A Carga
Capítulo Sete · — Então, ainda continua vindo aqui?
Knox esperou o garçom se afastar para responder. Lady Wilding calou-se por um instante. Esta noite ela não olhava para o porto e sim para o copo cheio de um líquido dourado.
— Suco de laranja — disse ela.
— Compreendo; um símbolo.
— Sim. Ajuda um pouco a criarmos símbolos.
— Sem dúvida.
— O senhor contou a ele que me viu aqui?
— Não.
— Por quê?
— Porque não quis magoá-lo e ele não me perguntou.
— Mas, se ele perguntasse o senhor diria?
— Sim.
— Por quê?
— Porque acredito na sinceridade absoluta.
Ela deu um suspiro.
— Às vezes, me pergunto se o senhor compreende tudo.
— Não sei.
— Sabe agora por que não posso magoá-lo? Percebeu o quanto ele é bom? Como acredita em mim? Como só pensa em mim?
— Sim, vi tudo isso. Ele quer protegê-la de todo o sofrimento e da maldade.
— Isto é impossível. Ela olhou para Knox.
— Será que um dia me tornarei a pessoa que eu sonhava ser? Gostaria tanto.
— Não, se não corresponder à realidade.
— Eu poderia partir, mas, para onde? Não para o passado que já acabou. Teria que começar outra vez e não sei como ou onde. Além do mais, não poderia magoar Richard, que já sofreu tanto.
— É mesmo?
— Sim, com a outra mulher, uma verdadeira prostituta, muito atraente, simpática, mas completamente amoral. Só ele é que não percebia isso!
— É claro.
— E ela o desapontou e ele caiu em depressão, se culpando, acreditando ter fracassado de alguma maneira. Até hoje, só tem pena dela e é incapaz de culpá-la.
— Ele tem pena demais das pessoas.
— Será que uma pessoa pode ter pena em excesso?
— Sim, tanto que não lhe permite ver as coisas direito. E além do mais é um insulto — acrescentou Knox.
— Como assim?
— Implica no que a reza do Fariseu se referia: “Deus, agradeço não ser como aquele homem.”
— E o senhor nunca sentiu pena de ninguém?
— Sim, sou humano. Mas tenho medo da compaixão...
— Que mal ela pode fazer?
— Levar à ação.
— E isto é um erro?
— Que pode trazer péssimos resultados.
— Para o senhor?
— Não, não para mim, mas para o objeto da nossa compaixão.
— Então, o que se deve fazer quando se sente pena de alguém?
— Deixá-lo na mão de quem pertence... na mão de Deus.
— Considero isto uma sentença implacável... e cruel.
— Não tão perigosa quanto a falsa piedade.
Ela debruçou-se sobre a mesa.
— Diga a verdade, tem pena de mim?
— Procuro não ter.
— Por quê?
— Para evitar que a senhora sinta pena de si mesma.
— O senhor acha que eu tenho pena de mim?
— Não tem?
— Não — respondeu ela, vagarosamente. — Não, mesmo... eu errei o caminho e acho que foi por minha própria culpa.
— Isto pode acontecer, mas não creio que seja o seu caso
— Diga, o senhor, que sabe pedir a Deus para as pessoas, que devo fazer?
— A senhora sabe.
Ela olhou para ele e de repente começou a rir. Um riso claro e alegre.
— Sim — disse ela, ofegante. — Eu sei muito bem. Fugir.