A Carga

Agatha Christie · Capítulo 10 de 25

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A Carga

Capítulo 2

Laura endireitou as costas e esticou os braços.

— Quatro dúzias — disse.

Ela estava contando os molhos de ervilhas-de-cheiro.

— Vamos conseguir um bom preço por ela no Trendle — continuou Laura. — As ervilhas foram um sucesso o ano passado, Horden.

Horden, um homenzinho sujo e triste, resmungou sua concordância .

— Não estão mais este ano!

Era um homem certo da sua posição, um jardineiro aposentado que conhecia a profissão e quanto valiam todos aqueles anos de trabalho. Todos o chamavam para trabalhar, mas Laura, por perseverança o tinha contratado, embora a Sra. Kindle, cujo marido tinha enriquecido com armamentos, tivesse oferecido um salário bem mais alto. Horden, no entanto, tinha preferido trabalhar com Laura, pois conhecera seus pais, um casal muito distinto. Lembrava-se de Laura quando ainda era bem pequena, mas estas não seriam razões suficientemente fortes para prendê-lo; a verdade é que ele gostava de trabalhar para Laura, que não lhe dava folga, mas que, ao mesmo tempo, não abusava dele; sabia apreciar um serviço bem feito, elogiar e admirar quando merecia. Ao mesmo tempo não fazia economia de bebida, nem do chá com açúcar que andava racionado. Hoje em dia, não era todo mundo que servia chá com tanta generosidade. Ela também não se importava de ajudá-lo, adubando a terra e pegando na enxada. Laura tinha sempre idéias novas — sempre de olho no futuro — planejando aqui e ali. Sempre atenta às novas técnicas. Aqueles novos canteiros da horta, por exemplo, se não fosse o entusiasmo dela, ele não teria tentado e no entanto, veja que surpresa com os tomates!

— Cinco horas — disse Laura, olhando para o relógio. — Já adiantamos bem o serviço.

Ela olhou em volta para os vasos e latas cheias de plantas que no dia seguinte seriam levadas para a florista e para o verdureiro .

— Dão um bom preço estes vegetais — disse Horden, satisfeito. — Quem diria!

— Mesmo assim, acho que devemos nos dedicar mais às flores. Há anos que não temos tido flores e todo o mundo está plantando legumes.

— É, as coisas mudaram muito. No tempo dos seus pais não se pensava em plantar para vender no mercado. Lembro-me daqui quando tudo parecia um quadro e o Sr. Webster era o chefe do jardim. Tudo acabou com aquele incêndio! Me admira que não tenha destruído a casa!

Laura assentiu com a cabeça e tirou o avental de borracha. As palavras de Horden tinham trazido de volta o passado... “antes do incêndio...”

O incêndio tinha sido o ponto crucial de sua vida. Antes, ela era uma figura vaga — uma criança ciumenta e infeliz, carente de amor e atenção.

Na noite do incêndio, surgira a nova Laura, cuja vida se tornara repentinamente cheia. Do momento em que tinha lutado contra a fumaça e as chamas, carregando Shirley no colo, a sua existência tinha adquirido um novo significado — tomar conta de Shirley.

Ela salvara a irmã da morte, Shirley lhe pertencia. Naquele instante duas figuras preeminentes recolheram-se às sombras: os pais. A necessidade que sentira deles, até então, diminuiu e apagou-se. Talvez ela nunca os tivesse amado, mas sim cobiçado. O amor ela só sentira realmente pela pequena entidade de carne chamada Shirley, que preenchera todas as lacunas e todas as necessidades. Laura não se importou mais consigo mesma; seu único interesse passou a ser Shirley.

Passou a tomar conta da irmã, protegê-la, cuidar para que os gatos não a arranhassem; acordava no meio da noite para se certificar de que a casa não estava pegando fogo; levava e trazia brinquedos, brincava com o bebê quando estava alegre, cuidava dele se estava doente.

Uma criança de onze anos não podia prever o futuro: os pais saíram de férias e quando voltavam o avião explodiu nos ares...

Nesta época Laura tinha quatorze anos e Shirley três. Elas não tinham parentes próximos, a não ser a prima Angela, portanto; e foi Laura quem tomou todas as decisões, medindo as conseqüências, formulando hipóteses e apresentando os problemas com decisão indômita ao testamento (um velho advogado) e ao curador (o Sr. Baldock). Laura quis sair da escola, viver em casa, e uma excelente ama foi contratada para tomar conta de Shirley. A Srta. Weekes veio morar com elas, cuidando da educação de Laura e tomando certas providências em casa.

Como era uma ótima solução, prática e viável, só encontrou uma fraca oposição em Baldock que não gostava dos métodos da Srta. Weekes e que temia que ela transformasse Laura numa esnobe. Mas Laura não tinha dúvidas a respeito da Srta. Weekes, pois sabia que a professora não iria mandar na casa. A pobre Srta. Weekes era uma mulher intelectual, que adorava a matemática; não se interessava portanto por economia doméstica.

O plano funcionara perfeitamente: Laura teve uma excelente educação, a Srta. Weekes pôde usufruir de certas vantagens econômicas e qualquer dificuldade acadêmica foi facilmente contornada por Laura para evitar que o Sr. Baldock entrasse em conflito com a boa professora. As maiores decisões, como a escolha de novos empregados, a ida de Shirley para o jardim-de-infância e depois para um colégio de freiras, embora parecessem ser tomadas pela Srta. Weekes representavam a vontade de Laura. A atmosfera da casa era portanto harmoniosa. Anos depois, Shirley foi mandada para um ginásio, nesta altura Laura só tinha vinte e dois anos.

Um ano após estourou a guerra e a rotina foi interrompida. A escola de Shirley foi transferida, por questões de segurança, a Srta. Weekes foi para Londres trabalhar num Ministério. A casa foi requisitada pelo Ministério da Aviação para alojar os oficiais; Laura transferiu-se para a casa do jardineiro e empregou-se como fazendeira numa propriedade vizinha, além de cultivar, em casa, uma pequena horta.

Agora já fazia um ano que a guerra com a Alemanha terminara. Laura tentara, com a saída abrupta do Ministério, reconduzir a casa ao seu antigo estado. Shirley tinha acabado parte do curso e não queria ir para uma universidade.

Não sou uma intelectual, protestava ela, e isto era confirmado pela diretora do colégio em outros termos: — “Na verdade não acho que Shirley seja uma pessoa que se beneficiará de uma educação universitária. É uma garota simpática e inteligente mas não tem coisa alguma que ver com estudo!”

Por isso Shirley voltara para casa. Ethel, que estivera numa fábrica durante a guerra, acabou voltando também, não mais como encarregada da limpeza mas como governanta. Laura continuou elaborando planos para a produção de flores e verduras. Se quisessem ficar com a casa teriam que obter lucro do jardim e da horta.

Estas imagens passadas desfilaram pela mente de Laura enquanto tirava o avental e se dirigia para casa para se lavar. Sempre a figura central tinha sido Shirley.

Como bebê, engatinhando, murmurando para Laura numa linguagem ininteligível o problema das suas bonecas; mais velha, voltando do jardim-de-infância, relatando as aventuras com a professora e com Tommy, e Mary, o travesso Robin e Peter e o que a professora fizera com ela...

Uma outra Shirley voltara do ginásio, cheia de informação; as moças de que gostava, as que detestava, o bom gênio da Srta. Geofrey, a professora de inglês, a maldade da Srta. Andrews, a professora de matemática, as brigas com a professora de francês. Shirley sempre se abrira com Laura. O relacionamento delas era estranho — não pareciam irmãs, talvez por causa da diferença de idade que as separava; Laura nunca precisou fazer perguntas, Shirley não parava de falar — Oh! Laura, tenho tanto que lhe contar! E Laura ouviria, riria, comentaria, concordaria ou desaprovaria conforme o caso.

Agora que Shirley estava instalada em casa, para Laura parecia que nada havia mudado. Todos os dias as conversas Sobre o que fizeram. Shirley tagarelando sobre Robin Grant ou Edward Westbury; era uma moça tão afetuosa e espontânea que era natural que falasse tanto.

Mas ontem ao voltar do tênis ela falara pouco e mal respondera as perguntas de Laura. A irmã mais velha ficara curiosa. Claro que Shirley estava crescendo, que um dia teria sua própria vida, seus problemas. Era certo, era natural. O que Laura precisava decidir é a forma de Shirley atingir esta maioridade. Suspirou, olhou para o relógio e decidiu fazer uma visita ao Sr. Baldock.