eu sei... ora, como eu sei...

— Eu esperava que você fosse feliz aqui, mas vejo... que existem poucas distrações...

— Temos o Dr. Knox — disse ela, virando o rosto para o convidado, com um sorriso inesperado e matreiro.

Que criatura maravilhosa ela poderia ser, pensou Llewellyn.

— Quanto à ilha — disse ela —, é um paraíso na terra. Foi o que você me disse um dia e eu, hoje, sei que é verdade. Um verdadeiro paraíso terrestre.

— Ah!

— Mas eu não posso suportar isso. Não acha, Dr. Knox, que é necessário um caráter forte para poder suportar um paraíso? Como os povos primitivos, abençoados, sentados em volta de uma clareira, usando coroas... eu sempre pensei que deviam ser pesadas coroas.. atirando as coroas de ouro num mar espelhado, isto é uma frase de um hino, não é? Talvez Deus deixasse que eles atirassem as coroas por causa do peso... pois é muito incômodo usar uma coroa o tempo todo. Tudo que é demais não presta. Acho — ela levantou-se, tropeçando um pouco — que vou voltar para a cama... creio que você tem razão, Richard, talvez eu esteja febril. Mas as coroas pesam tanto! Estar aqui é como realizar um sonho, só que não vivo mais num sonho. Tenho que ir para algum lugar, só não sei para onde. Se ao menos...

Ela caiu e Llewellyn, que esperava por isto a qualquer minuto, segurou-a, entregando-a, em seguida, ao marido.

— É melhor colocá-la na cama — aconselhou o médico.

— Sim, sim. Em seguida vou chamar o médico.

— Não é preciso. Ela agora vai dormir.

Wilding olhou desconfiado para Llewellyn.

Os dois levaram a moça desmaiada para a cama. Uma porta da biblioteca levava, por um estreito corredor, até o quarto. Deitaram-na num enorme leito de madeira talhada, com um docel de brocado. Wilding foi até o corredor.

— Maria... Maria...

Llewellyn deu uma rápida olhada pelo quarto. Foi até o banheiro, examinou o armário e voltou para o quarto.

Wilding continuava chamando pela criada, impacientemente.

Llewellyn dirigiu-se à mesa de cabeceira. Wilding entrou, em seguida, com uma mulher baixa e morena que, ao ver a moça, deu um grito de exclamação.

— Cuide dela — disse Wilding. — Enquanto isto eu chamo um médico.

— Não é preciso, señor, eu sei o que fazer. Amanhã de manhã ela estará boa.

Com certa relutância, Wilding retirou-se, seguido por Llewellyn, que parou um instante no umbral da porta.

— Onde é que ela guarda?

A mulher olhou para ele, piscando os olhos nervosamente. Quase sem querer ela olhou para um quadro, uma paisagem pendurada na porta, em estilo Corot. Llewellyn levantou o quadro e deparou com um cofre antigo, desses em que as mulheres guardavam as jóias no século passado, e que hoje em dia não oferecem a menor segurança contra ladrões. Abriu a fechadura, balançou a cabeça e fechou o cofre.

Seus olhos se encontram com os de Maria.

Llewellyn voltou para a sala. Wilding desligava o telefone.

— O médico saiu, deve ter ido para fora.

— Acho — disse Llewellyn, cuidadosamente — que Maria sabe o que fazer. Já tratou de Lady Wilding em ocasiões semelhantes.

— Sim... talvez tenha razão. Ela gosta muito da minha mulher.

— Eu sei.

— Todos aliás gostam dela. É uma mulher que inspira amor... amor e vontade de protegê-la. O povo daqui tem uma propensão para o belo... principalmente quando a beleza corre perigo.

— E ao mesmo tempo são mais realistas que os anglo-saxões.

— Talvez.

— Não se escondem da verdade.

— E nós, nos escondemos?

— Freqüentemente. O quarto de sua mulher é belíssimo. Estranho que não cheire a perfume, como o quarto de outras mulheres. Só senti um leve odor de água-de-colônia e lavanda.

Richard concordou com a cabeça.

— É verdade. Acabei por associar lavanda com Shirley. Lembra-me a infância, o cheiro de lavanda na penteadeira de minha mãe. O linho branco, os saquinhos de lavanda que ela fazia para conservar a roupa com o frescor da primavera. É uma tradição camponesa.

Richard suspirou e viu que o hóspede olhava para ele sem entender.

— Preciso ir embora — disse Llewellyn.