A Carga

Agatha Christie · Capítulo 19 de 25

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A Carga

parte III

 

 

LLEWELLYN - 1956

Capítulo Um

 

1

Llewellyn Knox abriu as venezianas do quarto do hotel e deixou o perfume da noite penetrar no ambiente. Embaixo, as luzes da cidade piscavam e ao fundo do horizonte refulgiam as luzes do porto.

Pela primeira vez, em muitas semanas, Llewellyn sentiu-se calmo e em paz. Aqui, talvez, na ilha, ele pudesse parar, avaliar sua situação e seu futuro, cujo destino parecia claro, em linhas gerais, mas confuso em certos detalhes. Ele ultrapassara a agonia, o vazio e o cansaço. Daqui a pouco, bem pouco, recomeçaria uma vida nova; uma vida mais simples, menos requisitante, uma vida comum — com apenas uma desvantagem: estava com quarenta anos.

Voltou-se para o quarto, limpo, decorado com severidade, lavou o rosto e as mãos, tirou algumas roupas da mala e desceu os dois lances de escada que conduziam ao hall. Um porteiro, atrás do balcão, escrevia. Ao ver Llewellyn, levantou os olhos, observou o hóspede, sem curiosidade, e sem maior interesse voltou ao trabalho.

Llewellyn empurrou as portas de correr e ganhou a rua. O ar da noite estava suave e ligeiramente úmido, sem aquele langor exótico dos tópicos. O calor era suficiente para relaxar a tensão. O ritmo acelerado da civilização ficara para trás. Naquela ilha era como se voltássemos para um outro século, numa época em que as pessoas trabalhavam devagar, com calma, sem tensões ou correrias. Ele sabia que encontraria pobreza, dor e as agruras da carne; mas não teria os nervos à flor da pele, a pressa febril, o medo do amanhã, enfim os males constantes dos grandes centros civilizados. Nada de rostos duros de mulheres de negócios, ou mães inescrupulosas que lançavam os filhos em carreiras loucas ou negociantes que lutavam para sobreviver e salvar os seus, enfim, nada dos rostos ansiosos e cansados da multidão que lutava para manter ou melhorar a existência — nada disso na fisionomia das pessoas que passavam pela rua.

Naquele lugar as pessoas olhavam para ele com simpatia, reconhecendo sem temor um estrangeiro, e voltavam, em seguida, a se ocupar de suas vidas; andavam devagar, sem pressa; talvez estivessem tomando ar ou mesmo que estivessem ocupados em algum trabalho não pareciam tensos: o que não podia ser feito hoje ficaria para amanhã; os amigos que esperaram ontem poderiam esperar um pouco mais, sem preocupação.

Gente séria e educada, pensou Llewellyn, que raramente sorria, não porque fosse triste, mas porque para sorrir é preciso achar graça nas coisas. Desta vez, o sorriso não era uma arma social e sim uma satisfação íntima.

Uma mulher, com uma criança no colo, choramingou algo com o braço estendido. Apesar de não ter entendido uma palavra sequer, ele reconheceu o velho expediente dos pedintes. Colocou uma moeda na mão da mendiga, ouviu o agradecimento mecânico e viu-a seguir seu caminho. O bebê dormia, parecia bem alimentado e a mãe, apesar de envelhecida, não parecia desesperada ou abatida. Talvez, pensou ele, não tivesse necessidade de esmolar, estava somente desempenhando sua profissão de uma maneira maquinai, educada e com bastante êxito para prover comida e abrigo para o filho.

Ele virou na esquina e entrou por uma rua tortuosa que levava ao porto. Duas moças passaram por ele, sorrindo e falando, e embora não tenham olhado para trás era óbvio que estavam sendo seguidas por quatro rapazes que caminhavam por perto.

Llewellyn sorriu novamente; esta devia ser a maneira de namorar da ilha. As moças eram lindas, morenas, de uma beleza que não sobreviveria dez anos, quando então, pareciam uma senhora disforme e gorda que subia uma ladeira amparada pelo sorridente marido.

Llewellyn desceu pela ruela e saiu no porto, repleto de cafés com grandes terraços, onde as pessoas bebiam líquidos coloridos e gelados. Verdadeiras hordas passavam em frente dos cafés, observando Llewellyn como uma novidade, mas sem maior interesse.

O povo estava acostumado com turistas. Os navios aportavam, os estrangeiros desciam para passar algumas horas, às vezes para ficar, geralmente não muito tempo, pois os hotéis eram medíocres e as instalações sanitárias péssimas. Os turistas, pareciam dizer com o olhar, não os interessavam muito, eram de fora e não tinham coisa alguma que ver com a vida da ilha.

Sem sentir, Llewellyn diminuiu o passo. Estivera, até então, andando como uma pessoa que não se coadunava com o lugar, com a pressa de um homem que tinha uma missão a cumprir, ansioso por chegar ao encontro o mais depressa possível .

Mas já não havia mais um lugar certo para ir. Isto era uma verdade tanto espiritual quanto física. Ele era apenas um homem imerso na multidão. Com este pensamento veio-lhe a consciência feliz e segura de irmandade que ele vinha sentindo mais nos últimos áridos meses perdidos. Era quase impossível descrever esta sensação de proximidade, de sentimento com a raça humana, um sentimento que não tinha uma meta, um propósito e que não se ligava, de forma alguma, com a benemerência. Era a consciência pura do amor e da amizade que não dava coisa alguma, não exigia coisa alguma e não desejava beneficiar ou se beneficiar desta sensação. Poderia se descrever como um momento de amor que açambarcasse uma total compreensão, que era totalmente satisfatório e que por sua própria força inerente não poderia perdurar.

Quantas vezes, pensou Llewellyn, tinha ouvido estas palavras: “tua bondade amorosa para nós e para todos os homens”...

Os homens podiam ter este sentimento embora ele não perdurasse.

De repente, sentiu que havia uma compensação, uma promessa de futuro que ele não havia compreendido. Por mais de quinze anos vivera apartado de tudo... principalmente do sentimento de irmandade. Era um homem à parte, dedicado ao trabalho. Mas, agora, agora que a glória e a exaustão agonizante tinham acabado, poderia novamente sentir-se um homem entre os homens. Não precisava mais servir — bastava viver.

Llewellyn virou-se e sentou numa das meses do café. Escolheu uma mesa dos fundos, encostada à parede, onde podia ver as outras mesas, as pessoas andando na rua e mais além as luzes do porto e os navios ancorados.

O garçom que trouxe a bebida perguntou numa voz gentil e musical:

— O senhor é americano?

— Sim.

Um leve sorriso cortou o rosto sério do moço.

— Temos jornais americanos aqui. Vou buscá-los.

Llewellyn controlou-se para impedi-lo. O garçom já havia saído e voltou orgulhoso com duas revistas americanas.

— Obrigado.

— De nada, señor.

Eram revistas de dois anos atrás, o que agradou muito Llewellyn. pois enfatizavam ainda mais a diferença entre a ilha e a civilização moderna. Naquele lugar pelo menos não seria reconhecido.

Fechou os olhos uns instantes e recordou os vários incidentes dos últimos meses:

— O senhor não é... pensei reconhecê-lo. . .

— Diga-me, não é o Dr. Knox?

— O senhor é Llewellyn Knox, não é? Gostaria de dizer como fiquei sentido quando soube...

— Eu sabia que devia ser o senhor. Quais são seus planos, Dr. Knox? Sua doença foi terrível... ouvi dizer que está escrevendo um livro. Espero que sim. Vai trazer alguma mensagem nova?

E assim por diante. Nos navios, nos aeroportos, nos hotéis caras ou baratos, nos restaurantes, nos trens. Reconhecido, questionado, sentindo a piedade dos outros — principalmente das mulheres, com o olhar como se fossem cães de guarda... As mulheres com aquela infinita capacidade de idolatrar...

E a imprensa naturalmente. Pois mesmo atualmente ele ainda era notícia. (Graças a Deus não o seria por muito tempo). As perguntas cruéis e duras: — Quais são seus planos? O senhor acha que agora que...? Posso dizer aos meus leitores que o senhor tem fé? Poderia nos dar alguma mensagem?

Mensagem, mensagem, sempre uma mensagem! Para os leitores de um jornal, de uma revista, para os pais, para as mulheres e os homens...

Mas, ele não tinha mensagem alguma para transmitir. Tinha sido um mensageiro, isto sim, o que era uma outra coisa. Mas isto ninguém parecia compreender. Descansar era o que ele precisava. Descansar e ter tempo para avaliar-se e pensar no que fazer. Tempo para meditar, para recomeçar aos quarenta anos e viver enfim sua vida. Precisava descobrir o que lhe acontecera, a ele, Llewellyn Knox, o homem, durante os quinze anos que trabalhara como mensageiro.

Bebericando um licor colorido, olhando as pessoas, as luzes, o porto, ele pensou que aquele seria o lugar ideal para se descobrir. Não desejava a solidão do deserto, queria a proximidade com as pessoas, pois por natureza não era um recluso, nem ateu. Não tinha também vocação para a vida monástica... só precisava descobrir o que e quem era Llewellyn Knox.

Quando chegasse a uma conclusão poderia recomeçar a vida novamente.

Tudo, no fim, se resumia às três perguntas de Kant:

O que sei?

Que posso desejar?

Que devo fazer?

Das três, ele só podia responder apenas a segunda.

O garçom voltou e parou perto da mesa.

— Boas revistas? — perguntou, feliz. Llewelly sorriu.

— Sim.

— Não são muito novas...

— Não tem importância.

— Não mesmo — disse o garçom, com segurança. — O que era bom o ano passado ainda é bom hoje em dia. Veio de navio? O Santa Margheritta? Aquele lá?

— Sim.

— Sai amanhã ao meio-dia, não é?

— Talvez, não sei. Eu vou ficar aqui...

— Veio passear? É um lugar bonito, segundo os turistas. Vai esperar o próximo navio, o de terça-feira?

— Talvez fique mais. Não sei.

— Tem negócios aqui?

— Não, não tenho.

— As pessoas não costumam ficar aqui muito tempo, a não ser que estejam a negócios. Queixam-se dos hotéis e da falta do que fazer.

— Mas, tenho certeza de que aqui há tanto o que fazer como em qualquer outro lugar do mundo.

— Para nós que moramos aqui, sim. Temos nossa vida e nosso trabalho. Mas, para os estrangeiros, não. Apesar de alguns deles morarem aqui... Conhece Sir Wilding, um inglês? Tem uma casa enorme, herança de um avô. Ele mora aqui o tempo todo, vive escrevendo livros. É muito famoso e respeitado.

— Você se refere a Sir Richard Wilding?

O garçom assentiu com a cabeça.

— Este mesmo. Nós o conhecemos há vários anos. Durante a guerra não esteve por aqui, mas veio logo depois. Ele também pinta quadros... temos também um francês que tem uma casinha em Santa Dolmea, e um inglês com a esposa que moram no outro lado da ilha... são muito pobres e os quadros dele muito esquisitos. Ela esculpe figuras em pedra.

O garçom calou-se e correu para uma mesa, cuja cadeira inclinada indicava que estava reservada. Agarrou a cadeira e afastou-se cerimoniosamente para dar passagem à dona da mesa.

Ela sorriu agradecida e sentou-se, sem dizer coisa alguma. O garçom retirou-se. A senhora colocou os cotovelos sobre a mesa e olhou para o porto.

Llewellyn observou-a com surpresa.

Ela usava um xale espanhol, bordado com flores, de fundo esmeralda, como várias mulheres do país, mas ele teve certeza de que ela era americana ou inglesa. Era loura, o que a destacava das outras mulheres do café; a mesa que ocupava ficava quase escondida sob uma grande trepadeira de buganvílias. Qualquer pessoa que ocupasse aquela mesa deveria ter a sensação de estar, numa caverna coberta de vegetação, observando o mundo e mais especificamente as luzes dos navios e os reflexos na água.

A jovem apreciava a vista sem se mexer, como se estivesse aguardando alguma coisa. O garçom trouxe-lhe a bebida e ela sorriu silenciosa. Envolvendo o copo com as mãos ela bebericou enquanto continuava absorta com a paisagem.

Llewellyn notou as jóias que ela usava: um anel de esmeraldas numa mão e um chuveiro de brilhantes na outra sob o xale exótico um vestido simples de gola roulé preto.

Ela não olhava ou prestava atenção às pessoas das mesas ao lado e estas não pareciam tomar conhecimento dela, a não ser por um rápido olhar de reconhecimento. Era óbvio que ela era uma freqüentadora assídua do café.

Llewellyn se perguntou quem seria. Pareceu-lhe estranho que uma jovem de classe estivesse ali, sentada sozinha, àquela hora da noite. Aparentemente, no entanto, ela parecia muito à vontade, com jeito de quem estava simplesmente cumprindo uma rotina. Talvez um acompanhante viesse encontrá-la, mas tempo passou e ela continuou sozinha. Às vezes, fazia um pequeno gesto e o garçom trazia outra dose.

Quase uma hora depois, Llewellyn pediu a conta e preparou-se para sair. Quando passou pela mesa, olhou a moça. Ela pareceu ignorá-lo, como até então ignorara o ambiente à sua volta. Limitava-se a olhar para o copo ou para o mar, sem mudar de expressão. Era como se estivesse longe dali.

Quando Llewellyn saiu do café e entrou pela rua estreita que levava ao hotel, teve um impulso de voltar para falar com ela e para preveni-la. Por que o verbo prevenir havia-lhe ocorrido? Por que pensara nela como numa pessoa que estivesse em perigo?

Sacudiu a cabeça. Não podia fazer coisa alguma, mas tinha certeza de que estava com a razão.

 

2

Duas semanas depois e Llewellyn ainda estava na ilha. Os dias entraram em rotina; andava, descansava, lia, andava novamente, dormia. À noite, depois do jantar, ia para o porto e sentava-se no café. Bem cedo desistiu de ler qualquer coisa, foi uma das coisas que ele eliminou da rotina diária.

Vivia somente para si mesmo, e ele sentia que estava certo. Não estava só, e sim no meio de pessoas semelhantes, com quem se sentia em casa, embora nunca falasse com ninguém. Não evitava, nem procurava contatos: às vezes, conversava com várias pessoas, mas sobre assuntos superficiais, meras cortesias banais. As pessoas lhe desejavam boa sorte, ele retribuía, mas ninguém queria interferir na vida alheia. Neste círculo de conhecimentos havia uma exceção. Llewellyn se perguntava constantemente pela moça que vinha ao café e sentava-se na mesa sob as buganvílias; e embora ele freqüentasse vários cafés, geralmente voltava sempre àquele que fora seu escolhido na primeira noite. Lá, em diversas ocasiões, viu a moça inglesa. Ela sempre chegava tarde da noite, sentava-se à mesma mesa e ele descobriu que ela ficava até que quase todos os fregueses tivessem se retirado. Embora ela fosse um mistério para ele, não parecia ser um mistério para os outros.

Um dia, resolveu falar sobre ela com o garçom.

— A señora que senta ali é inglesa?

— Sim, é.

— Mora na ilha?

— Sim.

— Não vem aqui todas as noites?

O garçom pesou a resposta que daria com gravidade.

— Ela vem quando pode.

Uma curiosa resposta que fez Llewellyn refletir. Ele não perguntou o nome da moça pois, se o garçom quisesse dizer já teria dito: “é fulana de tal e mora em tal e tal lugar”. Mas, como não disse coisa alguma, Llewellyn deduziu que havia uma razão para que o garçom silenciasse a este respeito.

Em vez disso, resolveu perguntar o que ela bebia.

— Brandy — disse o garçom, se retirando.

Llewellyn pagou a bebida e despediu-se. Passou pelas mesas e ficou parado na rua, antes de se misturar com os transeuntes .

De repente, voltou-se e com firme decisão encaminhou-se para a mesa sob a buganvília coral.

— Incomoda-se — disse ele, — se eu sentar e falar com a senhora um instante?

Capítulo Dois

 

1

Ela voltou o olhar vagarosamente, desviando-os das luzes do porto.

Por um momento, os olhos permaneceram abertos e desfocados. Ele sentiu o esforço que ela estava fazendo para voltar de tão longe.

Viu também, com pena, quão jovem era. Não só em anos (devia ter uns 23 ou 24 anos) como também em maturidade. Era como um botão de rosa que não pôde crescer por causa da geada — apesar de manter uma aparência normal podia ver-se que não desabrocharia mais, como também não feneceria; simplesmente, com o tempo, cairia por terra, ainda em botão. Era como uma criança perdida. Llewellyn reparou também na sua beleza... era realmente muito, muito bela. Os homens sempre a achariam bela, desejariam ajudá-la, protegê-la, idolatrá-la. Num jogo de cartas seria o que se chama uma mão cheia de azes. Mas, ali estava sentada, olhando para uma distância imprevisível como se no seu caminho tivesse mudado o rumo e se perdido.

Os olhos, abertos e profundamente azuis, fixaram-se nele.

— Oh! — murmurou, surpresa.

Ele esperou.

Ela sorriu.

— Por favor — disse ela.

Ele puxou a cadeira e sentou-se.

— O senhor é americano? — perguntou ela.

— Sim.

— Veio no navio?

Os olhos dela voltaram-se por um instante para o porto, onde estava ancorado um navio... aliás como sempre.

— Vim. mas não neste. Já estou aqui há umas duas semanas .

— A maioria das pessoas não costuma ficar tanto tempo — disse ela, num tom afirmativo, não interrogativo.

Llewellyn chamou o garçom e pediu um Curaçao.

— Posso lhe oferecer qualquer coisa?

— Obrigada, ele sabe o que bebo.

O garçom fez um ligeiro cumprimento com a cabeça e retirou-se .

Os dois ficaram calados por um instante.

— Creio — disse ela, por fim, — que se sente só. Não existem muitos ingleses ou americanos por aqui.

Ela estava tentando situar por que Llewellyn quisera conversar com ela.

— Não — disse ele, — não me sinto só. Estou até contente por estar só.

— Isto não é muito comum, é?

O fervor com que ela fez a pergunta, surpreendeu-o.

— Compreendo — disse ele, — é por isso que vem aqui?

Ela concordou com a cabeça.

— Para estar só, mas eu vim atrapalhá-la.

— Não, não tem importância. O senhor é um estrangeiro, compreende?

— Sim.

— Nem sei seu nome.

— Quer saber?

— Prefiro não saber. Também não vou lhe dizer o meu. Talvez já lhe tenham dito — acrescentou ela, em tom de dúvida. — Todo o mundo aqui me conhece.

— Não, não me disseram. Creio que compreendem que a senhora não quer que o digam.

— Eles entendem. São todos tão educados... não por terem aprendido, são naturalmente educados. Até vir para cá, não podia acreditar que a cortesia natural pudesse ser uma coisa tão maravilhosa... tão positiva.

O garçom voltou com duas bebidas. Llewellyn pagou e em seguida olhou para o copo que a moça segurava com as duas mãos.

— Brandy?

— Sim, ajuda muito.

— Ajudava-a a sentir-se só? É por isso?

— Me liberta, é tudo.

— E a senhora não é livre?

— Conhece alguém livre?

Ele pensou na pergunta, dita sem amargura, como era de se esperar. Era como se estivesse perguntando uma coisa simples e banal.

— O destino de todo o homem está amarrado no seu pescoço... é isso que sente?

— Não, não é bem isso. Posso entender que se pense assim, como se a vida fosse traçada como o curso de um navio, e enquanto nos mantivermos na rota, nada de mal nos acontecerá. Mas eu me sinto como um barco que, de repente, perdeu a rota. E aí, então, a gente se sente perdido, sem rumo, fica-se ao sabor do vento e do mar, sem liberdade, à mercê do imponderável — vítima da própria situação. Quanta bobagem estou dizendo. Deve ser o brandy.

Ele concordou.

— Em parte, não tenho dúvida. E para onde está sendo arrastada?

— Para longe... é tudo... bem longe.

— De que realidade precisa fugir?

— Nenhuma, absolutamente nenhuma. Esta é a parte terrível da história. Sou uma dessas pessoas afortunadas que têm tudo — repetiu ela, sombriamente. — Tudo... não quero dizer que nunca sofri, que não tive dissabores... mas não sou uma pessoa que se alimenta do passado, não tento ressuscitá-lo e revivê-lo. Não quero voltar atrás ou ir para frente. Só quero partir... sento-me aqui, bebendo brandy e de repente estou longe, além do porto, indo mais e mais... para um lugar ideal que não existe. Como os sonhos que tive na infância, em que eu voava... sem peso, leve, flutuando como uma pluma.

Seus olhos tornaram-se novamente opacos e desfocados. Llewellyn ficou observando-a. De repente, ela pareceu voltar.

— Desculpe.

— Não se preocupe comigo. Vou andando — disse Llewellyn, levantando-se. — Posso, de vez em quando, sentar aqui para conversar. Se não quiser eu compreendo.

— Não, quero que venha. Boa noite. Vou ficar mais um pouco. Não é sempre que posso sair à noite.

 

2

Uma semana se passou até que os dois se encontrassem novamente.

— Estou feliz porque o senhor ainda não partiu — disse ela, assim que ele se sentou. — Tive medo de que já tivesse embarcado.

— Não vou embora tão cedo. Ainda não está na minha hora.

— Para onde vai viajar depois?

— Não sei.

— Está aguardando instruções?

— Poderíamos dizer que sim.

— A última vez que conversamos — disse ela, lentamente, — só falamos sobre mim. Nada do senhor. Por que veio para cá... para a ilha? Tinha alguma razão?

— Talvez a mesma que a senhora tem para beber brandy... para fugir. Eu estou fugindo das pessoas...

— Das pessoas em geral ou de algumas em particular?

— Não das pessoas em geral, só daquelas que me conheceram ou sabem como eu era antigamente.

— Aconteceu alguma coisa?

— Sim, aconteceu.

Ela debruçou-se para frente.

— O senhor é como eu? Aconteceu algo que o fez perder a rota?

— Não, absolutamente — disse ele, sacudindo a cabeça com veemência. — O que me aconteceu fazia parte intrínseca da minha existência. Teve uma razão e uma causa.

— Mas o senhor se referiu às pessoas.

— Elas não entendem coisa alguma. Têm pena de mim, querem me arrastar de volta para uma coisa que já terminou.

Ela franziu o cenho.

— Eu...

— Eu tinha um emprego — disse ele — e o perdi.

— Um emprego importante?

— Não sei — disse ele, pensativo. — Pensei que fosse, mas na realidade não se sabe na verdade o que é importante... precisa-se aprender a não confiar nos próprios valores, eles são geralmente relativos...

— Por isso desistiu do emprego?

— Não — respondeu Llewellyn, sorrindo. — Fui despedido.

— Ah! — exclamou ela, surpresa. — O senhor ficou muito sentido?

— Oh! Sim, muito. Qualquer um sentiria. Mas também isto já passou. ..

Ela olhou para o copo vazio com raiva. Ao levantar os olhos o garçom trouxe outra dose. Pensativa, ela sorveu alguns goles.

— Posso lhe fazer uma pergunta?

— Pode.

— Acha a felicidade muito importante?

Ele refletiu por uns instantes.

— É uma pergunta muito difícil de responder. Se eu dissesse que a felicidade é de suma importância e ao mesmo tempo não tem valor algum a senhora diria que sou louco.

— O senhor não poderia ser mais explícito?

— Bem, a felicidade é como o sexo. Pode ser muito importante ou não ter importância alguma. A senhora é casada?

Ele havia reparado na aliança de ouro.

— Já fui casada duas vezes.

— Ama seu marido?

Ela respondeu, sem pestanejar:

— Mais do que qualquer coisa no mundo.

— Ao se lembrar da vida em comum com ele, o que lhe vem primeiro à mente? Quais os momentos que não consegue esquecer? A primeira vez que dormiram juntos ou qualquer outra coisa?

Ela riu, feliz, por uns momentos.

— O chapéu dele — respondeu.

— O chapéu?

— Sim. Na nossa lua-de-mel... o chapéu dele voou e ele comprou um de palha, típico, que eu achei que ficaria melhor em mim. Coloquei o chapéu dele e ele colocou o meu — era um desses chapéus ridículos que andava na moda e quando nos olhamos não pudemos parar de rir. Aí, ele me disse: “meu Deus, como eu te amo!”

A voz dela ficou embargada.

— Nunca esquecerei este momento.

— Está vendo? — perguntou Llewellyn. — Estes são os momentos mágicos — os duradouros — os infinitamente suaves e não o sexo. Mas se, por exemplo, as pessoas não se encontram sexualmente, o casamento acaba fracassando. A comida também é um fator importante. Por quê? Sem ela não se vive, mas quando estamos alimentados não nos preocupamos muito com ela. A felicidade é como o alimento da vida, ajuda a crescer, é uma grande professora, mas não é a última meta... e por si não é satisfatória.

Llewellyn calou-se um instante antes de perguntar:

— É a felicidade o que a senhora deseja?

— Não sei. Devia ser feliz, tenho tudo para ser feliz.

— Quer mais alguma coisa?

— Menos — respondeu ela, rapidamente. — Menos da vida. Tenho demais... demais.

Ela acrescentou em seguida:

— E é tão pesado!

Os dois ficaram um instante em silêncio.

— Se eu soubesse — disse ela, por fim, — se eu soubesse ao menos o que quero, em vez de ser tão negativa e estúpida.

— Mas a senhora sabe o que quer. Quer fugir.Por que não foge?

— Fugir?

— Sim. O que lhe impede? Dinheiro?

— Não, não é o dinheiro. Eu tenho dinheiro... não muito, mas o suficiente.

— O que é então?

— Tantas coisas! O senhor não compreenderia. — Os lábios dela se torceram num sorriso sem humor. — É como as três irmãs de Tchecov, sempre gemendo sobre Moscou... Nunca vão, nunca irão, embora elas pudessem ir à estação pegar um trem e pronto. Como eu podia comprar um bilhete naquele navio que parte hoje à noite.

— E por que não o faz? — perguntou ele, observando-a com atenção.

— O senhor pensa que sabe a resposta?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não, não sei. Estou tentando ajudá-la a descobrir a resposta.

— Talvez eu seja como as três irmãs de Tchecov. Talvez eu não queira ir.

— Talvez.

— Talvez a fuga seja apenas uma brincadeira para mim.

— Talvez. Todos temos fantasias que nos ajudam a agüentar a vida.

— E fugir no meio da fantasia?

— Não sei; só quem pode dizer é a senhora.

— Eu não sei de nada... Tive todas as chances e fracassei. Quando isto acontece precisa-se arcar com as conseqüências, não é mesmo?

— Não sei.

— Precisa repetir infinitamente a mesma frase?

— Desculpe, mas é a verdade. A senhora está pedindo que eu chegue a uma conclusão sobre um assunto que desconheço.

— Estávamos conversando sobre princípios gerais.

— Não existe um princípio geral para as coisas...

— Está querendo dizer que não existe um certo ou um errado absoluto?

— Não, não foi isto que eu quis dizer. É claro que existe um certo ou um errado absoluto, mas está tão acima do nosso conhecimento e compreensão que só podemos divisá-lo ao longe.

— Mas, nós sabemos o que é certo!

— Pelo que nos foi ensinado, segundo os cânones da época. Ou, para irmos mais longe, podemos sentir pelo conhecimento instintivo. Mas, até isto é precário. Certas pessoas foram queimadas vivas, não por sádicos ou loucos, mas por gente honesta e direita que acreditava estar agindo corretamente. Leia alguns casos de direito na Grécia antiga... por exemplo, um homem que recusou torturar os escravos para obter uma confissão, segundo era o costume. Foi tachado de obstrutor da Justiça. Um outro exemplo é um pastor protestante, nos Estados Unidos, que espancou o filho de três anos a quem amava, por que a criança recusou-se a dizer suas orações.

— É horrível.

— Sim, por que o tempo mudou estas normas...

— Então, que podemos fazer? — perguntou ela, debruçando o belo rosto sobre a palma da mão.

— Seguir os próprios ditames, com humildade e esperança.

— Isto seria ótimo, se os meus ditames não fossem errados — disse ela, rindo. — É como se eu tivesse perdido o fio da meada.

— Não posso ajudá-la, pois nunca peguei num novelo de lã.

— Por que não quer dar sua opinião?

— Porque seria apenas uma opinião.

— E daí?

— E poderia influenciá-la... a senhora parece uma pessoa fácil de se influenciar.

Ela ficou séria.

— Sim, este foi um dos meus erros.

Ele calou-se por um instante.

— O que aconteceu de errado? — perguntou ele, num tom natural.

— Nada — respondeu ela, desanimada. — Nada. Tenho tudo que uma mulher poderia desejar.

— Está generalizando outra vez. A senhora não é todas as mulheres, é uma pessoa única. Agora pergunto: possui tudo o que deseja?

— Sim, sim, sim. Amor,carinho, dinheiro, luxo, uma casa maravilhosa, companhia, tudo que eu escolheria para ser feliz. Não... sou eu... eu é que tenho algo de errado — concluiu, olhando desafiadora para Llewellyn.

Por estranho que pareça, ela pareceu aliviada quando ele disse, num tom natural:

— Ah! Sim! A senhora tem alguma coisa errada. Isto é óbvio.

 

3

Ela empurrou o copo de brandy para a frente.

— Posso falar de mim? — perguntou ela.

— Se quiser.

— Talvez assim eu possa ver onde... fracassei... talvez me ajudasse...

— Talvez assim eu possa ver onde... fracassei... talvez o senhor me ajudasse...

— Sim, talvez.

— Minha vida foi sempre boa e normal. Uma infância feliz numa casa maravilhosa. Fui à escola e fiz todas as coisas que as crianças da minha idade fazem. Ninguém jamais me maltratou... talvez se eu tivesse sofrido teria sido melhor para mim. Não sei se fui uma criança mimada... não, não creio... Quando voltava da escola, jogava tênis, dançava, namorava e me perguntava que carreira deveria seguir... enfim, o normal de todas as moças.

— Pelo menos, aparentemente.

— Aí, me apaixonei e casei — disse ela, num outro tom.

— E viveu feliz?

— Não — disse ela, pensativa. — Eu o amava, mas mesmo assim me sentia infeliz. Por isso perguntei se a felicidade realmente era importante.

Ela calou-se um instante. Em seguida recomeçou:

— É tão difícil explicar... eu não era feliz mas por estranho que pareça tudo ia bem... eu estava trilhando o caminho que escolhera. Não entrei na história de olhos fechados. É claro que eu o idealizava, isto é natural. Mas lembro-me agora que um dia acordei de madrugada... devia ser umas cinco horas, a hora da verdade, não acha?... e percebi, quero dizer, vi o que ia ser o meu futuro. Que eu não seria feliz, que ele era egoísta, inescrupuloso de uma maneira simpática e até galante, e que apesar de tudo eu o amava, não amaria outro homem e que preferia ser infeliz casada com ele, do que feliz e contente casada com outro qualquer. Pensei também que com um pouco de sorte e inteligência faria meu casamento dar certo. Aceitei o fato de que o amava mais do que ele a mim e que não poderia esperar mais do que ele estava me dando.

Ela fez uma pequena pausa.

— É claro que não racionalizei a tal ponto — continuou ela —; estou descrevendo agora apenas o que eu senti aquela noite. Mas era a verdade. Voltei a acreditar que ele era nobre e bom, enfim tudo que não tinha a menor relação com a realidade. Mas eu tivera uma revelação... aquele momento quando se divisa o futuro e pode-se voltar e tomar outro rumo. Pensei, naquela madrugada fria... e como podem ser difíceis e apavorantes esses momentos... em recuar, mas escolhi seguir em frente.

— E está arrependida? — perguntou Llewellyn, suave.

— Não, não — respondeu ela, com veemência. — Nunca me arrependi. Valeu cada momento vivido. A única pena é que ele morreu.

Ela pareceu perder o olhar vago, não era mais uma mulher fugindo da vida, refugiando-se na fantasia que estava ali, diante de Llewellyn. Era uma criatura viva e vibrante.

— Ele morreu cedo demais — prosseguiu ela. — Como é mesmo aquela frase de Macbeth, “ela deveria ter morrido na eternidade”... é o que eu senti. Ele deveria ter morrido na eternidade.

Llewellyn sacudiu a cabeça.

— Todos sentimos quando morre uma pessoa...

— É mesmo? Não sei. Eu sabia que ele estava doente, que seria sempre um inválido inconformado e ranzinza, que desabafava suas mágoas em cima de mim. Mas ele não queria morrer, apesar de tudo, não queria morrer, por isso não me conformo. Ele possuía uma tamanha sede de viver que mesmo com um quarto ou com a metade da vida ele conseguiria se divertir. — Ela levantou os braços para o céu — Oh! Detesto Deus por tê-lo matado.

Ela calou-se e olhou para Llewellyn.

— Não devia ter dito isso... que odeio Deus.

— É melhor odiar Deus do que odiar a humanidade. Deus, pelo menos, é inatingível.

— É verdade... e nós não somos.

— Não só nos ferimos como ferimos os outros.

— E fazemos de Deus o bode expiatório.

— É o que Ele sempre foi. Quem senão Deus agüentaria nosso fardo... o fardo da nossa revolta, do nosso ódio e do nosso amor?

Capítulo Três

 

1

Às tardes Llewellyn habituou-se a fazer longas caminhadas. Começava na cidade, numa estrada curva e ascendente até atingir um ponto onde via a baía e a cidade a seus pés.

Seus passeios eram sempre na hora da sesta, portanto não via os pontos coloridos no porto ou nas ruas e estradas. No alto da colina, as únicas pessoas que Llewellyn encontrava eram os meninos, pastores de cabras, que cantavam ao sol ou brincavam com as pedrinhas do chão. Esses pastores cumprimentavam Llewellyn seriamente, sem curiosidade; estavam acostumados a ver estrangeiros marchando pelas estradas, suando com as camisas abertas. Eram, geralmente, pintores ou escritores e embora não fossem muitos não constituíam uma novidade. Como Llewellyn não carregava pincéis ou cavaletes, os meninos concluíram que era escritor.

Llewellyn respondia aos cumprimentos e seguia seu caminho.

Não existia meta em seu passeio, senão observar a paisagem que para ele não possuía maior significado. Sua única motivação era interior, ainda obscura e vaga mas que aos poucos ia tomando forma e conteúdo.

Um atalho o levou a uma plantação de bananeiras. Ao penetrar naquele verdor, impressionou-se como tinha perdido, tão rapidamente, qualquer sensação de direção e meta. Não sabia a extensão do bananal e onde acabaria saindo. Podia ser um atalho ou uma estrada de quilômetros; podia-se seguir o caminho e eventualmente se chegaria a algum lugar que ele não podia precisar, mas que pressentia dever existir. Seu único propósito era marchar, determinando a direção, podendo também escolher se voltaria daquele ponto ou seguiria em frente. Tinha obtido a liberação da própria integridade. Viajava esperançoso...

De repente emergiu do silêncio verde do bananal para uma colina nua. Um pouco abaixo, de um lado do atalho que conduzia ao pé do morro, viu um homem pintando.

O homem estava de costas para Llewellyn, que só podia divisar umas costas fortes dentro de uma camisa amarela e um chapéu de feltro velho, enfiado na cabeça.

Llewellyn desceu o atalho, agora caminhando mais depressa, olhando com interesse para a pintura. Pensou consigo que se um pintor se colocava numa estrada para pintar, não se importaria que olhassem sua obra.

Era um quadro vigoroso, com grossas e fortes pinceladas coloridas com o fito de causar efeito pelo impacto geral e não pelo detalhe. Um trabalho de mestre, porém sem maior significação artística.

O pintor voltou o rosto para o lado e sorriu.

— Não é minha única ocupação na vida — disse. — É apenas uma distração.

Era um homem de quarenta ou cinqüenta anos, de cabelos negros salpicados de cinzento. Bonito, mas com tal força e magnetismo no olhar e na fisionomia que era difícil não impressionar quem o conhecesse. Irradiava calor humano e vitalidade, o que o tornava uma pessoa difícil de esquecer...

— É extraordinário — disse o pintor, pensativo — o prazer que dá espalhar umas tintas coloridas numa palheta e depois transportá-las para uma lona. Às vezes, temos consciência do que estamos fazendo, às vezes, não, mas isto sempre nos traz uma felicidade interior indizível. — Ele deu um rápido olhar para Llewellyn. — O senhor não é pintor?

— Não. Só estou passando uns tempos aqui.

— Ah! Sei — disse o pintor, colocando uma rosa surpreendente no meio do mar azul. — Não é estranho que tenha dado certo? É inexplicável.

Largou o pincel na palheta, suspirou, empurrou o velho chapéu para trás e afastou-se para ver melhor o estranho. Seus olhos brilharam de interesse.

— Desculpe — disse —, mas o senhor não é o Dr. Llewellyn Knox?

 

2

Houve um momento brusco não traduzido em termos físicos, antes de Llewellyn responder.

— Sim — disse num tom impessoal, sentindo imediatamente a perspicácia do interlocutor.

— Que tolice a minha — disse o homem. — O senhor teve uma estafa, não foi? E deve ter vindo para cá para evitar contatos... bem, não precisa se preocupar. Os americanos raramente vêm para cá, os naturais da ilha só se interessam pelos próprios primos ou pelos primos dos primos, em função dos batizados, casamentos ou enterros, e eu não conto por que moro aqui.

Ao ver o ar de surpresa de Llewellyn, não pôde deixar de perguntar:

— Surpreso?

— Sim.

— Por quê?

— Viver simplesmente, pensei que ninguém mais se contentasse com isso.

— Tem razão. No meu caso não vim para cá viver... herdei uma grande propriedade de um tio-avô. Estava em péssimo estado a casa quando a recebi, mas aos poucos começou a prosperar. Foi interessante. Aliás, em tempo, meu nome é Richard Wilding.

Llewellyn o conhecia de nome: explorador, escritor, um homem de múltiplos interesses, em várias esferas, como arqueologia, antropologia e entomologia. Sabia que não havia assunto que Sir Richard Wilding desconhecesse, embora não pretendesse ser uma autoridade em nenhum. A modéstia era também uma das suas virtudes.

— Ouvi falar do senhor, é claro — disse Llewellyn. — Aprecio muito seus livros.

— E eu já ouvi suas conferências, Dr. Knox. Há um ano e meio, no Olímpia.

Llewellyn espantou-se.

— Parece surpreso — disse Wilding com um sorriso enigmático.

— Francamente estou. Por que assistiu a uma conferência minha?

— Para ser honesto, para poder falar mal.

— Não me admira!

— Nem parece lhe irritar...

— Por que haveria de me irritar?

— Bem, o senhor é humano e creio que acredita em sua missão.

Llewellyn sorriu.

— Isto é verdade.

Wilding calou-se por um momento.

— É extraordinário — disse Wilding, com desarmante franqueza — encontrá-lo nestas circunstâncias. Depois que assisti à sua conferência fiquei com muita vontade de conhecê-lo.

— Não creio que fosse tão difícil assim para o senhor.

— Não, em certo sentido. O senhor seria quase que obrigado a me receber e eu queria encontrá-lo em outra situação... por exemplo, numa ocasião em que pudesse me mandar às favas se quisesse.

Llewellyn sorriu novamente.

— Bem, estou nesta situação. Não possuo mais vínculos...

— O senhor está se referindo à saúde ou a um ponto de vista?

— A uma questão de... função.

Llewellyn calou-se. Wilding começou a guardar os pincéis.

— Gostaria de lhe contar como fui parar no Olímpia. Serei franco porque o senhor não me parece um homem que se ofenda com a verdade, principalmente se não for dita com este fito expresso. Discordei... e ainda discordo do conteúdo da sua conferência. Detesto esta história de religião em massa, irradiada por um alto-falante. Me ofende!

Wilding notou que Llewellyn, por um momento, pareceu estar se divertindo.

— Isto lhe parece muito britânico e ridículo?

— Não — respondeu Llewellyn —, eu aceito seu ponto de vista.

— Fui, portanto, para poder falar mal. Creio que esperava que o senhor ofendesse minha sofisticada sensibilidade.

— E ficou para a bênção?

A pergunta foi feita num tom mais jocoso do que sério.

— Não. No fundo meu ponto de vista é o mesmo. Não gosto de encontrar Deus através de um acordo comercial.

— Mesmo que seja por gente de comércio numa era comercial? Não é de hoje que se oferta a Deus as frutas da estação.

— Não é bem por isso. O que me impressionou é que surpreendentemente o senhor parece honesto e sincero.

Llewellyn arregalou os olhos.

— Sempre pensei que me considerassem honesto!

— Agora que eu o conheço, sim! Mas, antes, pensei que fizesse parte de uma quadrilha... afinal, se existem quadrilhas em política, por que não existiriam em religião? Admito que o senhor tem o dom da oratória mas é claro que existe um grande empreendimento econômico lhe financiando. Não é?

Wilding não estava na realidade fazendo uma pergunta.

— Sim, fui lançado com grande fanfarra.

— Sem medir as despesas?

— Isto é que me intriga. Como pôde agüentar? Era o que eu me perguntava, principalmente depois de ouvi-lo.

Wilding pendurou os apetrechos nas costas.

— O senhor aceitaria vir jantar comigo uma noite dessas? Gostaria muito de conversar com o senhor. Minha casa é aquela, a vila branca de venezianas verdes. Se não quiser, pode dizer; não se preocupe em arranjar desculpas.

— Eu gostaria muito de ir — disse Llewellyn, depois de um momento de reflexão.

— Às nove horas então. Não mude de idéia.

— Que bom! Que tal hoje à noite?

— Ótimo.

Wilding desceu a ladeira. Um pouco depois Llewellyn tomou seu caminho.

 

3

— Então, vai jantar na vila do Señor Wilding?

O cocheiro da velha charrete parecia fascinado com o acontecimento. O carro era decorado com flores pintadas e em volta do cavalo, para completar o arranjo, uma enorme corola de flores azuis. Tanto a charrete quanto o cavalo e o cocheiro pareciam felizes e calmos.

— É uma ótima pessoa o Señor Wilding. Não é mais um estrangeiro para nós. Dom Estobal, dono da vila e da terra era velho, muito velho. Deixava-se enganar por todos, enquanto passava os dias lendo, o dia inteiro. Quando acabava um suprimento de livros mandava buscar mais. Há alguns quartos na vila repletos de livros até o teto. É incrível um homem ler tanto! Quando ele morreu, nós nos perguntamos: “será que a vila vai ser vendida?” Aí, chegou Sir Wilding. Ele tinha estado aqui em criança, pois a irmã de Dom Estobal era casada com um inglês e os seus filhos e netos vinham passar as férias aqui. Com a morte de Dom Estobal a casa ficou para Sir Wilding, que veio tomar posse e começou a pôr as coisas em ordem... deve ter gasto uma fortuna. Com a guerra ele desapareceu por muito tempo, mas tinha-nos dito que se não morresse voltaria... e foi o que aconteceu. Voltou há dois anos com sua nova esposa e ficaram morando aqui.

— Ele já foi casado uma outra vez?

— Sim — disse o cocheiro baixinho. — A primeira mulher era má, linda, mas o traía com outros homens... até mesmo aqui na ilha. Ele não devia ter-se casado com ela... mas parece que não sabe escolher bem com quem se casa... acredita demais nas mulheres...

— Um homem — prosseguiu o cocheiro, num outro tom — deve saber em quem deve confiar, mas Sir Wilding não sabe. E nem acho que vá aprender.