A Carga

Agatha Christie · Capítulo 22 de 25

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A Carga

Capítulo Sete · — Então, ainda continua vindo aqui?

 

Knox esperou o garçom se afastar para responder. Lady Wilding calou-se por um instante. Esta noite ela não olhava para o porto e sim para o copo cheio de um líquido dourado.

— Suco de laranja — disse ela.

— Compreendo; um símbolo.

— Sim. Ajuda um pouco a criarmos símbolos.

— Sem dúvida.

— O senhor contou a ele que me viu aqui?

— Não.

— Por quê?

— Porque não quis magoá-lo e ele não me perguntou.

— Mas, se ele perguntasse o senhor diria?

— Sim.

— Por quê?

— Porque acredito na sinceridade absoluta.

Ela deu um suspiro.

— Às vezes, me pergunto se o senhor compreende tudo.

— Não sei.

— Sabe agora por que não posso magoá-lo? Percebeu o quanto ele é bom? Como acredita em mim? Como só pensa em mim?

— Sim, vi tudo isso. Ele quer protegê-la de todo o sofrimento e da maldade.

— Isto é impossível. Ela olhou para Knox.

— Será que um dia me tornarei a pessoa que eu sonhava ser? Gostaria tanto.

— Não, se não corresponder à realidade.

— Eu poderia partir, mas, para onde? Não para o passado que já acabou. Teria que começar outra vez e não sei como ou onde. Além do mais, não poderia magoar Richard, que já sofreu tanto.

— É mesmo?

— Sim, com a outra mulher, uma verdadeira prostituta, muito atraente, simpática, mas completamente amoral. Só ele é que não percebia isso!

— É claro.

— E ela o desapontou e ele caiu em depressão, se culpando, acreditando ter fracassado de alguma maneira. Até hoje, só tem pena dela e é incapaz de culpá-la.

— Ele tem pena demais das pessoas.

— Será que uma pessoa pode ter pena em excesso?

— Sim, tanto que não lhe permite ver as coisas direito. E além do mais é um insulto — acrescentou Knox.

— Como assim?

— Implica no que a reza do Fariseu se referia: “Deus, agradeço não ser como aquele homem.”

— E o senhor nunca sentiu pena de ninguém?

— Sim, sou humano. Mas tenho medo da compaixão...

— Que mal ela pode fazer?

— Levar à ação.

— E isto é um erro?

— Que pode trazer péssimos resultados.

— Para o senhor?

— Não, não para mim, mas para o objeto da nossa compaixão.

— Então, o que se deve fazer quando se sente pena de alguém?

— Deixá-lo na mão de quem pertence... na mão de Deus.

— Considero isto uma sentença implacável... e cruel.

— Não tão perigosa quanto a falsa piedade.

Ela debruçou-se sobre a mesa.

— Diga a verdade, tem pena de mim?

— Procuro não ter.

— Por quê?

— Para evitar que a senhora sinta pena de si mesma.

— O senhor acha que eu tenho pena de mim?

— Não tem?

— Não — respondeu ela, vagarosamente. — Não, mesmo... eu errei o caminho e acho que foi por minha própria culpa.

— Isto pode acontecer, mas não creio que seja o seu caso

— Diga, o senhor, que sabe pedir a Deus para as pessoas, que devo fazer?

— A senhora sabe.

Ela olhou para ele e de repente começou a rir. Um riso claro e alegre.

— Sim — disse ela, ofegante. — Eu sei muito bem. Fugir.