A Carga

Agatha Christie · Capítulo 13 de 25

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A Carga

Capítulo Quatro · Henry capitulou com a graça que o caracterizava.

 

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Henry capitulou com a graça que o caracterizava.

— Está bem, Laura. Se você quer um ano de noivado, estamos em suas mãos. Compreendo que seria duro para você se separar de Shirley sem ter tempo para se acostumar com a idéia.

— Não é bem isso...

— Não é mesmo? — perguntou ele, levantando a sobrancelha, enquanto sorria ironicamente. — Shirley não passa da ovelha para o sacrifício, não é verdade?

Laura sentiu-se incomodada com o comentário. Depois da partida de Henry, os dias se arrastavam com vagar.

Shirley não se tornara hostil e sim vaga. Sempre um pouco mal humorada, ressentida e com um ligeiro ar de reprovação em relação à irmã. Passava os dias esperando o correio mas as cartas que chegavam não eram satisfatórias. Henry não era de escrever cartas, limitava-se a enviar curtos bilhetes.

“Querida, como vai tudo? Sinto sua falta. Ontem andei a cavalo pela pista de ponta a ponta. Não adiantou nada. Como vai o dragão? Seu para sempre, Henry.”

Às vezes passava uma semana sem mandar notícias. Shirley, certa vez, decidiu ir a Londres, mas o encontro não correspondeu à sua expectativa.

— Eu não quero passar o fim de semana lá — disse Henry em resposta ao convite que Laura fizera. — Quero casar com você e não passar um fim de semana sob a vigilância de sua irmã. E não esqueça de que ela fará tudo para pôr você contra mim.

— Oh! Henry, ela nunca faria isso. Nunca. Ela mal fala de você...

— Na esperança de que você me esqueça.

— Como se eu pudesse!

— Laura não passa de uma gata ciumenta.

— Henry! Ela é um amor.

— Não comigo.

Shirley voltou para casa infeliz e nervosa.

Apesar dos esforços Laura começou a sentir-se cansada.

— Por que não convida Henry para o fim de semana?

— Ele não quer vir — respondeu Shirley, emburrada.

— Não quer? Que estranho!

— Não acho. Ele sabe que você não gosta dele.

— Mas, eu gosto dele — respondeu Laura, tentando acreditar no que dizia.

— Oh! Laura.

— Considero Henry um homem muito atraente.

— Mas não quer que me case com ele.

— Shirley, não é verdade, só quero que vocês tenham certeza.

— Mas eu tenho.

— Eu gosto demais de você — gritou Laura desesperada. — Não quero que cometa um erro.

— Não me ame demais, não quero ser transformada em ídolo — retrucou Shirley. — Além do mais você está com ciúmes.

— Ciúmes?

— Ciúmes de Henry. Não quer que eu ame ninguém a não ser você.

— Shirley! — protestou Laura, virando o rosto pálido para a parede.

— Você não quer que eu me case.

Quando Laura se retirou, furiosa, Shirley correu atrás dela para pedir desculpas.

— Querida... não quis dizer isso, sou uma estúpida. Mas é que você parece estar sempre tão contra Henry...

— Por que eu o acho egoísta — disse Laura, lembrando-se do que tinha dito ao Sr. Baldock. — Não é um homem... bom. Não posso deixar de considerá-lo uma pessoa inescrupulosa.

— Inescrupuloso? — repetiu Shirley baixinho, sem se importar com o peso do julgamento de Laura. — Sim, eu também acho que você tem razão. Henry pode ser um homem sem escrúpulos, e creio que é esta uma das razões por que eu me sinto atraída por ele.

— Mas pense bem, Shirley, se você estivesse doente, ou em apuros, será que ele a defenderia?

— Não sei se preciso tanto da ajuda dos outros. Posso cuidar muito bem de mim. Não se preocupe com Henry, ele me ama.

Ama? — pensou Laura. O que é o amor? Uma jovem paixão devoradora? Será que o amor de Henry poderia ser outra coisa mais profunda? Ou seria verdade que ela estava com ciúmes?

Soltou-se do braço de Shirley delicadamente e saiu para dar uma volta.

Será que não quero que ela se case? Ou será que é só Henry? Não sei; também não consigo imaginar outra pessoa, pois só ele quis casar-se com ela. Mas se aparecesse outro, será que eu pensaria desta maneira e repetiria para mim mesma: Ele não! Será possível que eu a ame tanto? Baldy me preveniu. Gosto tanto dela que não quero que se case. Não quero que ela vá embora, quero mantê-la aqui. Afinal, o que tenho de palpável contra Henry? Nada. Não o conheço, nunca o conheci. Para mim continua o mesmo: um estranho. Sei que ele não gosta de mim e talvez seja este seu único defeito...

No dia seguinte Laura encontrou Robin Grant, saindo da paróquia e seguiram juntos em direção da cidade. Depois de ter dito que acabara de chegar de Londres, Robin comentou casualmente:

— Vi Henry, ontem à noite, jantando com uma loura daquelas. Tão absorto estava que não me viu. Não devemos dizer nada a Shirley — concluiu com um risinho.

Laura sabia que a informação provinha em parte do despeito de Robin, que gostava muito de Shirley. Mas, mesmo assim, não pôde deixar de ficar preocupada com o comentário.

Henry, pensou Laura, não era do tipo fiel. Devia ter discutido com Shirley quando estiveram juntos. E se ele estivesse se interessando por outra mulher? E se ele resolvesse romper o noivado?

— É o que você deseja, não é? — perguntou uma voz desdenhosa, vinda do fundo da sua alma. — Não quer que eles se casem, por isto insistiu num noivado tão grande.

Mas, no fundo, Laura não ficaria satisfeita se Henry rompesse o noivado. Shirley o amava e iria sofrer. Se ao menos ela pudesse ter certeza de que uma ruptura seria para o bem de Shirley.

— O que quer dizer isto? — perguntou a voz debochada. — Não seja fingida. Você está pensando em você.

Mas Laura não queria uma Shirley amarga, sofrida e infeliz, suspirando o dia inteiro. Afinal, quem era ela para saber o que seria melhor para Shirley?

Ao voltar para casa sentou-se para escrever uma carta: “Querido Henry.

Estive pensando. Se você e Shirley querem realmente se casar não vejo por que devo continuar interferindo...”

No mês seguinte, Shirley, de branco e rendas, casou-se na igreja de Bellbury, assistida pelo vigário (que como sempre estava resfriado). O padrinho foi o Sr. Baldock, espremido numa casaca muito apertada. A noiva, felicíssima, abraçou Laura, despedindo-se.

— Cuide bem dela, Henry — recomendou Laura. — Seja bom para ela — sentenciou em tom de desafio.

— Laura, meu bem — respondeu Henry, sorridente como de costume. — Por acaso você acha que já não cuido?